Discussão

E3, jogos, marketing e a necessidade de sermos céticos

A E3 2015 foi palco de muita euforia e novidades. Mas é cada vez mais necessário que tenhamos os pés no chão para processar tanta informação.

Todo mundo sabe que a E3 costuma ser palco de vários anúncios e notícias importantes para o mundo dos games, certo? Por isso que a comunidade de jogadores fica muito atenta às conferências das grandes empresas, aguardando novidades. Mas tenho a impressão que, infelizmente, grande parte do público e até mesmo da mídia especializada não perceberam, ou fingem não perceber, que a E3 é, sobretudo, um grande comercial. E propagandas nem sempre são verdadeiras. Vamos falar de coisa boa?




O momento pós-E3 é bastante profícuo para discutirmos o maior evento de joguinhos do mundo, assim como a forma como jogadores e imprensa lidam com essas coisas: tanto eventos como jogos. Claro que não sou o primeiro a travar essa discussão, nem mesmo a comentar sobre isso após a E3 2015. O canal do Super Bunnyhop, por exemplo, foi bem rápido em falar do problema (inclusive o vídeo é muito recomendado, mas está em inglês). Se sempre é falado, por que você vai falar de novo? Porque o problema permanece. E se todo ano as empresas, mídia e jogadores repetem os mesmo comportamentos, eu também posso reclamar um pouco.

O melhor jogo de todos os tempos da última semana

“Horizon é incrível! É uma IP melhor que Splatoon, por exemplo.” Vamos lá, achem os dois erros dessa frase que li durante a E3 nas redes sociais. Primeiro erro: Horizon ainda não é nada. Horizon nem sequer está em um estágio final de produção. No máximo o material que foi mostrado tem potencial, porque Horizon ainda não é um jogo, um produto final. Segundo erro: sinceramente, como algo que ainda não sabemos o que é pode ser melhor que algo que já foi publicado? Chegamos ao ponto que preferimos seis minutos de gameplay, ou um trailer, a um jogo todo?
No império do Hype um jogo já lançado vale menos que um trailer.
Se sim, fazemos isso porque precisamos defender nossa empresa favorita? A questão é que elas sabem se defender, e fazem isso tão bem que fazem de tudo justamente para que eu e vocês as defendam e as apoiem. E por isso cada trailer, cada vídeo de gameplay é milimetricamente pensado para causar euforia, nostalgia, alegria ou qualquer sensação que nos impeça de ver o momento com clareza. Vejamos o trailer do remake de Final Fantasy VII.

O vídeo vai mostrando elementos do antigo título aos poucos, passando por Midgard até chegar o momento em que vemos o braço do Barret e as costas de Cloud com sua Buster Sword. Daí temos o logo e, por fim, a palavra: Remake. A plateia foi ao delírio. Informações concretas sobre como o jogo será, não tivemos. Mas, poucos dias depois, tanto em conversas na E3 como em entrevista à revista japonesa Famitsu dada pelo diretor Tetsuya Nomura, tivemos informações relevantes.

Nomura falou que planejam fazer um remake completo, reimaginando os cenários e atualizando a batalha. Também disse que não haverá novos personagens. Basicamente três informações relevantes. Algumas das pessoas que foram ao delírio podiam estar esperando que o jogo não mudasse o sistema de batalha, por exemplo. Na conferência, assistida por milhões e repercutida pelo globo, tivemos um confirmação sem informações, fora dela tivemos algumas notícias relevantes sobre o jogo.

Não me entendam mal, eu fiquei bem feliz com a notícia de que o jogo existe, mas depois refleti que um simples teaser não deveria causar tanta euforia. Fiquei bem mais feliz de saber que mudanças serão feitas, e que o jogo vai ser reimaginado. Não fosse o caso, seria melhor nem fazerem esse remake, afinal, Final Fantasy VII já existe e pode ser jogado em várias plataformas. Aliás, sempre cabe relembrar como o hype e a "necessidade" de remakes podem ser problemáticos em relação a forma como tratamos a história dos jogos.

