É difícil encontrar alguém que não conheça o caótico filme de 1994 e todas as
suas anedotas, como é o caso de como o Van Damme, no auge do vício, era um
ator complicado de se lidar, ou ainda do Raul Julia se esforçando no papel do
Bison em um último estágio de câncer. Também passamos por uma segunda
tentativa live-action com A Lenda de Chun-Li, antes da Capcom observar o atual
momento para adaptações de videogames no cinema e decidir surfar na onda com
uma nova aposta, agora com uma abordagem colorida orientada ao pop e mais
próximo do que o MCU, os live-action do Sonic ou até mesmo as animações do
Super Mario.
Era só assistir a O Grande Dragão Branco e tomar nota, caras
Na sua premissa, o filme faz o feijão com arroz: seis anos após derrotar Sagat
e se sagrar vencedor no primeiro torneio Street Fighter — cuja final foi
atribulada por conta do caos causado por uma aparição de Akuma — Ryu
desaparece do mundo das artes marciais. M. Bison, atrás da força de Hadou que
o campeão apresentou durante a competição, decide organizar uma segunda edição
a fim de atraí-lo de volta à ativa.
Paralelamente, Ken, irmão de criação e colega de treino de Ryu, aproveitou a
fama como um exímio lutador e se tornou uma espécie de celebridade. Chun-Li,
então, entra em cena e o convida para o novo torneio, acreditando que isso
seria suficiente para encontrar o antigo campeão, que, no fim das contas,
decide ressurgir por conta própria. Nota-se que, a partir daqui, a premissa
está estabelecida e o que se espera é a consolidação do torneio de uma forma
até que previsível, sendo as lutas apresentadas sucessivamente e, no fim,
Bison coloca seu plano de roubar o poder do Ryu em prática.
No instante em que os personagens principais chegam a Metrolao City, o filme
começa a se perder em qualquer linha lógica que ele começa a estabelecer, seja
do ponto de vista narrativo, seja do ponto de vista até mesmo do fanservice. O
momento central em que tudo descarrila é a cena da briga no bar, já que ela
faz o trabalho de apresentar todos os outros personagens secundários durante
um momento de descontração, é dela que o roteiro se ramifica em dois núcleos:
o do torneio e o do plano do Bison que, agora, não está nem aí para o evento
de fachada, já que ele conseguiu prender Ryu e colocá-lo na cadeia para brigar
e, eventualmente, liberar o poder Hadou que ele tanto quer para si.
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| Essa imagem é simbólica, com o torneio relegado ao plano de fundo enquanto outros pormenores assumem a frente (e olha que eu também adoro o Eric André). |
O torneio, que deveria ser a espinha dorsal, então, acaba relegado a um mero
pano de fundo. As lutas começam a ser escassas, sendo que algumas acontecem
fora de campo — Guile contra Vega e Dhalsim contra Zangief são dois dos
exemplos mais gritantes — e os confrontos que efetivamente vemos são muito
curtos e não recebem tempo suficiente para serem apreciados. A situação é
agravada pelo excesso de personagens que pouco acrescentam à trama, já que
Vega, Guile, Balrog e Zangief mal justificam sua presença, enquanto Dhalsim,
apesar de ter uma relevância muito pontual para a história, ao menos
protagoniza combates memoráveis.
Essa falta de foco é agravada por uma montagem que parece incapaz de encontrar
um ritmo minimamente consistente. O começo funciona razoavelmente bem, mas
logo dá lugar a um efeito sanfona que alterna entre sequências cansativamente
longas e cortes abruptos que atropelam informações ou encerram situações antes
que elas tenham tempo de produzir algum efeito. A montagem fragmenta os
combates que acontecem em paralelo e impede que o espectador se envolva
plenamente em qualquer um deles. Sobram também slow motions, closes com
distorção de lente e enquadramentos enfáticos de personagens pelos quais o
filme ainda não conseguiu fazer o público se interessar. É uma quantidade
impressionante de estímulos visuais para uma narrativa que mal consegue
organizar suas próprias prioridades.
| Parece piada, mas o Ken do filme tem uma crise por não conseguir
fazer o Hadouken e eu não deixei de me lembrar dessa minissérie do CollegeHumor de 2007. |
Até o epílogo se estende muito além do necessário, sem oferecer uma conclusão
proporcional aos acontecimentos. O filme termina, mas sua dificuldade em
estabelecer consequências claras para os acontecimentos anteriores produz uma
conclusão tão desajeitada que não é difícil entender por que parte do público
sai com a impressão de que faltou um final propriamente dito.
Não se trata exatamente de um cliffhanger, mas da incapacidade de encerrar a
história com a objetividade que ela exige. Talvez valesse a pena voltar
algumas décadas e estudar O Grande Dragão Branco, que compreendeu como
transformar um torneio de artes marciais em sua espinha dorsal e ajudou a
reavivar o interesse por esse tipo de produção nos Estados Unidos. Street
Fighter, por outro lado, parece ter esquecido que, quando a principal promessa
de um filme é colocar lutadores para trocar golpes, você tem que deixá-los
lutar e, principalmente, fazer com que esses combates importem.
Só podem estar aprontando o terreno para um filme Marvel Vs. Capcom…
O problema maior de Street Fighter não se resume à incapacidade de
estabelecer uma organização clara na linha narrativa. Boa parte dessas
falhas é recorrente no cinema comercial atual e até acaba minimizada porque
a própria audiência faz o trabalho de conectar as sequências, o que não
chega a ser um problema por si só.
