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Análise: Divinity: Original Sin II - Definitive Edition (PS4/XBO) é uma aula de como fazer um RPG

Lançado para PC em 2017, o incrível RPG baseado em turnos chega aos consoles com toda a sua excelência e multiplayer incrível.

O gênero RPG cresceu de tal forma que atualmente é um dos principais gêneros dos videogames. Com mais subgêneros do que poderíamos listar aqui, os RPGs como um todo se transformaram em algo incrivelmente complexo e completo no mundo dos games. Entretanto, ainda existem jogos que buscam um retorno digno aos primeiros modelos, principalmente aqueles que buscam inspiração nos RPGs de mesa como Dungeon & Dragons e o sistema D20. E esse é o caso de Divinity: Original Sin II - Definitive Edition (PS4/XBO), que finalmente chega hoje aos consoles de mesa.


Com uma jogabilidade afiadíssima, nível de desafio excelente, recursos estratégicos de primeira e uma liberdade de criação de personagens sem comparações, Original Sin II está em sua melhor forma nos consoles, tendo tudo de melhor que a série já apresentou e afiando ainda mais alguns recursos.


A jornada do Deus Despertado

Na premissa que podemos considerar como a principal em Divinity: Original Sin II - Definitive Edition, nosso personagem está no meio de um conflito no qual os usuários de feitiçaria são considerados foras-da-lei e, assim, condenados ao exílio. Como um desses exilados, estamos a borod de um navio encarregado de nos levar para nossa condenação. Porém, o navio sofre um ataque que leva os sobreviventes a uma ilha repleta de perigos. Aqui, precisamos vencer distâncias para recuperar nossas forças e conseguir fugir.

Porém, isso tudo não passa da introdução da história. Isso porque, com o tempo, vamos descobrindo que tudo é bem mais complicado do que parece e, ao mesmo tempo, nosso personagem começa a ter cada vez mais importância no contexto que o circunda. Enquanto tentamos escapar da famigerada ilha repleta de ameaças, descobrimos que somos parte de algo muito maior.



Assim, o nome do jogo começa a fazer sentido: Divinity. Uma vez que somos um dos chamados “Deuses Despertados” (ou Godwoken, no original em inglês). Como tal, temos a missão de seguir os passos de um herói e ascender como um Deus, seja do mal, do bem, de uma raça específica ou de uma determinada classe. Como nosso guia nessa complexa história, temos um deus antigo proporcional ao personagem que criamos, o qual podemos seguir a risca ou então até trair.

Claro que a complexidade dessa história representa apenas uma missão do jogo. A quantidade de quests presentes em Divinity: Original Sin II, assim como o seu nível de detalhamento e complexidade são incríveis. Este é um daqueles jogos que você se perde no meio do caminho de sua jornada, passando a, de fato, viver dentro do jogo em todas as suas nuances.


Uma infinidade de histórias

Para além da missão principal do jogo, temos uma infinidade de histórias secundárias nas quais podemos nos perder por uma centena de horas. Além da grande quantidade de pontos de experiência e equipamentos que recebemos por isso, conseguimos influenciar as resoluções da história principal também, deixando tudo diferente.

Como Divinity segue os moldes dos RPGs mais clássicos como a franquia Baldur’s Gate, temos a possibilidade de controlar e administrar vários personagens ao mesmo tempo. Todos que não forem o nosso protagonista (ou o Godwoken) terão missões próprias de acordo com a sua história de origem.



Entre os personagens que consegui para a minha jornada, por exemplo, tinha um lagarto conhecido como “Príncipe Vermelho” que sofreu uma tentativa de assassinato durante a nossa aventura, o que iniciou uma missão para investigar os motivos pelos quais queriam ele morto. Um segundo companheiro, já mais adianta na aventura, era um humano mercenário procurado em algumas cidades do continente, o que iniciou uma outra árvore de missões a fim de investigar os motivos pelos quais ele estava foragido, podendo caminhar para ajudá-lo a limpar seu nome.

Fora as missões dos companheiros e a principal, temos missões a respeito do passado do nosso protagonista, missões desbloqueadas ao longo da exploração do cenário e tantas outras escondidas pelos territórios a serem explorados. Toda essa infinidade de missões que podem ser cruzadas indiscriminadamente tornam a experiência de jogar Divinity praticamente única. Pois, a não ser que você siga algum detonado, será incrivelmente difícil seguir a jornada na mesma ordem e direção que outra pessoa.