A parte pelo todo (ou lobo em pele de cordeiro)

Mod ativa “gráficos da E3 2012” para Watch_Dogs no PC. Essa é uma notícia curiosa que encontrei quando fui confirmar se aquele trailer bonitão do Watch_Dogs apareceu na E3 de 2012. Uma das maiores polêmicas de feiras recentes foi a diferença do visual final do jogo da Ubisoft em relação ao que foi apresentado em 2012. O problema maior não é o downgrade em si, mas a falta de clareza na situação, e aí a mídia que cobre jogos também tem sua parcela de culpa.

Explicando melhor, existem diversas razões para que um jogo não tenha o visual prometido. Desde o fato de que uma demo fechada lida com menos processamento, renderização e otimização do que o jogo completo, até necessidades monetárias no decurso da produção, passando pela simples possibilidade de que aquilo estava rodando em um determinado console ou PC. O problema é que nem as empresas deixam esses problemas claros, como a imprensa também pouco discute o que causa um downgrade, mas depois vai lá e faz alarde de que rolou, colocando isso até como critério de avaliação de um jogo.
Watch_Dogs tem muitos problemas, e o menor deles é ter sofrido downgrade. O foco da crítica ao jogo deveria ser outro.
Será que os desenvolvedores estão de sacanagem? Eu imagino que eles queiram entregar o melhor produto possível, e que às vezes não chegam ao que foi almejado de início. Precisamos cobrar das empresas e dos veículos de notícias uma maior clareza sobre o jogo. Mas daí chegamos a um outro problema. As publishers não são lunáticas, elas sabem que um bom marketing  para o jogo é essencial. Basta ver os gastos com publicidade cada vez maiores em títulos AAA (e nem só neles).

Ou seja, o material mostrado em grandes eventos como a E3 é pensado em todas as suas minúcias. Afinal ninguém em sã consciência vai ser completamente honesto em relação ao seu jogo. Mostrar partes boas que existem não é mentira, mas tomar uma parte do produto e querer fazer o consumidor acreditar que aquela fração representa o todo é. E aí o papel da empresa é exatamente esse. O papel de jornalistas e público, entretanto, é estar ciente disso. Não vociferar que aquele jogo é “GOTY” ou “enterrou a concorrente”. Estamos falando de obras que não experimentamos.

Que seja eterno enquanto dure este hype

Vejam comigo o que foi mostrado de The Legend of Zelda na E3 de 2014:

Antes de tudo é importante frisar que a franquia que chega a esse nível de expectativa, e causa alvoroço com tão pouco, como as já citadas Final Fantasy e The Legend of Zelda, fez por onde merecer. São anos de bons títulos que fazem com que os fãs fiquem felizes apenas de saber que o jogo existe. Dito isto, o trailer mostra muito pouco. No máximo uma fração de um dos aspectos que compõem o game: seu visual. Claro que um bom trailer tem que passar o feeling e a pegada do produto, mas eu vi várias pessoas dizendo que agora iam comprar um Wii U, naquele momento.

Um dos aspectos prometidos é um mundo aberto, coisa que não é novidade. Aliás, a sensação de exploração que muitos sandboxes não conseguem trazer já existia em vários jogos da própria série Zelda, desde o título de 1986. O problema é realizar uma decisão importante como investir dinheiro em um console, por exemplo, a partir de um material que diz muito pouco sobre como será esse produto final.

