Análise: Stupid Never Dies traz romance ao além da vida em estética cartum

Título de estreia da GPTRACK50 Inc. abocanha o gênero roguelike beat’em up com transformações monstruosas, humor absurdo e energia pop-punk.



A partir da segunda metade dos anos 2000, os zumbis viveram uma espécie de revival na cultura pop, do horror de Madrugada dos Mortos (o remake do Snyder) à comédia de Shaun of the Dead. Entre as variações dessa onda, Meu Namorado é um Zumbi aposta no romance entre uma humana e um morto-vivo que desperta sua consciência ao desenvolver uma estranha obsessão pela moça. Anos depois, uma premissa que guarda semelhanças com essa ideia serve de ponto de partida para Stupid Never Dies, título de estreia do GPTRACK50 Inc., estúdio fundado por Hiroyuki Kobayashi, ex-produtor da Capcom com créditos em Devil May Cry e Resident Evil. Com uma estética pop-punk extravagante e humor absurdista, o jogo eleva essa história de amor a um roguelite beat’em up bem carismático.

Minha namorada está num freezer (viva)

Stupid Never Dies começa em um shopping abandonado, onde Davy, um zumbi lerdo e insignificante, encontra Julia, uma jovem humana congelada em um freezer, e se apaixona à primeira vista. Assim como o personagem de Nicholas Hoult no filme supracitado, Davy fica obcecado pela beleza da garota, mesmo sem saber praticamente nada sobre ela. Essa paixão, por sua vez, parece despertar algo que até então lhe faltava: sentimentos próprios de alguém que, tecnicamente, já está morto.




A condição do moço remonta desde a Grande Guerra, um conflito entre humanos e monstros que terminou com a derrota da humanidade. Sob o comando de KOM (acrônimo para King of Monsters, o Rei dos Montros), as forças monstruosas utilizavam os zumbis como soldados descartáveis na linha de frente. Rechaçados pelas outras criaturas como criaturas inúteis, eles representavam a infantaria mais dispensável da hierarquia militar, uma vez que, além da transformação reduzir as forças inimigos, ela também permitia ampliar as fileiras de soldados buchas de canhão.

Ou seja, Davy foi um peão meramente descartável da sua cadeia alimentar. Essa situação muda quando ele come um misterioso Ovo de Fênix — que não é bem um ovo, como o jogo faz questão de pontuar algum tempo depois —, um artefato que estava sendo estudado por um cientista chamado Frank. A partir daí, ele ganha o poder de incorporar a força de tudo aquilo que ele consegue devorar, acumulando sua energia e servindo como pontapé inicial para sua evolução.




Observando a situação, o Doutor Frank convence Davy a aproveitar essa sua nova capacidade para enfrentar KOM sob o pretexto de que derrotá-lo irá garantir a energia necessária para descongelar Julia, trazendo-a de volta à vida. Daí, o shopping abandonado, onde a garota permanece preservada, funciona como a base de operações do protagonista, um ponto de retorno entre suas incursões e o lugar em que ele alimenta suas esperanças românticas.

A partir dessa premissa, a aventura se estrutura em sucessivas tentativas de Davy de avançar pelas camadas mais profundas da Masmorra, uma espécie de multiverso habitado por monstros inspirados em criaturas clássicas do horror, como lobisomens, fadas, harpias, vampiros e outras figuras. Cada uma delas oferece novas possibilidades para o protagonista ampliar seu repertório de habilidades, sendo que é a partir dessa progressão que Stupid Never Dies estrutura sua jogabilidade.



O zumbi comeu minha lição de casa!

No ambiente de masmorra, Davy finalmente abandona a lentidão zumbi que o obriga a depender de um aspirador-robô para circular pelo shopping e consegue aproveitar seus novos poderes de forma plena. O principal deles é a mordida, que o permite abocanhar o núcleo de determinados monstros a fim de incorporar seus poderes, assumindo uma forma híbrida que combina sua natureza zumbi às características da criatura consumida.




Cada núcleo pode ser mantido e utilizado por três andares da masmorra e, embora os monstros possuam um conjunto de ataque básico padrão para cada espécie, eles ainda podem apresentar habilidades especiais distintas, como a forma com que a Harpia dispara as penas como projéteis, por exemplo. Isso adiciona um pouco de variabilidade e adiciona uma camada de estratégia ao sistema, já que em vez de apenas ir substituindo os poderes, vale considerar se ele realmente é útil para o próximo chefe, por exemplo.

