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Análise: Quantum Break (XBO/PC) quebra o espaço-tempo narrativo

O novo quase-exclusivo do Xbox One testa os limites entre videogame e série de TV.



Quando Quantum Break foi anunciado em 2013, na conferência de apresentação do Xbox One, ninguém entendeu muito bem qual era o objetivo da Remedy e da Microsoft com o título. Sabíamos que envolvia cenas live-action e um navio atravessando uma ponte de alguma maneira, mas nada ficou muito claro. Essa apresentação estranha extinguiu instantaneamente meu interesse pelo título, que só voltou ao meu radar recentemente, quase três anos depois, com a aproximação do lançamento.

Admito que grande parte do meu interesse por Quantum Break surgiu a partir de um raciocínio como “não faço ideia do que esse jogo vai ser, mas parece ser algo bem diferente e estou curiosíssimo para ver o que, afinal, ele é”. Agora, finalmente pude experimentar esse projeto tão diferente dos criadores de Max Payne (Multi) e Alan Wake (360/PC).

Um jogo enraizado na narrativa

Quantum Break é um videogame, mas, também, uma série de TV. O jogo é dividido em cinco atos, entre os quais são exibidos quatro episódios (em live-action) de cerca de 20 minutos. Enquanto as cutscenes do jogo narram o conflito entre o protagonista Jack Joyce e o antagonista Paul Serene, a série foca em personagens relativamente secundários à trama. Toda a história do jogo é estruturada como uma temporada televisiva, começando com um piloto e escalando até um season finale, narrando as jornadas dos diversos personagens no típico padrão “história A, história B”.

A narrativa é, sem dúvida, a parte mais interessante de Quantum Break. Viagens no tempo bem-trabalhadas são sempre um tema bacana para uma história, e nisso a Remedy acerta em cheio. Claro, como toda boa história de viagens do tempo, às vezes parei e falei "pera, como… Quê!?" enquanto algum plot twist se desenrolava ou a linha do tempo se complicava demais. Digo complicada num bom sentido — esta história praticamente implora para que o jogador/espectador faça tudo de novo para entender as coisas com outra perspectiva.
As únicas coisas mais absurdas que um hacker usando Windows 10 são todos os personagens usarem celulares Nokia Lumia...
De forma resumida: em outubro de 2016, Paul Serene ativa, com ajuda de Jack Joyce, a máquina do tempo construída por Will, irmão de Jack. Quando Paul se torna a primeira pessoa a viajar no tempo, ocorre uma brecha na estrutura temporal, que começa a se desintegrar, e tanto Paul quanto Jack obtêm poderes de manipulação do tempo. Enquanto Paul usa seus poderes e sua influência para se aproveitar da brecha, Jack tem que tentar fechá-la.

Isso pode soar um pouco como um episódio de Doctor Who, e de fato a história progride um pouco como tal, mas nunca deixa de ser intrigante. Os episódios da série apresentam personagens que, se no começo são desinteressantes e aparentemente inúteis, se desenvolvem até se tornarem peças-chave na trama. Contudo, a promessa da Remedy de fazer o jogador decidir o futuro da história através de suas ações no jogo não é tão realizada quanto poderia.
... e dirigirem Nissan Leafs.
Logo antes de cada episódio, há um segmento chamado “junção” em que o jogador pode controlar Paul Serene e então fazer uma decisão. Essas decisões afetam a continuidade da história de certa forma, mas suas consequências não são tão graves; certas cenas dos episódios mudam, mas a cronologia em geral permanece fixa. Isso faz sentido no contexto da história: em Quantum Break, prevalece a hipótese de que o passado é fixo e tentativas de mudá-lo simplesmente o fará acontecer, enquanto o “efeito borboleta” é vigorosamente ignorado. Apesar disso, não deixa de ser um pouco decepcionante re-jogar esses trechos, tomar uma decisão diferente e, no fim, pouco mudar de fato.

