Mesmo que a Capcom o tenha deixado na geladeira por um bom tempo, Mega Man continua sendo uma grande inspiração para diversas desenvolvedoras independentes, já que a franquia se tornou referência em jogos de plataforma e ação com tiros. Obras como Gravity Circuit, Berserk Boy e 30XX são apenas algumas das várias que homenageiam diferentes vertentes do bombardeiro azul.
RoboGAL: Gaga Delta Lady é mais um integrante desse panteão. Criado pelo estúdio brasileiro TwinkleSoft, o jogo apresenta uma aventura mais próxima da fórmula clássica de Mega Man. Embora talvez seja inspirado até demais na franquia japonesa, consegue demonstrar bastante criatividade em suas fases e no estilo visual, entregando uma experiência envolvente e desafiadora.
Enfrentando robôs que não sabem dialogar
Plutobell é uma ilha onde seus habitantes robóticos viviam em completa paz. Porém, tudo começa a sair do controle quando uma espaçonave cai repentinamente, provocando caos e destruição por toda parte. É nesse cenário que Rei-Bo, nossa heroína, entra em ação para investigar a nave. A gente vai resolver tudo na base da bala, mesmo que ela sempre tente dialogar com as chefes — o que nunca funciona.
Podemos escolher livremente entre seis fases, cada uma com uma chefe ao final. Derrotá-la nos concede uma arma especial, que pode explorar a fraqueza de outra inimiga, e assim por diante. Isso foi engraçado para mim porque sempre joguei Mega Man com um guia indicando a ordem “correta” das fases, enquanto aqui precisei seguir minha intuição. Não funcionou, e só descobri as fraquezas das duas últimas robôs porque já não tinha outras opções.
Rei-Bo pode disparar até três projéteis simultaneamente com seu tiro básico ou carregá-lo para aumentar seu poder de fogo. Ela também consegue deslizar — ação que pode ser atribuída a um botão separado, em vez do tradicional baixo + pulo — e trocar de armas em tempo real. O pulo é bastante confiável e nos dá uma boa segurança da ação em situações mais críticas de plataforma.
As armas sempre são uma incógnita em jogos desse estilo, mas RoboGAL oferece recursos bastante úteis. Acabei utilizando a maioria delas nas fases, como a vinha que percorre o chão quase infinitamente, a poderosa bomba que atravessa a defesa de diversos inimigos e a caixa que cai diretamente sobre o adversário mais próximo, sendo uma verdadeira salvação nos trechos de plataforma.
É difícil não comparar RoboGAL com a franquia da Capcom, não apenas pela jogabilidade, mas também pelo comportamento dos inimigos. Sniper Joe, com seu escudo quase impenetrável; os Metalls, que esperam a oportunidade mais sacana para atacar; e Bunby Heli, que nos perturba pelo ar, são alguns dos adversários que ganharam suas “variantes legais” por aqui. Até os espinhos, uma das maiores ameaças ao nosso progresso, aparecem aos montes.
Embora tamanha inspiração possa causar uma crise de identidade — e seja, de fato, criticável —, o jogo é tão delicioso de jogar e charmoso em tantos aspectos que dá para relevar um pouco isso. Claramente, é uma produção apaixonada pelo que a Capcom construiu desde 1987, e fico ainda mais feliz por essa homenagem resultar em uma experiência tão divertida.
Altos desafios
Boa parte do que gostei em RoboGAL está em seu level design, que introduz algumas ideias pouco exploradas na fórmula. Na fase da mansão, por exemplo, há trechos em que as extremidades da tela funcionam como portais: sair pela direita nos faz reaparecer pela esquerda. Essa mecânica é utilizada tanto nos desafios da fase quanto na batalha contra a chefe.
A fase do planetário também apresenta uma construção interessante, mesmo recorrendo ao conceito batido das molas. Há trechos em que precisamos utilizá-las para alcançar plataformas móveis no momento certo, inclusive com impulsos horizontais em vez de verticais. Já a fábrica conta com alavancas que alteram a direção das esteiras, e até os inimigos podem interagir com elas para nos atrapalhar em áreas perigosas.
Cada nível exige um aprendizado diferente, e é bem provável que você apanhe até dominar os desafios naturalmente. RoboGAL é difícil, e a persistência costuma ser suficiente para superar os obstáculos. Na maioria das vezes, o desafio é satisfatório, porém há momentos em que o jogo usa e abusa de espinhos e buracos para nos matar na hora, no menor deslize.
O pior momento do jogo, para mim, ficou por conta de um trecho aquático na terceira etapa do nível final. Como se não bastasse a presença exagerada de espinhos em espaços apertados, que exigem pulos cirúrgicos com aquela física leve demais debaixo d’água, ainda invertem os controles para embananar ainda mais nossa cabeça. Admito que, aqui, achei demais e desinverti os comandos pelas configurações do Steam. Pesaram a mão num nível Mega Man 9 de irritabilidade. Reitero: estoque vidas, você vai precisar.
