Resenha

Quantum Break: Estado Zero leva o leitor a uma nova viagem no tempo

A história se passa em uma linha do tempo alternativa a do jogo e explora o passado dos personagens.




Se você jogou o game de ação em terceira pessoa Quantum Break (XBO/PC) e ficou com um gostinho de quero mais ou então você não vê a hora do novo game produzido pela Remedy chegar ao PC (é no dia 29!), eis uma dica: o livro Quantum Break: Estado Zero, de Cam Rogers. O livro lançado no Brasil pela editora Planeta possui 384 páginas divididas em 23 capítulos, um acabamento primoroso com a capa original do game unida as partículas cronum em alto relevo e orelha com informações do autor e da própria obra. Se você pensa que o livro não passa de uma novelização do game de forma simples e rasa, se engana, Cam Rogers vai fazer seu cérebro derreter com a história.
Inclusive, o livro possui um prefácio de Sam Lake, diretor criativo do estúdio Remedy e um dos roteiristas e idealizadores da história de Quantum Break, cujas palavras lhe deixarão curioso e ansioso para saber mais sobre o futuro da nova franquia da Remedy.


Quantum Break: Estado Zero é a primeira experiência da Remedy ao expandir um de seus games para o campo literário e ela se saiu excepcionalmente bem. Escrito pelo roteirista australiano Cam Rogers, integrante da equipe de roteiro e criação de Quantum Break, o autor narra uma história alternativa a do jogo, mas que traz revelações sobre o passado dos personagens principais: Jack Joyce (Shawn Ashmore), Paul Serene (Aidan Gillen), Beth Wilder (Courtney Hope) e William Joyce (Dominic Monaghan), bem como acrescenta informações relevantes sobre Martin Hatch (Lance Reddick), Sofia Amaral (Jacqueline Piñol) e todo o esquema de atuação da Monarch nos bastidores do poder.

Diferentes escolhas, diferentes resultados

Sua primeira dúvida deve ser: o livro segue a cronologia de alguma das linhas temporais passíveis de escolha no game? Não. A história que se passa no romance é uma mescla de ambas escolhas dos momentos de bifurcação do game. Por se tratar de uma linha do tempo alternativa, Quantum Break: Estado Zero expõe cenas completamente diferentes e outras iguais ou semelhantes as da história do game. Alguns diálogos e ações são idênticos aos experimentados em Quantum Break, porém, se passam em ambientes ou situações diferentes. Por exemplo, a mansão da Monarch onde Paul faz o baile de gala da empresa não existe no livro, mas a ação ocorre no próprio prédio da Monarch.

Muitas coisas não exploradas no jogo ou dúvidas levantadas por ele são mostradas no livro. Cam Rogers narra o acontecimento decisivo que levou Jack a deixar Riverport por seis anos e como ele e Paul se tornaram melhores amigos. Da mesma forma, alguns personagens secundários do game não estão presentes, como o segurança Liam Burke (Patrick Heusinger), o hacker Charlie Wincott (Marshall Allman) e a chefe de segurança da Monarch, Clarice Ogawa (Jeannie Bolet), que são substituídos por outros subornidados da Monarch, como Gibson (Nelson Bonilla) que aparece brevemente na série do jogo, mas no livro possui um papel mais ativo.

Fazenda dos irmãos Joyce, conteúdo não colocado no game é explorado no livro.

O Fim do Tempo e o outro lado de Paul Serene

O livro é repleto de viagens no tempo (claro, né?), então, ler atentamente datas, locais e horários são cruciais para o entendimento da trama. Por possuir muitas informações novas, Quantum Break: Estado Zero pode levar alguns leitores a crerem que a história do livro não possui ligação direta com o game, pois eu digo: mero engano. Algumas memórias e tramas dos personagens são imutáveis, portanto, fazem parte do passado e da personalidade dos heróis e antagonistas que conhecemos no game. O livro é justamente isto: mostrar a história e trajetórias de vida destes personagens.

São tantos pontos impressionantes, histórias cativantes e emocionantes que é difícil colocar em palavras sem soltar spoilers. Você realmente se envolve com o drama dos personagens, entende porque tomaram certas decisões e negaram outras. Porém, para abordar melhor o que estou dizendo citarei o tão falado Fim do Tempo em Quantum Break. No game, não temos nenhum vislumbre do que Paul viu no futuro sombrio da humanidade (apesar de entendermos como se dará), no entanto, a viagem dele ao fim do tempo é abordada no livro: como ele sobreviveu, como ele voltou, o que ele sabia e como era o Estado Zero... Culminando nas cenas chaves do game. Realmente um tesouro que o livro aborda e que eu sempre quis saber mais.

Mais informações sobre a Síndrome de Cronum e o impacto da doença no vilão Paul Serene.

História é o ponto que mais prezo em um game. Independente dos gráficos, uma boa história salva qualquer jogo, e uma boa história inclui heróis e vilões bem trabalhados e cativantes, como é o caso de Quantum Break e no livro não foi diferente. A característica mais positiva em Quantum Break: Estado Zero é justamente o outro lado do vilão Paul Serene, ele tem parte de sua história explicada na série em live action presente em Quantum Break, no entanto, a versão dele no livro é impressionante. Lendo as páginas da obra você sofre toda a angústia e o pavor do personagem, o Paul do livro é cruelmente massacrado pela Síndrome de Cronum e não tem como você não se sensibilizar pela situação do chefão da Monarch, pois ele é apenas um cara que errou e está tentando consertar as coisas da maneira que julga correta. O Paul do livro é o mesmo Paul do game? Sim, no jogo não temos um aprofundamento da jornada de Serene, tomamos consciência do estado de saúde dele ouvindo seus diários e lendo e-mails e documentos encontrados no gameplay, no entanto, Quantum Break: Estado Zero mostra como ele chegou a ser o líder frio e calculista do jogo, bem como todo o impacto que a Síndrome de Cronum tem sobre ele.

