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Análise: esqueça de vez o survivor horror e encare a ação desenfreada repleta de bugs de Resident Evil 6 (PC)

Para quem teve a felicidade de jogar todos os jogos da série principal da franquia Resident Evil, é quase impossível não fazer compar... (por Jones Oliveira em 25/05/2013, via GameBlast)

Análise: esqueça de vez o survivor horror e encare a ação desenfreada repleta de bugs de Resident Evil 6 (PC)

Para quem teve a felicidade de jogar todos os jogos da série principal da franquia Resident Evil, é quase impossível não fazer comparações entre o que a série se tornou e a proposta original de 1996 do primeiro Resident Evil. A partir de Resident Evil 4, a franquia tomou um novo rumo ao ganhar elementos de ação que aos poucos se sobrepuseram aos originais de survivor horror. E se Resident Evil 5 foi o responsável por amadurecer tais elementos, Resident Evil 6 os consagra (com algumas falhas) de uma vez por todas e põe uma pedra no passado de terror que um dia a série já teve.

Chegando atrasado na festa dos PCs

Lançado em outubro de 2012 para PlayStation 3 e Xbox 360, Resident Evil 6 foi recebido com algumas críticas negativas de boa parte da mídia especializada. Surgiram reclamações de toda espécie, desde as texturas pobres utilizadas no jogo até o roteiro sem profundidade, passando pelo posicionamento da câmera e bugs bizarros de diversas naturezas.

Os donos de PC, no entanto, tiveram que esperar cerca de seis meses até que o jogo chegasse às suas casas. A demora devida à portabilidade do título foi tolerada por seus jogadores graças à esperança de um jogo mais bem acabado, caprichado e sem as falhas apontadas pela comunidade.

De fato, à primeira vista, parece que a Capcom se preocupou em fazer mais do que uma simples adaptação de Resident Evil 6 para as telas dos computadores. Tal qual foi feito com o quinto jogo, a empresa disponibilizou uma ferramenta de benchmark para evitar surpresas desagradáveis (leia-se comprar o jogo e ele não funcionar). Contudo, a ferramenta peca por fazer suas medições com cenas que inexistem na versão final do jogo e que cujos gráficos foram preparados única e exclusivamente para exaurir sua placa gráfica. Nem um computador superpotente da NASA será capaz de receber um escore satisfatório da ferramenta, já que nem de longe ela representa a realidade do jogo final.

Passado o desengano proporcionado por ela, você compra o jogo e descobre que RE6 funciona na sua máquina e ei, alguns ajustes realmente foram feitos nesta versão! Alvo de várias reclamações dos jogadores de consoles, agora a câmera ganhou algumas possibilidades de ajustes que definem como ela deve se comportar em situações específicas, como onde deverá se posicionar em momentos de fuga, por exemplo. Tais ajustes, no entanto, não impedem que nos irritemos quando ela insiste em se posicionar de maneira a valorizar o cenário e a ação, quando na verdade você tenta desesperadamente enxergar de onde está vindo um maldito ataque.

Tão misterioso quanto sua personagem, o caso dos DLCs em disco nos consoles foi solucionado e agora o jogador tem a disposição a campanha de Ada Wong e muito mais
Causador da ira de muitos fãs e um mal estar enorme à Capcom, outro ponto polêmico na versão dos consoles foi a presença de conteúdos adicionais bloqueados no disco do jogo. Por sorte (ou porque a empresa tomou vergonha na cara), a versão para PCs já traz a campanha (e o co-op) de Ada Wong e a dificuldade No Hope desbloqueados.

Além disso, talvez como uma forma de recompensar os fãs ou simplesmente agradá-los, a empresa japonesa adicionou um novo modo exclusivo intitulado The Mercenaries: No Mercy, que aumenta consideravelmente o número de inimigos na tela (e consequentemente a dificuldade), além de disponibilizar um DLC gratuito que inclui personagens de Left 4 Dead 2. Mas a empolgação toda para por aí.

