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Análise: Tom Clancy's Ghost Recon: Wildlands (Multi), livre como um fantasma

Novo título da série Ghost Recon inova com um mundo aberto repleto de missões táticas e explosivas.

Tom Clancy, o escritor estadunidense, é sinônimo de tramas internacionais, espionagem e suspenses de ação. Seus livros ganharam as telas do cinema, como Caçada ao Outubro Vermelho (John McTiernan, 1990), Jogos Patrióticos (Phillip Noyce, 1992) e o recente Operação Sombra: Jack Ryan (Kenneth Branagh, 2014), bem como integram uma série de jogos adaptados e baseados em suas obras no mundo dos games.


Responsável pelas séries Ghost Recon, Rainbow Six e Splinter Cell nos jogos eletrônicos, a Ubisoft lançou seu novo título da franquia de Tom Clancy, o jogo de tiro tático em terceira pessoa Tom Clancy's Ghost Recon: Wildlands (Multi). Décimo título da série Ghost Recon, o novo game não é baseado em nenhum dos livros de Tom Clancy, mas toma como influência o universo criado pelo escritor.

Ghosts em mundo aberto

Tom Clancy's Ghost Recon: Wildlands se passa na Bolívia do ano de 2019, quando o país se torna um narcoestado mundial produtor de drogas. Após um ataque à embaixada dos EUA em La Paz, o agente infiltrado Sandoval é morto e o país norte-americano inicia a Operação Regicida em solo boliviano. Cabe aos Ghosts, uma equipe de agentes especiais designada para missões secretas, desmantelar o cartel Santa Blanca, comandado pelo criminoso conhecido como El Sueño.


Não há dúvidas de que o ponto mais marcante de Tom Clancy's Ghost Recon: Wildlands é sua proposta de jogo em mundo aberto, sendo o primeiro da série Ghost Recon a aderir à mecânica do sandbox. Ao contrário dos games anteriores, com uma jogabilidade linear, o novo título da Ubisoft foca em uma experiência que mescla o stealth e o tático com ação e muita destruição em um gameplay cujo caminho a ser traçado é determinado pelo jogador.

As mecânicas de Tom Clancy's Ghost Recon: Wildlands ficaram muito próximas do que vimos no pós-apocalíptico Tom Clancy’s The Division (Multi). Um cenário de maior liberdade, itens a serem recolhidos, interação com objetos e até mesmo a arte de alguns ícones e símbolos de Tom Clancy’s The Division foram usados na nova trama dos Ghosts na América Latina. Uma ótima ideia da produtora em aproximar a mecânica e a jogabilidade dos novos títulos da franquia Tom Clancy para tornar a experiência agradável e conhecida dos jogadores.


A Bolívia de El Sueño

A ambientalização de Tom Clancy's Ghost Recon: Wildlands merece destaque, o jogo está realmente lindo graficamente. Há um trabalho primoroso com luzes e sombras, bem como detalhes de cores, especificações de objetos e movimentos da vegetação e de animais que enriquecem nosso caminhar pelas ruas da Bolívia.

A transição entre dia e noite está muito bela e é maravilhoso parar nos picos de montes e serras para apreciar a paisagem do pôr-do-sol. Um ponto interessante é que durante tais mudanças de tempo, há alterações no comportamento dos personagens. Por exemplo, é possível encontrar vilarejos desertos à noite e se deparar com inimigos ou inocentes dormindo em suas casas durante as madrugadas.


O espanhol marca presença como parte integrante da imersão na Bolívia recriada digitalmente para Tom Clancy's Ghost Recon: Wildlands. O idioma que é dominante na América Latina pode ser ouvido nas conversas entre os cidadãos, bem como nos rádios e comunicações do cartel e de outros grupos paramilitares da trama, como a Unidad e os Rebeldes. Inclusive, podemos curtir várias músicas latinas embalando as aventuras nas estradas de terra do país. Um detalhe muito importante e que foi realizado de maneira bem-feita e caprichada pela produtora, trazendo o game mais próximo do contexto da realidade em que é baseado.

Falando em idioma, o game tem a sempre bem-vinda opção de áudio no idioma original, o inglês. A dublagem em português está correta quanto ao conteúdo e diálogos, contudo peca por seu tom genérico e quase automático, sem uma atuação das emoções dos personagens, o que acaba acarretando uma perda do lado emocionante da trama.


Os cenários são feitos essencialmente de matas, estradas de terra, colinas, rios e vilarejos. Tom Clancy's Ghost Recon: Wildlands leva a sério o conceito de mundo aberto e entrega uma Bolívia imensa a ser explorada. O mapa do jogo é gigante, sendo possível realizar inúmeras missões secundárias ou meramente dar um passeio pelas ruas bolivianas.

Como se não bastasse o mapa gigantesco, o jogo coloca à disposição um número considerável de veículos, desde caminhonetes com metralhadoras, passando por carros esportivos e motos a tratores e caminhões. O jogador tem liberdade completa no cenário para chegar em qualquer lugar da maneira que desejar e escolher o modo de ação para a missão: tático ou explosivo. E o melhor: não há punição se você escolher uma abordagem mais agressiva ao invés de um estilo stealth e sem mortes, e vice-versa.


Erase una vez...

Apesar do mundo aberto ser um grande trunfo de Tom Clancy's Ghost Recon: Wildlands, ele também é sua grande fraqueza. Ao transformar o jogo de tiro tático em um game com liberdade de ação em cenários variados, o novo título de Tom Clancy acaba se distanciando da história principal do modo campanha e faz a trama cair no esquecimento.