As batalhas contra as chefes são divertidas, com padrões de ataque interessantes de aprender. Como derrotei a maioria utilizando apenas o tiro padrão, foi catártico morrer duas ou três vezes até, de repente, conseguir superar o desafio com relativa facilidade.
Contudo, RoboGAL poderia oferecer mais opções de acessibilidade para novos jogadores. Há três níveis de dificuldade: Suave, com vidas infinitas e dano recebido reduzido; Clássico, com o desafio esperado para um jogo do gênero; e Lunático, que não salva o progresso, aumenta o dano recebido, reduz a quantidade de checkpoints e resulta em Game Over ao perder todas as vidas.
O Lunático é para os malucos que dão conta do recado, mas seria interessante poder habilitar vidas infinitas também no modo Clássico. O sistema de vidas limitadas é um método artificial de prolongar jogos e, embora sua inclusão seja válida, depender de uma dificuldade tão fácil quanto a Suave para não precisar recomeçar uma fase longa depois de morrer várias vezes é algo arcaico, que pode afastar jogadores menos pacientes.
Ao menos, todas as fases contam com tanques de energia e munição para coletar, funcionando de maneira semelhante aos E-Tanks de Mega Man. Basta utilizar um deles para recuperar a vida imediatamente, sendo especialmente úteis nas batalhas contra chefes. Uma recomendação: estoque vidas no jardim da Hana-Sol, pois está localizada logo no começo. Pegue, saia e repita até o limite.
Audiovisual para robô nenhuma botar defeito
RoboGAL é uma aventura belíssima, inteiramente feita em pixel art, com cores vibrantes e um design de personagens lindíssimo. O estilo artístico me lembrou um pouco Mega Man: Powered Up e Shovel Knight Dig, enquanto a apresentação técnica remete a jogos de Master System e Mega Drive, com paletas de cores predominantes em cada cenário e variações que enriquecem seus detalhes.
As ilustrações das personagens, em particular, são muito bonitas e conferem a elas um carisma ímpar. O estilo segue uma estética de anime em formato chibi, superadorável. Adoraria ter bonecas delas ou quadros com essas artes.
Também agradeço demais pela decisão de não utilizar músicas no estilo do NES apenas por se tratar de uma obra inspirada em jogos retrô. Nem mesmo os efeitos sonoros parecem ter saído de um chip PSG. A direção musical me surpreendeu, com composições que soam como algo produzido para a placa de arcade Capcom Play System 2 ou até para o Sega Saturn, utilizando sintetizadores característicos dos anos 1990 e uma pegada eletrônica, especialmente de eurodance.
As faixas são excelentes, acompanham muito bem a ação e combinam com a identidade de cada fase. Talvez não sejam tão marcantes ou comparáveis às melhores músicas de Mega Man, mas há um quê de Mega Man 8 que me cativa demais e que deveria aparecer mais em lançamentos semelhantes.
Ajudando uma Mega Lady (Gaga?) a salvar o dia!
Embora seja tão fortemente inspirado em Mega Man que chega a ser cômico, RoboGAL: Gaga Delta Lady é uma experiência divertida, equilibrada (na maior parte do tempo) e criativa em vários aspectos, incluindo a direção audiovisual, que foge um pouco do convencional. Só poderiam ter economizado nos espinhos e oferecido mais algumas opções de dificuldade, mas quem está sedento por desafios encontrará um prato cheio no nível mais elevado.
E, bem, a própria Capcom demora vários anos para nos entregar títulos inéditos, então ter mais jogos do gênero nas mãos de desenvolvedores talentosos enquanto isso não é motivo para reclamar. Ah, e vindo de brasileiros, então? Mais orgulho ainda.
Prós
- Jogabilidade excelente, com desafios que exigem aprendizado sem serem injustos;
- Level design com ideias criativas, como uso de portais de locomoção e molas utilizadas de maneiras diversas;
- Visual colorido e chamativo, utilizando cores saturadas e personagens carismáticos para uma apresentação com personalidade;
- Músicas que escapam do esperado em jogos retrô, utilizando instrumentações sintetizadas noventistas em temas enérgicos;
- O modo de dificuldade mais acessível pode ser a pedida perfeita para quem é iniciante em Mega Man.
Contras
- Seria interessante uma opção de vidas infinitas no modo padrão, mesmo que isso tirasse recompensas como conquistas;
- Excesso de espinhos com morte instantânea nas fases finais é um fator muito estressante;
- Mesmo usando bem suas raízes, a alta similaridade com Mega Man pode afastar aqueles que querem maiores inovações.
RoboGAL: Gaga Delta Lady — PC/PS4/PS5/XBO/XSX/Switch — Nota: 8.0Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Heloísa D’Assumpção Ballaminut
Análise produzida com cópia digital cedida pela Nuntius Games