Apesar de interessante, o DLC que adiciona personagens de Left 4 Dead 2 não faz nada além disso

Um déjà vu nada legal

Jogar Resident Evil 6 no mouse e teclado não é das experiências mais fáceis e nem de perto tão agradável quanto gostaríamos. Apesar dos controles serem completamente customizáveis, em muitos momentos vem a tona a terrível lembrança dos criticados e desengonçados controles de Resident Evil 5. É comum confundir os botões de ação (o de recarregar a arma é o mesmo de colher itens, mas é diferente do de abrir portas) e por muitas vezes você usará uma erva quando na verdade tinha a intenção de mixá-la. Possuir um controle apropriado ajudará bastante, mas não solucionará todos esses problemas de uma vez.

As tão criticadas texturas continuam sendo o "calcanhar de Aquiles" do jogo. Existe uma diferença que chega a ser irônica entre o excelente trabalho dispensando na textura dos personagens principais e as do cenário. Em vários momentos é possível perceber texturas pobres, totalmente quadradas, granuladas e borradas. As sombras dos personagens são igualmente sofríveis e um bom exemplo de desleixo e descuido. Mesmo rodando o jogo no máximo, as sombras se parecem com lençóis repicados projetados nos corredores e paredes.

É irônica a diferença existente entre a qualidade dos personagens e de algumas texturas do jogo
É irônica a diferença existente entre a qualidade dos personagens e de algumas texturas do jogo
É irônica a diferença existente entre a qualidade dos personagens e de algumas texturas do jogo
Por falar em desleixo, queremos acreditar que a programação de Resident Evil 6 não foi feita por um sobrinho ou afilhado de algum diretor da Capcom. Isso porque o jogo apresenta falhas bizarras que nem o lançamento de um patch de correção de bugs foi capaz de solucionar. Em alguns momentos é possível testemunhar personagens andando “dentro” de cercas e paredes, já em outros podemos atirar através das paredes. Mas esses bugs nem atrapalham tanto e são até divertidos. A coisa fica feia mesmo quando você tenta acertar um inimigo que está na sua frente com tiros ou socos e ele simplesmente não é atingido. Isso irrita (e mata) bastante.

Novidades que agradam a vivos e zumbis

Se por um lado algumas falhas ainda insistem em marcar presença, por outro todas as inovações (boas e ruins) propostas pelo jogo aparecem nesta versão. Talvez a maior delas seja o aprimoramento da movimentação dos personagens, que depois de 17 anos finalmente aprenderam a mirar, atirar e caminhar ao mesmo tempo. Some a isso a adição de novos movimentos de esquiva e você terá um leque razoável de possibilidades para bolar boas estratégias de ataque e defesa. Pule ou role para os lados para desviar de ataques; corra, escorregue pelo chão e atire ao mesmo tempo para um ataque incisivo ou simplesmente caia para trás e atire no melhor estilo Matrix para se proteger de um ataque e detonar o inimigo ao mesmo tempo. Com esses novos movimentos a ação ficou muito mais dinâmica e emocionante.

Por falar em detonar o inimigo, uma surpresa agradável foi a incorporação dos ataques físicos à jogabilidade. Eu sei, essa opção já existia nos dois títulos anteriores, mas apenas como movimentos de finalização. Aqui a coisa vai a outro nível e é possível matar vários zumbis com coronhadas, pontapés, socos, ganchos e até mesmo esmagando suas cabeças no cenário. Mas tome cuidado, pois um sistema interessante de vigor também foi adicionado e o seu personagem pode perder o fôlego com tanto esforço, precisando de um tempo para se recuperar. Sensacional!

Eles aprenderam tudo de uma só vez. Após 17 anos, agora é possível andar e atirar, correr e recarregar, saltar (e deslizar, e cair pra trás) e atirar.E se a coisa ficar russa, não se desespere! Agora, além de andar e correr, você tem a possibilidade de correr em disparada feito um louco quando existem mais inimigos que suas armas e munição podem dar conta. Curiosamente correr desta forma não afeta sua barra de vigor.

