Análise: Culdcept The First Saturn Tribute é uma charmosa mistura de deck-builder com Banco Imobiliário direto dos anos noventa

O resgate histórico entrega disputas envolventes, mesmo cobrando a paciência do jogador em algumas partidas extensas.

em 05/10/2026

Lançado originalmente em 1997, o primeiro título da série Culdcept nunca havia chegado de forma oficial ao Ocidente. Culdcept The First Saturn Tribute finalmente corrige essa ausência histórica e oferece aos jogadores do mundo todo a chance de conhecer o início dessa saga cult. A proposta mistura mecânicas de jogo de tabuleiro com construção de baralhos, resultando em uma experiência com forte apelo nostálgico, mesmo para quem nunca teve contato prévio com a franquia.

Salvando Bablashca

Como o jogo consegue evocar nostalgia mesmo sem um conhecimento prévio por parte do jogador? Ele carrega todo o charme característico da era do primeiro PlayStation e reúne elementos daquela época para criar uma jornada saída diretamente dos anos 1990, mas que continua moderna e divertida. Digo isso por experiência própria, já que este também foi o meu primeiro contato com a franquia, me atraindo de imediato pela estética e pelo formato do gameplay.

A história se passa no continente de Bablashca, local onde a humanidade prosperava até o surgimento de fragmentos do livro sagrado Culdcept. Esse acontecimento espalhou o caos pelo território, atraindo diferentes entidades em busca de poder. Ao lado do peculiar Goligan, nosso avatar customizado parte para reverter a ruína e derrotar os dez rivais espalhados pelo mapa, em uma progressão com bifurcações sutis de rotas.

A narrativa não pretende reinventar a roda, mas cumpre a função de ambientar e ditar o ritmo da campanha. O roteiro aposta na espontaneidade e no bom humor, visível nas provocações antes e depois dos duelos e nas falas dinâmicas disparadas conforme a maré da partida vira. O grande mérito está no elenco: o design bizarro e cômico de Goligan rouba a cena, enquanto cada antagonista ostenta traços visuais marcantes e personalidades distintas. Essas interações ganham vida através de retratos ilustrados na caixa de diálogo, cujas poses e expressões reagem aos acontecimentos da partida, despojando expressividade e carisma ao tabuleiro.

No campo de batalha

A jogabilidade é simples de compreender. O título une a construção de baralhos com monstros, no melhor estilo Yu-Gi-Oh!, à estrutura clássica de jogos de tabuleiro como Banco Imobiliário. A grande diferença é que, no lugar de comprar terrenos e erguer casas ou hotéis, você aloca suas criaturas para proteger cada espaço. Essa união direta é o que torna o jogo cativante até hoje, funcionando muito bem tanto para veteranos quanto para novatos. 

A dinâmica da partida coloca o jogador e o oponente partindo da mesma casa inicial. Cada um recebe uma mão sorteada a partir do baralho montado previamente e, a cada turno, uma rolagem de dados define o alcance do movimento, dando espaço para camadas de estratégia e gerenciamento de recursos.

A primeira delas é a Magia, essencial que funciona como a mana de outros jogos de cartas, no qual cada invocação exige um custo específico para ser realizada. O segundo elemento decisivo são os tipos de terreno. Cada espaço do tabuleiro está associado a um elemento, e colocar um monstro condizente com a cor do solo garante bônus consideráveis de força, vida e até habilidades passivas exclusivas. Isso cria um dilema tático constante, fazendo você pensar duas vezes antes de gastar recursos imediatos ou segurar uma carta esperando cair em um espaço mais vantajoso.

O mapa conta com checkpoints espalhados pelo percurso. Completar uma volta inteira pelo trajeto permite restaurar mana e converter a presença das suas unidades no tabuleiro em pontos de vitória, chamados de G. No primeiro cenário da campanha, por exemplo, a meta principal é acumular 6.000G antes do adversário para encerrar o duelo.

Ao parar novamente em uma casa que já pertence ao seu domínio, é possível subir o nível da criatura e investir mais recursos naquele território. Criar correntes de terrenos conectados do mesmo elemento fortalece ainda mais as defesas e encarece a taxa cobrada caso o oponente pise ali.

Por outro lado, quando paramos em um espaço já controlado pelo rival, tem início o combate. Quem invade o terreno sempre ataca primeiro (a menos que a carta oponente tenha a habilidade de atacar primeiro), cabendo ao defensor revidar caso sobreviva. Os resultados podem terminar em vitória para o invasor, derrota ou um empate técnico, situação em que o defensor mantém a posse da casa e a criatura do atacante volta para a mão. Mesmo sendo direto, o sistema exige atenção à ordem das jogadas e ao uso oportuno de cartas de itens e magias de suporte, capazes de virar completamente o desfecho de um embate dado como perdido.

