Discussão

No Man's Sky (PC/PS4) e o choque entre o hype e a realidade

No Man’s Sky foi lançado e junto, várias polêmicas. Mais uma vez a expectativa e a realidade entram em confronto. A culpa é de quem?

Dificilmente você, leitor que acompanha o mundo dos games, não ouviu falar no jogo No Man’s Sky (PC/PS4). Esse game independente foi produzido pela empresa Hello Games e passou por anos de expectativa (e muito hype) antes de finalmente chegar às lojas. Entretanto, como já havia ocorrido em diversos outros jogos, a expectativa e as promessas superaram a realidade. Mas antes de analisar quem está errado nessa história (produtores ou consumidores) precisamos entender melhor o que é o hype e para que ele serve.

O Hype e suas utilidades (e inutilidades)

Como já foi dito aqui no Blast em outra situação, o termo hype se originou do termo hipérbole, que seria uma forma de aumentar exageradamente a qualidade ou característica de uma determinada coisa. Para além dessa definição, o termo também diz da área de publicidade, referindo-se a produtos que são altamente procurados pelo público, fruto de um impressionismo ou uma reação viral nas redes sobre ele. No Man’s Sky não foi o primeiro game a passar por isso, outros títulos relativamente recentes como  Watch Dogs (Multi), Metal Gear Solid V: Ground Zeroes (Multi) e The Order - 1886 (PS4) também sofreram as consequências do hype. Para além dos games, filmes, séries e livros também passam pelo mesmo efeito às vezes.

A questão é que, muitas vezes, o hype é inclusive uma estratégia da equipe de publicidade por trás daquele item, buscando alcançar os consumidores de forma impressionista, aumentando o que é chamado de propagabilidade daquele item, ou seja, a capacidade daquele item de se propagar pelas diversas mídias, alcançando e impressionando cada vez mais compradores em potencial. A ideia é até boa e funciona diversas vezes; vimos isso acontecer em jogos como Super Smash Bros. for Wii U/3DS, The Witcher 3: Wild Hunt (Multi) e GTA V (Multi).



Entretanto, existem casos que o hype, por culpa da produtora ou por um efeito viral que pode ocorrer desenfreadamente nas redes, ultrapassa os limites e supera em muito o conteúdo real do jogo. Dessa forma, o que seria o principal instrumento de popularização do jogo se inverte, acabando com a imagem de um jogo. Um jogo que seria considerado bom ou ótimo com a devida quantidade de hype, acaba se tornando ruim ou péssimo na impressão do público, isso por causa de um hype absurdamente alto em cima dele. Foi o caso de Watch Dogs em 2014 e é o caso de No Man’s Sky agora em 2016.

Falsas promessas e informações vagas

Não é exagero dizer que Sean Murray, representante de Hello Games, ajudou bastante com o surgimento do hype do jogo. A proposta inicial do projeto, divulgado no já distante ano de 2013, envolvia o conceito de exploração de um vasto universo gerado proceduralmente, com a inovação desse universo ser todo interligado, no conceito de mundo aberto já conhecido em jogos de RPG mais modernos. Até aí estava ótimo, nada diferente do material final distribuído pela empresa. O problema veio mais adiante, com as entrevistas dadas pelo representante da empresa independente.
Sean Murray, representante da Hello Games
Entre as promessas de Murray que não se concretizaram na versão final do jogo estavam: as naves com diferentes formas de jogabilidade (as diferenças entre as naves do jogo acabam sendo apenas a capacidade de carga, algumas armas e a estética); a existência de diversas facções que guerreariam entre si por toda a galáxia, dando ao jogador a possibilidade de se aliar a uma delas (fato totalmente inexistente no produto final); e, a mais marcante de todas, a presença de um multiplayer online, a qual não se tornou realidade na versão final do jogo.

Além dessas promessas da pessoa que virou a “cara” da Hello Games, os gameplays e trailers disponibilizados ao longo dos anos mostraram características que não estavam presentes no material final. A mais marcante é, sem dúvidas, a quantidade de elementos vivos no jogo. Cenas com batalhas envolvendo mais de 30 naves, planetas com manadas de animais num ecosistema complexo e mais dinâmica em toda aquela galáxia quase infinita. Quem joga o jogo hoje pode notar que o gameplay é muito mais “vazio” do que aquele mostrado nos trailers.