Essa experiência deixa o jogo muito parecido com o que vivenciamos nos RPGs de mesa, permitindo que o jogador fique livre para construir a história de seu personagem da forma que quiser. Além disso, isso favorece de forma estupenda o fator replay do jogo, uma vez que experimentá-lo uma segunda vez não necessariamente quer dizer repetir toda a experiência, mas sim ter uma nova, com um novo personagem e novas escolhas que acabam te levando para outro caminho.

Liberdade quase imensurável

O que mais surpreende no jogo é, sem dúvidas, a liberdade que você possui em meio a tantas opções. São 14 classes com 14 raças diferentes, sendo que dessas “raças” alguns personagens são pré-moldados, com uma história de fundo já especificada. Isso é interessante para aqueles que não tem tanta paciência assim para criar um personagem totalmente do zero.



Entretanto, as opções de escolha não param por aí. Para além da customização e criação do seu personagem, temos todo o processo de crescimento dele com distribuição de pontos em atributos (tal como nos RPGs de mesa) escolha de talentos, habilidades especiais, magias a serem aprendidas por livros e pergaminhos ao longo da jornada, uso de armas independente da classe (dependendo apenas da distribuição de pontos de atributo), uso de armaduras e equipamentos que liberam determinadas habilidades e muito mais.

É quase impossível você criar dois personagens iguais neste jogo. Porque, além de tudo isso, ainda temos a mecânica de opções de escolha de resposta, que lembra bastante o que vemos em outros jogos do gênero e que alguns grandes títulos da atualidade, como The Witcher 3: Wild Hunt (Multi), também usam. A diferença crucial nessa mecânica em Divinity é que, dependendo do background do seu personagem e de como você o constrói, as opções de resposta podem ser diferentes.



Assim, um elfo terá muito mais afinidade com um NPC elfo que você encontrar pelo caminho do que um lagarto. Ao mesmo tempo, um anão guerreiro não terá tanta inteligência para discutir com um NPC mago se comparado a um humano feiticeiro totalmente focado em conhecimento. As possibilidades de jogo beiram o imensurável, o que torna a experiência ainda mais divertida e única.

A jornada do herói ou dos heróis

Todo esse extenso e incrível conteúdo por si só já tornaria Divinity: Original Sin II - Definitive Edition um dos melhores RPG para um jogador da atualidade. Entretanto, como se não bastasse, o game ainda possui modos multiplayer. Para início de conversa, temos o modo arena, um modo totalmente focado em combate no qual você pode jogar online ou com um amigo no mesmo console. Como o sistema de combate do jogo tem particularidades excelentes, perder algumas horinhas em disputas estratégicas de combate neste modo é muito divertido.



Além disso, temos duas possibilidades de multiplayer para a campanha do jogo. O primeiro é o online para até quatro jogadores, cada um controlando um personagem. Porém, o que mais chama atenção é o modo local multiplayer para dois jogadores, onde a tela pode ser dividida. Assim, os jogadores não precisam seguir necessariamente o mesmo caminho ao mesmo tempo para jogarem juntos.

A experiência é muito divertida, principalmente por manter o senso de liberdade que permeia praticamente todas as mecânicas do jogo. Jogar com um amigo é tão divertido como jogar sozinho, principalmente se suas histórias acabam se cruzando no meio do caminho. Por fim, caso seu amigo inicie a campanha contigo e você queira continuá-la sozinho depois, não perde o personagem criado. Na verdade, ele vira um companheiro que pode ser administrado por você como qualquer outro.



Nesse multiplayer local o único problema notado é um mero detalhe. Em alguns momentos, a opção de tela dividida é desconfigurada sem que os jogadores optem por isso. Assim, a tela passa a virar uma só automaticamente (mesmo quando marcamos nas opções para que isso não seja feito). Porém, mantendo a tela unida somente em combates, a experiência é fantástica.

Combates completos e clássicos

Outro dos pontos altos de Divinity: Original Sin II - Definitive Edition são os seus combates. Totalmente baseados em turnos, eles ocorrem no mesmo mapa que exploramos durante todo o jogo. A exploração isométrica funciona de forma bem parecida com a franquia Diablo, até chegar em um momento de combate, onde todas as movimentações passam a ser feitas por turno e baseadas em pontos de ação (tal qual nos RPGs de mesa).



Estes pontos de ação, para quem não sabe, são os pontos que cada personagem possui para ação durante aquele turno. Esses pontos são baseados em sua raça, classe e, principalmente, nível, com habilidades gastando um, dois ou até três pontos de uma vez. Além disso, outro aspecto utilizado nos combates são os campos de alcance.