A criatividade visual dos monstros é outro atrativo à parte. Cartas como o Wereboar, um javali-humano em vez do tradicional lobisomem, chamam a atenção pela inventividade, enquanto opções defensivas como a Parede de Gelo se tornam quase impenetráveis quando posicionadas em terrenos do elemento água.

Cada um dos dez confrontos da campanha se desenrola em tabuleiros com traçados e regras de percurso próprios. Essa variedade é uma das maiores vantagens de adaptar um jogo de tabuleiro para o meio digital. O dinamismo dos cenários, aliado à descoberta de cartas novas usadas pelos rivais, mantém o jogador curioso e em constante aprendizado ao longo de toda a progressão.

O principal ponto negativo fica por conta do ritmo dos duelos. A inteligência artificial apresenta um comportamento inconsistente, algo que fica mais evidente nas fases avançadas onde a meta atinge marcas como 10.000G. Nesses mapas, as partidas chegam a ultrapassar duas horas e meia de duração, porém, o problema é que muitas vezes você conquista uma vantagem irreversível logo na primeira hora, transformando os momentos finais em uma mera formalidade demorada até o encerramento do placar. 

Ainda assim, existe uma tensão enquanto a disputa permanece equilibrada. Conquistar a dianteira traz uma satisfação genuína de ver o planejamento dando certo, mas essa sensação não anula o cansaço causado pela morosidade de sessões que se estendem além do necessário.

As novidades da versão

O relançamento internacional conta apenas com localização para o inglês, o que faz sentido diante do perfil de nicho do projeto. O texto em inglês é suficiente para compreender os status durante o combate, mas a barreira de idiomas cobra seu preço ao afastar quem depende do português para absorver o humor e o carisma dos diálogos.

Em compensação, duas novidades funcionais se destacam pela praticidade. A primeira é o sistema que concede pacotes adicionais de cartas ao término de cada disputa. Trata-se de um facilitador bem dosado, pois terminei a campanha perto de 200 cartas adquiridas em um acervo que ultrapassa 300 unidades para desbloquear. A segunda adição bem-vinda é a possibilidade de realizar salvamentos rápidos e carregamentos instantâneos a qualquer momento das partidas, um recurso indispensável considerando a extensão de cada duelo.

O título peca pela ausência de suporte a partidas online. A omissão é compreensível pelo temor de servidores vazios a médio prazo, mas representa uma oportunidade perdida de consolidar uma base fiel no Ocidente, já que títulos de nicho costumam reunir comunidades bastante dedicadas que adorariam colocar seus decks à prova na rede.

Por outro lado, o clássico multijogador local marca presença. A possibilidade de disputar partidas no mesmo sofá, passando o controle entre amigos a cada turno, preserva o espírito dos jogos de tabuleiro físicos e garante uma sobrevida divertida ao pacote para além da campanha solo, que deve demorar entre 10 a 13 horas.

Conquistando território

Mesmo sentindo o peso de partidas que se estendem mais do que o necessário contra uma inteligência artificial irregular, Culdcept The First Saturn Tribute cumpre um papel histórico valioso ao resgatar um clássico refinado, cuja engenhosa fusão entre sorte nos dados, controle de território e tática com cartas se mostra surpreendentemente viciante e charmosa quase três décadas após sua estreia original.

Prós

  • Fusão engenhosa e viciante entre sorte nos dados, controle de área e construção de baralho;
  • Elenco carismático e diálogos bem-humorados que conferem personalidade única aos confrontos;
  • Grande variedade de cartas e tabuleiros com dinâmicas geográficas distintas;
  • Adições de qualidade de vida essenciais, como salvamento rápido.

Contras

  • Partidas avançadas excessivamente longas, frequentemente resolvidas na primeira hora e arrastadas até o final;
  • Inteligência artificial com comportamento oscilante;
  • Ausência de partidas ou salas online para confrontos com a comunidade.
Culdcept The First Saturn Tribute — PS5/XONE/XSX/SWITCH/PC — Nota: 7.0
Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Revisão: Julia Loffreda Costa
Análise feita com cópia digital cedida pela Clear River Games
OpenCritic
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Matheus Oliveira
Entusiasta de games e cinema, sempre explorando novos gêneros e estilos enquanto acumula um backlog infinito. X e Instagram
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