E3 2001: O nascimento do GameCube e o início de uma nova rivalidade

Consoles de nova geração, novas franquias de renome e a disputa cada vez mais acirrada entre as três gigantes pelo mercado de games agitou a E3 2001.


Consagrada como a maior feira de jogos do mundo, a E3 foi palco de mais um grande duelo entre as principais empresas do mercado de games em 2001. Nintendo, Sony e Microsoft fizeram o chão de Los Angeles tremer com a enorme quantidade de títulos de peso para os recém-anunciados consoles de 128-bit. Acompanhe os detalhes deste duelo de titãs que viu surgir séries consagradas e consoles épicos.

Playoffs

Ainda maior do que no ano anterior, a E3 2001 (a primeira E3 que acompanhei) aconteceu novamente em Los Angeles, dividindo atenção com os jogos decisivos da NBA — o time da casa, Los Angeles Lakers, foi o campeão desta temporada. Mas até os amantes do basquete devem ter parado um pouco para acompanhar o confronto de gigantes no Staples Center, entre os dias 17 e 19 de maio.
Até mesmo o título dos Lakers foi ofuscado pela E3 2001.
Depois da saída da Sega do mercado de hardwares após um grande esforço com o Dreamcast, a Sony ficou temporariamente sozinha na disputa pela nova geração, com o seu PlayStation 2. Isso até a E3 2001, quando Nintendo e Microsoft apresentariam suas armas para o duelo.

O evento, aberto apenas à imprensa, reuniu mais de 62 mil visitantes, entre jornalistas, revendedores, produtores e outros envolvidos com o mercado de jogos. Foi nos estandes desta feira que o mundo conheceria, pela primeira vez, franquias que reinariam por várias gerações.
Staples Center, palco da E3 2001.
Sendo assim, vamos relembrar o momento de transição entre gerações na E3 2001, com o nascimento dos sucessores do Nintendo 64 e Game Boy, a enorme quantidade de apostas da Sony para o PlayStation 2 e o trunfo da Microsoft para conquistar uma fatia do disputado mercado de games.

Xbox: a new challenger approaching

Com a cara, a coragem e muito dinheiro, Bill Gates e seu time se preparavam para bater de frente com as duas maiores empresas especializadas em videogames do mundo. Para essa ingrata tarefa, a Microsoft apostava pesado no Xbox, console que prometia ser a mais completa e poderosa máquina de videogames já criada.
Estande da Microsoft na E3 2001.
Mas, na verdade, parece que as coisas não foram bem como a empresa esperava. Que o Xbox se mostraria forte, isso já sabemos, mas naquela E3 eles tiveram muitos problemas. Mesmo mostrando vários títulos, as falhas nas demonstrações e a falta de títulos que realmente surpreendessem não conseguiu condizer com as palavras do Robbie Back, chefe de departamento do Xbox. Segundo ele, "no dia 8 de novembro o Xbox chegará ao mercado e redefinirá o modo como as pessoas jogam videogame."

Uma das maiores apostas da empresa para o mercado de jogos era na interação online. Uma lista enorme de desenvolvedoras que estavam produzindo games com este tipo de conexão foi divulgada na época. Nela, nomes como a Sega, Acclaim, Bandai, Capcom, Konami, Midway, THQ, Ubisoft e outras alegravam os corações mais esperançosos.

Lembrando um computador caseiro, o Xbox tinha mais de 300 jogos em desenvolvimento na naquele período segundo a empresa, dos quais vários deles seriam exclusivos. E entre esses jogos, o mais memorável e clamado era Halo, jogo de tiro em primeira pessoa com elementos de ficção científica.
O primeiro Halo agradou fãs e críticos desde as primeiras imagens.
Halo foi realmente o grande destaque da Microsoft na E3 2001. Mas a imprensa da época também destacou outros pontos da empresa na feira. Dead or Alive 3 e Dino Crisis 3 (exclusivos da plataforma), Onimusha, o sistema operacional que permitia a conversão fácil e rápida de jogos de PC, as funcionalidades online e a compatibilidade com DVDs de filmes foram alguns dos pontos positivos para os especialistas.