Dependendo da arma utilizada, da classe ou da magia escolhida, o alcance é totalmente diferente, o que torna a movimentação necessariamente estratégica. Porém, outros elementos ainda influenciam bastante a movimentação, como ataques de oportunidade e objetos no cenário.



Porém, é no ambiente que Divinity se mostra mais inovador se comparado com outros de seu gênero. Isso porque objetos do cenário podem ser movidos, explosões podem ser causadas e até uma poça d’água pode influenciar mais ou menos no combate. A manipulação do terreno é um detalhe a mais que surpreende bastante durante o jogo, aumentando ainda mais a complexidade dos combates e deixando-os muito mais dinâmicos e realistas.

Um jogo belíssimo de se ver e ouvir

Deixando as mecânicas de jogo um pouco de lado, Divinity é também um jogo belíssimo. Para começar, sua trilha sonora é fantástica e comparável a grandes obras como O Senhor do Anéis. Para além das músicas estupendas do jogo, efeitos sonoros como explosões, passos, ventos, árvores balançando, passos em poças d’água e outros detalhes são excelentes. Por fim, 100% dos diálogos possuem vozes. Uma pena que o jogo não tenha áudio ou texto em português, o que pode afastar alguns jogadores.



Combinado com os excelentes aspectos sonoros, temos também o seu visual. Com um nível de detalhe incrível, o jogo é muito caprichoso nesse aspecto. Seja em textura, na quantidade de objetos no mapa, nos detalhes, nos efeitos de luz/sombra ou no conjunto da obra, tudo é muito agradável aos olhos em Divinity: Original Sin II.

Definitive Edition = Console Edition

Um ponto um tanto quanto conturbado dessa edição de Divinity é o seu subtítulo. A “Edição Definitiva” de Original Sin II acaba não tendo diferenças tão gritantes se comparada com a edição de PC lançada no final de 2017. Entretanto, o maior ganho dela, sem dúvidas, é ser uma versão exclusiva de consoles. Isso porque o desempenho do jogo está belíssimo e os comandos adaptados para os controles deixam tudo mais confortável.



Fora esses detalhes, todo o conteúdo presente nesta versão também está disponível para PC, com a diferença de que você não precisa pagar a mais para jogar online com os seus amigos no Steam. Entretanto, isso envolve também uma série de outras necessidades como um PC bom o suficiente para rodar o jogo com configurações máximas e outras coisas mais. Assim, para quem tem o jogo no PC, pode não ser nada interessante comprá-lo novamente para um console.

Uma obra de arte dos RPGs

Independente de seus detalhes, Divinity: Original Sin II - Definitive Edition (PS4/XBO) é uma obra de arte do “fazer RPG”. O jogo esbanja mecânicas complexas, dando ao jogador uma experiência a mais completa possível ao vivenciar um RPG num console. Mesmo que essa “Edição Definitiva” não tenha elementos convidativos para quem já experimentou o game no PC, é uma oportunidade e tanto para os jogadores de console poderem se esbanjar no incrível mundo de Divinity.



Com modos de campanha variando do gameplay clássico até o modo mais básico, focado unicamente na história do jogo, ele ainda consegue abranger as vontades de uma gama muito grande de amantes de RPGs: dos mais interessados na história até aqueles que precisam de grandes desafios para superar. Seja você um jogador exigente ou mais focado em diversão despretensiosa, Divinity pode te surpreender de inúmeras maneiras.

Prós

  • Liberdade de jogo incrível;
  • Visual de primeira e muito detalhado;
  • Trilha sonora estupenda;
  • Efeitos sonoros realistas aumentam a imersão;
  • Todos os textos são falados;
  • Quantidade imensa de conteúdo;
  • Nível de desafio adaptável válido para qualquer estilo de jogo;
  • História principal muito interessante;
  • Missões secundárias ricas em detalhes e bem complexas;
  • Mecânicas de combate riquíssimas;
  • Uso criativo de mecânicas originárias dos RPGs de mesa;
  • Fator replay incrível;
  • Modos multijogador muito bons.

Contras

  • Não possui áudio ou legendas em português;
  • Câmera dividida do modo multiplayer com alguns problemas;
  • Não é convidativo para quem já jogou no PC.

Divinity: Original Sin 2 - Definitive Edition — PS4/XBO — Nota: 9.5
Plataforma utilizada para análise: PS4
Análise produzida com cópia digital cedida pela Bandai Namco
Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, onde é Redator e Diretor. Começou sua vida gamer bem cedo no NES e hoje divide seu tempo entre games antigos e novos. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico. Geralmente é visto em alguma discussão no Facebook ou no Twitter.

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