Crônica

Crescendo com os videogames: a era de ouro dos 16 bits

Início dos anos 90, auge da guerra dos consoles e um garoto se maravilhando com os avanços tecnológicos da 4ª geração dos videogames.


 
No início dos anos 90 a guerra dos consoles se acirrava, eu ainda, com meu Master System, era notadamente do time Sega. Não menosprezava o console rival, nunca! Pelo contrário, eu gostava muito do bom nintendinho, afinal tinham jogos maravilhosos. E o que seriam dos meus finais de semana sem um torneio de Goal! no Phantom System dos meus amigos Fernando e Marcelo? Com certeza me diverti muito naquela época e soube aproveitar bem a guerra dos consoles.


Acervo de Lúcio Amaral: era de ouro da Sega


Mas o meu bom e velho Master System estava envelhecendo, se tornando ultrapassado, e nós, crianças, ficamos mais interessados pelo novo, pelo moderno. Então quando soube do lançamento do novo console da Sega, logo fiquei ansioso para conhecê-lo e ver seus avanços gráficos.

Como era de praxe, na época tive que me desfazer do meu velho 8 bits da Sega para ter o novo, logo o Master foi vendido para que, assim, eu pudesse entrar nesse mundo novo da quarta geração. Foi deste jeito que comecei a vivenciar a era de ouro dos videogames, a era 16 bits.

Quando conheci o Mega Drive

A primeira vez que me maravilhei com o Mega Drive foi na velha locadora do Aroldo, a Shop Game. Ele sempre trazia as novidades no seu lançamento, então quando soube que tinha chegado os novos videogames, mal pude contar os dias para que chegasse o final de semana e eu pudesse conhecer aquela maravilha.

Finalmente chegou o sábado e fui com meu irmão para a locadora, era cedo, mas a fila para jogar nos novos consoles era imensa. Foi quando vi o Mega Drive e me apaixonei na primeira espiada. Um garoto jogava NHL e me encantei por aquele jogo, até então não fazia ideia o que era a National Hockey League, mas de cara me encantei pelo console e pelo jogo.

Claro que assim que o menino saiu, e foi a nossa vez de jogar, ficamos jogando o NHL. Era tudo muito novo para nós, eu e meu irmão, os gráficos, o som e o jogo. Vimos que o Hockey era muito divertido, parecido com o futebol que nós sempre amamos, porém bem mais dinâmico, rápido e violento. Pois é, quando vimos a porrada correr solta num jogo de esporte ficamos loucos, dissemos: “vamos querer esse jogo quando comprarmos o Mega Drive!”

Final de semana chegou: que comecem os torneios!


Como era de praxe, eu e meu irmão aproveitávamos os finais de semana para fazer campeonatos com a molecada da rua, ou era no futebol de botão ou na tela da TV. Com a chegada do Mega Drive na minha casa e do Super Nintendo na dos meus amigos Fernando e Marcelo ficamos revezando os torneios entre um NHL e FIFA na minha casa, e um Bulls VS Lakers na casa de Fernando, quase sempre acabando em briga entre os irmãos nintendistas.

Os torneios mais acirrados eram lá em casa, sempre tendo eu e meu irmão nas finais, fosse no FIFA 95 ou no NHL, as partidas eram duras.

Foi graças a estes jogos que eu conheci e virei fã da NBA e NHL. Até hoje sou torcedor do Phoenix Suns e Pittsburgh Penguins, sou fã declarado de Mario Lemieux e, sim, sou do time que acha ele melhor que Gretzky.

Zerando Super Mario World e Top Gear



Numa das jogatinas de final de semana, na casa de Fernando, resolvemos tentar zerar dois jogos do Super Nintendo, o primeiro deles foi o Super Mario World. Já havíamos conseguido a proeza de zerar o Super Mario Bros. 3 do nintendinho, agora com meu amigo sendo um feliz proprietário do Super Nintendo, fomos tentar salvar a princesa Peach mais uma vez.

O problema é que não foi um final de semana, mas sim, várias semanas, não pela dificuldade do jogo, afinal o seu antecessor do nintendinho era muito mais difícil e sem direito a saves, mas sim pelo tamanho dele. O jogo era enorme e demandou muitas horas de jogo para que pudéssemos chegar ao castelo do Bowser.