Tecnicamente impressionante… normalmente

Quando li, há poucos dias, que Quantum Break rodaria numa resolução nativa de 720p e ainda por cima em 30 quadros por segundo, me bateu um certo desgosto. Certamente nós como civilização deveríamos ter largado uma resolução tão ridícula quando o Xbox One e o PlayStation 4 foram lançados. Fui jogar esperando algo com cara de PlayStation 3 (eca!), mas estou feliz em dizer que a Remedy conseguiu superar minhas expectativas nesse quesito. Segundo a Digital Foundry, Quantum Break usa uma técnica de renderização que mistura vários quadros em 720p para produzir uma imagem escalada para 1080p com qualidade. Em português: é possível jogá-lo tranquilamente sem se preocupar com o serrilhamento característico da resolução mais baixa, apesar de ainda ser um pouco mais borrado que um jogo rodando nativamente em 1080p. Isso não é sempre verdade, pois em alguns momentos os efeitos de luz acabam “estragando” a imagem, mas é o suficiente para não ser incômodo.

E é nos efeitos que Quantum Break brilha… às vezes literalmente. O uso de partículas para dar vida aos poderes temporais de Jack é fantástico. Isso, combinado com a boa iluminação, as animações faciais (que chegam perigosamente perto do uncanny valley), o filtro de filme e até a resolução levemente desfocada dão ao jogo um visual bem (não acredito que estou dizendo isso) cinematográfico, que se alinha bem com o objetivo da Remedy e provavelmente o coloca na posição de jogo mais bonito do Xbox One. A framerate, apesar de baixa, se mantém estável maior parte do tempo e não se mostra um grave problema. O que posso dizer é que, no começo do jogo, a baixa taxa de quadros e o estreito campo de visão me fizeram demorar a acostumar com a movimentação de câmera. Nos últimos dois atos do jogo, sofri de um bug que fazia algumas luzes brilharem muito mais do que deveriam, deixando-me temporariamente cego (e quase me dando uma dor de cabeça); espero que na atualização de lançamento isso seja corrigido.
As texturas dinâmicas às vezes ficam trocando loucamente entre baixa para alta qualidade.
Por outro lado, assistir aos episódios foi um desafio. Como eles mudam de acordo com algumas ações dentro do jogo, incorporá-los ao pacote do jogo (em disco ou em download) consumiria espaço demais; a solução óbvia, portanto, foi utilizar streaming. É meio estranho ter que largar o controle e simplesmente assistir algo por 20 minutos, mas, nos dias em que estava jogando, esperava para assistir aos episódios quando normalmente abriria o Netflix. Quem dera a experiência fosse tão suave quanto é no Netflix — ao invés disso, tive que assistir um vídeo que pausava com frequência para carregar e, diversas vezes durante um episódio, parava totalmente, reclamando da conexão, de forma que eu precisava apertar X fervorosamente para continuar assistindo. Além disso, também tive problema com as legendas, que no primeiro episódio não apareceram e no segundo episódio estavam tão dessincronizadas que as desativei para que não atrapalhassem (e tem um certo ator cujo inglês é um pouco difícil de entender, então elas teriam sido bem-vindas). Pode ser que até o lançamento esses problemas tenham sido corrigidos mas, se não forem, pelo menos haverá a opção de deixar os episódios pré-baixados para tornar a experiência mais tranquila… Se estiver disposto a baixar 75GB de conteúdo.
Como é o padrão da geração, animações boas demais chegam perto do uncanny valley.
Joguei maior parte de Quantum Break em inglês, mas aqueles menos proficientes no idioma não têm com o que se preocupar. O jogo é totalmente localizado e dispõe tanto de legendas quanto dublagem em português, inclusive para os episódios. Ponto para poder trocar de idioma no menu do jogo ao invés de ter que mudar o idioma do console inteiro. Pelo que joguei em português, a dublagem ficou bem-feita e a tradução bem natural (nada de ficar omitindo palavrões!), mas pra mim ainda tem algo fundamentalmente estranho em jogar algo assim em português.

Afinal, e o gameplay?

Quantum Break é um jogo tão focado na sua própria narrativa que é fácil esquecer justamente daquilo que o faz um jogo. Infelizmente, a Remedy não foi tão criativa nesse aspecto quanto na narrativa.

