Crônica

Final de semana, locadoras e videogames

Em 1990, quando chegava o final de semana, tinha-se um ritual sagrado: acordar cedo no sábado, madrugar na locadora e alugar aquele lançamento que você tanto esperava.


Na década de 90 o grande boom das locadoras havia chegado na cidade de Natal/RN. Eram muitas, todas muito bem distribuídas por todas as regiões da cidade. Eu, como gamer desde a segunda metade dos anos 1980, pude vivenciar todo esse crescimento.



Nesta época já havia me mudado para a região leste de Natal e tive a sorte de ter três locadoras próximas à minha casa: a Vitória Régia, que também alugava filmes; a Shop Game e a Start Games, essas últimas exclusivas para videogames (acho que o nome delas já deixa explícito isso), das quais virei cliente assíduo fazendo amizade com os donos delas, Aroldo e Fernanda, respectivamente.

Construindo amizades

Bem no início desta época, ainda um feliz proprietário de um Master System, ia muito à Start Games por ser bem perto da minha escola, por isso sempre dava uma passada por lá depois da aula para saber das novidades. Nessas visitas constantes e bate papos fiz amizade com a dona da locadora, Fernanda.

A Start Games não tinha playgame, devido até ao seu espaço reduzido, seu foco era somente a locação dos jogos, todos bastante disputados quando chegava o final de semana. Numa dessas conversas com Fernanda ela me falou que tinha um filho e que estudava na mesma escola que a minha, o CIC, e perguntou se eu queria conhecê-lo. Fiquei empolgado, afinal uma criança sempre quer fazer amizades, ainda mais com outras crianças. Então, Fernanda me levou à casa dela que ficava vizinho à locadora.

Chegando na casa e vendo aquele garoto jogando num Master System, me empolguei, afinal era o mesmo console que o meu, ainda mais em uma época que a maioria de meus amigos tinham famiclones em casa. Então Fernanda nos apresentou: "Fernando, esse é Lúcio, colega seu do CIC. Veio jogar um pouco com você." Então Fernanda nos deixou lá e voltou para a locadora.

Sentei ao lado para ser o player 2, mas só tinha um problema: Fernando estava jogando, concentradíssimo, o Phantasy Star. Fiquei ali sentado, admirando os belos gráficos do jogo – já havia visto ele nos catálogos da Tectoy, mas nunca o vi em ação – e Fernando, tão concentrado, não dava um pio, tampouco se esboçou em mudar o jogo para um de dois jogadores. Fiquei lá por cerca de uma hora (talvez tenha sido menos e na minha cabeça infantil tenha durado esse período). Foi então que meu estômago vazio reclamou, me levantei, despedi-me e fui para casa almoçar antes que minha mãe desse conta do meu sumiço.

Nos outros dias, já na escola, encontrei com Fernando, e sem Phantasy Star, conseguimos conversar. O assunto principal eram os videogames. Continuei indo à locadora, sempre depois das aulas, e agora comecei a frequentar a casa de Fernando, sempre com jogatinas e músicas nessas visitas. Afinal, com ele formamos a banda da escola, não tocava nada nessa época, mas arriscamos mesmo assim. As gerações de consoles avançaram e nossas jogatinas dos finais de semana permaneceram.

Atualmente nossa amizade continua, são mais de 25 anos de uma amizade que começou sem palavras, apenas com um gosto em comum, os videogames, e hoje, mesmo com a vida corrida e nossos afazeres, ainda conseguimos tempo para reunirmos em sua casa num dia de final de semana, fazer aquela jogatina no Playstation 3 e esquecermos um pouco dos problemas diários da vida, mas desta vez fico, efetivamente, com o controle do player 2 na mão.

Devolvendo uma caixa vazia

Nesta época eu não jogava apenas no Master System, pois a grande maioria dos meus amigos tinham um Famiclone. Chegando as férias escolares nossas jogatinas se acentuavam . No condomínio onde eu morava tinha um outro amigo chamado Fernando (esse é outro), que tinha um Phantom System, e revezávamos as jogatinas em nossas casas. Num desses finais de semana iríamos jogar na casa dele, então acordamos cedo no sábado para conseguir alugar o disputadíssimo Ninja Gaiden 2.

