Discussão

Jogar videogame ainda é divertido?

Ascensão do cenário competitivo e a consequente hierarquização dos jogadores tem deixado para trás a diversão.

Quando nos deparamos com situações como o tiroteio de Jacksonville é impossível não nos perguntarmos: para onde os jogos eletrônicos estão caminhando? Uma atividade que antes tinha foco no viés de lazer e diversão entre família e amigos tem se transformado em uma ação de cunho comercial e competitiva levada às últimas consequências.

Segregação entre os jogadores

Na contemporaneidade, a indústria de games tem experimentado um crescimento exponencial sem precedentes, apoiado por produtos do cinema e dos livros que também trazem a temática para o centro das atenções da cultura pop. Contudo, esse sucesso tem criado uma pirâmide hierárquica entre os jogadores, separando-os entre profissionais e casuais, entre fãs e fanboys.

Esse fenômeno é exclusivo da Oitava Geração de Consoles. Anteriormente a este período, aqueles que jogavam videogames eram simplesmente classificados como jogadores. Não havia uma restrição e definição que os separasse, seja alguém que jogava diariamente ou aquele que se lembrava de seu console às vezes.


O mesmo conceito se aplica aos fãs. Na era pré-Oitava Geração de Consoles, bastava você gostar de uma franquia o suficiente para se intitular fã. Atualmente parece não existir o termo fã, ou você deve ser um fanboy, aquele que acompanha tudo sobre a franquia e a defende sem restrições, ou não é fã. Como se ser chato e cego para os erros fosse sinônimo de ser fã de algo ou alguém, não é?

Um contra todos, todos contra um

Nunca vivemos uma era tão tecnológica e avançada cientificamente, proporcionando inúmeros meios para as pessoas se comunicarem de todas as partes do mundo. Porém, o que temos feito com isso? Ao invés de aproveitarmos tais chances para trocar experiências, conhecer novas pessoas e fazer amigos em todas as partes do globo, a verdade é que a comunidade gamer tem se fechado dentro de seu próprio nicho e visto o próximo como um inimigo.

Ao invés da comunidade de jogadores e fãs abraçarem os recém-chegados ou novos companheiros de outros lugares, cada um tem olhado apenas para si mesmo e seu desejo de status entre a comunidade gamer. Transformando todo contato com outros gamers em pessoas a serem combatidas e vencidas nas partidas online.

Não tem havido espaço para humor, diversão, aconselhamento e dicas para outros jogadores. Apenas um grande grupo formado por pessoas individualistas que veem nos jogos eletrônicos uma maneira de se destacar dos demais. O objetivo final de um game não deveria ser o divertimento?


Diversão Vs. Competição

O videogame é uma atividade essencialmente competitiva, todo jogo, seja analógico ou digital, possui a premissa da competitividade. Há sempre a existência do vencedor e do perdedor, os rankings de melhores jogadores, maiores pontuações e outras distinções próprias dessa prática cultural. Contudo isso não é um impedimento para a diversão.

O que tem havido é uma crescente onda de jogadores que consideram perder algo vergonhoso, logo todo jogo é uma briga acirrada até o topo. Quando alguém os atrapalha, seja o adversário ou da própria equipe, essas pessoas agem com violência, no âmbito verbal e até mesmo físico.

Isso é uma resposta ao fato de que, contemporaneamente, muitos jogadores estão buscando reafirmação e identidade nos jogos eletrônicos. Dessa forma, essas pessoas tomam como real tudo aquilo que está no âmbito virtual. Se você for um jogador bom, você é importante. Se você é um jogador ruim, você é uma pessoa sem valor. Parece brincadeira estar falando isso, mas o mais triste é saber que esta é a forma de pensar de muitos jogadores, que a veem a si mesmos como um reflexo do que jogam.


Basta menos de cinco minutos em uma partida online mostrando um jogo multiplayer para seu amigo iniciante, ou simplesmente se divertindo com seu cônjuge ou pais para ser ofendido verbalmente quando se erra alguma ação e, pasmem, quando se é muito bom! Ou seja, não há meio termo. Se a pessoa é iniciante, ela é ofendida por estar aprendendo e se você é muito bom, os jogadores lhe acusam de cheater ou hacker.

Na essência de toda essa violência está a falta de identidade, inveja e egocentrismo. É só acessar as notícias de jogadores que atingiram grandes feitos ou conquistas: a sessão de comentários é uma torrente de ofensas dirigidas a pessoa contemplada. Apesar da sociedade contemporânea estar constantemente reafirmando o conceito de "seja você mesmo", a verdade é que vivemos um ápice de rótulos e julgamentos em um mundo com pessoas superficiais e egocêntricas.

Revisão: Link Beoulve
Karen K. Kremer é mestre jedi em história pela UEPG e game designer pela Universidade Positivo. Viajante do tempo e cinéfila, considera Quantum Break uma obra-prima. Cresceu fazendo Meteoro de Pégasos e jogando videogame. Apaixonada por literatura, ilustração e dinossauros. Diz a lenda que com um bat-sinal no Twitter ou DeviantArt ela aparece.

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