Street Fighter (2026) até vai bem quando acerta, mas são acertos escassos

Com humor à Marvel, fanservice desmedido e um torneio de fachada, Street Fighter tropeça ao tentar agradar só aos fãs e esquece de do público geral.



É difícil encontrar alguém que não conheça o caótico filme de 1994 e todas as suas anedotas, como é o caso de como o Van Damme, no auge do vício, era um ator complicado de se lidar, ou ainda do Raul Julia se esforçando no papel do Bison em um último estágio de câncer. Também passamos por uma segunda tentativa live-action com A Lenda de Chun-Li, antes da Capcom observar o atual momento para adaptações de videogames no cinema e decidir surfar na onda com uma nova aposta, agora com uma abordagem colorida orientada ao pop e mais próximo do que o MCU, os live-action do Sonic ou até mesmo as animações do Super Mario.

Era só assistir a O Grande Dragão Branco e tomar nota, caras

Na sua premissa, o filme faz o feijão com arroz: seis anos após derrotar Sagat e se sagrar vencedor no primeiro torneio Street Fighter — cuja final foi atribulada por conta do caos causado por uma aparição de Akuma — Ryu desaparece do mundo das artes marciais. M. Bison, atrás da força de Hadou que o campeão apresentou durante a competição, decide organizar uma segunda edição a fim de atraí-lo de volta à ativa.




Paralelamente, Ken, irmão de criação e colega de treino de Ryu, aproveitou a fama como um exímio lutador e se tornou uma espécie de celebridade. Chun-Li, então, entra em cena e o convida para o novo torneio, acreditando que isso seria suficiente para encontrar o antigo campeão, que, no fim das contas, decide ressurgir por conta própria. Nota-se que, a partir daqui, a premissa está estabelecida e o que se espera é a consolidação do torneio de uma forma até que previsível, sendo as lutas apresentadas sucessivamente e, no fim, Bison coloca seu plano de roubar o poder do Ryu em prática.

No instante em que os personagens principais chegam a Metrolao City, o filme começa a se perder em qualquer linha lógica que ele começa a estabelecer, seja do ponto de vista narrativo, seja do ponto de vista até mesmo do fanservice. O momento central em que tudo descarrila é a cena da briga no bar, já que ela faz o trabalho de apresentar todos os outros personagens secundários durante um momento de descontração, é dela que o roteiro se ramifica em dois núcleos: o do torneio e o do plano do Bison que, agora, não está nem aí para o evento de fachada, já que ele conseguiu prender Ryu e colocá-lo na cadeia para brigar e, eventualmente, liberar o poder Hadou que ele tanto quer para si.

Essa imagem é simbólica, com o torneio relegado ao plano de fundo enquanto outros pormenores assumem a frente (e olha que eu também adoro o Eric André).



O torneio, que deveria ser a espinha dorsal, então, acaba relegado a um mero pano de fundo. As lutas começam a ser escassas, sendo que algumas acontecem fora de campo — Guile contra Vega e Dhalsim contra Zangief são dois dos exemplos mais gritantes — e os confrontos que efetivamente vemos são muito curtos e não recebem tempo suficiente para serem apreciados. A situação é agravada pelo excesso de personagens que pouco acrescentam à trama, já que Vega, Guile, Balrog e Zangief mal justificam sua presença, enquanto Dhalsim, apesar de ter uma relevância muito pontual para a história, ao menos protagoniza combates memoráveis.

Essa falta de foco é agravada por uma montagem que parece incapaz de encontrar um ritmo minimamente consistente. O começo funciona razoavelmente bem, mas logo dá lugar a um efeito sanfona que alterna entre sequências cansativamente longas e cortes abruptos que atropelam informações ou encerram situações antes que elas tenham tempo de produzir algum efeito. A montagem fragmenta os combates que acontecem em paralelo e impede que o espectador se envolva plenamente em qualquer um deles. Sobram também slow motions, closes com distorção de lente e enquadramentos enfáticos de personagens pelos quais o filme ainda não conseguiu fazer o público se interessar. É uma quantidade impressionante de estímulos visuais para uma narrativa que mal consegue organizar suas próprias prioridades.

Parece piada, mas o Ken do filme tem uma crise por não conseguir fazer o Hadouken e eu não deixei de me lembrar dessa minissérie do CollegeHumor de 2007.




Até o epílogo se estende muito além do necessário, sem oferecer uma conclusão proporcional aos acontecimentos. O filme termina, mas sua dificuldade em estabelecer consequências claras para os acontecimentos anteriores produz uma conclusão tão desajeitada que não é difícil entender por que parte do público sai com a impressão de que faltou um final propriamente dito.

Não se trata exatamente de um cliffhanger, mas da incapacidade de encerrar a história com a objetividade que ela exige. Talvez valesse a pena voltar algumas décadas e estudar O Grande Dragão Branco, que compreendeu como transformar um torneio de artes marciais em sua espinha dorsal e ajudou a reavivar o interesse por esse tipo de produção nos Estados Unidos. Street Fighter, por outro lado, parece ter esquecido que, quando a principal promessa de um filme é colocar lutadores para trocar golpes, você tem que deixá-los lutar e, principalmente, fazer com que esses combates importem.



Só podem estar aprontando o terreno para um filme Marvel Vs. Capcom…

O problema maior de Street Fighter não se resume à incapacidade de estabelecer uma organização clara na linha narrativa. Boa parte dessas falhas é recorrente no cinema comercial atual e até acaba minimizada porque a própria audiência faz o trabalho de conectar as sequências, o que não chega a ser um problema por si só.

