Discussão

E-sports: ser ou não ser olímpico?

Eventualmente os e-sports devem aparecer nos Jogos Olímpicos, mas é preciso resolver algumas questões para isso acontecer.

Pensei em começar esse texto de uma maneira mais formal, dando algum contexto histórico dos Jogos Olímpicos, mas provavelmente você leitor já deve saber o básico sobre eles: nasceram na Grécia Antiga e, após um bom tempo sem disputas, voltaram em 1896, criando a tradição de se repetir a cada quatro anos. Nessa volta na Era Moderna, os Jogos tem como objetivo reunir diferentes povos, promover a paz e integrar culturas.


Sabemos também que, embora esses princípios ainda sejam as bases dos Jogos, eles representam muito mais do que somente disputas esportivas. As Olimpíadas sempre tiveram um papel importante em situações política-social do mundo — desde Jesse Owens em Berlim (1936) aos ataques terroristas em Munique (1972), a disputa entre União Soviética e Estados Unidos durante a Guerra Fria até a união das duas Coréias nos Jogos de Inverno de PyeongChang, esse ano.



Mas saindo dessa parte política e focando mais no esporte em si, as Olimpíadas também carregam um peso que nenhuma outra competição possui. Para praticamente todos os atletas ela é o ponto alto, o momento no qual nomes são escritos na história. Não por coincidência os ciclos de treinamento são pensados nesse intervalo de quatro anos, para que a pessoa esteja no seu melhor desempenho.

Até aí nada de novo. Mas existe alguém que quer entrar nessa dança, os e-sports, os quais muita gente já acredita estarem firmes o suficiente e fortemente integrados a nossa cultura para fazerem parte dos Jogos Olímpicos. Mas será que eles realmente têm espaço na maior competição de esportes tradicionais? Ou melhor, será que eles precisam estar lá? Vamos discutir um pouco disso.

Choque de Cultura

A ideia para essa pauta nasceu a alguns dias atrás, após uma declaração de Tomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional. Batendo em uma das teclas mais comuns dessa discussão, Tomas argumentou que “jogos violentos” vão contra os ideais olímpicos. Sendo bem sincero, não sei se esse é o ponto mais importante da discussão, mas vamos lá.

Pensando em um contexto global, jogos como Counter-Strike: Global Offensive ou Rainbow Six: Siege, que trazem uma violência gráfica mais próxima do real, talvez não sejam mesmo as melhores opções, dado os valores que o Comitê Olímpico prega. Temas como terroristas, bombas e etc, podem ser meio sensíveis para algumas pessoas, ainda mais pensando em uma competição de grande escala.

Arena of Valor
E abrindo um parênteses, querer contra argumentar que boxe, esgrima e artes marciais são “violentos” e invalidam o discurso de Tomas é falar sem conhecimento de causa. Em ambiente olímpico, todas essas modalidades que envolvem combates possuem regulamentos rígidos e, como alguém que praticou seis anos de karatê, lutar de forma competitiva e de forma violenta são coisas completamente distintas.

Por outro lado, há uma infinidade de outras opções que podem ser consideradas: mobas em geral, games de esporte, jogos de carta são só algumas alternativas. Um exemplo mais claro ocorreu nos Jogos Asiáticos de 2018 em Jacarta, Indonésia. Em caráter demonstrativo, tivemos competições de League of Legends, Arena of Valor, Clash Royale, Pro Evolution Soccer, Hearthstone e Starcraft 2. Na próxima edição, em Hangzhou na China, esses jogos já serão modalidades valendo medalhas.

Quadro de "medalhas" dos Jogos Asiáticos de 2018

Ou seja, opções para levar os e-sports para a olimpíada existem e não são poucas. Mas essa é o menor das questões.

Quem vai ser convidado para a festa?

Como eu disse, essa discussão sobre violência é o menor dos problemas. Ao meu ver, as grandes perguntas são nas bases estruturais de organização dos torneios. Vamos pegar como exemplo os games que participaram dos Jogos Asiáticos. Atualmente todos são sucessos em seus estilos e carregam milhares de fãs. Porém como eles estarão daqui quatro anos?

Será que eles ainda serão populares como hoje, mantendo sua relevância no cenário? Serão financeiramente viáveis para as empresas responsáveis continuarem investindo pesado? Em último caso, será que eles ainda estarão ativos e funcionando?

