Análise: KINGDOM HEARTS Collection [I~III] vale pela jornada, não pelas novidades

Uma compilação para quem deseja maratonar a saga, até o quarto capítulo chegar.

em 17/10/2026
KINGDOM HEARTS Collection [I~III] chega aos consoles modernos com a missão de reunir mais de duas décadas de história em um único ponto de partida, preparando o terreno para o aguardado quarto capítulo da saga. Ao consolidar a improvável e charmosa união entre a narrativa melodramática da Square Enix e a magia dos universos clássicos da Disney, o pacote oferece uma enorme quantidade de conteúdo, que atravessa gerações, do PlayStation 2 ao PlayStation 4.

O conteúdo da coletânea 

Lançado originalmente em 2002 para o PlayStation 2, o primeiro Kingdom Hearts conquistou o público ao unir o prestígio da Square com as propriedades intelectuais da Disney. Trata-se de uma narrativa frequentemente apontada como confusa pela proliferação de títulos paralelos em diferentes plataformas, mas que preserva um carisma singular nas interações entre ícones como o Pato Donald e o Pateta e figuras originais, como o protagonista Sora e seus companheiros, que conquistaram uma legião própria de fãs.

A coleção é dividida em três aplicativos, distribuídas da seguinte forma:
  • KINGDOM HEARTS -HD 1.5+2.5 ReMIX-
  • KINGDOM HEARTS FINAL MIX
  • KINGDOM HEARTS Re:Chain of Memories
  • KINGDOM HEARTS II FINAL MIX
  • KINGDOM HEARTS 358/2 Days (compilação de cenas em alta definição)
  • KINGDOM HEARTS Birth by Sleep FINAL MIX
  • KINGDOM HEARTS Re:coded (compilação de cenas em alta definição)
  • KINGDOM HEARTS HD 2.8 Final Chapter Prologue
  • KINGDOM HEARTS Dream Drop Distance HD
  • KINGDOM HEARTS χ Back Cover (filme)
  • KINGDOM HEARTS 0.2 Birth by Sleep -A fragmentary passage-
  • KINGDOM HEARTS III + Re Mind (DLC)
Embora os volumes sejam comercializados individualmente, a relação de custo-benefício mais vantajosa reside na aquisição do pacote completo, cujo preço se justifica diante do volume maciço de horas disponível. Além de percorrer o mosaico narrativo da série, o conjunto funciona como um registro da própria evolução técnica dos videogames ao longo dos anos, transitando das raízes do PlayStation 2 e dos portáteis até a produção cinematográfica da geração PlayStation 4.

A maratona com Sora

Ao acessar o primeiro pacote, o jogador se depara com a seleção entre os seis títulos disponíveis em um menu que, honestamente, se mostra pouco elegante. Felizmente, não é preciso pesquisar por onde começar: a disposição apresentada segue a cronologia recomendada para acompanhar a saga.

O ponto de partida com o primeiro Kingdom Hearts introduz uma aventura que passou por diferentes revisões técnicas até atingir a forma atual. A jornada do jovem Sora pelas Ilhas do Destino, ao lado de Donald e Pateta, para salvar mundos da ameaça dos misteriosos Heartless, enquanto busca reencontrar Riku e Kairi, preserva seu encanto. Como esses jogos já receberam diversas remasterizações ao longo das gerações, os episódios numerados não aparentam, visualmente, o peso de sua época de origem. 

O trabalho artístico na modelagem dos personagens, exibido em alta resolução e taxa de quadros fluida, continua como um feito notável da Square Enix. A empresa soube incorporar a identidade visual da Disney, com cores vibrantes, expressividade marcante e cenários amplos que traduzem com fidelidade os universos das animações. A introdução ao sistema de jogo cumpre seu papel, apresentando mecânicas que, embora acusem a passagem do tempo nos controles, mantêm-se funcionais. O início pode soar cadenciado demais para os padrões atuais, mas estabelece os alicerces desse universo com eficiência.

A longevidade da campanha é capaz de prender o jogador por semanas, servindo como um convite tanto para novatos quanto para veteranos que desejam revisitar o clássico. Seguindo a ordem do pacote, o passo seguinte é KINGDOM HEARTS Re:Chain of Memories. Lançado originalmente para Game Boy Advance e, posteriormente, recriado em 3D, o título fica mecanicamente abaixo do primeiro jogo, mas sustenta uma aventura válida, não aparenta a idade visualmente e funciona como um pit stop antes de alcançar Kingdom Hearts II. Nele, acompanhar Sora, Donald e Pateta atinge o ápice da fórmula clássica, aprofundando o combate e expandindo o escopo dramático da franquia.

O acervo também reúne compilações em vídeo dos jogos portáteis que não tiveram sua jogabilidade adaptada em versões jogáveis completas, contando apenas suas sequências de animação para manter a continuidade do enredo. Esse modelo se repete no segundo volume (HD 2.8), em que um dos três itens é justamente um longa-metragem animado. O desequilíbrio na quantidade e variedade de conteúdo entre a primeira coletânea e a segunda é evidente, sobretudo quando ambas cobram valores similares, se adquiridas de forma avulsa; daí a relevância de optar pela coleção unificada.

A terceira aplicação abriga Kingdom Hearts III e a expansão Re Mind. Sendo o título mais contemporâneo, ele amarra o arco narrativo até a chegada da próxima sequência. O salto na fidelidade visual e na escala, em comparação com os lançamentos anteriores, é expressivo, mas não diminui o brilho das produções clássicas. O cuidado com a ambientação, a força das composições musicais e a presença de personagens cativantes mantêm a coesão de uma jornada que, mesmo fragmentada em tantas ramificações, preserva a sua essência.