Assim como outros third-person shooters como Uncharted e Tomb Raider, Quantum Break sofre de ter um combate que, se no começo parece interessante, até o final já se tornou repetitivo. Pelo menos, entre Nathan Drake e Lara Croft, Jack Joyce fica muito mais próximo à sua irmã da família Xbox, pois as habilidades temporais dele realmente são divertidas de explorar e combinar para inventar novas formas de derrotar inimigos. Todos os poderes são introduzidos um a um nos dois primeiros atos do jogo e, depois disso, há pouca coisa para acrescentar variedade. As armas não fogem do padrão (pistola, rifle de assalto, submetralhadora, escopeta, etc.), enquanto os inimigos normalmente são “esponjas de balas” com pouquíssima variedade: há alguns imunes aos poderes de Jack e outros que precisam ser atingidos de maneira específica, mas em geral o desafio do jogo progride simplesmente aumentando a quantidade deles.
O combate se resume a um third-person shooter padrão com alguns poderes de controle do tempo.
O confronto final do jogo, inclusive, é um exemplo de game design terrível em um jogo que tem medo de criar “chefões”. O chefe ficava num canto tentando me matar enquanto eu tinha que lidar com ondas de capangas até ser aberta uma brecha, tudo num ambiente que não dava muitas opções de movimentação. Já fiz isso em inúmeros outros jogos; não tem mais graça. O ataque do chefe mata Jack com um único acerto, então me vi xingando a TV na quarta ou quinta tentativa do confronto. Por sorte, esse confronto é o único combate realmente irritante do jogo, então não posso reclamar tanto.

Fora de combate, o gameplay é basicamente se movimentar de um ponto A a um ponto B de acordo com os objetivos. É possível explorar o cenário para descobrir detalhes sobre a história através de cartazes e e-mails, por exemplo (mas quem é que tem paciência de ficar lendo longas trocas de e-mail para descobrir um pouco mais sobre os personagens?), e usar a “time vision”, um poder que entra no mesmo clichê que os “survival instincts” da Lara Croft, para localizar e coletar pontos que permitem fazer upgrades nos poderes de Jack.

As partes mais interessantes são quando, para chegar a um certo local, é preciso usar os poderes temporais para resolver algum puzzle. Por exemplo, fazer um elevador quebrado voltar no tempo para subir, ou desacelerar o tempo para dar tempo de atravessar uma porta automática. Nenhum desses puzzles é particularmente criativo ou difícil de resolver, mas é uma pena que não são eles que formam o núcleo de gameplay do jogo.
Alan Wake e Jack Joyce co-existem no Remedy Ludographic Universe.
Os poderes tempo mostram um potencial para inovação que é raramente atingido, então o gameplay algumas vezes parece ser simplesmente uma tarefa para poder ver a história progredir. Uma ou outra vez, me perguntei se não teria sido melhor contar a história inteira em formato de série e simplesmente deixar o jogo de lado… Não é um bom sinal. Apesar desses problemas, eu diria que o gameplay de Quantum Break ainda é competente o suficiente para entreter. Pelo menos o jogo não é muito longo, então não dá tempo das mecânicas realmente cansarem.

Inovação na narrativa, padrão na jogabilidade

Talvez seja esperado, se tratando de um jogo da Remedy, mas Quantum Break é, sem dúvida, um jogo que se sustenta muito mais na narrativa do que nas mecânicas de gameplay. Mesmo sem ter um impacto tão grande no enredo com as minhas escolhas, fui cativado pelas ações e consequências dos personagens naquela linha do tempo, viajando entre 1999, 2010 e 2016. O gameplay é um pouco repetitivo, mas os poderes temporais são interessantes o suficiente para sustentá-lo até o final do jogo. Não chega a ser chato e sua necessidade é, às vezes, questionável, mas tudo vale a pena para poder ver a história se desenvolver.

Quantum Break será lançado para Xbox One e PC, exclusivamente pela Windows Store no Windows 10, no dia 5 de abril. Compradores no Xbox One receberão ainda uma cópia de Alan Wake para Xbox 360, jogável através da retrocompatibilidade do console. Quem comprar o jogo pela pré-venda receberá ainda Alan Wake's American Nightmare (também para 360) e poderá baixar Quantum Break também no PC.

Prós

  • Narrativa intrigante;
  • Visualmente impressionante, apesar de pequenos defeitos;
  • Combinação de jogo com série é inovadora e funciona bem;
  • Poderes temporais divertidos de usar.

Contras

  • Combate não varia muito ao longo do jogo;
  • Ações do jogador não afetam tanto a história.

Quantum Break — XBO/PC — Nota: 8,0
Versão utilizada para análise: Xbox One.

Revisão: Bruno Alves
Renan Greca Quando não está ocupado sendo diretor, redator, newsposter, podcaster e RP do GameBlast, Renan Greca gosta de jogar videogames. Às vezes, lembra de focar em seu mestrado também.

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