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Análise: Fallout 4 (Multi), uma Wasteland diferente

O novo game da série Fallout possui algumas falhas, mas está muito longe de ser ruim.


Finalmente, a espera chegou ao fim. No dia 10 de novembro, exatamente às 04 da madrugada (horário de Brasília), a Bethesda lançou um dos games mais aguardados dos últimos tempos, um dos possíveis candidatos o melhor jogo do ano. Fallout 4 (Multi) está disponível. Mas será que ele é realmente dará conta das expectativas?

Era uma vez, em uma Boston fictícia

Diferentemente dos títulos anteriores, a história de Fallout 4 começa no ponto mais marcante da guerra entre Estados Unidos e China, no dia 23 de outubro de 2077, quando as primeiras bombas caíram em solo americano e provocaram um holocausto nuclear. Isso permite ao jogador presenciar o momento exato da ocorrência que mudará o mundo para sempre. O interessante é que é possível de fato jogar, mesmo que por pouco tempo, no mundo pré-apocalíptico, podendo desfrutar do cenário e ver como as pessoas se vestiam e se comportavam na época, algo inédito até então. Em um desses momentos, inclusive, o jogador é visitado por um dos vendedores de seguro da Vault-Tec, que lhe oferece um lugar garantido em um V.A.U.L.T, uma espécie de abrigo nuclear. Quando as primeiras bombas caem, seu personagem, sua família e vizinhos conseguem fugir e se refugiar no Vault 111, mas, logicamente ao ambiente é caótico e não há vaga para todos.



Neste abrigo, todos , com exceção dos cientistas, serão congelados e mantidos em animação suspensa em câmaras, com o objetivo de poupar o máximo de recursos possível e acordar os civis somente depois do ambiente voltar a ser habitável. Entretanto, ao despertar, o jogador presencia a morte de seu cônjuge e o sequestro de seu filho. Como se isso não bastasse, descobre também que é o único sobrevivente do abrigo e se depara com mundo totalmente destruído pela guerra. Seu objetivo torna-se, então, vingar a morte de sua cônjuge e resgatar seu filho.


Para aqueles que não estão familiarizados, as histórias de Fallout são ambientadas em um cenário pós-apocaliptico retrofuturista, que possui tanto elementos do passado, como músicas e vestimentas, quanto de uma espécie de futuro, como tecnologia avançada. Desta vez, a história se passa em uma nova região que inclui Boston, Massachussetts e certas partes da Nova Inglaterra, conhecida no jogo como Commonwealth. O interessante é que esses locais, por algum motivo, foram menos atingidos pela guerra; portanto, outro diferencial com relação aos antigos jogos da série é que agora será possível encontrar muitas casas e edificações ainda de pé e em condições razoáveis.

Dizendo adeus a tirania verde e amarela

Em relação ao cenário, diferentemente do que muitos supunham, os gráficos não estão visualmente ruins: as cores são muito vivas e, ao menos na versão de PC, há vários detalhes visuais que envolvem sombras, decalques, iluminação e raios de luz. Mais importante foi posto um fim àquele cenário infestado de tonalidades verde-amareladas que eram comuns à franquia. Apesar disso, não há como negar que o jogo está longe de fazer jus a nova geração, a despeito de, definitivamente, estar superior aos títulos anteriores da série, mesmo quando estes eram aprimorados por mods.
Diamond City é uma das maiores cidades de Fallout 4 e uma das mais belas da franquia.

A criação de personagem, um dos momentos prediletos dos amantes de RPGs, disponibiliza inúmeras opções, permitindo criar uma face muito minuciosa e recheada de detalhes. O jogador pode, sem muita dificuldade, esculpir não apenas o seu próprio rosto, mas o de qualquer pessoa ou personagem que deseje. Além disso, como nos jogos anteriores da série, é permitido que se escolha entre ambos os sexos. Mas não deve se empolgar demais: ao contrário do que é apresentado durante a criação de personagem, o rosto da maioria dos personagens durante a jogatina propriamente dita é estática e sem vida, incluindo a do seu próprio.

