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Análise: Verdun (PC): lute nas trincheiras neste FPS tático

Pegue seu mosquete e enfie-se numa trincheira neste fascinante FPS tático baseado na Primeira Guerra Mundial, enquanto bombas, gás e balas chovem à sua frente


"Sob a pele, a vida não palpita mais, foi sendo expulsa do corpo; a morte avança de dentro para fora e já domina os olhos. Lá está nosso companheiro Kemmerich, que até há pouco ainda assava carne de cavalo e se agachava junto conosco nos buracos abertos pelas granadas; ainda é ele, porém já não é mais ele; suas feições ficaram imprecisas, indistintas, como duas fotografias sobrepostas na mesma chapa. Até sua voz soa como se viesse do túmulo."


Esta citação da incrível obra de Erich Maria Remarque, Nada de Novo no Front, resume perfeitamente a sensação que os soldados da Tríplice Aliança e da Tríplice Entente passavam entre 1914 e 1918 na Europa, durante a Primeira Guerra Mundial. E é exatamente a mesma coisa que o jogador sentirá, enquanto estiver com a cara enfiada na lama, dentro de um buraco aberto por uma granada.

Ao contrário de muitos jogos de tiro lançados recentemente, Verdun oferece poucos aspectos futurísticos ou efeitos especiais dignos de uma obra de Michael Bay. Estamos falando de uma das guerras mais brutais e destruidoras do século passado. O avião, tanque e outras inovações técnicas estavam apenas nascendo, e na maior parte do tempo os homens passavam frio e fome dentro de trincheiras imundas, sofrendo de inúmeras doenças e podendo levar um balaço na cabeça na menor vacilada.


Verdun é, antes de mais nada, um jogo tático: o que vale aqui não é a habilidade individual ou atos heróicos dignos de um Rambo. Se você jogar como costuma jogar Battlefield ou Call of Duty, irá sofrer. Sair de sua trincheira na hora errada certamente renderá um tiro, assim como se aventurar sozinho pela terra de ninguém ou tentar salvar o dia usando sua faca ou pá.

O tédio da trincheira

Há dois modos de jogo disponíveis em Verdun. O Deathmatch é o simples mata-mata, com cada homem por si, e lutando como pode para defender seu buraco ou seu canto na trincheira. É ideal para treinar a pontaria e as habilidades com os rifles.

Frontlines é o mais populoso e original, com os dois lados intercalando ataque e defesa. Em cada batalha, um dos times deve sair de suas trincheiras e tomar a posição inimiga, enquanto o outro time precisa se defender a qualquer custo. A vantagem de se estar seguro na trincheira durante uma investida permite melhor pontaria e atenção, enquanto os atacantes devem correr por suas vidas, desviar das granadas e tomar cuidado para não se enroscar no arame farpado, que aqui pode matar.



Passado algum tempo, é hora do time defensor contra-atacar. O time que antes atacava precisa correr para a base e se preparar para receber os inimigos. Este modo simula com originalidade a frequente troca de investidas dos Alemães e Aliados, e o incrível tédio de esperar o inimigo aparecer na trincheira. Ás vezes um ataque não vinha por dias, e a ansiedade pela ação, mosquete em mãos, noites mal dormidas e o constante frio, relatados no livro de Remarque, as vezes era pior que o inimigo (a batalha que leva o nome do jogo, por exemplo, durou dez meses e deixou 260 mil mortos). Obviamente não temos a maioria dessas coisas em Verdun, e a espera é bem mais curta. Correr pelas claustrofóbicas trincheiras e rezar para ser o primeiro a acertar o inimigo com seu rifle, ou dar-lhe uma coronhada, trará o drama de se batalhar por cada centímetro de terra que puder.

Cada partida nesta modalidade leva entre vinte e trinta minutos, com diversos ataques e contra-ataques equilibrando a partida e priorizando a coordenação entre esquadrões. Os mapas são relativamente pequenos, com zonas demarcando os limites da batalha e fuzilando qualquer um que ousar atravessá-las, o que por vezes pode enfurecer alguns jogadores. Alguns pontos, claramente abertos ou que poderiam dar uma boa visão do campo estão fora dos limites, mesmo estando à alguns centímetros da trincheira.

