Depois de 14 anos sem um novo jogo inédito da série em 2D, Castlevania: Belmont’s Curse marca o retorno da franquia com uma aventura que resgata suas raízes e as renova com elementos modernos. Desenvolvido pelo estúdio francês Evil Empire (de Dead Cells e The Rogue Prince of Persia), o jogo segue um caminho bem diferente dos últimos títulos 2D da franquia. A movimentação mais ágil, algumas ideias inéditas e o abandono de alguns conceitos clássicos resulta em uma aventura envolvente, apesar de romper com o passado.
Enfrentando horrores na França
Em 1499, Paris é tomada por monstros e consumida pelas chamas. Trevor Belmont é chamado para enfrentar a ameaça e parte acompanhado de sua filha, Rose, que está determinada a provar seu valor. A situação, porém, revela-se mais complicada do que parecia, pois há uma conspiração em andamento para ressuscitar Drácula. Cabe à jovem Belmont impedir que o vampiro retorne e colocar fim à ameaça.Belmont’s Curse mantém a estrutura de ação e plataforma em 2D, mas incorpora características de metroidvanias modernos e até mesmo uma pitada de Souls. Como é de praxe, o mapa é interconectado e, conforme adquirimos novas habilidades, podemos alcançar áreas antes inacessíveis e descobrir caminhos alternativos. A exploração se mistura a combates, desafios de plataforma e quebra-cabeças, criando uma jornada que tenta equilibrar diferentes atividades.
O principal recurso inédito é o Chicote Arcano que, ao contrário do lendário Vampire Killer, não é utilizado no combate. Podemos lançá-lo em pontos de ancoragem para alcançar locais altos ou nos balançar pelos cenários, mas também utilizá-lo contra inimigos para nos aproximar deles rapidamente e em seguida desferir golpes. Essa versatilidade influencia boa parte da experiência, dando mais liberdade aos movimentos e permitindo combinar deslocamentos e ataques de maneira ágil.
Nos combates, Rose utiliza diferentes armas, como espadas, lanças e luvas, e a garota carrega três poções para curar seus ferimentos. Ao derrotar chefes, eles são aprisionados em cartas de tarô, que concedem Arcanos com habilidades especiais, como lançar bolas de fogo ou petrificar adversários. Por fim, diferentes Relíquias complementam o sistema com efeitos passivos.
Há uma diferença importante em relação aos últimos jogos 2D: os inimigos não deixam itens ao morrer. As armas e relíquias são fixas e estão escondidas pelo mundo, o que nos incentiva a explorar para encontrar novos equipamentos.
Caçando as criaturas da noite em batalhas frenéticas
A agilidade dita o tom das batalhas de Belmont’s Curse. O combate é exigente e dinâmico, recompensando tanto a observação quanto a mobilidade. Os inimigos são mais resistentes e, muitas vezes, possuem ataques que exigem respostas específicas — simplesmente atacar não costuma ser suficiente, especialmente quando precisamos enfrentar vários monstros ao mesmo tempo. Nessas situações, é necessário escolher bem os alvos: priorizo aquele esqueleto arqueiro insistente ou acabo primeiro com o lobisomem que pula pela arena? São decisões que tornam os confrontos mais interessantes e exigem que prestemos atenção ao que acontece ao redor.A combinação de combos, movimentação ágil e exigência de perícia torna as batalhas divertidas e empolgantes. Jogar o chicote nos inimigos para nos deslocar rapidamente até eles deixa tudo ainda mais veloz, permitindo alternar entre ataques e reposicionamentos sem perder o ritmo. Os chefes são o ponto alto nesse aspecto, com batalhas complexas e intensas em que precisamos observar os padrões dos adversários e caprichar na destreza para encontrar as oportunidades certas de contra-atacar.
Os confrontos também se destacam pela criatividade. Cada chefe apresenta uma ideia própria, como um golem mecânico que nos obriga a permanecer em pontos específicos da arena para escapar de ataques devastadores ou uma cavalheira que espalha fogo pelo chão, exigindo o uso do chicote para alcançar locais elevados. São batalhas que aproveitam as habilidades de Rose de maneiras interessantes, em vez de se resumirem a adversários com muita vida e golpes cada vez mais fortes. Há momentos bastante difíceis, principalmente nos chefes mais avançados, mas gostei de como os confrontos exigem adaptação em vez de apenas insistência.
Em vários momentos, eu sofri para superar algumas arenas e batalhas, mas nunca fiquei realmente empacado. Mudar de estratégia ou experimentar outra combinação de equipamentos foi suficiente para avançar. Há também opções de acessibilidade que permitem ajustar o desafio, como aumentar a força de Rose ou disponibilizar mais poções de cura.
Há muitas mecânicas de combate, mas nem todas elas funcionam tão bem. As diferenças entre as armas são sutis e, na maior parte do tempo, bastou utilizar as mais fortes para vencer os confrontos. Já as Arcanas oferecem poderes interessantes, mas o custo elevado de mana e a limitação de equipar somente uma por vez atrapalham o ritmo. Por fim, ao subir de nível, Rose recebe um ponto de força e defesa a cada grau — o bônus é tão pequeno que praticamente não faz diferença. São detalhes que, se tivessem sido melhor trabalhados, tornariam as batalhas mais dinâmicas.
Em um mundo amplo e repleto de mistérios
A exploração é um dos grandes acertos de Belmont’s Curse, especialmente por causa do chicote arcano. Enganchar em pontos de ancoragem e nos balançar pelos cenários é simples e intuitivo, dando velocidade ao deslocamento e tornando a travessia dos ambientes bastante prazerosa.O mapa é extenso e repleto de coisas para descobrir, com um bom equilíbrio entre plataformas, combates e quebra-cabeças. Algumas seções exigem bastante domínio das habilidades de Rose, mas são justamente esses momentos que mais me agradaram, pois exploram os recursos de movimentação de maneiras criativas e nos fazem pensar em como superar cada obstáculo.