E aí tem The Last Guardian. ICO e Shadow of the Colossus são dois de meus jogos preferidos, o segundo inclusive é um dos meus títulos de cabeceira. Isso fará com que eu compre o próximo jogo destes desenvolvedores, mas não que fique cego em relação ao que está sendo apresentado. Vocês vão me desculpar, mas o vídeo que foi apresentado é muito parecido visualmente com o que já havia sido mostrado para PS3, e além disso traz interações semelhantes às que já havíamos visto. Eu fiquei eufórico, imagino que muitos de vocês também, mas o papel de quem escreve sobre jogos, imagino eu, é pensar sobre essa euforia e tentar contê-la. Afinal, as expectativas já estão muito grandes, não é bom para ninguém na indústria, a longo prazo, aumentá-las ainda mais
Depois de tantos anos, bastou apenas um vídeo quase igual ao que já foi visto antes para animar todo mundo.
Hype é algo que deveria ser evitado na cabeça das pessoas que estão cobrindo o evento, e que tem que ser trabalhado nas expectativas dos jogadores. Só assim as empresas talvez pensem em mudar o foco, a forma como os anúncios e informações são revelados.

Há algo de podre…

Se por um lado as empresas vão tentar mostrar o melhor de seus produtos, por outro existem algumas práticas que acabam soando estranhas. Um silêncio, omissão ou mesmo mentira que transforma tudo em um circo ainda maior.

A forma como a Microsoft apresentou seu HoloLens junto com Minecraft foi estranha. Uma câmera estaria mostrando aquilo que o apresentador com o equipamento também via. Na conferência víamos uma grande imagem, dando a entender que o jogo com o equipamento é daquela forma. Na realidade, a tecnologia ainda está muito longe de chegar naquele resultado, projetando um campo de visão muito pequeno. Milhares de jogadores se empolgaram com o que efetivamente viram na conferência. E essa foi exatamente a intenção da empresa.


E o que dizer de Shenmue III na conferência da Sony? Um teatro publicitário, um embuste para usar o kickstarter como campanha de marketing. As notícias de que o jogo precisará de outras formas de financiamento para sair, assim como a participação da Sony no processo, indicam que tudo isso já era conhecido, é claro. O próprio desenvolvedor precisou se pronunciar sobre o assunto. Além de enganar os consumidores, isso pode trazer problemas para jogos que são financiados coletivamente. As pessoas podem achar que com quatro milhões se faz um jogo que custou, efetivamente, 50. Isso acaba mudando a expectativa em relação a outros games que só têm o dinheiro do kickstarter, por exemplo. Os jogadores podem começar a cobrar certos resultados tendo como referência jogos com valores maquiados, irreais.

É claro que o aparecimento destes grandes produtores nos sites de financiamento pode aumentar a visibilidade. Mas os problemas que podem vir é algo a se pensar. De qualquer forma, a maneira como a conferência mostra uma coisa que não é exatamente verdadeira acaba ludibriando o público.


Em menor escala, a Nintendo também não ficou de fora de omissões. A falta de anúncios para Wii U pode indicar que a empresa já está apostando tudo no próximo console, de codinome NX. A Big N tem todo o direito de anunciar quando quiser um sistema novo, mas a situação acaba deixando os consumidores no escuro. Nesse caso, a ausência de uma posição acaba atrapalhando, pois muitas pessoas não têm a segurança necessária para adquirir um Wii U neste momento.

A necessidade de sermos céticos

Quando acabam as conferências, uma E3 muito mais honesta começa. Desenvolvedores e empresas dando entrevistas, jornalistas e jogadores podendo experimentar demonstrações maiores dos jogos. O conteúdo que sai após as conferências é vasto, trazendo informações mais concretas dos títulos.

Não estou dizendo que as conferências devem acabar, de forma alguma. Elas têm que continuar, e o objetivo das empresas tem que ser, sim, impressionar e mostrar o melhor dos seus produtos. Cabem aos jogadores e aos veículos especializados, principalmente, ter o pé no chão e não se deixar levar de forma tão fácil. A longo prazo, todos ganham com essa postura. Imprensa se torna mais sólida e ajuda os jogadores a exigirem mais. Estes, por sua vez, não se decepcionam tanto com os títulos, e lidam com a produção destes de forma mais consciente. E por fim as empresas podem trabalhar mais tranquilamente, construindo uma relação diferente com seus fãs.

Revisão: Vitor Tibério
Capa: Angelo Gustavo

Escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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