Vale ressaltar que ser um jogo de mundo aberto não é motivo para se ter uma história relapsa, é só vermos os casos de The Witcher 3: Wild Hunt (Multi), da CD Projekt RED; Batman: Arkham Knight (Multi), da Rocksteady Studios ou Metal Gear Solid V: The Phantom Pain (Multi), da Kojima Productions, games em mundo aberto, mas que em momento algum você perde de vista a história profunda do jogo.


Diferente das tramas políticas bem elaboradas e complexas dos livros de Tom Clancy, que foram reproduzidas de forma louvável nos jogos anteriores da franquia, o enredo de Tom Clancy's Ghost Recon: Wildlands não surpreende e entrega uma história previsível e repleta de clichês. Do mesmo modo, os personagens principais não possuem qualquer carisma e caem na categoria de heróis genéricos, automáticos e sem personalidade. Os vilões são um pouco melhor desenvolvidos, contudo, a falta de presença deles ao longo da trama leva à perda do impacto de suas histórias.

Outro ponto a ser discutido é a forma como somos levados às missões do modo campanha. Os dossiês com os chefes de cartel aliados de El Sueño são exibidos de forma empolgante, em cinemáticas com arte bidimensional e tridimensional que mesclam artes de ilustração com animação computadorizada, acompanhadas por uma narração séria e intensa. A introdução aos vilões é incrível e cria o clima tenso e perigoso ao qual os cidadãos bolivianos estão sujeitos. Porém, quando vamos para as missões da campanha principal não encontramos esse mesmo esmero dos dossiês nas cutscenes, o que quebra a imersão proporcionada pelo material audiovisual anterior.


As poucas cinemáticas chaves da trama estão lindas, mas é frustrante não encontrarmos essa mesma qualidade técnica e artística nas missões que deveriam ser o foco da trama. Por conta disso, acabamos realizando missões principais como se fossem meros objetivos secundários. Não sentimos a imersão da história, por mais bem ambientada e bem contada que ela seja nos dossiês. Os combates contra os chefes são extremamente anticlimáticos, não oferecendo qualquer diferencial de quando matamos capangas do cartel pelas ruas da Bolívia.

Missões secundárias, elas são várias, mas são repetitivas. O mapa de jogo oferece inúmeras atividades a serem feitas, entretanto, depois de algum tempo realizando os objetivos secundários, facilmente nos cansamos por conta da repetitividade das missões. Tais tarefas extras sempre incluem parar comboios, interrogar criminosos, roubar veículos ou conseguir arquivos de informações.


Seja um Ghost

Fator de destaque no jogo é a criação e personalização de personagens. Em Tom Clancy's Ghost Recon: Wildlands você faz parte de um quarteto de Ghosts: você e seus companheiros Weaver, Holt e Midas. Para isso, lhe é dada a opção de criar seu próprio personagem e personalizar aparência, armas e acessórios a qualquer momento do jogo. Sendo possível criar vários conjuntos de trajes especiais, por exemplo, para diferentes missões. Roupas com camuflagem, roupas de infiltração, roupas de combate ou mesmo roupas mais casuais.

A mecânica de upgrades também é um fator a mais para incentivar o jogador a continuar explorando o mapa e subindo o nível de seu personagem. Várias habilidades, roupas e equipamentos são desbloqueáveis apenas através de certos objetivos ou níveis a serem concluídos ou alcançados, respectivamente, então é importante continuar mantendo as ruas da Bolívia livres dos cartéis de drogas.


Para aqueles que desejam se aventurar em grupo, Tom Clancy's Ghost Recon: Wildlands oferece o modo cooperativo e multiplayer em uma experiência igualmente divertida e interessante. Você e sua equipe podem escolher entre causar o caos contra os cartéis ou se tornarem um grupo de hábeis estrategistas táticos.

Um novo Ghost Recon

Tom Clancy's Ghost Recon: Wildlands segue a tendência atual de jogos em mundo aberto e, sem dúvida, entrega um trabalho bem feito, bonito e com muitas horas de diversão e exploração. A Ubisoft acerta em cheio com seu novo título e faz um jogo de tiro tático em terceira pessoa que agrada aos fãs antigos da série Ghost Recon, introduzindo-os a uma nova forma de jogo, e dá as boas-vindas aos jogadores recém-chegados, que certamente encontrarão muitas opções de ação em Tom Clancy's Ghost Recon: Wildlands.

Prós

  • Bolívia recriada primorosamente;
  • Criação e personalização de personagem;
  • Gráficos belíssimos;
  • Liberdade de escolher a ordem das missões e como realizá-las;
  • Mapa gigante e com inúmeras áreas para explorar;
  • Modo multiplayer e modo cooperativo divertidos;
  • Mundo aberto bem desenvolvido e interativo;
  • Opção de áudio original;
  • Sistema de upgrade que incentiva o fator replay;
  • Várias opções de ação para realizar as missões;
  • Várias armas e opções de customização;
  • Vários veículos.

Contras

  • Batalhas contra chefes anticlimáticas;
  • Dublagem para o português genérica;
  • Falta de imersão no modo campanha;
  • História fraca;
  • Missões secundárias repetitivas;
  • Personagens apáticos e sem personalidade.
Tom Clancy's Ghost Recon: Wildlands — PC/PS4/XBO — Nota: 8.0
Versão usada para análise: XBO
 Revisão: Ana Krishna Peixoto 
Karen K. Kremer é mestre jedi em história pela UEPG. Viajante do tempo e cinéfila, considera Quantum Break uma obra-prima. Cresceu fazendo Meteoro de Pégasos e jogando videogame. Apaixonada por literatura, ilustração e dinossauros. Diz a lenda que com um bat-sinal no DeviantArt., MGC. ou Twitter. ela aparece.

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