Discussão

Ego e orgulho. Vamos falar sobre o lado feio das comunidades de jogadores

Gelo e água são diferentes e ao mesmo tempo iguais. Da mesma forma, as pessoas tratam com a mesma relevância uma opinião pessoal e um... f... (por Unknown em 21/09/2013, via GameBlast)

Gelo e água são diferentes e ao mesmo tempo iguais. Da mesma forma, as pessoas tratam com a mesma relevância uma opinião pessoal e um... fato. Entretanto,a diferença entre uma opinião e um fato, é muito maior que a diferença entre o gelo e a água. E é o egocentrismo que faz com que as pessoas reajam como se sua opinião, sua maneira de pensar, fosse tão importante e relevante, que deve ser aceita como fato por todos. E hoje, é esse tipo de comportamento egoísta e rancoroso que discutiremos.

Identificando o indivíduo


Não há erro algum em desejar que outros pensem como você. Afinal de contas, ninguém escolhe errar, ninguém escolhe o pior. Logo, todos tem total convicção de suas opiniões como o correto e melhor. É usando o bom senso que podemos ponderar e considerar aceitar que a ideia de terceiros faz mais sentido e é a melhor opção. E é aqui que o progresso de alguns consumidores do mercado de games encerra. Nesse ponto de "aceitar que a ideia de outro é a correta". Você mesmo, caro leitor, já deve ter visto muitas e muitas vezes a eterna briga de empresa X contra empresa Y. Não que as empresas sejam, de fato, inimigas, mas na concepção daquele consumidor, que escolheu uma empresa, ela é a melhor. E apenas ela, todas as outras são inferiores em todos os aspectos. O que antigamente era Nintendo contra SEGA, atualmente fica entre Sony, Microsoft e Nintendo.

O que me leva a pensar: por qual razão essas pessoas agem dessa forma? Por qual razão, a confirmação de que sua escolha é a melhor, é tão importante? Não basta o indivíduo acreditar: todos à sua volta precisam acreditar e confirmar. Para isso, diversas possibilidades vem em minha mente. A primeira é a realização profissional. Muitos não trabalham com o que querem, com o que desejam. E quando veem alguém trabalhando com aquilo que poderia ser o seu sonho, toma em sua mente que aquela pessoa tem a obrigação de ser melhor que ele. Talvez como "se eu não posso ser e você é, pelo menos seja melhor que eu". E fazendo isso em forma de apoio seria excelente, mas como essa pessoa é amargurada e triste por não ter atingido seu objetivo, ele faz isso ofendendo, agredindo, e todo e qualquer tipo de afronta que possa fazer com seu "alvo": ele o odeia, ele tem algo que ele não conseguiu. Em uma categoria semelhante temos a realização acadêmica: o indivíduo odiar alguém por estudar (ou já ter estudado) algo que ele "sempre sonhou". Uma terceira possibilidade pode ser a realização social, que ele calcula não apenas por sua aceitação entre amigos, mas até com o fato de ter uma "namorada gamer" ou não! Se ele não tem, ninguém pode ter, e todas que parecem ser estão erradas: ele não odeia elas, apenas odeia o fato de não ter conseguido uma.

Certo, então sabemos que o hater tem inveja de seu alvo, por questões sociais, profissionais, ou tantas outras possibilidades. Inveja do fato de seu alvo ter o que ele não tem, e isso, por algum motivo, dá a ele o impulso de agredir seu alvo. E "impulso" por ser algo emocional, não racional. Ele sabe que está errado. E é por esse motivo que se aproveita do anonimato da internet para ofender pessoas que não gostam do jogo que ele gosta ou que gostam de algo que ele odeia, por exemplo.

Conclusão: O hater é alguém insatisfeito com sua realização pessoal e que desconta sua tristeza como ódio em cima de seus alvos (geralmente pessoas que se realizaram onde ele não conseguiu).

Odeio, mas gosto

Antes de tudo, vamos acordar aqui que "sonho" não é ficar sentado e parado. Não é justo alguém culpar a vida por não ter atingido seu sonho, sendo que ele nunca fez por onde. Nossos dias são recheados de oportunidades, e quem realmente tem interesse em seu sonho, realiza. E isso não é um discurso motivacional, é a realidade. E o hater sabe que está errado.