Computadores


Brigando por fora, os PCs mantiveram o padrão estabelecido nos últimos anos, mas ainda sem ameaçar o duelo entre as gigantes dos consoles de mesa. Mesmo com títulos de qualidade como Simsville, The Sims online, Star Wars: Galaxies, Tom Clancy's Ghost Recon, Medal of Honor: Allied Assault, Half-Life, Max Payne e Return to Castle Wolfenstein, a agitação e alvoroço acontecia apenas do lado das fabricantes de console

Sega: perdendo a corrida

Infelizmente, o abandono do Dreamcast era cada vez mais visível por parte da SEGA. Mesmo afirmando que daria suporte ao console até setembro de 2002, o estande não trazia entusiasmo, muito menos uma quantidade significativa de bons jogos. A única excessão era Sonic Adventure 2, que, por sua vez, passou quase despercebido na feira, já que para visitar a área ainda era preciso marcar hora, afastando boa parte dos interessados.
Lindo estande na SEGA na E3 2001.
Ainda assim, os que conseguiram visitar o estande encontraram motivos para sorrir. Lá estavam jogos como Sega Sports Tennis, Sega Sports NFL 2K2, Sega Sports NBA, Allien Front Online, Bomberman Online, Phatasy Star Online, Floigan Brothers, Heavy Metal: Geomatrix e outros.

Sony: o time a ser batido

A então líder do mercado de videogames levou uma infinidade de grandes jogos para os seus dois sistemas. O PlayStation recebeu sua última grande leva de títulos e o PlayStation 2 defendia seu trono com grandes produções, principalmente das parceiras da Sony, como Capcom, Activision, EA, Konami, Namco e, principalmente, Squaresoft.
Estande futurista da Sony na E3 2001.
Cada vez mais líder, a Sony mostrou que o grande diferencial do seu console 128-bits era a diversidade. Bons jogos para todos os gêneros podiam ser encontrados pelos corredores do estande. Foi lá que conhecemos Frogger, Tekken 4, Klonoa: Lunatea's Vall e os arrasadores Metal Gear Solid 2: Sons of Liberty, Jak and Daxter, Devil May Cry e Kingdom Hearts.

Entre as vantagens do PS2, destacadas pela crítica especializada que cobriu o evento, estavam os mais de 400 títulos que o console receberia até o final de 2001; a retrocompatibilidade com os mais de três mil jogos do primeiro PS; a rede que permitiria acesso à web; e o disco rígido com 40 GB, que seria lançado naquele ano. É ou não para se animar com tanta coisa?
Dante chegava arrasando na E3 2001.
E a Sony não esqueceu os 80 milhões de donos do primeiro PlayStation. Além de reforçar o lançamento da versão compacta, anunciada no ano anterior, ótimos títulos ainda fizeram alegria dessa enorme galera. Entre eles, Tales of Destiny 2, Disney's Atlantis: The Lost Empire, Drakan, Twisted Metal: Small Brawl, Spider-Man 2: Enter Electro, Harry Potter and the Sorcerer's Stone, Syphon Filter 3, X-Men Mutant Academy 2 e Mega Man X6.

A magia da Nintendo

Na E3 2001 a Nintendo assumiu de vez a postura de não seguir as tendências impostas pelo mercado. Peter Main, vice-presidente de vendas e marketing da NoA na época, começou a conferência antes da feira com um slogan sugestivo: The Nintendo Difference (A diferença da Nintendo). O próprio Satoru Iwata cuidou em explicar a nova postura com os quatro conceitos que ele julgava mais importantes para a empresa: inovação, qualidade, personagens e tradição.
The Nintendo Difference.
Motores aquecidos, era dia de feira. A grande estrela do evento foi o GameCube. O sucessor do Nintendo 64 vinha causando insônia em 10/10 apaixonados pela Big N. E ninguém melhor do que o próprio Shigeru Miyamoto para apresentar o console. Segurando-o com carinho, o mestre apresentou seu novo bebê.

Isso mesmo. Foi com essa palavra que Miyamoto mostrou ao público presente o 128-bit da Nintendo. Mais precisamente assim: “Deixe-me apresentar nosso novo bebê. Como todos os bebês, ele é pequeno... mas faz bastante barulho”.
A Nintendo World #37 — minha primeira revista de videogames — ilustrou bem as palavras do mestre.
O Cubo roxo enlouqueceu os presentes na conferência. Em um relato emocionado na Revista Nintendo World 34, de junho de 2001, Pablo Miyzawa e Eduardo Trivella contaram detalhadamente a sensação de presenciar o nascimento do novo console, destacando a reação da plateia, os vídeos passando em questão de segundos enquanto todos tentavam absorver os detalhes de cada novo jogo. Segundo eles, o primeiro vídeo de Metroid Prime foi o mais aplaudido.

