Super heróis e videogames: um histórico da relação HQ e os games

Quadrinhos e games têm uma relação muito próxima, ambos nos levam a mundos fantásticos cheios de fantasia e aventura, naturalmente essa relação se estreitou quando o primeiro super herói entrou no mundo dos videogames.


As HQs estão em nosso universo há mais tempo do que os games, sendo que os primeiros super-heróis surgiram ainda na década de 1930 com o Fantasma de Lee Falk, o primeiro herói fantasiado. Logo depois vieram Namor e o Tocha Humana, Batman e Superman, inaugurando uma nova era nos quadrinhos, a dos super-heróis.



Com todo sucesso, foi natural que este universo migrasse logo para as outras mídias, como o rádio e a televisão, porém, com a criação dos videogames, os super-heróis tiveram que esperar um pouco. Os consoles da primeira geração eram muito rudimentares, não havia como produzir um bom game baseado em HQ com a tecnologia de 1972. Mas com a chegada da segunda geração, isso foi possível e, ainda no final da década de 1970, os super-heróis finalmente abrem caminho para entrar nessa nova mídia de diversão.

Atari 2600: uma estreia capenga e o cabeça de teia salvando o dia

Em 1978 a Atari já era um sucesso, muito reconhecida pelo seu Pong, ela entra em um patamar bem maior com o lançamento e sucesso estrondoso do Atari 2600, e nesse ano ela lança um jogo que seria promessa de grande sucesso, Superman, indo no embalo do lançamento do filme estrelado por Christopher Reeves. Na crença do sucesso do filme, a empresa americana lança o seu jogo, mas erra muito a mão. O jogo era travado, complexo (difícil de entender) e com pouquíssima ação. Não rendeu o que foi esperado, o que parece ter iniciado uma maldição ao Homem de Aço.

Porém, 3 anos depois, a Atari acerta a mão nos jogos de super-heróis. Em 1982 é lançado Spider-Man, o primeiro jogo baseado na Marvel Comics. Com uma jogabilidade simples e precisa, o jogo foi um sucesso. Nele você enfrenta o Duende Verde e, para chegar até ele, é preciso escalar vários prédios até chegar ao topo, onde se encontra seu arqui-rival. Porém, no meio do caminho, existem vários obstáculos, como os capangas do Duende que cortam a sua teia e objetos caindo. Na medida em que você conseguia passar do Duende e chegar ao topo do prédio, um novo nível de desafio era ativado. O jogo não tinha fim, valia para quem chegasse mais longe e fizesse mais pontos no placar.

Spider-Man do Atari 2600 hoje é um clássico e ainda divertido de se jogar. Ele abriu, definitivamente, as portas do mundo dos videogames para os super heróis das Histórias em Quadrinhos.

Terceira geração: jogos excelentes e os da LJN

A terceira geração chegou para salvar o mercado, a Nintendo entrou com muita força com o seu NES e a Sega seguiu o embalo com o seu poderosíssimo Master System. Nessa geração os super-heróis ganharam mais força, máquinas melhores, apresentaram jogos melhores.


Spider-Man: Return of the Sinisters Six (Nintendo/Master System) foi um dos jogos mais elogiados dessa geração. Lançado em 1990 e produzido pela LJN, ele trouxe o cabeça de teia num clássico Beat ‘Em Up, onde o nosso herói tem que enfrentar muitos inimigos na mão e, no final de cada fase, encontra com um dos membros do Sexteto Sinistro para enfrentar. Com uma dinâmica de jogo simples, mas muito boa, o jogo agradou a todos os fãs – de quadrinhos ou não – e foi uma das poucas vezes que a LJN acertou a mão num jogo para o NES.

Batman teve uma excelente versão para o NES. Lançado em 1989 o jogo conseguiu trazer você realmente na pele do morcegão, podendo escolher diversas armas do arsenal em seu cinto de utilidades. O jogo logo se tornou referência e determinou um padrão dos jogos do Homem Morcego.

Já o Master System não teve muitos jogos de super-heróis lançados diretamente para o seu sistema, a grande maioria eram ports do Mega Drive (como Spider-Man vs Kingpin e Superman) ou do Game Gear (como o X-Men: Mojo World). O único game que se destaca lançado para o Master System é o The Flash, porém o jogo tem problemas de controle, é quase impossível usar o principal poder do personagem, a velocidade, sem tomar um dano. É como se jogasse um Sonic totalmente descontrolado.