Isso tudo foi observado também em alguns jogos da Ubisoft ao longo dos anos. Promessas não cumpridas de fato causam um ódio generalizado no público, principalmente numa cultura atual em que o consumidor tem um poder muito maior de persuasão e é muito mais ativo em divulgar suas opiniões. Mas como esse texto se trata de uma discussão, não podemos apontar o dedo somente para a pequena Hello Games como o grande algoz manipulador de massas.


As influências externas

A empresa independente Hello Games foi fundada em 2009 por ex-funcionários de outras empresas de games, como a Criterion Games e a Electronic Arts. Antes do polêmico jogo de exploração espacial, a empresa já havia produzido a franquia Joe Danger (Multi). A verdade é que em toda a sua história, assim como na história de todas as empresas independentes que temos notícia, nenhum jogo foi tão aguardado antes do seu lançamento. Talvez o que se aproxime mais dessa ansiedade pública generalizada seja FEZ (Multi) do também polêmico Phil Fish.

Some a isso o peso da cobrança por prazos da Sony Entertainment, que investiu uma pesada finança para que o jogo tivesse exclusividade no console de mesa da empresa, além do seu lançamento oficial para computadores. Sem dúvida não é uma pressão social administrada tranquilamente por qualquer produtor independente de jogos. Como se não bastasse todo esse palco, os idealizadores do projeto independente que tinha apenas três anos de existência (muitos jogos grandes como alguns títulos da Blizzard demoraram muito mais tempo para serem lançados) começaram a sofrer ameaças de vida por conta de consumidores exageradamente aflitos pelo lançamento do jogo. 



Isso tudo começou a borbulhar num calderão de influências que, sem dúvidas, antecipou o lançamento do jogo. Quem joga o título pode notar que o jogo, mesmo que com características estupendas, lembra em certas ocasiões uma versão beta, não um jogo totalmente moldado. Como cereja do bolo, coloque o preço oficial do game, que está na faixa de $60,00, preço este de títulos AAA, não de jogos independentes. Então não basta apenas culpar a Hello Games por falsas promessas, quando esta sofria com pressões de público e de produtoras maiores também. Agora para além desses problemas, vamos analisar o conteúdo final disponibilizado no mercado.

Afinal, o jogo é tão ruim assim?

Agora analisaremos o jogo independente das promessas feitas, indepentemente do hype generalizado e independentemente do seu preço oficial. No Man’s Sky é um jogo indie que nos dá uma galáxia com mais de 18 quintilhões de planetas para explorar. Ele traz como focos a exploração e a coleta de recursos, além da catalogação dos mais variados espécimes de animais, plantas e minerais. Mesmo com padrões detectáveis após mais de 10 horas de gameplay, o fato é que realmente os planetas não são nunca idênticos, apenas parecidos em certos casos. 

Naves não possuem diferenciação de jogabilidade, assim como as armas. Porém existe uma grande variedade de modelos para se escolher. Assim como a complexidade tento das naves quanto das armas tende a aumentar com o passar das horas de desenvolvimento do seu personagem. Somado a isso, a experiência explorativa do jogo é estupenda e, ao seu modo, inovadora de fato. Todos lembram das falsas promessas, mas poucos ressaltam, por exemplo, a experiência inédita de ver um planeta longíncuo no céu, atravessar a atmosfera do astro no qual você se encontra, passar por asteróides, estações espaciais e naves piratas, entrar na atmosfera daquele planeta e pousar nele para explorá-lo, sem nenhuma tela de loading ou travamentos muito bruscos em geral. 



O modo single player como único no jogo mostra como o potencial do título foi mal aproveitado. Entretanto, o jogo, mesmo que offline, possui o foco em explorações e desenvolvimento. No fim, o então frustrante modo história do jogo é apenas uma vírgula na intenção última do mesmo, essa exploração espacial movida a motivação pessoal. Como característica de uma grande parcela de jogos independentes, a experiência do jogo gira em torno de questões muito mais filosóficas e contemplativas do que apenas “chegar ao final se tornando o mais poderoso possível”.

No Man’s Sky possui falhas, mas não são falhas exclusivas dele e não configuram o jogo como um título de péssima qualidade, muito pelo contrário! O jogo é ambicioso sim, mas o hype criou uma postura de compará-lo a grandes títulos de grandes empresas como Microsoft, Sony e Nintendo. A verdade é que No Man’s Sky é uma produção independente feita por menos de duas dezenas de desenvolvedores. Ele não deveria ser analisado ou criticado com o nível de exigências de um título AAA, mesmo que tenha sido tão aguardado quanto um desses grandes da indústria. A dúvida que fica é: se o hype exacerbado do jogo não existisse, se os produtores não tivessem se perdido em algumas promessas, os elementos positivos do título seriam mais lembrados por todos os jogadores? 