O problema maior, entretanto, é quando o filme deixa de apresentar o básico
de sua premissa para uma audiência ampla em favor de um fanservice que
conversa apenas com o público já iniciado. Em vez de investir na
apresentação de seu universo e na construção de personagens minimamente
interessantes, a produção demonstra uma preocupação excessiva em agradar a
quem já conhece os jogos, incluindo participações de influenciadores da
comunidade competitiva de jogos de luta.
Essa escolha fica evidente na falta de contextualização de informações como
a posição de Bison como ditador e a origem compartilhada do Hadouken de Ryu
e Ken, ambos discípulos de Gouken e, portanto, lutadores do mesmo estilo
marcial. Falando de uma experiência particular agora: assisti ao filme com
uma pessoa que não conhecia nada da franquia. Ela até gostou, mas saiu
confusa justamente por essas lacunas. São detalhes dedutíveis para quem
conhece os jogos, mas uma adaptação comercial não deveria depender desse
conhecimento prévio para tornar sua história compreensível.
Essa prioridade invertida também aparece no humor. Tudo bem, Street Fighter
é galhofa, já entendi e concordo, mas em partes, porque há tipos distintos
de galhofas. Existem sim os momentos leves e de bom humor, algo que,
inclusive, diferencia da galhofa gore de Mortal Kombat, mas o filme tem uma
dificuldade constante em sustentar momentos dramáticos sem recorrer a
piadas, numa abordagem que lembra a Marvel quando começou a se acomodar,
mais especificamente por volta da fase 2, com Homem de Ferro 3 ou Era de
Ultron.
Por exemplo, o retorno de Ryu embalado por música popular é um exemplo
particularmente constrangedor dessa dependência de fórmulas popularizadas
por Guardiões da Galáxia, sem que a escolha encontre justificativa orgânica
no universo de Street Fighter. A sorte maior do filme, entretanto, é quando
a trilha sonora acerta ao transformar os temas dos jogos em música
incidental. Os diálogos também são sofríveis na maior parte do tempo, embora
certas menções, como o “GO HOME AND BE A FAMILY MAN” ou ainda a fala do
Bison sobre a banalidade de uma terça-feira, consigam arrancar uma risada
genuína.
A inconsistência se estende ao elenco. David Dastmalchian — que é um dos
meus atores favoritos cuja escalação eu defendi até assistir ao filme —,
entrega um M. Bison constrangedor ao reproduzir a caricatura de Raúl Juliá
no filme de 1994 sem também compreender que a tal galhofa exige outra
abordagem aqui (sem falar da estranha podolatria).
Dan tem uma construção interessante (visualmente, ele dá a volta na
referência de sua origem e usa uma roupa idêntica ao do Robert Garcia, mas
rosa) e até cumpre sua função na história, mas ocupa tempo demais que não
deveria pertencer a ele. Para se ter uma ideia, a montagem interrompe a
continuidade das lutas de Ken para mostrar suas reações. Guile e Zangief,
por sua vez, mal encontram espaço para existir, e Cammy destoa mesmo
considerando seu estado de controle mental.
Em contrapartida, Dhalsim é um dos grandes acertos: a movimentação impecável
do ator e sua expressividade corporal (agradeça a Bollywood) dão vida ao
personagem mesmo quando o roteiro não ajuda. Chun-Li também é muito bem
interpretada, enquanto Ryu e Ken funcionam razoavelmente bem.
Fotografia e direção de arte seguem essa mesma lógica de acertos pontuais e
decisões equivocadas. Se, por um lado, as lutas de Ryu contra Honda e de Ken
contra Dhalsim estão entre os melhores momentos do longa, e as sequências
animadas são visualmente bonitas quando integram a narrativa, em vez de
interromper aleatoriamente as interações entre os protagonistas, por outro,
alguns quadros com a Chun-Li e a Cammy remetem ao que Joss Whedon fazia ao
enquadrar a Viúva Negra em Vingadores, com closes e ângulos bem
questionáveis e pouco interessados em contar a história também através do
visual.
O melhor dos três filmes da marca até agora, pelo menos
Por fim, fica um pouco difícil deixar de apontar o elefante na sala, que é
Mortal Kombat. A percepção que fica é que esse Street Fighter comete os
mesmos erros do primeiro MK de 2021, enquanto sua sequência conseguiu
corrigir a rota e encontrar um equilíbrio muito mais eficiente entre o
fanservice e o trabalho de exposição daquele mundo, o que acarreta em uma
experiência mais divertida como um todo, seja quem é jogador ou não.
Para se ter uma ideia, a mesma pessoa que eu comentei que assistiu a esse
Street Fighter comigo também viu Mortal Kombat II e, embora ela tenha
apreciado a história de Ken e Ryu, comentou também que a experiência com o
longa-metragem baseado na série da NetherRealm foi muito mais satisfatória
por conseguir acompanhar melhor o que acontecia na tela — e olha que ela só
viu o segundo.
É natural esperar que uma eventual sequência de Street Fighter aprenda com
os próprios erros, mas não dá para dar como certa diante do retorno
financeiro bem abaixo do esperado. Talvez esse seja o resultado de
superestimar o potencial de sua audiência cativa e negligenciar novos
públicos em potencial, já que é preciso construir um filme que funcione por
conta própria e consiga conquistar também quem está chegando agora. Ninguém
espera uma super-produção de irretocável valor artístico, mas que tal fazer
um trabalho bem-feito?
Revisão: Ives Boitano











