Análise: SURI: The Seventh Note combina hinduísmo com músicas e plataforma de forma belíssima, mas se perde no seu próprio ritmo

O título traz visuais e trilha sonora marcantes, mas é inconsistente em sua mecânica e na progressão de dificuldade.

em 27/10/2026

SURI: The Seventh Note
é um jogo de plataforma e de ritmo que foi desenvolvido e publicado pelo estúdio indiano Tathvamasi Studios. O jogo nos coloca na pele de Ajira, uma jovem que precisa restaurar sua ilha de uma maldição para salvar sua mãe de uma terrível doença que se alastra pelo local. O seu maior destaque é a parte audiovisual, com um mundo desenhado em artes belíssimas e com uma trilha sonora que pulsa junto com os cenários. Por outro lado, o ritmo da campanha é inconsistente e oscila bastante entre a facilidade excessiva e picos de dificuldade consideráveis.

No ritmo do mundo

SURI: The Seventh Note se passa em uma ilha cheia de magia e música que foi corrompida graças à ganância de poder de Kanishka, responsável por desencadear o Antiram ( maldição que destruiu os biomas existentes) ao tentar roubar o poder da árvore sagrada de Kalpavriksha. Como resultado, os habitantes passaram a desenvolver uma doença que só pode ser curada pelo fruto da tal árvore, e uma das infectadas é a mãe de Ajira, nossa protagonista.

Com o desejo de salvar sua mãe, Ajira parte para uma aventura com o objetivo de chegar à árvore sagrada, capaz de purificar as regiões tomadas pela maldição e devolver o equilíbrio espiritual para a sua terra. Além da premissa, o grande destaque do universo de SURI está na forma com a qual ele adiciona a cultura e a mitologia hindu em cada detalhe do seu level design e da sua atmosfera.




A construção do mundo é baseada no conceito do som primordial, a ideia de que o próprio universo e a vida foram criados e regidos através da vibração da música. Essa visão aparece tanto na presença de estátuas e representações visuais de divindades do hinduísmo quanto no design dos cenários, que pulsam e reagem de acordo com a música. As fases passam por estruturas inspiradas nos templos, monumentos históricos e construções sagradas localizadas dentro do território indiano.

Outro ponto altíssimo da ambientação é a influência do Theyyam, uma arte ritualística e performática popular na Índia, que aparece nas cores vivas dos cenários, nas pinturas faciais dos personagens e no visual dos espíritos e criaturas da ilha. Tudo isso é acompanhado por uma trilha sonora que utiliza instrumentos como os tambores Idakka e os pratos Elathaalam, ambos os quais funcionam como marcadores de movimento e tempo de todos os elementos dos cenários.



Precisão para superar os desafios

Sendo um jogo focado em ritmo, a progressão é baseada em realizar movimentos dentro do ritmo da trilha sonora, que faz o mundo pulsar dentro do ritmo que devemos acompanhar. Ajira começa apenas com um salto simples, mas desbloqueia novas habilidades ao longo da campanha, como dashs em diferentes direções e saltos duplos, e essas dão mais dinamismo ao gameplay.

Cada fase é composta por uma sucessão de telas com guizos e amuletos que exigem apertar um botão específico quando estamos em contato e plataformas que se movimentam de maneira única. Em caso de fracasso, nossa protagonista cai no chão e a tela é reiniciada. O ritmo das plataformas deve ser observado com atenção, pois elas possuem padrões de movimentos distintos que devem ser superados em espaços específicos dentro da música.




No geral, as fases são simples e fáceis de serem superadas. Nos primeiros mundos, elas funcionam quase como tutoriais para aprendermos as novas mecânicas de movimentação e infelizmente acabam sendo simples demais comparadas ao que poderiam ser. A exceção é o último mundo, que realmente explora todas as mecânicas e adiciona diferentes estilos de plataformas que nos desafiam de verdade. Isso mostra até um problema de design do jogo, que se torna difícil repentinamente.

Outro ponto alto são os chefes. Não há uma batalha direta, apenas uma fase longa na qual não temos pausa para pensar no que fazer, apenas reagir ao que vemos em tela. Durante essas fases, novas ideias de movimentação são exploradas de maneira mais criativa enquanto somos perseguidos por monstros gigantes. 

A progressão pelos mundos é bastante linear, mas há algumas telas escondidas com desafios opcionais que nos dão um cristal para desbloquear novas informações sobre a história. Ao final de cada fase, o desempenho com os sinos é contabilizado, dando ao jogador a oportunidade de revisitar os cenários para buscar a coleta completa e desbloquear novos visuais para a protagonista.



Fora do compasso

Ironicamente, um dos maiores problemas que vi em SURI estava relacionado a questões envolvendo precisão e ritmo das músicas. Em alguns casos, parecia que os sinos não respeitavam o ritmo das músicas e isso acontecia em momentos específicos do jogo. Não era uma questão de calibração do controle ou áudio atrasado, simplesmente parecia que estava tudo fora do ritmo.

Isso aconteceu especialmente no último mundo. Durante todo o jogo, eu acompanhei o ritmo das fases mais pela música do que pela reação dos elementos dos cenários, e a dinâmica foi bem intuitiva. No entanto, no último mundo eu fui obrigado a desligar o som do computador e reagir apenas aos movimentos dos cenários para me guiar. E dentro de uma fase com tantas mecânicas complexas, foi frustrante ficar repetindo as telas.




De forma mais amena, isso também aconteceu em fases iniciais, com meu salto não coletando os guizos corretamente e atrapalhando um pouco o meu progresso. Mesmo que a coleta de guizos seja apenas para obter itens para desbloquear novos visuais para a protagonista, alguém com um pouco de tendência ao colecionismo pode acabar ficando meio incomodado com isso. 

Ainda assim, um excelente jogo

No fim, o saldo de SURI: The Seventh Note é bem positivo. Apesar dos tropeços no ritmo e da oscilação na dificuldade, o título entrega uma proposta muito criativa e visualmente marcante. A forma como a cultura e a mitologia hindu foram integradas à jogabilidade e ao mundo vão além de algo puramente estético. É uma experiência que vale a pena para quem busca um jogo de plataforma com identidade própria e um audiovisual acima da média.

Prós

  • Direção de arte belíssima com rica representação da cultura e tradições hindu;
  • Trilha sonora marcante com instrumentos tradicionais indianos que dão ritmo e vida aos cenários;
  • As batalhas contra chefes são criativas, dinâmicas e exigem reflexos rápidos.

Contras

  • Curva de dificuldade desequilibrada, sendo fácil demais no início e subitamente punitiva no final;
  • Inconsistências na dessincronização entre o ritmo da música e os elementos de comando em certas fases.
SURI: The Seventh Note — PS5/PC — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Juliana Piombo dos Santos
Análise feita com cópia digital cedida pela Tathvamasi Studios
OpenCritic
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Gustavo Souza
é geólogo, entusiasta de tecnologias e apenas mais um mineiro que não vive sem café e pão de queijo. Está sempre com um console portátil na mão e gosta de passar o tempo jogando uma partida de FIFA, cuidando de uma pequena fazenda e dirigindo seu caminhão pelas estradas europeias.
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