A estrutura básica do combate, por sua vez, segue o formato padrão para jogos de porradaria em terceira pessoa, dividindo os ataques básicos entre fracos e fortes, além de implementar um botão de defesa e esquiva. Essa última, porém, não é muito útil, o que torna alguns confrontos um pouco truncados, fazendo com que a defesa se mostre mais eficaz na prática. A mordida, que é o maior diferencial do arsenal de Davy, também exige planejamento, uma vez que é necessário carregar o golpe antes de executá-lo, impedindo que o jogador recorra indiscriminadamente à habilidade.




Embora seja um sistema já testado e aprovado por uma infinidade de jogos do estilo, Stupid Never Dies também ostenta o problema mais recorrente deles, já que os golpes são apenas sequências simples e repetitivas, sem um sistema de combos mais desenvolvido que incentivasse a experimentação e a versatilidade contra inimigos distintos que exigem que o jogador, para derrotá-los, se adapte em relação a seus movimentos, utilizando diferentes sequenciamentos de ataques que geram resultados diferenciados. A esquiva, por sua vez, tampouco transmite a segurança necessária para se tornar uma ferramenta especialmente confiável.

Daí, é nessa falta de profundidade de combate que o jogo sai prejudicado, pois ele poderia se beneficiar bastante de um repertório maior de possibilidades ao incentivar a combinação dos poderes dos monstros que rendem novas transformações a Davy. Isso acaba minimizando até mesmo o potencial das várias possibilidades de power ups que estão à disposição do protagonista.




No caso, tal como em outros roguelikes, a evolução de Davy se apoia em certos aprimoramentos que podem ser desbloqueados. Tais recursos oferecem benefícios variados para cada tentativa, mas nem todos parecem particularmente úteis. Por exemplo, novas opções de melhorias temporárias — aquelas aleatórias e coletadas a cada descida para a masmorra — podem ser desbloqueadas na lanchonete comandada pela zumbi chamada Bessie.

Já Acelino, um homem-chihuahua, é responsável pela oficina, um estabelecimento que permite equipar modificações corporais que concedem certas habilidades passivas e ativas a Davy. São quatro espaços disponíveis, cada um associado a um dos membros do protagonista (braços e pernas), o que até acrescenta outra camada de personalização à montagem de sua configuração de combate, mas nada adianta se o sistema não explora essas possibilidades.




Outro sistema que também pode ser aprimorado com o tempo é o Davy Burst, uma habilidade especial que permite a Davy ampliar drasticamente seus atributos. Trata-se de uma técnica que até poderia ser útil, mas a carga necessária para ativá-la demora a ser acumulada e, quando finalmente está disponível, o aumento de poder não é expressivo o suficiente para justificar a espera. A habilidade tem um sistema de evolução próprio ligado aos presentes entregues a Julia, que rendem pontos de atributo que podem ser distribuídos a fim de ampliar o tempo de duração ou a força dos ataques, mas dedicar tempo a coletar esses presentes não oferece um uma sensação de recompensa satisfatória.

Assim, os recibos das refeições adquiridas na lanchonete de Bessie, as modificações corporais de Acelino e os presentes de Julia são todos sistemas que oferecem caminhos distintos para evoluir Davy, sendo que o recurso exigido pelos três é o loot coletado nas fases. Adicionalmente, há ainda uma loja de zumbis que oferece tarefas a serem cumpridas em troca de novos desbloqueios, incentivando o jogador a explorar diferentes aspectos da jogabilidade. É uma estrutura que cria um ciclo de recompensa que conecta as incursões à evolução do protagonista, mas também faz com que parte do progresso dependa da repetição das mesmas atividades, como de praxe para o gênero.




Essa repetição pesa especialmente na progressão da história. Como é necessário realizar novas descidas para avançar e acumular recursos, o ritmo da narrativa pode acabar um pouco prejudicado pela necessidade de recomeçar sequências de andares. Há ferramentas para amenizar o problema, como a possibilidade de pular para andares mais profundos e opções de acessibilidade que tornam a experiência mais flexível. Ainda assim, a estrutura pode cansar jogadores menos acostumados ao gênero ou que estejam mais interessados em acompanhar a trama do que em otimizar sucessivas tentativas.