Outra novidade é a presença dos Quick Time Events (QTE) como tentativa de dinamizar a execução de algumas ações e movimentos específicos. Apesar de presente em títulos anteriores, aqui os QTEs receberam atenção especial e estão por todas as partes. E quando falamos por todas as partes, realmente queremos dizer isso. Depois de um tempo você enjoará dos QTEs e irá perceber que a Capcom prostituiu seu uso. Ao invés de tornar o jogo mais dinâmico, como deveriam, os eventos acabam por deixá-lo chato, enfadonho e até mesmo frustrante.
Prepare-se para ver muitos QTEs durante as 24 horas do jogo. É tanto QTE que eles ficam enfadonha e tornam a jogatina chata
Prepare-se para ver muitos QTEs durante as 24 horas do jogo. É tanto QTE que eles ficam enfadonha e tornam a jogatina chata

Conteúdo para dar e vender, literalmente

Apesar das falhas e defeitos, RE6 se sobressai em relação a todos os outros quando o assunto é conteúdo. Ao todo são quatro campanhas principais de estilos e atmosfera próprios, compostas cada uma por cinco capítulos que levam entre uma e duas horas para terminar. Somando tudo, temos um jogo com cerca de 24 horas de gameplay – algo raro para os dias de hoje.

A campanha de Leon é a que talvez mais agrade os fãs mais antigos da série. Nela a Capcom conseguiu resgatar um pouco do clima sombrio original da franquia, trazendo de volta zumbis clássicos, corredores estreitos e escuros e um ritmo mais cadente e menos frenético.

A campanha de Leon abre espaço, mais uma vez, para umas trocas de olhares, digamos, mais sensuais
Por outro lado, a atmosfera da campanha de Chris nos lança de paraquedas em cenários recheados de explosões, com inimigos capazes de manusear armas e muitos tiroteios. A sensação agradável proporcionada pela campanha anterior dá vez a ação frenética (e quase sufocante) que nos faz lembrar Resident Evil 5 e Call of Duty (só que em terceira pessoa). De todas as campanhas, esta é a que menos empolga e mais possui bugs.

Explosões e muitos tiros fazem a campanha de Chris ser cheia de adrenalina e ação
Jake aparece como o único personagem principal novato do jogo. Contudo, sua companheira Sherry Birkin é velha conhecida de todos os fãs da série. Os cinco capítulos de sua campanha estão recheados com sequências cinematográficas que mostram a fuga da dupla de uma gigantesca arma biológica e que nos conta sobre quem é o novato e sua importância para com os acontecimentos do jogo.

A campanha de Jake e Sherry foge um pouco à regra dos novos e antigos Resident Evils. Grande parte das missões ocorre durante o dia e há muitas sequências cinematográficas
A campanha de Jake e Sherry foge um pouco à regra dos novos e antigos Resident Evils. Grande parte das missões ocorre durante o dia e há muitas sequências cinematográficas
A outrora bloqueada campanha de Ada Wong surge como uma agradabilíssima surpresa por vir recheada de puzzles que nos fazem lembrar os antigos desafios da série. Além disso, seu enredo é o mais bem elaborado de todos e o principal responsável por deixar a fraca história do jogo um pouco mais interessante.

A bela e misteriosa Ada Wong traz uma campanha surpreendente, reveladora e com alguns puzzles que nos lembra os antigos REs
É evidente que com tanto conteúdo e tantas horas de jogo, a Capcom cumpriu com o prometido ao entregar mais do que “três jogos em um”. As quatro campanhas comportam-se como jogos de estilos e características diferentes e cujas histórias se cruzam em vários momentos. E para os que não se contentarem com o modo principal, estão à disposição os divertidos modos Agent Hunt, The Mercenaries e os adicionais Predator, Survivors, Onslaught e Siege que podem ser comprados à parte.