Cada bala conta

Para se progredir no jogo e ter acesso a armas e habilidades melhores, existe um sistema de níveis e experiência, que vai aumentando naturalmente enquanto se joga, e se ganha mais pontos caso você jogue em um esquadrão. Progredindo em uma das classes do jogo irá melhorar suas habilidades com as armas e granadas. Depois de algum tempo de jogo, já se tem acesso à armas e equipamentos melhores, chegando até mesmo a se tornar um oficial não-comissionado, o NCO, que pode dar ordens de bombardeio de canhões e aviões, além de coordenar os homens de seu esquadrão.


Há um verdadeiro arsenal de armas, que variam entre os lentos rifles da época (em que era preciso por cada bala para atirar, por exemplo), pistolas e pesadas metralhadoras, que precisam ser posicionadas numa base para se ter alguma estabilidade. E, felizmente, não há uma arma mais apelona. Todas requerem perícia e todo tiro deve ser bem dado, já que a demora de recarregar a arma sempre é fatal.

Há também acessórios, como baionetas, e armas menos convencionais, como a divertida pá, além de inúmeros uniformes originais da época. Mas entre as armas, nenhuma delas é mais perigosa ou controversa quanto o gás.


Hoje, armas químicas e biológicas são proibidas em convenções de guerra internacionais, e tudo graças às perigosas bombas de gás mostarda, crias da primeira guerra. Em Verdun, elas são comuns. Caso veja uma nuvem de cor diferente perto de sua trincheira, pare tudo que está fazendo e coloque sua máscara. Ficará um pouco difícil de enxergar, mas ao menos você não morrerá se aspirar o ar envenenado.

O extenso arsenal condiz com maestria a originalidade e diversidade do que foi usado no começo do século 20. Cada rifle possui suas particularidades, limitações e vantagens. Cabe ao jogador escolher a que mais se encaixa com seu estilo de jogo e estratégias. Há armas para todos os gostos, e vão melhorando de qualidade conforme se avança nos níveis.

A Grande Ofensiva

Por ser um shooter online, sua conexão precisa ser boa o suficiente para se conectar a um dos servidores, que por enquanto ainda não desembarcaram aqui (mesmo tendo o jogo parcialmente em português). Alguns picos de lag podem ser a diferença entre a vida e a morte, então não se pode brincar com conexões mais baixas.


Outro bom aspecto em Verdun é a sua comunidade. Durante a minha experiência, os jogadores costumavam ser cordiais e sempre se moviam em grupos, verdadeiros gentleman do front. Pelo teor mais maduro do gameplay, é difícil encontrar algum novato de trincheira.

Verdun é a resposta para os grandes shooters que prezam pelo individualismo e por armas apelonas. Enquanto a garotada se ofende mutuamente e se gaba de kills impossíveis, em Verdun o trabalho em equipe, paciência e uma boa liderança se destacam. Mesmo com gráficos mais modestos se comparados aos jogos de grandes orçamentos, eles se sustentam e não são o maior impeditivo da experiência.

E não ponha a cabeça para fora da trincheira. Nunca.

Prós

  • Proposta mais tática e madura. Não há espaço para Rambos;
  • Armas, uniformes e músicas fielmente reproduzidas;
  • O modo Frontlines é criativo e balanceado, com as equipes intercalando ataque e defesa;
  • Sistema de evolução de personagem justo e que recompensa o jogador rapidamente.

Contras

  • Alguns mapas apertam seus limites ao extremo, as vezes impedindo uma movimentação mais livre;
  • Mesmo com os menus em português, ainda não temos servidores regionais, o que pode interferir na jogabilidade;
  • Não há muita margem para vacilos.

Verdun — PC — Nota 8,0


Escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


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