Nesta geração de consoles, a LJN foi responsável por muitos lançamentos da Marvel no NES, porém só conseguiu acertar a mão no jogo do Spider-Man. Depois a empresa produziu diversos jogos para a Nintendo, mas todos muito complicados, travados e com uma dificuldade imensa de progressão.

Os mutantes da Marvel foram as maiores vítimas da empresa. Primeiro com The Uncanny X-Men. O jogo foi baseado no piloto da animação Pride of X-Men e teve o seu mesmo destino. Com uma visão de cima e a opção de escolher entre Ciclope, Wolverine, Tempestade, Colossus, Noturno e Homem de Gelo. Cada missão exigia a habilidade específica de cada um para o seu sucesso. Porém com o velho problema de jogabilidade travada e dificuldade extrema, o jogo foi um fracasso e entrou para o rol de “jogos horríveis lançados pela LJN”.

Dois anos depois foi a vez de Wolverine. A LJN tinha até caprichado nos seus gráficos e o puseram com o seu clássico uniforme marrom (um dos poucos games que fizeram isso). Mas o jogo, assim como os anteriores, continua travado, com um Wolverine muito difícil de controlar – principalmente nos saltos – e, ainda por cima, sem seu principal poder, o fator de cura. Isso significava que bastava um simples tabefe de um soldado comum que você sofria dano e não recuperava (a não ser que encontrasse algum item no meio do caminho como um hambúrguer). Resultado, mais um jogo sofrível.



Mas se existisse um prêmio para pior jogo da LJN este iria para o Silver Surfer. A empresa teve a brilhante ideia de pegar um dos mais poderosos heróis da Marvel, colocá-lo num shooter – alternando entre as perspectivas lateral e geral – em uma história totalmente aleatória (até hoje não sei o mote deste jogo) e o transformaram num fracote que morre até com bolhas de gás. Um jogo dificílimo que ignora completamente qualquer coisa sobre o personagem e é motivo de ira de qualquer um que já tenha tentado jogá-lo. Se existe uma palavra para este game é “erro”. Ele é um erro grande de quem produziu e de quem chegou a comprá-lo.

Cowabunga: a febre das Tartarugas Ninjas

No final dos anos 1980 a série animada, baseada nos quadrinhos da Mirage, Tartarugas Ninja, era um enorme sucesso e logo em 1990 é lançado o primeiro jogo para o NES. Com uma pegada RPG e plataforma o jogo foi muito bem aceito, porém o grande sucesso só viria um pouco depois.


No mesmo ano a Konami lança o Teenage Mutant Ninja Turtles II: The Arcade Game, um port do fliperama para o Nintendinho. Muito diferente do primeiro, este já toma as características dos Beat ‘Em Up dos fliperamas da época e com a possibilidade de ter dois jogadores em modo cooperativo. Foi um port muito bem feito, mesmo com a diferença gráfica do NES, os gráficos foram bem caprichados e com cutscenes muito bem feitas. Este jogo determinou o padrão e os jogos seguintes das tartarugas que foram sempre muito bem aguardados e com grande sucesso de vendas, com destaque para o Teenage Mutant Ninja Turtles III: The Manhattan Project.

Mas o grande sucesso da franquia ficou com Turtles in Time do Super NES. Outro port de um arcade da Konami onde foi muito bem aproveitado todo o poderio do Super Nintendo, incluindo o efeito de zoom que o Mode 7 propiciava foi aproveitado, tornando este jogo um item obrigatório na coleção de qualquer aficionado por videogames.

Marvel e DC na guerra dos consoles

No auge da Guerra dos Consoles a Sega e a Nintendo disputavam acirradamente a ponta do mercado e o investimento nos heróis em quadrinho parecia ser uma boa estratégia para alavancar as vendas dos seus consoles. Poucos foram os exclusivos e, nos que não eram, produtoras diferentes chegavam a fazer o mesmo jogo para cada um dos consoles.