Trata-se, por óbvio, de um problema inerente de qualquer roguelike e foram poucos jogos conseguiram encontrar esse ponto de equilíbrio de uma maneira eficiente, por isso se tornaram fenômenos dentro do estilo, como é o caso de Hades, que otimizava cada tentativa em uma oportunidade significativa de avançar tanto na evolução da jogabilidade quanto na própria narrativa.



Monstruosidade Punk

Visualmente, Stupid Never Dies é um jogo cheio de personalidade, com uma energia punk exagerada e anárquica que remete a Lollipop Chainsaw, especialmente na maneira como o jogo mistura violência cartunesca, monstros e um estilo artístico que remete à estética de um gibizão tridimensional e em movimento.




Essa identidade também se manifesta na diversidade temática dos cenários explorados ao longo da aventura, uma vez que as fases consistem em ambientes que evocam diferentes períodos históricos e que remetem a histórias de horror, como a Idade Média e seus castelos góticos, passando por Roma em chamas e fortalezas congeladas. Essa variedade proporciona uma renovação visual agradável entre as incursões, algo especialmente importante em um jogo cuja estrutura depende da repetição. Embora demore um pouco até que todas as possibilidades de cenários sejam desbloqueadas, o título consegue oferecer estímulos suficientes para que o jogador tenha vontade de continuar explorando.

É uma personalidade que também se estende ao elenco. Davy, Frank, Bessie e Acelino são personagens carismáticos que contribuem para dar vida a esse universo, enquanto Julia, por sua vez, ganha contornos próprios à medida que o jogador desbloqueia os arquivos de sua vida antes da guerra e que foram resgatados de seu próprio celular.




A partir desses registros, vamos construindo uma impressão da jovem junto de Davy, descobrindo seus gostos, interesses e aspectos de sua personalidade que vão além da imagem idealizada pelo protagonista. Os chefes também merecem destaque, trazendo reinterpretações visuais de monstros clássicos do horror em um estilo biomecânico, como o vampiro Dragul ou o lobisomem Wolfgang, além de Bob Dullahan, o cavaleiro sem cabeça que é todo roqueirão — reinvenções, inclusive, muito próximas às de Lollipop Chainsaw, que tematizava seus zumbis mais poderosos com um gênero diferente de música.

Adicionalmente, a construção desse mundo não se limita ao que aparece durante as fases, já que os bancos de dados compilados pelo Doutor Frank oferecem informações adicionais sobre as criaturas e o universo do jogo, enquanto o diário de Davy registra seus pensamentos, impressões e reflexões sobre a própria não-vida, fazendo com que Stupid Never Dies consiga se sustentar muito bem em toda sua identidade temática.



Amor e Monstros

Stupid Never Dies encontra sua maior força ao evoluir uma premissa romântica relativamente familiar em um universo monstruoso e anárquico, repleto de personalidade. Embora o combate limitado e os problemas de ritmo impeçam a aventura de alcançar todo o seu potencial, a mecânica que permite a Davy absorver habilidades de outras criaturas e assumir diferentes formas de luta oferece um diferencial sólido à jogabilidade. O resultado é uma experiência irregular, mas com ideias criativas o suficiente para sustentar seu charme até o fim — afinal, se nem a morte é capaz de impedir Davy de buscar o amor, algumas falhas de gameplay também não conseguem enterrar essa aventura.

Prós

  • Identidade punk-cartunesca cheia de personalidade;
  • Construção de mundo desperta o interesse do jogador;
  • Sistemas de jogo bem integrados a nível narrativo;
  • Mecânica de transformação que permite absorver habilidades de monstros traz algum grau de variabilidade ao combate.

Contras

  • Sistema de combate pouco aprofundado, carente de um sistema mais dinâmico de combos;
  • Quantidade vasta de power-ups, mas boa parte não é recompensadora;
  • Repetições inerentes ao gênero que não foram suavizadas a fim de conciliar novos públicos.
Stupid Never Dies — PC/PS5 — Nota: 7.0
Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pelo GPTRACK50 Inc.
OpenCritic
Siga o Blast nas Redes Sociais
João Pedro Boaventura
É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Tem um blog particular onde escreve um monte de groselha e também é autor de Comunicação Eletrônica, (mais um) livro que aborda história dos games, mas sob a perspectiva da cultura e da comunicação.
Este texto não representa a opinião do GameBlast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Você pode compartilhar este conteúdo creditando o autor e veículo original (BY-SA 4.0).