Análise: Valor Mortis mistura soulslike e metroidvania com uma pitada francesa de boa qualidade

O game é uma experiência repleta de ação e boas ideias, equilibrando elementos distintos de forma competente.

Dentre os jogos que fazem uso de elementos históricos, alguns dos mais populares são baseados nas culturas grega e japonesa. De vez em quando, entretanto, surge um lançamento com uma proposta diferente. Valor Mortis é o mais novo exemplo dessa categoria, trazendo um RPG de ação inspirado no período mais famoso das guerras francesas. Pronto para conhecer mais sobre esse ótimo game?

Vive la France!

Valor Mortis traz a história de William, um soldado britânico do exército de Napoleão. Neste universo alternativo, os franceses venceram a Batalha de Waterloo, mudando os rumos das Guerras Napoleônicas. O protagonista começa a aventura sendo revivido pelo próprio Imperador Francês, descobrindo que uma praga sobrenatural afetou praticamente todo o seu exército.
William precisa sobreviver em meio ao caos e tentar descobrir a verdade por trás do ocorrido. Pelo caminho, ele vai encontrar figuras misteriosas e antigos colegas, encarando o enredo de forma lenta, mas constante. Não espere uma apresentação organizada ou um desenvolvimento robusto, mas a história é mais do que suficiente para justificar a jogatina e até reserva bons momentos.
 
Uma das boas qualidades de Valor Mortis é a sua produção. Os visuais são muito bonitos, tanto em nível técnico, quanto em nível de estilo. A temática de um território assolado pela guerra dos homens e pela praga do sobrenatural é bela e decadente ao mesmo tempo. Efeitos e animações são igualmente competentes e agradáveis, salvo algumas poucas animações que parecem ter escapado das correções finais. 
O trabalho de som também é bastante positivo. Ainda que não esteja no mesmo nível dos gráficos, as músicas sabem entregar momentos radicais e de suspense. O mesmo vale para a dublagem e demais trabalhos de som. Tecnicamente, o game é competente, com carregamentos rápidos e um desempenho suficientemente suave.

Mortes merecidas?

Falemos agora dos dois elementos que citei no título da matéria. Primeiramente, Valor Mortis é sobretudo um soulslike em primeira pessoa, completo com barra de vigor e pontos de salvamento que revivem vilões derrotados. A necessidade de constante atenção aos combates, que trazem perigo mesmo contra os inimigos mais básicos, também está presente.
Para enfrentar esses desafios, William conta com uma arma corpo a corpo na mão direita e uma de projéteis na esquerda. É possível equipar, por exemplo, um Sabre ou um Florete, bem como uma Pistola, um Bacamarte ou uma Transmutação, espécie de magia que pode lançar chamas ou criar barreiras. Em termos de movimentos, o protagonista pode pular, defender, desviar e aparar, tudo limitado pela já comentada barra de vigor.
Os cenários que percorremos ao longo da campanha – igrejas, pedreiras, vilarejos, fortalezas, etc. – estão repletos de inimigos e armadilhas, exigindo atenção constante. Mais do que isso, Valor Mortis é um jogo mortífero, com nível de dificuldade elevado, que, inclusive, não pode ser customizado entre opções tradicionais como “fácil”, “normal” ou “difícil”.
 
Se o jogo tivesse algum tipo de ajuste dinâmico da dificuldade, isso seria perdoável. Infelizmente, quem não for adepto ao gênero soulslike – ou estiver disposto a apanhar um pouco para aprender – não vai aproveitar adequadamente o game. Além da dificuldade inerente à proposta, o título também sofre por causa de algumas mecânicas mal implementadas.
Alguns inimigos possuem movimentos exageradamente erráticos e ataques cujo alcance não é condizente com a animação. Outro ponto que carece de ajustes é o da agressividade e detecção dos vilões: mesmo que William ande agachado – o que possibilita finalizações sorrateiras num sistema de furtividade interessante –, é comum inimigos distantes “enxergarem” o jogador e começarem a atacar sem parar, com direito a longas perseguições.

Luz na escuridão 

Mesmo com esses problemas, Valor Mortis tem combates de boa qualidade. O sistema de aparar os golpes para quebrar a postura inimiga e deixá-los vulneráveis é ótimo, bem como o sistema de defesa, que permite recuperar parte da vida perdida. Os inimigos podem executar ataques não bloqueáveis, ficando numa cor vermelha para deixar clara a necessidade de desviar.
Nesses casos, se desviamos no tempo certo, um bônus de dano é aplicado no contragolpe. William também tem acesso a uma boa quantidade de consumíveis, começando pelos Frascos de Ferrofluido. Eles recuperam a vida do protagonista e são recuperados quando salvamos o jogo numa lamparina. Outros itens incluem Pedras de Amolar – que aumentam o dano dos próximos golpes de espada – e Granadas – que explodem e causam bastante dano em área.
Apesar de não serem variados, os inimigos proporcionam combates radicais e viciantes, com destaque para os chefes e minichefes, que são sempre poderosos e tensos de enfrentar, mas rendem vitórias muito satisfatórias. O game valoriza a exploração, escondendo várias recompensas úteis que vão desde munição até itens para melhorar equipamentos e habilidades. Algumas melhorias, entretanto, só surgem após certos pontos da campanha.