Wolverine: Adamantium Rage foi um desses casos. A Acclaim desenvolveu uma versão para o Mega Drive, enquanto a LJN (ela não!) desenvolveu outra para o SNES. Por conta disso houve algumas divergências, aumentando assim a rivalidade entre os dois consoles, sempre um dizendo que a versão do seu console era a melhor. Favoritismo à parte, a versão do Super Nintendo trouxe alguns problemas como uma jogabilidade mais travada e resposta lenta de comandos. A do Mega Drive era bem mais dinâmica e mais gostosa de se jogar.

Nos exclusivos de cada console a Sega se destacou com o excelente Spider-Man de 1989, misturando um Beat ‘Em Up com puzzles, X-Men e o excelente X-Men 2: Clone Wars. A Nintendo também teve seus exclusivos de sucesso como o X-Men: Mutant Apocalypse, um Beat ‘Em Up diferente usando uma estrutura de combos e sequência de golpes; e o Marvel Super Heroes: War of the Gems, jogo inspirado diretamente no grande sucesso dos quadrinhos da Marvel, Infinity Gauntlet (Desafio Infinito no Brasil), o mesmo que inspirou o filme Guerra Infinita, lançado este ano.


A DC também jogou seus heróis na guerra com lançamentos para as rivais dos games. Indo de carona no sucesso dos filmes de Tim Burton, em 1989 é lançado o jogo Batman para o Mega Drive. Seguindo a risca o filme, nele você vai enfrentando os capangas do Coringa e o próprio palhaço no decorrer das fases. Um grande Beat ‘Em Up que permite, inclusive, que você assuma o comando do Batmóvel e da Batwing em algumas fases, até chegar à derradeira batalha na Torre do Sino da Igreja de Gotham.

Death and Return of Superman foi um arco de enorme sucesso nos quadrinhos e logo virou game. O jogo foi publicado pela Blizzard e lançado tanto para o Mega Drive como para o Super Nintendo. Ele segue bem a história do quadrinho, iniciando com a vinda de Apocalypse à terra e matando o Superman, logo depois passamos a controlar os clones do Homem de Aço até o ressurgimento do Superman original. Jogo no estilo Beat ‘Em Up um tanto genérico, mas bem acima do nível geral dos jogos lançados deste herói.

Marvel Super Heroes e Spider-Man: Divisores de água

Quando Marvel Super Heroes foi lançado nos arcades, em 1995, teve um enorme sucesso. Logo o game de luta teve seus ports para os consoles caseiros PlayStation e Sega Saturn de forma muito fiel. Desenvolvido pela Capcom, a empresa usou a mesma engine usada no X-Men: Children of the Atom, sendo quase que uma continuação deste jogo. Porém o Marvel Super Heroes foi fortemente inspirado na saga Infinity Gauntlet (assim como o War of Gems do SNES).


Este jogo fez tanto sucesso que abriu uma rica franquia de crossovers, tais como Marvel VS Capcom e Marvel Super Heroes VS Street Fighter, que dura por gerações de consoles. O último jogo da franquia foi lançado em 2017, teve uma série de críticas, principalmente pela falta de heróis consagrados como o Wolverine.

Ainda no PlayStation a Activision lança, no ano 2000, o jogo Spider-Man. Pela primeira vez um jogador pôde sentir na pele o que era ser o Homem-Aranha. Trazendo uma perspectiva em terceira pessoa, o game é recheado de brindes, como achar as revistas clássicas do cabeça de teia pelo jogo, além de grande interação com vários personagens da Marvel. Alguns easter eggs, como a armadura do aranha de ferro (a primeira feita por Tony Stark), uma história muito bem desenvolvida com o velho humor de Peter Parker a todo momento, além da narração do próprio deus da Marvel, Stan Lee. Este jogo definiu um novo patamar para os jogos de super-heróis.

Superman: o herói dos jogos ruins

Superman é, por muitos, considerado o maior herói dos quadrinhos, porém, até o momento, nenhum jogo fez jus à sua importância. Seu primeiro game foi lançado em 1978 no Atari 2600 e foi um verdadeiro fiasco. Depois outros jogos vieram como o Superman de 1992 e o Death and Return of Superman que não foram ruins, mas não estavam à altura do nosso grande herói.