Quando só você não tá com lag na sala
Claro, não esperamos que uma Riot ou Blizzard quebrem do nada, mas pense no cenários de e-sports a dez anos atrás, o que havia naquela época e o que temos hoje. Fortnite e PUGB, dois dos games mais populares hoje sequer existiam em 2016, data da última Olimpíada.

Como seriam definidos os títulos? Não esqueçamos que cada jogo tem uma empresa por trás, cada uma com seus interesses. Optar por um título mais popular ou por um o qual a desenvolvedora pague mais? Quanto tempo haveria para preparação dos times, o que inclui as eliminatórias de cada continente. Aliás, quem banca os custos das equipes, os comitês olímpicos locais ou federações próprias seriam criadas para esse fim? Todas questões precisam ser bem esclarecidas.

Não, aqui não dá pra pedir VAR
Falando em “mundo”, um outro ponto também merece atenção: Os Jogos Olímpicos são um evento que abrange gente de todos os cantos. Teriam os e-sports condições de abraçar todo mundo da mesma forma?

Devido a sua natureza de integração de povos, as Olimpíadas seriam uma ótima oportunidade para trazer ao palco principal dos e-sports as regiões que atualmente não possuem relevância no cenário mundial, e assim promover o crescimento desse mercado em lugares que normalmente não figuram entre os grandes centros.

Regiões como América Latina (em diferentes níveis), Oriente Médio e Leste Europeu vem se fortalecendo e estruturando, mas ainda estão bem longe de China, Coréia do Sul, Europa Ocidental e EUA no contexto geral dos e-sports. Há outros lugares, como o continente africano que, apesar de contar com cenas locais, sofrem com a pouca presença de empresas de jogos.

Starcraft II
Será que as Olimpíadas ajudariam fomentando o crescimento dos e-sports como um todo, ou seriam só mais um torneio na agenda anual com a mesma turma de sempre disputando medalhas?

Quem precisa de quem?

O Comitê Olímpico Internacional enfrenta um problema que vem incomodando bastante nos últimos anos. Os Jogos Olímpicos estão perdendo audiência e interesse dos públicos mais jovens.

Esforços estão sendo feitos para contornar isso. Além de uma mudança na forma de se comunicar com esse público, a escolha de inserir novas modalidades é exatamente com essa finalidade. Daqui 2 anos, em Tóquio, teremos pela primeira vez escalada esportiva, surf, skate, karate e baseball/softball como esportes olímpicos. É interessante, mas pode não ser o suficiente.

Skate agora é olímpíco. Fonte: Olympic.org
No outro lado dessa rua temos os e-sports, que já não são mais uma “promessa” e sim algo consolidado. Dezenas de campeonatos acontecendo regularmente e arenas com ótimos públicos. De acordo com pesquisas, a estimativa é que esse mercado movimente 900 milhões de dólares em 2018, com perspectiva de que esse valor aumente nos próximos anos. E com um ótimo público jovem nas mãos.

Evidentemente que integrar um do evento renomado como são os Jogos Olímpicos é uma oportunidade muito interessante, que até mesmo reflete a evolução dos nossos tempos. Mas, financeiramente falando, o COI precisa mais dos e-sports do que o contrário. Tanto pelos valores como pela visibilidade e isso deve ser fator decisivo para que esportes eletrônicos se tornem olímpicos.

existem conversas para que os e-sports apareçam como uma modalidade de exibição nos jogos de 2024 em Paris e, sinceramente, acredito ser uma questão de tempo até que eles entrem em definitivo para o quadro fixo dos Jogos.

League of Legends
Como tentei mostrar aqui, isso é algo longe de ser só uma escolha de jogos violentos. Envolvem diversas questões de caráter estrutural, político e financeiro, com diversos interesses em volta. Eventualmente acredito que os e-sports terão seu espaço nas Olimpíadas. Se vão se perpetuar ou será algo passageiro, ai só o tempo para nos responder.

Jogo a bola para você, meu caro leitor? Acha que os e-sports já estão prontos para as Olimpíadas? Ou pensa que eles estão melhores separados?

Revisão: Marília Carvalho

Flávio Augusto Priori é formado em design de jogos e tenta ganhar a vida com esse negócio chamado video game. Para ele Metal Gear é a melhor série já feita e ainda acredita na volta da SEGA. Escrevia para o saudoso Minha Tia Joga LoL e hoje pode ser achado no Facebook e no Twitter.

Comentários

Google+
Disqus
Facebook