Game Music

Game Music: O perfeccionismo de Yasunori Mitsuda

Yasunori Mitsuda , hoje mais conhecido pela trilha sonora de Chrono Trigger , possui uma carreira e um portfólio admiráveis. Sua estreia... (por Érika Mitie Honda em 31/03/2013, via GameBlast)

Yasunori Mitsuda, hoje mais conhecido pela trilha sonora de Chrono Trigger, possui uma carreira e um portfólio admiráveis. Sua estreia com Chrono Trigger já data de mais de quinze anos e as canções por ele idealizadas permanecem até hoje no coração dos fãs, dos quais muitos consideram as músicas como ponto forte do jogo. Contudo, a vida e obra de Mitsuda não se resume a apenas um jogo, suas demais obras e suas escolhas influenciaram muitos jovens compositores com o passar do tempo. Vamos conhecer a trajetória desse que é um dos maiores gênios da composição de obras musicais para o mundo dos videogames.

A fama de Mitsuda

Chrono Trigger foi sem dúvida um dos seus trabalhos mais famosos e também foi o jogo que o introduziu na Indústria de Games com o papel de compositor. Nesse primeiro trabalho, a dedicação e a pressão eram tão grandes que Mitsuda chegou a ter sérios problemas de saúde até que toda a trilha sonora estivesse finalizada. Esse tipo de comportamento ainda chegou a se repetir em alguns de seus trabalhos seguintes.

Chrono Trigger garantiu sua entrada ao mundo musical dos Games
A aceitação de seu trabalho em Chrono Trigger foi tremenda e o compositor passou a ser convocado para a criação de novas trilhas sonoras de muitos outros jogos. O seu segundo trabalho foi em Front Mission: Gun Hazard e depois desse vieram os memoráveis Xenogears e Chrono Cross, ambos lançados para PlayStation One.

Shadow Hearts, Xenosaga, Xenoblade e Inazuma Eleven são outros exemplos de obras populares, cada qual merecendo seu devido destaque em posts futuros aqui no Blast.

Toda carreira tem um início

Yasunori Mitsuda, nascido em 21 de janeiro de 1972, passou sua infância e adolescência sem dar muita bola para o mundo musical, dando preferência a esportes. Quando ainda era criança chegou a ter aulas de piano, desistindo rapidamente por afirmar não gostar de praticar. Porém, como gostava muito de acompanhar e assistir filmes, acabou se interessando muito pela música, especialmente influenciado pelas trilhas sonoras dos filmes Blade Runner, de Vangelis, e A Pantera Cor de Rosa, de Henry Mancini.

Decidido a se tornar compositor de trilhas sonoras de filmes e encorajado pelo pai e pela irmã, Mitsuda resolveu se mudar para Tokyo com o intuito de se profissionalizar na carreira. Ingressando na Junior College of Music, sua vida no mundo da música estava iniciada.

Por não ter muito conhecimento no ramo da música, Mitsuda encontrou certa dificuldade em se adaptar aos estudos. Dispondo de grande dedicação, o futuro compositor voluntariou-se em trabalhos extracurriculares com professores, ajudando a carregar equipamentos, instalar e a configurar ambientes. Chegou a trabalhar como assistente de som de uma empresa de desenvolvimento de jogos nos últimos anos de graduação. Todo esse esforço proporcionou a ele uma vivência sobre o mundo real do ramo da música, sem os muros da universidade.

Possuía experiência com a área de programação, algo incomum entre profissionais da área. Sempre mostrou grande interesse por computadores, criando composições musicais para jogos que ele mesmo programava.

Após sua graduação e a procura de emprego, ficou sabendo de uma vaga divulgada pela Square. Com o pensamento de que isso ajudaria a alavancar sua carreira como compositor decidiu se inscrever.

Carreira na Square

A entrada na empresa, segundo o próprio Mitsuda, pode ser chamada de desastrosa. Porém, ainda assim bem sucedida. Seguindo a vaga divulgada pela Square, a empresa que viria a ser a atual Square Enix, o candidato surpreendeu a todos presentes, incluindo Nobuo Uematsu e Minoru Akao, ao dizer que considerava a vaga apenas como um passo para evoluir na profissão e que tampouco havia jogado os jogos das principais franquias da época, como Final Fantasy. Ainda assim, como sua experiência técnica era excelente e seus trabalhos enviados eram de excelente qualidade, ele foi admitido em 1992.

Apesar de ser admitido com o cargo de ‘compositor’, iniciou a saga na Square como responsável por tratamento e criação de efeitos sonoros, trabalhos esses mais relacionados à engenharia de som do que a composição.

Ainda que não estivesse exercendo a função que de fato almejava, seu perfeccionismo com detalhes logo deu a ele a fama de ser o mais meticuloso e detalhista quando o assunto era som. Com conhecimento técnico e experiência, Mitsuda logo tornou-se referência no assunto.

Durante esse período, trabalhou em jogos como Final Fantasy V e Secret of Mana. Porém, passados dois anos na empresa, Mitsuda decidiu por uma ação mais radical, caso quisesse trabalhar de fato com composição. Chamou Hironobu Sakaguchi, vice-presidente na época, e disse-lhe que ou deixavam ele compor ou sairia da empresa. Sakaguchi entendeu o recado e o incluiu no time que estaria trabalhando em Chrono Trigger, um novo RPG da Square.