Um jogo de tiro com traços de Resident Evil

O esforço da Capcom para tornar Resident Evil 6 um jogo agradável e adorado pelos fãs é evidente. O elenco foi bem pensado, reúne quatro dos personagens mais famosos da série e agrada tanto a novos quanto a antigos jogadores. O enredo também surpreende inicialmente por fazer várias referências aos antigos jogos da série, o que enriquece e nos arranca alguns bons sorrisos e lembranças. Apesar de algumas texturas pobres, os elementos visuais que compõem os cenários são numerosos, com muitas luzes e reflexos. A coisa fica mais bonita ainda quando ocorrem explosões que nos faz perder o fôlego.

Apesar de algumas falhas, explosões e tomadas cinematográficas mostram a ambição visual de Resident Evil 6
Apesar de algumas falhas, explosões e tomadas cinematográficas mostram a ambição visual de Resident Evil 6
Se por um lado o game é capaz de surpreender dessa forma, por outro ele é capaz de decepcionar e frustrar muitos jogadores. Para uma franquia que (deveria) preza pela história, a de RE6 é rasa e não tem nenhuma relação a quaisquer jogos anteriores da série. Conhecer o passado da franquia ou entendê-la não é pré requisito para avançar no jogo. Seu texto é confuso e seu entendimento é difícil e desafiador até mesmo para aqueles que terminam as quatro campanhas. Neste ponto fica evidente a valorização excessiva da ação em detrimento à história principal.

É difícil admitir, mas talvez o que mais atrapalhe RE6 seja exatamente o seu título, que lhe rende inúmeras comparações. Para um RE, este jogo está carregado com muitas falhas, que vão do desleixo até sérios problemas de programação. São poucos os elementos que consagraram a franquia, a exploração dos cenários inexiste e nem mesmo as inéditas legendas em português são capazes de salvá-lo de críticas e julgamentos.

Mas se olharmos para ele apenas como um jogo genérico de tiro e ação em terceira pessoa, RE6 se torna um título agradável, cuja qualidade é aceitável. Apesar de medíocres, sua história e visual conseguem entreter os menos exigentes, novatos e marinheiros de primeira viagem. Quanto aos inimigos, ao contrário do que se pode imaginar, a grande quantidade deles não oferece muito desafio, sendo este oferecido apenas pela quantidade de munição que o jogador tem a disposição.

História para que te quero? Para Resident Evil 6, pouco importa se você conhece esses dois cidadãos ou não.
Para jogar e curti-lo da maneira apropriada é preciso esquecer o passado de survivor horror que a série um dia já teve. É claro que uma vez ou outra o jogo o lembrará disso, mas não espere por mais. Por na cabeça de uma vez por todas que RE agora se trata de ação ajuda bastante, mas talvez o que mais ajude é pensar que, para o bem ou para o mal, Resident Evil 6 é o que temos para hoje.

Prós

  • Elenco de estrelas consagradas: Leon S. Kennedy, Chris Redfield e Ada Wong;
  • Retorno da adorável e agora crescida Sherry Birkin;
  • Muito conteúdo e cerca de 24 horas de gameplay nas campanhas;
  • Finalmente os personagens podem atirar enquanto andam, rolam, pulam ou deslizam;
  • Incorporação de ataques físicos a jogabilidade e um excelente sistema de vigor;
  • Vários modos para serem jogados;
  • Excelente jogo de ação e tiro em terceira pessoa.

Contras

  • História confusa e rasa demais que nem de longe lembra os Resident Evils originais...
  • (eles só são lembrados pelas texturas e sombras pobres, que faz acreditar num certo desleixo da Capcom);
  • Muitos erros de programação, mesmo após a liberação de um patch de correção de bugs;
  • Apesar dos cenários visualmente ricos, sua exploração é inexistente;
  • Controles desengonçados e confusos, principalmente no mouse e teclado;
  • Pouquíssimos puzzles e baixa dificuldade;
  • Uso excessivo de QTEs torna a ação enfadonha e chata. É QTE para abrir portas, se soltar de inimigos, escalar paredes, mirar, atirar, atacar, defender...
Resident Evil 6 – PC – Nota: 8.0
Revisão: Jaime Ninice
Capa: Douglas Fernandes

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