Fomos na locadora de Fernanda e nossos esforços deram certo, o cartucho estava lá! De pronto alugamos e o levamos para jogar. Semanas antes tínhamos visto uma matéria do jogo nas revistas especializadas, já éramos apaixonados pelo primeiro da franquia e estávamos ansiosos para jogar a continuação dele.

Foi um final de semana emocionante. Fiquei abismado com aquelas CGIs na introdução e no meio de cada fase, isso era uma coisa que eu admirava muito nos jogos do NES, pois o Master System, mesmo tendo um hardware melhor que o NES, não oferecia cenas tão bonitas em seus jogos. Mesmo assim, Ninja Gaiden não é um jogo fácil, chegamos logo até a terceira fase, mas lá empacamos. Lembro que nesta fase havia uma ventania muito forte que empurrava o personagem de acordo com a direção do vento, além disso estávamos em cima de prédios e um erro no salto era a morte certa do personagem.

Segunda-feira chegou, passamos o dia todo tentando passar da famigerada fase da ventania e nada, o tempo passou e a hora de devolver chegou, já estava perto da locadora fechar. Então desligamos o Phantom System, pegamos a caixa e fomos correndo para a locadora, que ficava uns 2 quilômetros de nosso condomínio, para devolver o cartucho e não pagar multa. Chegamos há tempo, ainda faltava uns 10 minutos para a locadora fechar, mas ao entregarmos a caixa eis a surpresa. Ela estava vazia, havíamos esquecido o no jogo no console.

Foi mais uma maratona, correr dois quilômetros de ida, pegar o elevador, pegar o cartucho e correr mais dois quilômetros de volta para a locadora. No final deu certo, chegamos um pouco atrasados muito suados e ofegantes, mas como amizade é tudo, o funcionário de Fernanda havia esperado a gente antes de fechar a loja, creio que foram uns 5 minutos de atraso, mas conseguimos devolver o cartucho e não pagamos a multa.

A satisfação de jogar algo novo toda semana

Para os meninos daquela época, alugar um jogo era o melhor jeito de apreciar os lançamentos. Jogos de videogame sempre foram caros e as locadoras acabavam sendo o melhor recurso para conhecer os jogos novos, apreciá-los, e quem sabe até comprá-los.

Eu cresci nesse clima, aproveitava cada lançamento, tinha apenas dois dias para tentar vencer o jogo, o que consegui com poucos. Também conheci vários jogos desta forma. Contava os dias para chegar logo o sábado e alugar um Streets of Rage, Super Monaco GP ou um Lakers VS. Celtics só para tentar zerar ou competir com os amigos.
Foi a era de ouro dos videogames e as locadoras eram o retrato disso. Sempre cheias e muito disputadas tiveram seu ápice nos 90, mas aos poucos foram perdendo espaço. A pirataria afetou em muito o mercado e aos poucos as locadoras foram desaparecendo.

Perto de encerrar fui comprando alguns jogos delas, consegui várias relíquias do 3DO com a Shop Game de Aroldo e outras do Mega Drive e Playstation da Start Games de Fernanda. Recentemente fui presenteado com várias relíquias da Start Games, duas caixas com 30 jogos do Nintendo 64 e vários pôsteres da época.


Fernanda ainda guardava essas relíquias em sua casa e quando achou as doou para mim. São lembranças de uma vida, as quais guardo com muito carinho, sejam os jogos que comprei há quase 20 anos, sejam os presentes recentes, todas elas me levam para um tempo bom, quando nossas maiores preocupações eram derrotar os chefões do jogo antes de terminar o final de semana.

Revisão: João Paulo Benevides
Lúcio Amaral é jornalista e advogado, músico por paixão e gamer desde que se conhece por gente. Sua paixão pelos videogames começou na segunda metade dos anos 1980 quando teve seu primeiro videogame, um Philips Odyssey - ou Odyssey² - quando tinha 7 anos. Acompanhou, com muito entusiasmo, todo caminhar tecnológico e assumiu uma paixão pela Sega, sem deixar de flertar sempre com a Nintendo. Hoje é colecionador com um acervo que vem desde a segunda geração de consoles aos mais atuais e encontrou no Blast uma maneira de compartilhar toda sua paixão e convívio com esse fantástico mundo dos videogames.

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