Uma vez no castelo foi bem mais simples vencê-lo, como era de costume dos jogos desta geração, tivemos que estudar seu padrão, morremos algumas vezes, mas no final saímos vencedores e resgatamos a princesa.

Este foi o último jogo do Mario que eu havia fechado, depois que passei da adolescência perdi um pouco da paciência e persistência em tentar zerar certos jogos, e o Mário foi um deles. Apenas anos depois, com um filho de sete anos e um Nintendo Wii, me animei em tentar zerar outro jogo do Mario. Este feito foi realizado em parceria com meu filho no New Super Mario Bros e foi muito bom reviver aqueles dias de aventuras ao lado da pessoa que você mais ama no mundo, realmente é algo indescritível.

Voltando aos anos 90, depois de salvarmos a Peach, fomos tentar algo mais desafiador, sermos campeões no Top Gear. Então pegamos o cartucho do jogo, demos a velha sopradinha nele, e colocamos no console.

Foi demorado, precisávamos anotar todas as passwords do jogo, a medida em que íamos passando de circuito, até que um desses finais de semana cheguei na casa do meu amigo com uma Super Gamepower ensinando justamente o truque de bater no poste de chegada, a partir daí foi mamão com açúcar, e conseguimos vencer o campeonato mundial. Lembrem-se que naquela época descobrir um cheat era um fato para nos orgulharmos e zerar um jogo usando ele, era orgulho em dobro.

Uma missão, um objetivo: Zerar X-Men

Na primeira metade dos anos 90 a série animada dos X-Men era uma febre, foi por causa dela que virei colecionador de quadrinhos e fã dos mutantes da Marvel. Não foi diferente nos videogames, qualquer coisa da Marvel – principalmente dos mutantes – eu corria logo atrás para comprar. Nessa época eu tinha o excelente X-Men 2: Clone Wars, jogo exclusivo dos mutantes para o Mega Drive, foi então que eu e meu amigo Zequinha nos comprometemos a um único objetivo, zerar este jogo!

De certa forma ele não era tão complicado, porém o número limitado de vidas era um desafio. Era preciso decorar todos os padrões do jogo, de todos os inimigos, em todas as fases. Chegar ao final com o maior número de vidas possível e tentar vencer o maior inimigo do jogo, o vírus alienígena conhecido como Phalanx. Nós sempre conseguíamos chegar à última fase, mas por conta dessas limitações, acabávamos perecendo nela. Nessa época eu não tinha internet, e o pouco de dicas que conseguíamos eram nas revistas especializadas, até que um dia a salvação veio, e de bem longe.
Meus primos de Brasília, Max e Felipe, sempre vinham passar as férias aqui em Natal e os videogames eram um dos focos de nossas diversões, jogavam comigo desde a época em que eu tinha um Odyssey² funcionando, nos divertíamos as férias toda e então eles voltavam para sua cidade.

Eis que num desses dias, tranquilo em casa, recebo uma correspondência, era uma caixa de tamanho médio, mais ou menos do tamanho de uma caixa de sapatos, os remetentes eram os meus primos Felipe e Max. Quando abri foi uma surpresa, eram dois jogos do Mega: Dragonball e Earthworm Jim 2, mas o melhor era o que estava dentro da caixa dos jogo, uma papel anotado à mão com alguns macetes de jogos do Mega, entre eles havia um especial: como conseguir 99 vidas em X-Men 2, foi nossa salvação! Assim que vi liguei para o meu amigo Zequinha e finalmente, conseguimos zerar o jogo e salvar a humanidade do vírus Phalanx!

 O mesmo cartucho da época mais o manuscrito com as 99 vidas

FIFA 95 e as partidas não tão amistosas

Outro jogo que abusamos nos finais de semana foi o FIFA 95 do Mega Drive, era de praxe juntar eu, meu irmão e Zequinha na minha casa para algumas partidas amistosas. Porém meu irmão sempre foi o melhor no futebol, eu ainda conseguia ganhar algumas partidas contra ele, mas, na maioria das vezes, ele acabava vencedor.