Novidades nulas

Este pacote em específico impõe um desafio na hora de analisar. Isoladamente, os jogos justificam com folga o valor cobrado, entregando facilmente mais de duzentas horas de conteúdo de alto nível, e muito mais para quem busca encontrar cada segredo. Contudo, parte indispensável da avaliação recai sobre a proposta do relançamento em si, que se complica ao constatar que se trata de uma mera replicação de compilações anteriores, agora no PlayStation 5.

A intenção comercial com este movimento é preparar o terreno e despertar o interesse de veteranos e novatos por Kingdom Hearts IV, que desponta como um dos grandes lançamentos da indústria no próximo ano. Ao mesmo tempo, há a estreia no sucessor do Nintendo Switch. No híbrido anterior da Nintendo, a saga existia de forma precária e limitada à nuvem; agora, ao rodar nativamente, o ganho de apelo é alto. No ecossistema da Sony, porém, a história é diferente.

A unificação desses títulos começou no PlayStation 3 e ganhou forma consolidada no PlayStation 4, versões que já funcionam perfeitamente no PS5 via retrocompatibilidade. Sob esse ponto de vista, a nova compilação soa redundante no console da Sony, já que não introduz melhorias práticas em relação ao que já estava disponível na biblioteca. Seria injusto, para mim, no entanto, criticar a disponibilidade em si, afinal, o acesso nativo aos consoles modernos é bem-vindo, algo que outras publicadoras deveriam adotar com mais frequência. Estou até hoje esperando uma versão nativa de Batman: Arkham Knight e Red Dead Redemption 2. O problema é que, marcando presença pela terceira geração consecutiva, essa coletânea perde a oportunidade de se consagrar como a edição definitiva da série, acomodando-se na condição de mero relançamento.

Faltam recursos de qualidade de vida comuns a restaurações e compilações recentes da indústria, como sistemas de rewind ou salvamento a qualquer instante. No mesmo sentido, a ausência de um reprodutor de trilha sonora soa como um descuido diante da magnitude e da relevância do trabalho musical da saga.

Para os brasileiros, a maior carência continua sendo a ausência de localização em português. Em um produto cujo valor deve ser julgado pelo cuidado agregado como coletânea de preservação, a Square Enix falha em não estender essa narrativa a novos públicos. Para uma saga densa, construída ao longo de décadas, a falta de textos em português limita o alcance que uma edição comemorativa dessa escala deveria ostentar. Felizmente Kingdom Hearts IV já consta com a confirmação de localização nacional. 

Para quem?

O inevitável novo capítulo da franquia desponta no horizonte, momento em que a atenção da indústria voltará a se concentrar em Sora e nas novidades dos mundos a serem explorados. Para quem está afastado da saga desde os tempos do PlayStation 2 ou do PlayStation 3, este é um pacote com preço justo e volume imenso de conteúdo, garantindo meses de entretenimento contínuo. Por outro lado, para quem já revisitou essas aventuras recentemente no PlayStation 4, a escassez de atrativos inéditos é nítida, estendendo-se até mesmo ao uso tímido do SSD do PS5, cujos tempos de carregamento pouco se destacam.

Para os usuários de PlayStation 5 que gostam de troféus, surge outro detalhe incômodo. Limitações estruturais do ecossistema impedem listas independentes de platina para múltiplos jogos agrupados dentro de um mesmo aplicativo. Dessa forma, a compilação inicial entrega apenas um troféu de platina, atrelado ao primeiro jogo, rebaixando os títulos seguintes ao formato de DLCs na listagem da plataforma, o que compromete a obtenção do 100% de perfil sem afetar a platina principal. Essa escolha reduz drasticamente as platinas totais disponíveis no pacote e eleva a exigência de dedicação, especialmente no terceiro jogo, em que a expansão Re Mind passa a ser obrigatória para alcançar a platina.

A preparação final

KINGDOM HEARTS Collection [I~III] é um monumento histórico do gênero RPG de ação, reunindo centenas de horas da charmosa parceria entre Square Enix e Disney em um único ponto de partida para a chegada do quarto capítulo da saga. No PlayStation 5, a coleção não passa de um port excessivamente seguro e redundante, que dispensa melhorias visíveis, adições de qualidade de vida ou localização em português. Ainda assim, para quem nunca tocou na franquia ou busca uma porta de entrada completa, o pacote entrega um valor inquestionável de conteúdo de alto nível.

Prós

  • Quantidade colossal de conteúdo reunida em um só lugar, ultrapassando facilmente centenas de horas de RPG;
  • Preservação visual e de desempenho competente, com direção de arte que continua charmosa e expressiva;
  • Jornada histórica fascinante, que documenta a evolução da Square Enix e dos RPGs ao longo de várias gerações;
  • Ótimo custo-benefício para novatos ou jogadores afastados da série que desejam se preparar para o quarto capítulo.

Contras

  • Ausência completa de localização com legendas em português;
  • Falta de recursos modernos de preservação e qualidade de vida, como save states, rewind ou reprodutor musical de trilha sonora;
  • Pouquíssima justificativa para upgrade no PlayStation 5 em relação às versões de PS4 jogáveis via retrocompatibilidade;
  • Menus de navegação pouco elegantes.
KINGDOM HEARTS Collection [I~III] — PS5/XSX/SWITCH 2 — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Revisão: Mariana Marçal
Análise feita com cópia digital cedida pela Square Enix
OpenCritic
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Matheus Oliveira
Entusiasta de games e cinema, sempre explorando novos gêneros e estilos enquanto acumula um backlog infinito. X e Instagram
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