Combinações únicas

Vamos falar agora do segundo elemento principal de Valor Mortis, que é a sua estrutura metroidvania. Desde as primeiras partes da aventura e se intensificando ao longo dela, temos cenários interligados com caminhos alternativos. Enquanto alguns podem ser acessados com alguma estratégia e habilidade, outros só estão disponíveis conforme avançamos na campanha.
Por vezes, basta progredir naturalmente; em outras, é preciso obter itens e habilidades específicas. Com elas, abrimos portas e passagens que criam atalhos entre partes diferentes do mapa, ou então acessamos regiões inéditas. Pena que o game não tem um mapa para ajudar a rastrear pontos de interesse, sobretudo para completar as missões secundárias disponíveis.
 
Tal como a maioria dos metroidvania, temos diversas seções de plataforma ao longo do jogo. Pular no tempo certo em locais que se movem, se equilibrar em terrenos estreitos, escalar estruturas... o game também tem uma boa variedade de desafios nesse sentido. William não é exatamente construído para tais ginásticas, mas consegue cumprir suas responsabilidades com méritos.

Diversão macabra

As grandes regiões do game são separadas pelos capítulos da campanha. Depois de um certo ponto na aventura, ganhamos a possibilidade de retornar a pontos já visitados. Eles consistem em lamparinas penduradas em postes, cuja função principal é a de salvar o jogo, mas que também permitem acessar as melhorias da árvore de habilidades do jogo.
Essas melhorias são compradas usando catalisadores, que, por sua vez, são obtidos derrotando inimigos e coletando itens específicos. Inclusive, aqui vale mais uma mecânica padrão dos soulslike: se você morrer, perde todos os pontos de catalisador e precisa voltar ao ponto da derrota para coletá-los. Se morrer mais uma vez antes disso, aquele recurso é perdido de vez.
 
William pode adquirir mais pontos de vida e de vigor, aumento de dano por tiros na cabeça, reforço no uso de Neftoglobina, etc. Falando nela, a substância Neftoglobina é como uma energia espectral que permite usar habilidades sobrenaturais, tal como o citado “lança-chamas”. Até mesmo o disparo da Pistola pode ser reforçado com esse recurso, tornando aquele tiro na cabeça ainda mais satisfatório.
Como fã de FPS, gostei das armas de fogo do game. Aliás, gostei do jogo como um todo, mesmo com as suas particularidades negativas. Desde as Pedras de Âmbar, que podem ser equipadas para obter habilidades passivas úteis, até os Golpes Críticos, que geram animações legais, temos pontos positivos de todos os lados. Só faltou um pouco mais de cuidado para o game atingir todo o seu potencial.

O valor da morte

Fazendo bom uso de uma premissa histórica francesa, Valor Mortis é um soulslike competente. Sua jogabilidade é divertida e os combates interessantes, ainda que um tanto exigentes demais. Felizmente, as qualidades dos mesmos compensam isso, contando com itens e movimentos legais. Por sua vez, a estrutura metroidvania com plataforma é bem implementada e torna a experiência geral agradável. Seja você um fã do gênero ou alguém interessado pela proposta, este é um game bastante interessante para a sua biblioteca.

Prós

  • RPG de ação entrega uma experiência emocionante e com boa qualidade geral;
  • A produção audiovisual apresenta alta competência, salvas pequenas exceções;
  • Jogabilidade funciona muito bem, com muitas mecânicas bem implementadas;
  • Estrutura metroidvania e seções de plataforma são competentes e combinam com a proposta do game;
  • Boa quantidade de itens, equipamentos e recursos para usar ao longo da campanha;
  • A história da aventura oferece um enredo base interessante e bons momentos ao longo do caminho. 

Contras

  • O alto nível de desafio do game é intensificado de forma exagerada pela falta de opções de dificuldade e por diversas mecânicas que precisam de ajustes;
  • Alguns pontos gerais carecem de mais cuidado, como algumas animações dos personagens, o desenvolvimento do enredo e a variedade dos vilões.
Valor Mortis — PC/PS5/XSX — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Julia Loffreda Costa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Lyrical Games
OpenCritic
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Matheus Senna de Oliveira
é produtor de conteúdo sobre games desde 2016 e um grande fã da décima arte, embora não tenha muito tempo disponível para ela. Seus games favoritos (que formam uma longa lista) incluem: KH, Borderlands, Guitar Hero, Zelda, Crash, FIFA, CoD, Pokémon, MvC, Yu-Gi-Oh, Resident Evil, Bayonetta, Persona, Burnout e Ratchet & Clank.
Também encontra-se no Twitter @MatheusSO02 e no OpenCritic.
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