O FIFA, assim como a maioria dos jogos de futebol da época, tinha um macete, se você chutasse de um determinado local do campo era certeza sair um gol, no FIFA 95 esse local era no lado esquerdo de defesa, na entrada da grande área. Porém eu e Zequinha descobrimos um jeito de anular isso, bastava colocar o goleiro no modo manual, como já sabíamos o canto que a bola ia nesses chutes, ficávamos prontos para jogar o goleiro para o canto em que a bola ia entrar.

Usamos isso contra meu irmão, ele nunca foi bom em controlar o goleiro manualmente, por conta disso sempre o usava no modo automático, então foi batata! Toda vez que ele ia nos atacar e chutar a partir do canto estratégico, conseguíamos defender, já pro meu irmão, por usar o goleiro automático, isso não era possível. O resultado foram as vitórias históricas e maiúsculas contra ele. No final meu irmão proibiu o uso dos goleiros manuais, se não ele não jogava. Foi aquela confusão, até que saiu o FIFA 96 e acabou com a bagunça.

Reavendo um tesouro de infância

Uma pequena parte do tesouro recuperado

Já no final da década de 1990, me deu na telha de desfazer do meu velho Mega Drive, eram muitos jogos que eu tinha, mais de 30 cartuchos, como já tinha o meu 3DO e havia acabado de ganhar um Playstation do meu pai, achei que não tinha mais espaço para tantos videogames e cartuchos, então simplesmente os vendi.

Os cartuchos havia vendido para meu primo Jason e o console para um terceiro. Porém, com o passar dos anos, veio a nostalgia daqueles jogos, já existia emuladores nos computadores, mas não era a mesma coisa, decidi comprar um Mega Drive de novo. Fui ao bairro do Alecrim e lá conheci Ricardo, dono do quiosque da Fox Games no camelódromo, foi onde consegui não só o Mega Drive japonês de 1989 – exatamente igual ao que eu tinha – mas também um lindo Sega CD, um sonho de consumo que eu tinha na época do Mega.

Acervo de Lúcio Amaral: Gênesis mais o Sega CD


O passo seguinte foi ligar para o meu primo, eu sabia que ele ainda tinha todos os meus jogos, e mais alguns, na casa dele. Comprei a maioria e o resto troquei por CDs do Playstation, assim consegui reaver todos os meus jogos. Ainda os mantenho aqui muito bem guardados e, desta vez, curtindo-os com o meu filho que ama tanto o meguinha como eu.

A era de ouro dos videogames


A quarta geração dos videogames foi a que mais marcou, dela nasceu uma grande paixão mundial, os consoles cresceram muito, os jogos se tornaram cada vez mais desafiadores e mais complexos. Houve um salto na tecnologia e os sons e gráficos se tornaram muito superiores aos seus antecessores. Nasceu a poderosíssima máquina que é o Neo Geo AES (isso mesmo, o Neo Geo é um videogame da quarta geração).

Nesta geração tivemos o auge da maior rivalidade de todas, Sega X Nintendo, graças a isso cada produtora tentou se aperfeiçoar mais, caprichar em seus jogos, e desta rivalidade nasceu uma outra que conhecemos muito bem: Sony X Microsoft.

Com certeza essa foi a época de ouro dos videogames, graças a ela os jogos eletrônicos chegaram ao patamar de hoje, de verdadeiras obras de arte.
 
Revisão: Diogo Mendes

 

Lúcio Amaral é jornalista e advogado, músico por paixão e gamer desde que se conhece por gente. Sua paixão pelos videogames começou na segunda metade dos anos 1980 quando teve seu primeiro videogame, um Philips Odyssey - ou Odyssey² - quando tinha 7 anos. Acompanhou, com muito entusiasmo, todo caminhar tecnológico e assumiu uma paixão pela Sega, sem deixar de flertar sempre com a Nintendo. Hoje é colecionador com um acervo que vem desde a segunda geração de consoles aos mais atuais e encontrou no Blast uma maneira de compartilhar toda sua paixão e convívio com esse fantástico mundo dos videogames.

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