Jogamos

Análise: Wasteland 2 Director’s Cut (Multi): lento e recompensador

Sobreviva na terra destruída de Wasteland 2 e conheça um RPG longo e cheio de conteúdo.

Não é mistério que a expectativa com as coisas acaba muitas vezes atrapalhando. Confesso que eu não gostei de Fallout 4, as poucas horas que tive de experiência com o game não foram suficientes para me fisgar e instigar a continuar passeando e descobrindo aquele mundo. Minhas memórias com Fallout 3 e New Vegas são melhores, mesmo considerando que memórias geralmente são desprovidas de senso crítico, atribuindo valores mágicos à coisas que experimentamos em um passado.


Mas a memória pode também atribuir valores à coisas que não experimentamos. Por uma série de motivos que não passavam pela minha intenção, eu nunca joguei os RPGs para computador. Sempre tive vontade, entretanto. Wasteland 2 dialoga diretamente com essas duas memórias distintas: das coisas que vi e também das que não vi.

A dura vida na Wasteland

Wasteland 2 representa uma terra devastada de uma forma muito mais dura que os novos Fallout. Seu visual seco, ritmo lento e batalha tensa ajudam a criar essa sensação muito mais que o enredo que se desenvolve. Não que essa história não construa de forma vasta o ambiente e os problemas de se viver em um mundo pós-apocalíptico, mas é principalmente durante a exploração e as batalhas táticas que esse mundo te esmaga.

As missões são lentas, o que é interessante para trazerem um sentido de trabalho árduo, e eu demorei muito em certas dungeons. Algumas missões conseguem criar uma atmosfera interessante e longa, com diferentes maneiras de interagir com os NPCs e distintas formas de se resolver o problema em questão. Tenho sentimentos mistos com esse ritmo. Por um lado ele constrói a dificuldade de se fazer qualquer coisa nesse mundo e traz uma boa dose de desafio por meio dos diferentes momentos da missão, por outro cansa e causa tensão. É muito bom quando um game consegue te ambientar pelas mecânicas e sistemas, mas existe um problema de fatiga que pode surgir daí.


Logo os primeiros momentos do jogo já nos entrega uma decisão com consequências: ajudar um centro de pesquisas que está tendo problemas ou defender uma cidadela de saqueadores. Cada caminho representa uma possibilidade, mas muitas vezes as escolhas que temos no jogo demoram a ter consequências. Também demora para entrarmos em contato com localidades maiores, cidades e facções e, ainda que tenhamos escolhas desde o começo do jogo, é nessas horas que a coisa fica mais interessante. Wasteland 2 é um jogo que se desenvolve em um longo prazo.

Algo cuja resposta chega mais rapidamente são as consequências de nossas escolhas e estratégias durante as batalhas. Qualquer pessoa do grupo de personagens pode morrer de forma permanente.  Isso é interessante tando pensando nas mecânicas, quanto do ponto de vista narrativo casa muito bem com a dificuldade de viver em uma Wasteland.

A importância do “pré-jogo”

A batalha de Wasteland 2 é por turnos e a movimentação dos personagens se dá pelas grades, o ponto importante aqui é que é possível usar paredes, cercas e outros tipos de apoios para entrar em modo cover. Existem diferentes maneiras de abordar um inimigo, e até mesmo uma interessante mecânica de tocaia, na qual o posicionamento dos membros da equipe é essencial para ganhar vantagens sobre os inimigos. As diferentes builds dos personagens têm influência direta sobre as possibilidades dentro do confronto, bem como a forma como os personagens progridem e evoluem.

Esse é o tipo de jogo que te pune, de curto a médio prazo, por criar um grupo de personagens de maneira equivocada. É extremamente importante os momentos “pré-jogo” no qual estamos criando os personagens. Não é anterior ao jogo, é sim algo central dele. E aí vem as memórias do que eu não vivi, já que sempre admirei esses jogos por suas histórias, mundos e sistemas de batalha refinados, mas nunca havia parado para pensar que a criação do personagem fosse algo essencial. É claro que é. E eu sofri muito com meus quatro primeiros personagens. Resolvi começar de novo.


Mas para criar um bom grupo de guerreiros é essencial ter jogado umas horas, o que rende a experiência real de sabermos as habilidades e atributos que prestam e que não prestam, e para qual tipo de personagem eles prestam ou não prestam. Tendo essa experiência, criar os personagens é algo muito interessante. Um exercício de "criar" as restrições que você, como jogador, vai ter que contornar no jogo.

Existem muitas opções de habilidades e interação com o mundo. É possível abordar uma porta ou computador, por exemplo, a partir de diferentes habilidades, o que ajuda a comportar diferentes grupos. Na versão Director’s Cut é mais fácil acessar as habilidades e escolher qual usar, o que é menos rápido na versão original. Esse é o tipo de mudança que traz acessibilidade sem comprometer os aspectos centrais da experiência. É aquela coisa, o jogo continua desafiador, mas agora está menos irritante.

Wasteland 2 é um game lento, focado no longo prazo. Após tantas horas de jogo, as consequências de várias ações vão aparecendo, as vezes de forma até injusta. É também na segunda parte do jogo que o ritmo fica mais acelerado, inclusive do ponto de vista do enredo. Mas é, sobretudo, um RPG com sistemas e mecânicas sólidos, enredo interessante e boa construção do mundo. Ele não me entregou algo que eu esperava de Fallout 4 e não tive, mas outras experiências que nunca tinha tido a possibilidade de conhecer.

Prós

  • Mecânicas e sistemas sólidos que criam uma atmosfera tensa;
  • Múltiplas possibilidades e habilidades;
  • Enredo bem construído;
  • Batalhas estratégicas.

Contras

  • Falta de clareza com as consequências;
  • Ritmo focado no longo prazo prejudica o começo da campanha;
Wasteland 2: Director’s Cut - PS4/XBO/PC - Nota: 8.0
Versão utilizada na análise: PS4

é um homem sem qualidades. Para se esquecer das décadas de fracassos de sua vida real, resolveu passar parte do seu dia jogando. Iniciado nos games por Adventures e JRPGs, hoje em dia joga de tudo. Gosta muito de escrever sobre jogos, mas só dá nota 10 para games em que você pode dar Suplex em um trem.

Comentários

Google
Disqus
Facebook