O Hype na medida certa

Outro elemento importante nessa história é que, mesmo com as falsas promessas da empresa, muitos dados sobre o jogo foram divulgados de forma exagerada ou falsa por parte de jogadores eufóricos na rede. Eu mesmo li diversas matérias falando que poderíamos construír bases nos planetas e até domar animais, artifícios que jamais foram prometidos pelos produtores da Hello Games. Isso demonstra como o jogo influenciou o imaginário dos consumidores, fazendo-os imaginar o título muito maior até do que as falsas promessas de Sean Murray. 

Importante falar também que, em última instância, o jogo é realmente divertido. Superando o preconceito gerado pelo hype e por essas promessas, temos um jogo de exploração, farm e crafting um pouco acima da média, com a inovação de um mapa procedural infinitamente maior do que o detentor anterior do título, Minecraft (Multi). Com foco voltado para esses elementos, a participação em jogo vai depender do estilo de gameplay de cada jogador. Os jogadores que prezam mais por história, por chegar a um final, por alcançar níveis e ficar mais fortes vão rapidamente enjoar de No Man’s Sky. E isso não é um problema! Eu, particularmente, não curto jogos de esporte, por exemplo, isso vai muito do perfil de cada jogador. 

Além disso, muitos jogadores que afirmam não terem gostado do jogo são aqueles que foram pegos na onda do hype e pensaram que No Man’s Sky se tratava de um jogo de ação de grandes proporções, quase um novo Mass Effect. Sendo assim,  a “culpa” disso tudo acaba que se encontra dos dois lados, pois existem elementos que a empresa não entregou no produto final e também uma falha do jogador por não saber interpretar os trailers e divulgações que já haviam ocorrido. Vale lembrar que, desde o primeiro trailer, a Hello Games tinha dito que se tratava de um game de exploração, antes de tudo mais.



Mas também existem aqueles jogadores que tinham conhecimento sobre o que poderia ser feito dentro do game e, mesmo assim, não gostaram dele, dizendo que “não havia objetivos para cumprir”. Nesse caso esbarramos em dois problemas: o primeiro é o condicionamento da geração atual de gamers que não consegue lidar com jogos que não tenham uma rota para ser executada pelo jogador. O que é irônico, pois as reclamações que mais existem por aí é o excesso de tutoriais dos games atuais e o costume de criar uma jogabilidade que insiste em “segurar a sua mão” desde o primeiro minuto de gameplay. O segundo problema é o usuário que não gosta de explorar, considerando que a parte exploratória do game é bem sólida. Nesse caso, a única solução para o jogador é que ele não gosta de games exploratórios e que o melhor seria procurar outro gênero de jogo de qualquer forma.

É verdade que o preço atual de No Man’s Sky não condiz com a qualidade do jogo, porém, aos que ainda querem arriscar, afirmo que após mais de 30 horas de jogatina, ainda quero jogá-lo por um bom tempo e, mesmo admitindo que ele possui alguns bons defeitos e qualidades mal aproveitadas, o título é bom o suficiente para entreter por mais horas do que a maioria diz. Se não quer arriscar pagar o preço total, espere alguma promoção ou uma compra de usados que sempre cai bem. O que não podemos continuar fazendo é depredar o conteúdo de um jogo, que muitas vezes é um bom conteúdo, por conta daquilo que esperávamos que o jogo fosse. Precisamos diferenciar na verdade o que realmente foi prometido pelos desenvolvedores e não foi cumprido, daquilo que nós imaginamos que o jogo poderia ser e que de fato não foi. Mas não por conta de falsas promessas, mas sim por conta do nosso hype, que em uma hora ou em outra, foi exagerado.



Infelizmente não podemos mudar o curso da flecha lançada. No Man’s Sky passou por todos esses problemas e, como outros títulos antes dele, teve sua popularidade jogada no lixo graças a todos os elementos influenciadores que apontamos nesse texto. Mas esse episódio serve, ao menos, para nos fazer pensar até que ponto é bom nutrirmos um hype por um determinado jogo. Até que ponto isso é importante para a sua popularidade e até que ponto isso influencia negativamente tanto a imagem do game como a pressão pela qual seus desenvolvedores passam.

Colaboração: Luís Antônio Costa
Revisão: Luigi Santana
Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, mas começou sua vida gamer bem cedo, no NES. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico.

Comentários

Google+
Facebook


Podcast

Ver mais

No Facebook

Ver mais