Chrono Trigger, Xenogears, Chrono Cross

O jovem compositor, impulsionado pela oportunidade lhe dada, dedicou-se ao máximo para compor as 54 músicas de Chrono Trigger creditadas a ele. Mitsuda trabalhou noite e dia, muitas vezes mal dormidas, até que o exagero tomou conta do seu organismo e o mesmo entrou em colapso, tendo que ser hospitalizado. Dessa maneira, as últimas faixas da trilha sonora do jogo acabaram por ser feitas pelo veterano Nobuo Uematsu.

Yasunori Mitsuda em um dos mais
 famosos finais de Chrono Trigger
Seu esforço foi recompensado pela grande aceitação que o jogo teve, tanto na parte técnica quanto musical. As músicas foram elogiadas por conectar de maneira perfeita as diferentes épocas temporais do jogo. Com o tema de viagem no tempo, a trilha sonora inclui músicas de variados estilos, ritmos e gêneros. Podemos notar nas canções uma variação mais próxima ao jazz do que da música orquestrada, até então mais comum em músicas de jogos.

Apesar de o próprio compositor considerar Chrono Trigger como um ponto importante de sua carreira, ele confessa que suas músicas nesse jogo ainda eram imaturas, ainda que combinassem com o aspecto do jogo. Acreditava que as músicas só faziam sentido no contexto do jogo, fora dele perdiam o valor.

Após Chrono Trigger, Mitsuda fez músicas para Front Mission: Gun Hazard, Radical Dreamers e Xenogears, sendo esse último um dos pontos altos para sua maturidade musical. Em Xenogears notamos a influência da musica celta. A intenção desse jogo era de possuir uma estória mais adulta e séria comparado a série Final Fantasy, produzindo, assim, canções mais elaboradas, emotivas e adultas. "Small Two of Pieces", canção de encerramento do jogo, foi a primeira balada em um jogo da Square.
Small Two Of Pieces - Restored Shards by Yasunori Mitsuda on Grooveshark

Seu último trabalho pela Square foi com Chrono Cross, talvez sua segunda obra mais popular. Suas canções, sendo muitas releituras de Chrono Trigger, possuem maturidade técnica e evolução em relação ao seu jogo precursor. Muitos leitores podem não conhecer nem o jogo e nem a trilha sonora, mas certamente já ouviram o tema de abertura "Scars of Time", tema esse adaptado para diversos concertos no mundo todo.
Time's Scar by Yasunori Mitsuda on Grooveshark

Independência e estúdio próprio

Com a finalização de seu trabalho com Chrono Cross, Yasunori Mitsuda decidiu deixar a Square e partir para novos desafios. O compositor acreditava conseguir fazer mais e melhor fora da grande empresa e caminhar livremente sob seus próprios pés. Essa é uma realidade de muitos profissionais da área e a sua saída inspirou outros a fazerem o mesmo no futuro.

Com a nova carreira de freelancer, Mitsuda criou canções para jogos como Xenosaga, Shadow Hearts e Luminous Arc. Também criou canções para o anime Inazuma Eleven e o jogo homônimo, além de criações independentes como Kirite (grafia oficial kiЯitɘ).

kiЯitɘ: álbum colaborativo com Masato Kato


Sua desenvoltura em lidar com pessoas e diversas áreas possibilitou a criação do seu estúdio, Procyon Studio, junto com a gravadora Sleigh Bells, onde além de composições também desenvolve soluções para engenharia de som, sendo o KORG DS-10, um sintetizador para o Nintendo DS, um deles. Começou como praticamente único funcionário da empresa, porém mais tarde entraram outros grandes nomes que um dia fizeram parte da Square.

Yasunori Mitsuda em uma demonstração do KORG DS-10 Plus
em plena Akihabara, bairro de Tokyo, Japão

Seus trabalhos mais recentes e notáveis são a trilha sonora de Xenoblade, para Nintendo Wii, Kid Icarus: Uprising, para Nintendo 3DS e Soul Sacrifice, para PlayStation Vita.

Estilo Musical

Nota-se em suas obras uma extensa exploração do gênero celta, em especial em suas coleções arranjadas, e do jazz. Coleções arranjadas, aliás, são trabalhos que o compositor aprecia muito em fazer e muitos jogos receberam sua respectiva versão. Podemos citar Creid, primeira coleção arranjada de Xenogears, com todo o esplendor celta que o compositor pôde demonstrar sem as restrições do jogo, e Chrono Trigger Arranged Version: The Brink of Time, o arranjo no estilo jazz de Chrono Trigger.

Mitsuda diz deixar-se levar pela inspiração para criar suas canções. Muitas das quais foram criadas baseadas em seus próprios sonhos, como a famosa "Bonds of Sea and Fire" de Xenogears. Inspirações visuais são sua preferência e ao trabalhar em uma nova trilha sonora costuma gastar o primeiro mês somente para coletar informações, imagens e artes conceituais do jogo relacionado, para só então começar a produzir.
Mitsuda sempre demonstra humildade perante seus trabalhos em entrevistas e surpreende-se ao ver fãs que o acompanham e admiram suas canções mesmo fora dos jogos, principalmente em títulos tão antigos. Para ele, enquanto suas músicas alcançarem o coração de fãs, o mesmo se sentirá realizado e contente.
Revisão: Alex Sandro de Mattos

Escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


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