A história começa a ficar mais séria quando ofensas podem ser consideradas abuso moral. E também podem ser consideradas crime. Recentemente, o tão popular Phil Fish (criador de FEZ), informou por meio de sua conta pessoal no twitter que desistiu de continuar trabalhando em FEZ II. Muitos começaram a atacar ele por isso. E esse não é o ponto. Para quem acompanhou a história da produção de FEZ, viu como frequentemente Fish recebeu ameaças por contas anônimas na internet, apenas obrigando-o a terminar o jogo rápido. E estejam certos, não foi nenhum patrão dele. Esses usuários de redes sociais (com contas anônimas, muitas vezes) agrediam verbalmente Phil Fish e "lembrando-o" (ahn?) de como ele tinha a obrigação de terminar aquele jogo. Pessoal, para tudo. Ele nunca teve obrigação alguma. E os abusos continuaram até depois do lançamento de FEZ, onde muitos falaram que boicotariam as vendas no Steam, mas o jogo foi de longe um sucesso de vendas. Caso semelhante nós temos com David Vonderhaar, no qual ofenderam ele por uma simples mudança na franquia Call of Duty, mas mais uma vez: o número de vendas foi muito superior aos haters.

Não sou o senhor da verdade, mas posso acreditar que até mesmo aqueles que ofenderam Fish e Vonderhaar, estavam no meio dos consumidores de FEZ e Call of Duty. E pior: mesmo que gostem dos jogos, negaram em público, pois seu ego não permite que ele volte atrás e reconheça que falou besteira. Afinal de contas, na cabeça desses haters, eles tem alguma reputação a zelar. Mas quase ninguém lê ou dá importância para comentários em YouTube. Na cabeça do hater, ele é o centro do mundo. Mas no mundo, seus comentários são irrelevantes.

Eu estou aqui

Certo, eu disse que ninguém da importância para comentários do YouTube. Entretanto, o dono do vídeo tem total direito de deletar os comentários que não foram agradáveis. E é aqui que o hater tem sua realização. Arrisco dizer que eles tenham orgasmos nesse momento. Ao logar no YouTube, buscar seu comentário e ver que ele foi deletado (ou receber alguma mensagem notificando isso), ele tem a confirmação de que atingiu seu objetivo: ele conseguiu ofender. A ofensa, na verdade, é receptiva. Ninguém "escolhe ofender". As pessoas podem tentar ofender, mas a chance de sucesso varia muito de como o receptor tratará aquela mensagem. Por exemplo, na escola, sempre tem o espertão que quer colocar apelidos nas pessoas. E aí há dois tipos de crianças: aquela que não gosta do apelido e reage negativamente ou aquele que aceita e até ri. No segundo caso, toda motivação do espertão esvanece. No primeiro caso, ele praticamente recebe um "boost" em seus atributos para continuar o apelido pejorativo buscando ofender a pessoa. É isso que ele quer, o mundo reagindo a ele, é a pequena felicidade que terá em meio a vida amargurada. Pensem melhor antes de deletar comentários em seus vídeos!

O impacto disso é claramente emocional. Uma pessoa mais fraca emocionalmente é quem executará esse tipo de ação. E, no mesmo peso, são pessoas mais fracas emocionalmente que se sentirão ofendidas e podem deletar ou bloquear. E não me entendam mal: não significa que todos que bloqueiam esses indivíduos são fracos emocionalmente. Mas saibam que dar essa atenção ao provocador apenas aumentará o abuso moral. A realização dele é ver seu alvo tão infeliz quanto ele.

Tá, o que tudo isso tem a ver com videogames?

Não é de hoje que o multiplayer é o melhor modo de jogar videogame. Mesmo na época dos 16-bits, jogar com os dois controles conectados dobrava a proporção da diversão. Ou até mesmo compartilhar aquela ficha no fliperama. Atualmente é raro um jogo que funcione bem sem um multiplayer. Podemos citar a nova franquia de Batman e Assassin's Creed, mas são poucos. Eu mesmo, dias atrás, fui confirmar com uma amiga se o Skullgirls do Steam tinha o modo multiplayer, pois se não tivesse, eu nem compraria.

Em razão do multiplayer, jogadores se organizam em comunidades pela internet para encontrar oponentes e aliados. E por conveniência, muitos utilizam nomes falsos para se comunicar (vamos lá, com tantos João seria difícil de saber quem é quem). Ao mesmo tempo, essa falsa identidade os protege para quando quiserem falar... qualquer besteira. Não apenas mentir, mas também ofender e tantas outras coisas que eles não podem fazer pessoalmente, pois as pessoas que conhece pessoalmente sabem seu nome e talvez até saibam onde ele mora: aí, para acontecer algo sério é muito mais rápido e fácil do que um "EvilKnight" ou "DarkShadow" qualquer.
Até que ponto conhecemos nossos amigos reais e virtuais? Com a máscara de internet, muitos agem completamente diferente do que agem pessoalmente, seguros e confiantes de que suas ações não serão punidas. A busca pelo reconhecimento, o momento do real desabafo em forma de ações moralmente abusivas e a realização de ter a atenção de alguém, são pontos que fazem aquele seu amigo gentil e legal, ser um imaturo e inconsequente enquanto envia mensagens em comunidades de jogadores.

Revisão: José Carlos Alves
Capa: Leandro Correia


Escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.
Este texto não representa a opinião do GameBlast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Escrevemos sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0 - você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


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