Crônica

Como Assassin's Creed Unity (Multi) me fez voltar a ser um assassino

Eu quase esqueci que amava essa série, mas felizmente um milagre aconteceu e meu gosto pela vida de assassino retornou.


Assassin’s Creed é uma das mais longas séries da industria de games. Até o momento, são oito jogos principais e diversos spin-offs que acompanham a batalha eterna entre assassinos e templários pelas almas e mentes humanas ao longo do curso da História. Como toda franquia, ela teve seus altos e baixos mas, para um fã como eu, ela havia perdido todo seu prestígio nos últimos títulos. Felizmente, Asassin’s Creed Unity surge como uma luz no fim do túnel para mostrar que a série ainda tem esperança e pode nos inspirar a ser verdadeiros “assassinos”.

Revisitando a História da forma mais interessante

Minha história com a franquia dos assassinos começou de forma curiosa, quando uma colega de faculdade me falou sobre a série. A ideia me parecia bem clichê, nada fora do comum para o mundo dos jogos de ação/aventura, mas, mesmo assim, ela estava fascinada pela história do game. Então, resolvi dar uma chance ao jogo. Na época, já haviam lançado os três primeiros títulos e, quando me interessei em procurá-los, acabei conseguindo apenas Assassin’s Creed II para PC (através de meios obscuros). Eu estava em dúvida se deveria começar pelo segundo título da série ou se deveria me esforçar e procurar o primeiro (o que seria o mais lógico a fazer), mas, como estava muito ansioso, resolvi começar por esse game.

Fazia muito tempo que um jogo não conseguia conquistar minha atenção em apenas alguns minutos de gameplay. Antes de Assassin’s Creed II, nunca havia me sentindo tão imerso na história de um game. Acho que apenas havia me sentindo desse jeito lendo livros ou assistindo um filme mais "profundo". Mas agora, parecia que eu realmente estava na pele de Ezio, caminhando pelas ruas de Florença. Eu quase podia sentir toda a raiva, alegria e frustração do personagem dentro de mim em cada momento que ele vivia. Foi uma experiência incrível. Sem falar que conheci mais coisas sobre a Itália Renascentista através do jogo do que nas aulas de história (Sério, eu poderia até ser guia turístico na Itália).
Ezio Auditore é, de longe, o melhor personagem de toda a franquia.

Depois de terminar Assassin’s Creed II e ter ficado fascinado com a história e o gameplay, decidi que já era hora de conhecer as origens dessa história. Consegui o primeiro game e sentei em frente ao computador para viver a vida de Altair. Apesar de que, comparado ao seu sucessor, o primeiro título da franquia deixava muito a desejar na sua mecânica de combate e no desenvolvimento do enredo, Altair tinha um importante legado a deixar para a série. Além disso, como todo bom "primeiro título", ele cumpria bem o papel de apresentar o quadro da franquia aos jogadores e acostumá-los ao estilo de gameplay.
As missões de Altair podiam ser repetitivas, mas o assassino tinha seu carisma.

Foi assim, com os dois primeiros títulos da franquia devidamente jogados que parti para o jogo que até hoje considero o segundo melhor da série, depois de Assassin’s Creed II. Brotherhood trouxe tudo de bom que seu antecessor tinha e várias melhorias. Ezio estava mais carismático do que nunca e agora que o assassino estava no auge de seu desempenho ele tinha toda Roma para explorar. Poder comandar seu próprio grupo de aprendizes assassinos foi uma adição brilhante, capaz de aumentar o nível de imersão na história do game.
Ezio na sua melhor forma!

O quarto título da série, Revelations, foi uma “relaxada” na franquia. Ele não era nem bom, nem ruim. O jogo foi uma despedida muito merecida a um personagem tão incrível quanto Ezio, e conseguir conectar a vida de Altair com a dele foi uma sacada incrível da Ubisoft para agradar aos fãs. Eu já havia ficado impressionado como a empresa havia sido capaz de recriar toda a Roma de 1510 no título anterior e, vendo o trabalho que eles tiveram para reconstruir Constantinopla (Instambul, da atualidade), eu podia perceber que a criação de períodos históricos com um alto nível de precisão estava se aperfeiçoando.
Revelations foi um final digno para a história desse grande assassino.

Acompanhando a complicada história que cercava a série desde seu começo (misturando ficção científica a fatos históricos verídicos de uma forma genial), as minhas suspeitas eram de que, no ritmo que os acontecimentos ocorriam, o próximo título, Assassin’s Creed III, iria ser o final das aventuras de Desmond e da série. Quem diria que quando eu chegasse no final do game sofreria um desapontamento tão grande...

Decepção tem um novo nome: Connor Kenway

Minha expectativa com Assassin’s Creed III era muito grande. Quero dizer, como muitos fãs, eu acreditava que aquele seria o capítulo final da série, no qual toda a história cheia de emoções e muitos mistérios entre os assassinos e os templários chegaria a um fim. Apesar de o game começar com um enredo promissor com o pai do personagem principal, assim que entrei na pele de Connor foi uma decepção atrás da outra. O assassino era o completo oposto de Ezio. Era ingênuo, sem nenhum carisma e tão profundo quanto um prato ralo. Nem mesmo as novas mecânicas introduzidas no game foram o bastante para corrigir as falhas na construção do personagem.
Connor era um personagem superficial e que poderia ser esquecido.

