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Análise: The Gardens Between (Multi) é um belo puzzle de manipulação de tempo

Explore as memórias de uma dupla de amigos nesse título que apresenta visual elaborado e mecânicas instigantes.


Dois amigos perdidos em uma série de jardins surreais é a premissa de The Gardens Between. Para navegar pelos cenários, é necessário manipular linhas de tempo a fim de superar obstáculos e resolver puzzles. Por trás do visual belo e atmosfera relaxante, está um jogo repleto de situações interessantes com resoluções surpreendentes, principalmente quando precisamos manipular várias linhas do tempo distintas. Com muita criatividade e charme, o resultado é uma aventura imersiva e ímpar.

Manipulando o tempo em pequenas ilhas

A aventura de The Gardens Between é dividida em pequenas ilhas surreais. O objetivo em cada fase é fazer com que os amigos Arina e Frendt cheguem ao topo do jardim miniatura. Naturalmente, o caminho está repleto de obstáculos e situações complicadas. Sendo assim, para avançar, precisamos manipular o tempo para resolver os puzzles — não controlamos os personagens diretamente. Os comandos são bem simples: a alavanca retrocede ou avança o tempo e um botão permite interagir com alguns elementos do cenário.

A principal ação no jogo consiste em coletar um orbe luminoso com uma lanterna e levá-lo para locais específicos do cenário. A bola de luz não é afetada pela manipulação do tempo, ou seja, é possível pegá-la em um ponto avançado da linha temporal e carregá-la para o passado a fim de ativar algum dispositivo. Alguns obstáculos e elementos do cenário conseguem apagar a lanterna, logo parte do desafio é conseguir executar a sequência de passos correta para conseguir levar a luz para os locais necessários.


Em um primeiro momento, os estágios apresentam situações bem simples: colete a luz, volte no tempo, coloque a lanterna em um lugar seguro, avance para o futuro e, por fim, recupere a luz. No entanto, rapidamente, as coisas ficam bem complexas com a introdução de várias linhas temporais independentes. Boa parte dos puzzles mais avançados consiste em manipular corretamente diferentes linhas do tempo, cada qual com elementos que interagem entre si.

Engenhosidade nas intersecções das linhas temporais

O detalhe que mais me impressionou em The Gardens Between foi a criatividade de seus puzzles, ainda mais levando em conta a simplicidade das mecânicas básicas e dos comandos. O jogo brinca com a manipulação de tempo de uma maneira muito interessante, normalmente subvertendo conceitos, resultando em vários enigmas memoráveis.

A combinação da presença de várias linhas de tempo que interagem entre si resultam em grande variedade de puzzles curiosos, o que faz com que cada fase seja uma experiência distinta. Em algumas delas é importante ficar atento às movimentações dos elementos dos cenários para poder avançar, já em outras precisamos manipular objetos de alguma maneira.


Me surpreendi bastante com algumas soluções. Em um momento, por exemplo, fiquei preso em um lugar cuja única ação era ligar uma TV e videocassete na tomada. Descobri, então, que precisava voltar para um ponto em que o garoto apertava o controle remoto e deixar o tempo parado ali por alguns segundos — eventualmente a fita é rebobinada e sai do aparelho, criando um novo caminho. Já em outro ponto, precisei avançar e voltar o tempo algumas vezes para serrar uma tora de madeira para criar uma rampa.

Manipular linhas temporais é bem divertido, contudo é também um problema. Alguns puzzles têm soluções bem específicas, como pausar o tempo em um momento exato ou executar uma sequência de passos complicada. A questão é que nem sempre fica claro o que deve ser feito, resultando em momentos frustrantes por causa de várias tentativas frustradas em sequência. Também me incomodou um pouco a velocidade da passagem do tempo, principalmente quando desejamos alcançar um trecho distante da linha do tempo. São detalhes que eventualmente são contornados, porém não deixam de incomodar.

Universo surreal e convidativo

Além de apresentar ótimos puzzles, The Gardens Between conta também com ambientação ímpar. Cada uma das fases é uma pequena maquete miniatura elaborada repleta de pequenos detalhes. Os modelos são um pouco simples, porém o visual consegue passar a sensação de estar explorando um lugar surreal. A atenção às animações e às interações torna a experiência imersiva — gostei, especialmente, de observar como os elementos mudam conforme a linha do tempo é manipulada. É legal, também, observar as reações da dupla de protagonistas, eles esbanjam uma sensação de curiosidade constante. A música etérea e suave traz uma sensação relaxante, reforçando a ambientação.

Um detalhe muito legal e não muito óbvio é que cada fase conta uma história. Pelo caminho, estamos acompanhando acontecimentos da amizade de Arina e Frendt com os puzzles refletindo esses fatos. Em um estágio, por exemplo, manipulamos um videogame, e depois descobrimos que eles gostavam de jogar juntos. Já outra fase mostra as travessuras de uma visita dos dois a um museu. Pouco a pouco, com o avançar da jornada, descobrimos o que de fato está acontecendo com essa amizade — a trama é contada somente por recursos visuais.


Por fim, é importante notar que a jornada de Arina e Frendt não é muito longa e bastam algumas poucas horas para ver tudo. Há desafios adicionais por meio de conquistas, porém não existem incentivos para revisitar os estágios fora isso. Acredito que a duração é bem dosada, por mais que meu desejo eram mais fases explorando a temática.

Jardins memoráveis

The Gardens Between cativa com ótimas mecânicas de manipulação de tempo e com sua atmosfera surreal e relaxante. Os puzzles espalhados pela aventura são criativos e exploram bem o conceito de controlar linhas temporais, principalmente quando uma afeta a outra. Em alguns momentos é meio difícil encontrar a solução de alguns enigmas, mas nada que um pouco de experimentação e insistência não resolva. Além disso, os cenários são belos e convidativos por causa da presença de inúmeros detalhes — cada estágio lembra uma maquete em movimento. Gostei também de como a narrativa é explorada por meio de objetos e ações nas fases, sem uma linha de diálogo. No fim, The Gardens Between é para aqueles que procuram uma experiência bela, relaxante e instigante.

Prós

  • Puzzles inteligentes que usam a manipulação do tempo de formas interessantes;
  • Visual belo, com cenários repletos de detalhes;
  • Ambientação agradável, com a história sendo contada por meio dos puzzles e elementos visuais.

Contras

  • Alguns puzzles têm dicas muito obscuras ou sutis, trazendo frustração;
  • Ação de avançar ou retroceder o tempo é um pouco lenta em alguns momentos.
The Gardens Between — PC/PS4/Switch — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: PC
Análise produzida com cópia digital cedida pela The Voxel Agents
Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos e também pode ser encontrado no Twitter.

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