Nostalgia dos anos 90

Outras passagens cativantes do livro são as de amizade entre Jack e Paul. Sentimos Riverport como uma daquelas cidades interioranas norte-americanas, pacífica, onde todos se conhecem e a criançada só apronta para os vizinhos. A dupla de amigos de infância é realmente muito fofa e cômica (dá vontade de apertar a bochecha desses dois!), sempre aprontando e atrapalhando as pesquisas do Will. Vocês vão sentir aquela nostalgia dos anos 90 lendo as aventuras da dupla, que é fã de quadrinhos, super-heróis, ficção científica e desenhos animados. Inclusive, os apelidos que eles utilizam com seus amigos e que perduram até depois de crescidos são baseados nestes elementos da cultura pop e possuem todo um sentido. Cada super-herói representa a personalidade de Jack, Paul e seus amigos, tendo ligação direta com os acontecimentos futuros. Realmente bem articulado, não apenas um fanservice, mas todos os filmes, séries e desenhos citados possuem um propósito na história, bem como são parte das inspirações originais dos criadores do game Quantum Break.

Os irmãos Joyce também são mostrados numa dinâmica bem mais pessoal, desde o amor fraternal até aos problemas financeiros e brigas de família. A vida na fazenda, a genialidade de Will e o talento de Jack para encontrar confusão. São trechos que mesclam o carinho e profunda ligação entre os dois, bem como momentos tensos e que expõe como a relação entre os irmãos foi se deteriorando ao longo dos anos, após a morte dos pais. Os problemas psicológicos de Will, que foram se agravando ao longo do tempo, tornando-o instável e muitas vezes visto como louco por todos. A dura vida de Jack, que apesar de ter Will como guardião legal, era quem trabalhava e sustentava a família, mostrando também o papel crucial que Paul e sua família exerceram sobre os dois ao cuidar dos irmãos e o laço que havia entre a família Joyce e Serene.

 A ligação entre Jack e Beth é retratada de maneira mais profunda e emocional.

Outra personagem que marca presença e tem as revelações mais bombásticas da trama é Beth Wilder. Temos muito do passado dela revelado, porém, acho que nem tem como falar dela sem soltar algum spoiler, então, a única coisa que posso dizer é que a história dela esclarece muito do que vemos ser dito e feito no game. Obrigatório conhecer.

Amor além do tempo

Dois personagens que dão o que falar no livro são Martin Hatch, o misterioso braço direito de Paul Serene e a Dra. Sofia Amaral. Você vai amar ainda mais a Sofia quando souber que ela é brasileira e você vai odiar ainda mais Martin Hatch quando souber que ele... Bom, é spoiler (te peguei!). Hatch é detentor das cenas mais cruéis e traidoras possíveis, sempre sem perder a pose de poder e estilo como rosto da Monarch (ele é mal, mas é muito maneiro), sem contar que seu passado continua uma incógnita, porém, suas ações e palavras no livro nos dão pistas de quem ele pode ser... (um grande mistério). Ao contrário deste caos e violência, temos a doce Dra. Sofia, completamente apaixonada pelo Paul e inteiramente dedicada a encontrar uma cura para ele. A interação entre eles é extremamente amável e delicada, o durão chefe da Monarch fica completamente vulnerável quando o assunto é Sofia. Paul é muito terno e protetor com ela, cenas super fofas e adoráveis no melhor estilo romance à moda antiga entre esses dois.

O romance entre Paul e Sofia dá um show em muitos filmes românticos por aí.

Deslocadores! Deslocares em toda parte!

Quantum Break: Estado Zero também fornece mais pistas sobre a misteriosa morte do Dr. Kim enquanto trabalhava no RCC/Medida de Resposta e, pasmem, o livro é repleto da atuação dos Deslocadores do início ao fim. Inclusive, eles são o ponto chave da trama, tanto no livro como no game. Você também compreenderá com mais clareza a teoria do multiverso/mundos paralelos da física quântica, um elemento essencial ao jogo e que está diretamente ligado a história dos personagens Jack Joyce e Paul Serene.

E o tão falado final de Quantum Break? É o mesmo no livro? Sim e não. As circunstâncias e o local onde ocorrem são diferentes, porém, as consequências são as mesmas. Contudo, conta com uma revelação que lhe fará dizer "para tudo meu cérebro explodiu!" ao final. Eu simplesmente AMEI! Depois que fechei o jogo, passei a criar altas teorias da conspiração sobre o final (passei a estudar física quântica, inclusive) e fiquei imensamente feliz em ver que acertei. Um excelente encerramento. Final do primeiro game e primeiro livro, diga-se de passagem, pois como em Quantum Break, a versão literária Quantum Break: Estado Zero faz uma imensa deixa a uma futura sequência do game e, esperamos, do livro. Recomendadíssimo!

Título: Quantum Break: Estado Zero
Título Original: Quantum Break: Zero State
Autor: Cam Rogers
Gênero: Ficção Científica
Páginas: 384 páginas
Idioma: Português
Editora: Planeta
Ano: 2016
ISBN: 9788542207620








Revisão: Ana Krishna Peixoto
Karen K. Kremer é mestre jedi em história pela UEPG. Viajante do tempo e cinéfila, considera Quantum Break uma obra-prima. Cresceu fazendo Meteoro de Pégasos e jogando videogame. Apaixonada por literatura, ilustração e dinossauros. Diz a lenda que com um bat-sinal no DeviantArt., MGC. ou Twitter. ela aparece.

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