Superman e seu incrível poder de passar por argolas

Entretanto, em 1999, uma produtora chamada Titus Software lança uma obra-prima da bizarrice, o Superman: The New Adventures (que ficou mais conhecido como Superman 64), baseada na animação de grande sucesso da Warner Bros.. O jogo continha muitas bizarrices como ter que passar por dentro de anéis em pleno voo, andar de elevador para enfrentar um dos chefes (o cara voa, pra quê ele iria pegar o elevador?), dentre outras tosqueiras.

Além do mais todo o controle é travado, o Superman é fraco (qualquer pancada ele sofre dano) e com habilidades que se resumiam a voar e, às vezes, soltar um raio congelante ou um raio-x (quando se encontrava um power up para isso). O jogo foi um fiasco e, até hoje, é encontrado no top 10 de qualquer lista de piores jogos já feitos.

Batman Arkham Asylum e Injustice: a DC definindo padrões

Lançado em 2009 para PlayStation 3 e XBOX 360, pela Rocksteady Studios, o jogo trouxe Batman em suas origens como o maior detetive do mundo. Usando a perspectiva em terceira pessoa, Batman é colocado dentro de Arkham, onde estão os maiores vilões de Gotham City, que foi tomado pelo Coringa.


Cheio de puzzles e muita ação, pela primeira vez um jogo conseguiu demonstrar o mundo do Homem Morcego com fidelidade. Nele podemos sentir realmente o que é estar na pele do Batman, tentando resolver mistérios, desfazer esquemas e sentar a porrada nos caras maus. O jogo virou uma franquia de sucesso se tornando uma grande referência nos jogos de heróis.

Embora o Homem de Aço nunca tenha tido um jogo a sua altura, o Injustice: Gods Among Us (Multi), veio para remediar isso. Com um enredo rico e usando a engine de Mortal Kombat, o game de luta da DC logo se tornou um fenômeno, sendo bem mais violento do que de costume.

Ele coloca os heróis um contra o outro, heróis contra heróis e vilões, além de rechear a tela com os principais personagens da DC, como: Batman, Superman, Shazam, Coringa, Lobo, General Zod, Lex Luthor. Redefinindo outro padrão para os jogos de luta de super-heróis, o jogo se tornou uma franquia, tendo sua continuação lançada em 2017, ajudando a resgatar os heróis da DC no mundo dos videogames.

Uma junção de mundos

Hoje, assim como nos cinemas, os jogos baseados em heróis e super-heróis se transformaram em gênero. Desde o final dos anos 1970 eles evoluíram de uma forma que até se confundem com o universo dos heróis nos quadrinhos e nos cinemas.


Ao longo dos anos, muitos super-heróis invadiram o mundo dos consoles, Spawn e Wildcats tiveram a sua passagem no mundo virtual. Até mesmo o primeiro herói uniformizado – o Fantasma – teve o seu jogo nos consoles da 4ª geração. Cada um com sua importância no desenvolvimento dos três universos (quadrinhos, cinema e videogame).

Os jogos hoje evoluíram de uma forma que, dentro deste mundo, podemos contar mais histórias sobre eles, criar novos mundos com ele. O sucesso do Spider-Man (PS4) mostra isso. Jogo lançado recentemente, já com um grande número de vendas, colocando o Cabeça de Teia em um mundo aberto e cheio de escolhas, tais quais o próprio Peter Parker vivencia.

Estes jogos nos deram a oportunidade de vestir o uniforme do herói, viver em seu mundo, nos tornarmos eles. Podemos sentir na pele o que é enfrentar seus inimigos e ter seus conflitos. Os games têm essa vantagem sobre os outros universos, eles nos fazem, de fato, virar o próprio super-herói da história.

Revisão: Júlio César
Lúcio Amaral é jornalista e advogado, músico por paixão e gamer desde que se conhece por gente. Sua paixão pelos videogames começou na segunda metade dos anos 1980 quando teve seu primeiro videogame, um Philips Odyssey - ou Odyssey² - quando tinha 7 anos. Acompanhou, com muito entusiasmo, todo caminhar tecnológico e assumiu uma paixão pela Sega, sem deixar de flertar sempre com a Nintendo. Hoje é colecionador com um acervo que vem desde a segunda geração de consoles aos mais atuais e encontrou no Blast uma maneira de compartilhar toda sua paixão e convívio com esse fantástico mundo dos videogames.
Este texto não representa a opinião do GameBlast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Escrevemos sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0 - você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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