A situação piorou definitivamente no final do jogo. Para minha infeliz surpresa, o desfecho parecia um clichê de filme da Sessão da Tarde. Fiquei com mais dúvidas do que respostas e o final de Desmond foi um dos fins mais injustos de personagens em games. Naquele momento, fiquei sem imaginar o que poderia resultar daquilo. Obviamente, iriam ser lançados mais jogos. Mas e o que seria da história, um dos pilares da série? Para mim ficou claro que, a partir de Assassin’s Creed III, a Ubisoft estava tornando a franquia sua “galinha dos ovos de ouros” e não iria abandonar ela tão cedo, mesmo que isso significasse sacrificar toda a inovação e genialidade da franquia em prol do lucro.
Toda a jornada e luta de Desmond mereciam um final mais digno.

Já com um pé atrás com a série depois do horrível final do quinto título, quase entrei em desespero em saber que o avô de Connor, Edward Kenway, seria o protagonista do próximo game, Assassin’s Creed IV: Black Flag. Se a personalidade fosse um fator hereditário, eu deveria esperar um personagem tão ruim quanto seu neto. Torci muito meu nariz até decidir comprar o game para o Wii U e, para minha surpresa, não era tão ruim quanto parecia. Claro, ele tinha mais missões marítimas do que assassinatos, combates ou exploração. Em certos momentos, me sentia jogando um game dos Piratas do Caribe e não um “Assassin’s Creed”. Felizmente, Edward parecia uma versão pirata de Ezio, assim eu conseguia simpatizar com o personagem.

Black Fag foi um alívio comparado ao desestre que a jornada de Connor pela revolução americana tinha sido para mim. Mesmo assim, estava longe de ser um título bom da série. O jogo parecia apenas uma correção dos erros que o antecessor havia cometido, mas a franquia estava tomando um rumo que não me agradava nem um pouco. As inovações não eram benéficas, mas apenas adições desnecessárias a uma fórmula que já funcionava muito bem quatro games atrás. Eu estava aos poucos perdendo a fé nos assassinos.
Edward não era tão carismático quanto Ezio, mas pelo menos não era tão chato quanto Connor.

A Revolução Francesa e a volta às origens da franquia

Quando o próximo capítulo da franquia, Assassin’s Creed Unity, foi anunciado, eu já não tinha nenhuma esperança com a série. Na verdade, eu nem era mais fã. A história da eterna guerra entre assassinos e templários já fazia parte de um capítulo da minha carreira gamer que queria deixar no passado. Qualquer pequena expectativa que eu possuía quase se extinguiu após o lançamento do game, quando inúmeros sites alertavam para o número alarmante de bugs que o jogo tinha. Aquilo era uma mensagem clara que o caminho que a Ubisoft tinha dado para a franquia havia sido péssimo e que lançar um Assassin’s Creed por ano não era a melhor decisão.

Mesmo assim, eu tive oportunidade de testar a versão para PC do game, e, acho que se redenção pudesse ser definida com um videogame, Unity seria a escolha perfeita. Além da beleza da reconstrução da Paris do final do século XVIII em meio a Revolução Francesa, o game parecia retornar as origens da série. Em vários momentos, eu me imaginava novamente andando lado a lado com Ezio pelas ruas de Florença, mas, quando olhava para a tela, percebia que estava nas vielas de Paris, na pele de um novo e carismático assassino, Arno.
Arno era o assassino criado na medida certa para o período histórico perfeito.

Finalmente, todos os elementos que haviam tornado Assassin’s Creed a série que eu havia amado estavam de volta. Até mesmo uma característica do primeiro título, que tornava os combates mais verídicos, fazia seu retorno. Agora não era mais possível manter um combate apenas utilizando a hidden blade, fazendo a arma se tornar um instrumento apenas para assassinatos em modo stealth. O jogo estava longe de ser perfeito, mas certamente era o que Assassin’s Creed sempre deveria ter sido.

Não tive dúvidas quando finalmente consegui obter meu PS4 (aliás, primeiro console da Sony que já possuí) que queria experienciar Assassin’s Creed Unity em todo seu potencial em uma tela grande. Sim, o jogo possui falhas e vários bugs, mas nada que prejudique consideravelmente a experiência virtual. Mesmo tornando a série um caça-níqueis, a Ubisoft merece meus cumprimentos por ter recriado toda Paris com tamanha precisão e perfeição para o jogo, portanto, a ocorrência de falhas em um projeto dessa magnitude é algo completamente compreensível (mas não aceitável, claro).
Podem existir muitos bugs, mas a Paris digital do final do século XVIII continua impressionante de se ver.

Agora que o próximo título da série, Syndicate, já foi anunciado para lançamento dia 24 de outubro, a única coisa que posso fazer é ter esperanças. Eu ainda permaneço fã da série e espero que o ritmo mais voltado às origens da franquia iniciado por Unity seja mantido nos próximos títulos. Assassin’s Creed continua sendo uma série com muito potencial a ser explorado, portanto basta utilizar as peças certas para construir uma trama interessante que proporcione uma experiência inesquecível para os fãs e mesmo para novos jogadores.
"We work in the dark to serve the light. We are assassins" Espero que os diretores da série nunca se esqueçam dessa ideia.


Revisão: Alberto Canen
Capa: Ana Carolina

Escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


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