Aquilo que faz você S.P.E.C.I.A.L

O sistema de atributos do game, mais conhecido como S.P.E.C.I.A.L., agora está mais simples. Seus atributos principais continuam os mesmos: Força, Percepção, Resistência, Carisma, Inteligência, Agilidade e Sorte. Porém, agora há mais perks, um total de 70, incluindo novos e antigos. Cada vez que se passa de nível, é possível agora não apenas aumentar o valor de seus perks como também de seus atributos principais, o que lhe proporcionará centenas de possibilidades ao desenvolver seu personagem. O antigo sistema de talentos também sofreu mudanças, sendo unificado com os bônus atribuídos pelos livros e revistas, de modo que, agora, toda vez que o personagem encontrar um destes itens de leitura, adquirirá vantagens relacionada aos seus atributos e a variados tipos de dano que podem ser causados.
Suas escolhas de perk mudam radicalmente sua interação com a Wasteland e seus habitantes.

Os companions, personagens que lhe acompanham permanentemente durante sua jornada, também estão muito mais fáceis de comandar: basta dar ordens diretamente a eles (como “vá para uma determinada direção”, “ataque” ou “vamos trocar itens”), selecionando-os e apontando para objetos no cenário ou ficando próximo a eles. Entretanto, também houve alguns retrocessos nesse sentido, pois agora eles não sabem mais subir a maioria das escadas e, principalmente, não são possuem mais um modo passivo, que fazia com que não atacassem os adversários.
Piper é uma das poucas personagens com uma boa história de pano de fundo.

O sistema de karma foi removido, de modo que o jogador agora só precisa se preocupar com suas ações quando estiver na presença dos companions e NPCs, que podem apreciar ou detestar aquilo que se faz, resultando, em alguns casos, em ataques ou até mesmo abandono do protagonista, por parte de seus acompanhantes.  Esse novo sistema faz todo o sentido; afinal, só quem presencia ou ouve falar dos suas ações poderão julgar seu caráter e reagir, além de que é difícil espalhar uma notícia quando o máximo que se tem são algumas poucas estações de rádio.

As relações e associações com os grupos e facções também deixaram de existir, o que lhe permite integrar a maioria deles sem qualquer penalidade. Não como negar que isso empobrece o jogo em relação a narrativa e, de certa maneira, o aproxima de Skyrim (Multi), no qual, além de participar simultaneamente de várias facções, de uma hora para outra, após poucas missões, o protagonista pode ser promovido como um membro de alta patente ou, até mesmo seu líder de um determinado grupo.
O que? Eu fui promovido a general? Mas eu só fiz aquelas missões, porque eu estava de passagem.
O game manteve seus dois modos de combate: o clássico point & shoot (aponte e dispare), que compõe praticamente todos os FPS(s) e dispensa maiores explicações, e o inovador (ao menos na época do lançamento de Fallout 3 (Multi)) sistema V.A.T.S (Vault-Tec Assisted Targeting System), cujo isso permite pasa o jogo e permite que  o jogador tenha a liberdade de escolher com calma qual arma utilizar bem como qual parte do corpo do inimigo deseja atingir, de modo que o resultado da ação dependerá das habilidades e talentos do personagem com a arma utilizada.
Ah! Então foi isso que aconteceu com os antigos moradores.
Como é comum à série, são disponibilizadas várias rádios, que podem ser acessadas através de seu Pip-Boy que e servem tanto para ouvir músicas como para iniciar missões e auxiliar durante a execução destas. Com destaque para três delas: Clássica, Diamond City e Liberdade. A primeira, como o próprio nome já diz, só toca música do gênero clássico, enquanto a segunda mistura uma seleção dos anos 50 e 60 com transmissão notícias e a última é a rádio pertencente aos Minutemen, na qual  só é transmitida melodias que tenham o violino como instrumento de destaque. De qualquer maneira, independente da estação que você escolha durante sua jornada, muitas vezes essa combinará com o ambiente ou fará contraste com suas ações, principalmente em situações mais tensas, como conflito e tomada decisão, o que dá um tempero a mais as suas jogatinas. Não é à toa que Fallout está sendo indicado npara categoria "melhor trilha sonora" em várias premiações, como foi o caso do Game Awards 2016.