O problema maior, entretanto, é quando o filme deixa de apresentar o básico de sua premissa para uma audiência ampla em favor de um fanservice que conversa apenas com o público já iniciado. Em vez de investir na apresentação de seu universo e na construção de personagens minimamente interessantes, a produção demonstra uma preocupação excessiva em agradar a quem já conhece os jogos, incluindo participações de influenciadores da comunidade competitiva de jogos de luta.




Essa escolha fica evidente na falta de contextualização de informações como a posição de Bison como ditador e a origem compartilhada do Hadouken de Ryu e Ken, ambos discípulos de Gouken e, portanto, lutadores do mesmo estilo marcial. Falando de uma experiência particular agora: assisti ao filme com uma pessoa que não conhecia nada da franquia. Ela até gostou, mas saiu confusa justamente por essas lacunas. São detalhes dedutíveis para quem conhece os jogos, mas uma adaptação comercial não deveria depender desse conhecimento prévio para tornar sua história compreensível.

Essa prioridade invertida também aparece no humor. Tudo bem, Street Fighter é galhofa, já entendi e concordo, mas em partes, porque há tipos distintos de galhofas. Existem sim os momentos leves e de bom humor, algo que, inclusive, diferencia da galhofa gore de Mortal Kombat, mas o filme tem uma dificuldade constante em sustentar momentos dramáticos sem recorrer a piadas, numa abordagem que lembra a Marvel quando começou a se acomodar, mais especificamente por volta da fase 2, com Homem de Ferro 3 ou Era de Ultron.




Por exemplo, o retorno de Ryu embalado por música popular é um exemplo particularmente constrangedor dessa dependência de fórmulas popularizadas por Guardiões da Galáxia, sem que a escolha encontre justificativa orgânica no universo de Street Fighter. A sorte maior do filme, entretanto, é quando a trilha sonora acerta ao transformar os temas dos jogos em música incidental. Os diálogos também são sofríveis na maior parte do tempo, embora certas menções, como o “GO HOME AND BE A FAMILY MAN” ou ainda a fala do Bison sobre a banalidade de uma terça-feira, consigam arrancar uma risada genuína.

A inconsistência se estende ao elenco. David Dastmalchian — que é um dos meus atores favoritos cuja escalação eu defendi até assistir ao filme —, entrega um M. Bison constrangedor ao reproduzir a caricatura de Raúl Juliá no filme de 1994 sem também compreender que a tal galhofa exige outra abordagem aqui (sem falar da estranha podolatria).




Dan tem uma construção interessante (visualmente, ele dá a volta na referência de sua origem e usa uma roupa idêntica ao do Robert Garcia, mas rosa) e até cumpre sua função na história, mas ocupa tempo demais que não deveria pertencer a ele. Para se ter uma ideia, a montagem interrompe a continuidade das lutas de Ken para mostrar suas reações. Guile e Zangief, por sua vez, mal encontram espaço para existir, e Cammy destoa mesmo considerando seu estado de controle mental.

Em contrapartida, Dhalsim é um dos grandes acertos: a movimentação impecável do ator e sua expressividade corporal (agradeça a Bollywood) dão vida ao personagem mesmo quando o roteiro não ajuda. Chun-Li também é muito bem interpretada, enquanto Ryu e Ken funcionam razoavelmente bem. 




Fotografia e direção de arte seguem essa mesma lógica de acertos pontuais e decisões equivocadas. Se, por um lado, as lutas de Ryu contra Honda e de Ken contra Dhalsim estão entre os melhores momentos do longa, e as sequências animadas são visualmente bonitas quando integram a narrativa, em vez de interromper aleatoriamente as interações entre os protagonistas, por outro, alguns quadros com a Chun-Li e a Cammy remetem ao que Joss Whedon fazia ao enquadrar a Viúva Negra em Vingadores, com closes e ângulos bem questionáveis e pouco interessados em contar a história também através do visual.

O melhor dos três filmes da marca até agora, pelo menos

Por fim, fica um pouco difícil deixar de apontar o elefante na sala, que é Mortal Kombat. A percepção que fica é que esse Street Fighter comete os mesmos erros do primeiro MK de 2021, enquanto sua sequência conseguiu corrigir a rota e encontrar um equilíbrio muito mais eficiente entre o fanservice e o trabalho de exposição daquele mundo, o que acarreta em uma experiência mais divertida como um todo, seja quem é jogador ou não.




Para se ter uma ideia, a mesma pessoa que eu comentei que assistiu a esse Street Fighter comigo também viu Mortal Kombat II e, embora ela tenha apreciado a história de Ken e Ryu, comentou também que a experiência com o longa-metragem baseado na série da NetherRealm foi muito mais satisfatória por conseguir acompanhar melhor o que acontecia na tela — e olha que ela só viu o segundo.

É natural esperar que uma eventual sequência de Street Fighter aprenda com os próprios erros, mas não dá para dar como certa diante do retorno financeiro bem abaixo do esperado. Talvez esse seja o resultado de superestimar o potencial de sua audiência cativa e negligenciar novos públicos em potencial, já que é preciso construir um filme que funcione por conta própria e consiga conquistar também quem está chegando agora. Ninguém espera uma super-produção de irretocável valor artístico, mas que tal fazer um trabalho bem-feito? 


Revisão: Ives Boitano
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João Pedro Boaventura
É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Tem um blog particular onde escreve um monte de groselha e também é autor de Comunicação Eletrônica, (mais um) livro que aborda história dos games, mas sob a perspectiva da cultura e da comunicação.
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