Nintendo World #34, página 22.
Imagine só a reação dos gamemaníacos ao verem as primeiras imagens de Pikmin, novo título do Shigeru Miyamoto? E acompanhar os primeiros detalhes de Mario Kart: Double Dash!!? Deve ter sido uma sensação indescritível. Até o vídeo da demo de Zelda para o GameCube levou a turma ao delírio.
E se você encontrasse o Miyamoto em uma E3? O irmão do Conker encontrou e bateu um papo-cabeça com ele. 
Segundo os dois jornalistas, o estande da Nintendo era gigantesco e o mais visitado de toda feira. Não é para menos. Todos queriam jogar Super Smash Bros. Melee, Pikmin, Luigi's Mansion, NBA Courtside 2002, Wave Race: Blue Storm, Kameo: Elements of Power, Star Fox Adventures, Eternal Darkness, Star Wars: Rogue Leader e tantos outros jogos disponíveis para teste.

[Reação da plateia com as primeiras imagens de Super Smash Bros. Melee na feira]

Game Boy Color e Nintendo 64 também estavam lá, mesmo que de forma discreta. Pokémon Crystal, Dragon Warrior II, Harry Potter and the Sorcerer's Stone, Mega Man Extreme 2, Lufia: The Legend Returns, Harvest Moon 3 e Toki Toki Trouballs fizeram a cabeça dos fãs do portátil. Enquanto Tony Hawk's Por Skater 2 agitou os donos de um N64.
Luigi's Mansion encantou o público.
Mesmo com o brilho intenso do GameCube, a Nintendo ainda tinha o Game Boy Advance nas prateleiras. O portátil de 32-bits fez sucesso na feira. Jogos como Super Mario Advance, F-Zero, Rayman, Tony Hawnk's 2, Earthworm Jim, Mario Kart: Super Circuit, Advance Wars, Breath of Fire, Bomberman Tournament, Banjo-Kazooie: Grunty's Revenge, Castlevania: Circle of the Moon, Mega Man Battle Network, Sonic Advance, e Super Street Fighter 2: Turbo Revival  mostram como o pequeno estava pronto para dominar os bolsos dos fãs.

Os destaques da E3 2001

Com tantos jogos disponíveis para teste e sendo apresentados em vídeos durante os dias de feira, é até difícil comentar sobre tudo. Mas alguns jogos se destacaram e sobraram na feira. Confira quem realmente marcou seu nome na história da E3.

Final Fanrtasy X, jogo da Square para PS2, trazia vídeos das primeiras imagens das aventuras de Yun e Tidus. Nem é preciso comentar o detalhamento gráfico dessa belezura, não é?


A versão de Super Smash Bros. também mostrou as caras na E3 2001. Com belíssimos gráficos tridimensinais e jogabilidade 2D, o palco das lutas mais alucinantes dos videogames aumentou o hype da galera que esperava pelo GameCube. Além disso, as primeiras imagens de Luigi's Mansion impressionavam pela perfeição, principalmente os efeitos de sombra e luz. Some a isto a presença de Fox McCloud no jogo que seria Dinosaur Planet.

E para provocar a concorrência, a Microsoft ostentou na movimentação dos personagens e na imensa quantidade de polígonos usados nos efeitos, cenários e personagens de Dead or Alive 3, jogo de luta que, segundo os redatores da época, não devia em nada às melhores cenas de computação gráfica da época, porém, renderizado em tempo real.

A continuação do aclamado Shenmue também esteve lá. Desta vez, Ryo Haduki voltaria a caçar o assassino de seu pai, agora em Hong Kong, no Dreamcast.

Tony Hawk's Pro Skater 3 trazia as manobras radicais do skate para o PS2, com muito mais realismo e diversão, enquanto Devil May Cry apostava numa jogabilidade frenética, muita ação e no carisma de Dante, protagonista do título.

Prontos para se jogar na nova geração?

Foram três dias intensos, nos quais se viram consoles surgirem, jogos lendários apresentados e o fim de uma grande rivalidade sendo substituída por um combate a três. Jogadores do mundo todo faziam suas apostas. Quem será que levaria o mercado de videogames depois dessa E3? Seria o GameCube o responsável por destronar o PS2? O Xbox chegaria para acabar com o império das duas gigantes? Ou a Sony seguiria comandando a situação? Espere pela E3 2002 para saber algumas dessas respostas.


E você, caro leitor? Acompanhou essa E3? Torceu pela sua empresa favorita? Conte-nos suas experiências em 2001, enquanto Los Angeles presenciava o mercado de videogames fervendo.
Revisão: Vitor Tibério
Capa: Angelo Gustavo 

Confiram os artigos sobre as E3 anteriores:



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