O grande destaque deste novo título fica por conta dos novos sistemas de crafting (construção) que agora não abrangem apenas armas, mas também armaduras, narcos, comida e até mesmo edificações. O termo “lixo” não existe mais, pois é possível reciclar qualquer material e transformá-lo em matéria prima que, por sua vez, possibilitará a construção e decoração de cidades inteiras. Nada, no entanto é por acaso: o crafting agora não é mais apenas um elemento opcional do jogo, passando a ser essencial para o progresso em sua jornada, tanto para concluir missões quanto para melhorar os equipamentos que, depois de um determinado tempo, se tornam ineficazes sem o devido aperfeiçoamento.

Inicializando os protocolos de segurança..

É claro que game não é perfeito; aliás, está bem longe disso. Comecemos pela narrativa. Em diversas ocasiões, a Bethesda justificou os gráficos medianos de Fallout 4 com a afirmação de que seu foco principal era a narrativa. Dito e feito: a história envolvendo as quests principais são realmente fantásticas. Em contrapartida, o game possui algumas das piores side quests de toda a franquia. Há muitas missões repetitivas, como diversas quests dadas pelos Minutemen e pela Irmandade do Aço, que se resumem a simplesmente a derrotar rivais, matar monstros e buscar itens, e que, além disso, não possuem qualquer história ou motivos que as sustentem.
Danse e seus recrutas são especialista em pedir para que você resgate itens perdidos.


O que muitas vezes salva este tipo de missão são os terminais de acesso: computadores, encontrados em muitas casa e instalações, que contam a história daqueles que viveram ou ainda habitam o local. No entanto, este é um elemento opcional. Ainda em relação à história, é preciso tomar certo cuidado com as dicas que são apresentadas durante os loadings (carregamentos) do game, que, às vezes, contêm spoilers, podendo assim estragar o divertimento de alguns jogadores.

O mapa, ao contrário do que foi prometido pelos desenvolvedores, não está tão extenso quanto o de Skyrim (Multi) e nem ao menos se compara aos jogos anteriores da série. Entretanto, isso de maneira alguma é desvantajoso. Pelo contrário: caso se observe atentamente o mapa de Fallout 4, perceber-se que ele é muito mais denso do que quaisquer outros mapas de games da Bethesda; ou seja, contando com uma maior quantidade de instalações (casas, ruínas, comércio, etc) por metro quadrado e com um terreno quase sempre totalmente plano, não possuindo planaltos ou montanhas.
Tudo bem! Se você ainda não entendeu a diferença entre tamanho e densidade, eu irei chamar um geógrafo.
E, por fim, quedas de frames, loadings que duram mais de trinta segundos, “black screens”, impossibilidade de recarregar suas armas ou até mesmo de sair do Vault 111 (local em que se inicia a história) são apenas alguns dos inúmeros bugs contidos no game. O fato é que, entre outras coisas, Fallout 4 foi mal optimizado; porém, não há o que temer, pois várias soluções para cada um desses problemas estão disponíveis pela internet, de modo, que para a maioria dos jogadores, o game está jogável. Além de que não é primeira e, provavelmente, não será a última vez que isso acontece com games desenvolvidos pela Bethesda.

E os fãs? Quem olhará pelos fãs?

Com Fallout 4, a Bethesda deu alguns pequenos passos à frente, mas um grande passo para trás em relação à série. A desenvolvedora parece ter tentado arrebatar um novo público, simplificando a história e as mecânicas e adicionando novos elementos ao game. E, de fato, em geral, a jogabilidade está muito superior a dos antigos jogos da série; no entanto, em compensação, as histórias das side quests e os rostos estáticos e sem vida dos personagens deixam a desejar. De maneira alguma, todavia, isso faz de Fallout 4 um título ruim, permitindo que seja seguramente recomendado tanto aos fãs da franquia quanto apresentado aqueles que ainda não tiveram contato com a série.

Prós

  • História principal envolvente
  • Aprimoramento no sistema de habilidades
  • Novo sistema de crafting
  • Rádios com músicas selecionadas

Contras

  • Gráficos datados
  • Side quests rasas
  • Muitos bugs 
Fallout 4 – PC/PS4/Xone – Nota: 8.5
Versão utilizada: PC

Revisão: Bruno Alves
Manoel Siqueira Silva é formado em Análise de Sistema e Filosofia pela UFSCar. Aprecia games de todos os gêneros, mas confessa ter uma queda por RPG e jogos de mundo aberto. Está sempre em busca de games de qualidade que foram subestimados ou são desconhecidos. Este ser pode ser encontrado no Twitter e no Facebook.

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