A estrutura começa de maneira relativamente linear, com rotas principais bem óbvias e poucos caminhos alternativos. Por volta da metade da aventura, porém, o mapa se abre consideravelmente, tornando a exploração mais interessante. Há uma boa variedade de ambientes e desafios, desde a torre do relógio, com salas repletas de serras e espinhos, até o imponente castelo de Drácula, com seus corredores labirínticos, catacumbas infestadas de mortos-vivos e locais de difícil acesso.
O problema é que o retorno a áreas anteriores pode ser cansativo: as opções de viagem rápida são limitadas durante boa parte da jornada e, apesar da existência de alguns atalhos, muitas vezes precisamos atravessar longos trechos a pé. Atalhos amenizam essa atividade, mas acredito que opções de locomoção mais ágeis tornariam a exploração menos custosa.
Por outro lado, gostei bastante dos quebra-cabeças interpretativos. Ao longo da aventura, encontramos documentos, bilhetes e fantasmas que fornecem pistas sobre elementos do mundo. Alguns desafios são simples, como encontrar um código para abrir uma porta, enquanto outros exigem observar detalhes do cenário e compreender como ativar determinados mecanismos. Não são enigmas extremamente complicados, mas instigam nossa curiosidade e trazem variedade à exploração. Muitos Arcanos também dependem de missões que envolvem enigmas ou ações pouco óbvias, exigindo que prestemos atenção às pistas e executemos passos específicos para concluir cada tarefa.
Os segredos escondidos pelo mapa são outra grata surpresa. Em diversos momentos, fiquei impressionado ao descobrir novas possibilidades depois de encontrar um caminho ou concluir um desafio que havia passado despercebido. Diverti-me bastante tentando desvendar esses mistérios, especialmente porque nem tudo depende de adquirir uma habilidade de movimentação e retornar a uma área antiga. É muito bom ver um metroidvania que também recompensa nossa capacidade de observar, interpretar pistas e experimentar soluções, em vez de concentrar toda a progressão na obtenção de novas habilidades.
Um gótico de novas cores
Visualmente, Belmont’s Curse aposta em uma interpretação bastante colorida do estilo gótico, com um visual em cel shading que, em alguns momentos, lembra a estética de animes. É uma mudança considerável em relação aos jogos anteriores, mas funciona bem na maior parte do tempo.Os cenários são belos, repletos de detalhes e compostos por diferentes camadas de elementos, aproveitando as cores para criar imagens marcantes. A cidade em chamas ao fundo das ruas de Paris é um bom exemplo, assim como a biblioteca que mistura um observatório astral a arquivos e documentos. As ilustrações dos personagens, em especial, são belíssimas e ajudam a dar personalidade a eles.
A trilha sonora, composta por ASADI, segue um caminho inusitado ao misturar elementos clássicos com batidas eletrônicas. A ideia é interessante, mas, na minha opinião, nem sempre combina com a ambientação gótica de Castlevania. Algumas melodias se tornam repetitivas e poucas ficam na memória após as sessões de jogo. Não deixa de ser uma tentativa válida de renovar a identidade sonora da série, mas senti falta de composições mais marcantes e que combinassem melhor com o clima da aventura. Não por acaso, a faixa que mais chama a atenção é justamente uma reinterpretação de Bloody Tears, uma das músicas mais conhecidas da franquia.
A história é relativamente simples, mas merece destaque pelo cuidado com que desenvolve Rose e estabelece ligações com os jogos antigos. Apesar de pertencer à família Belmont, ela é impulsiva e, em alguns momentos, deixa o ódio tomar conta de suas ações. Sua jornada também aborda, nas entrelinhas, o amadurecimento da heroína e sua tentativa de encontrar o próprio caminho.
Gostei especialmente das interações com os personagens aprisionados nas cartas de tarô, sobretudo os vilões. Existe uma dinâmica curiosa e divertida em ver esses monstros sendo obrigados a ajudar Rose, o que acrescenta personalidade à narrativa e cria momentos leves em meio à atmosfera sombria.
Uma ressurreição digna
Castlevania: Belmont’s Curse é um retorno competente da franquia, com um combate ágil e exigente, chefes criativos e uma exploração que recompensa nossa curiosidade. O chicote arcano funciona muito bem como ferramenta de movimentação, enquanto os segredos e quebra-cabeças dão personalidade à aventura. Alguns detalhes estão longe do ideal, como variedade das armas, agilidade no deslocamento entre áreas e música, porém a interpretação colorida da temática gótica tem seu charme.Ainda assim, gostei bastante da aventura. O jogo conseguiu modernizar a fórmula com boas ideias sem perder de vista a identidade de Castlevania, entregando uma jornada divertida que combina ação, exploração e desafios bem construídos. Alguns podem se decepcionar por não ser similar aos últimos títulos 2D da franquia, mas é um regresso que vale a pena.
Prós
- Combate ágil, exigente e divertido;
- Chefes criativos e desafiadores;
- Exploração extensa e diversa, com bons segredos e quebra-cabeças;
- Ambientação interessante em uma interpretação gótica repleta de cor.
Contras
- Algumas mecânicas têm impacto reduzido, como diferentes armas e sistema de experiência;
- Deslocamento cansativo entre áreas distantes;
- Trilha sonora repetitiva e pouco marcante.
Castlevania: Belmont’s Curse — PC/PlayStation 5/Xbox Series/Switch — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Vitor Tibério
Análise produzida com cópia digital cedida pela Konami
Análise produzida com cópia digital cedida pela Konami
















