Análise: Ratatan tem todo o charme e o ritmo de Patapon, mas com uma produção mais bonita e variada

O jogo musical tem um trabalho de som envolvente, que torna a jogabilidade muito divertida em meio aos seus grandes desafios.

Lançado originalmente para o PSP, a série Patapon trouxe muita musicalidade para o portátil. Depois de duas continuações e algumas remasterizações, parecia que a franquia ficaria esquecida. Entra Ratatan, uma espécie de sucessor espiritual que entrega a mesma batida divertida, mas com muita qualidade na produção e grande quantidade de conteúdo. Pronto para entrar numa dança divertida e emocionante?

Te conheço de algum lugar…

O princípio do game é relativamente simples: no controle de um Ratatan, escolhido entre oito personagens carismáticos, o jogador precisa comandar um grupo de pequenos Cobun. Esse grupo é composto por dois tipos de tropas, que podem ser lanceiros, arqueiros, magos, entre outras categorias. O jogador parte, então, numa colorida aventura (existe um enredo, mas é esquecível) para enfrentar vários monstros diferentes e chegar ao final da campanha.
Embora possa controlar diretamente o personagem principal, os movimentos importantes do jogo são realizados pelos Cobun. Para fazê-los atacar, defender, saltar, disparar golpes especiais, entre outras opções, é preciso apertar diferentes combinações de botões. A sacada é que esses comandos devem ser acionados de forma sincronizada, de acordo com o ritmo da música tocando ao fundo.
 
Cabe ao jogador ficar atento aos inimigos e agir conforme necessário, sem esquecer que suas ações precisam respeitar uma cadência musical (um mostrador ajuda na marcação de tempo). Por exemplo: se a janela para acionar a defesa for perdida, o Ratatan e seus Cobun vão ficar suscetíveis a danos até que novos comandos possam ser inseridos. Essa dualidade entre visuais e sons — prestar atenção ao mesmo tempo na imagem e no áudio — é difícil no começo.
No começo, no meio e no fim, para ser honesto. Ratatan é um game com dificuldade alta, mesmo no nível mais fácil, exigindo atenção, estratégia e sintonia. Os desafios já são consideráveis desde as primeiras horas de jogo, o que pode ser um pouco frustrante para músicos de primeiro show. Vale a pena perseverar, entretanto, pois o título tem muitas qualidades que merecem ser conhecidas.

Belo aos ouvidos e olhos

Como esperado para um game rítmico, temos aqui um ótimo trabalho de som. Músicas, efeitos, dublagem (com vozinhas estridentes e engraçadas) são incríveis, repletos de carisma e alegria. Destaque para os comandos necessários para comandar os Cobun, que geram gritos muito legais. Com o tempo, você começa a cantarolar juntamente com o jogo, o que acaba ajudando na cadência.
Visualmente, o título também faz muito bonito. Os personagens são encantadores, com cores vibrantes e animações competentes. No geral, o pacote audiovisual é de alto nível, tudo temperado com muita originalidade. Mesmo menus, cenários e itens contam com uma apresentação igualmente agradável. As únicas ressalvas são para o português disponível ser de Portugal e eventuais quedas na taxa de quadros da imagem.
 
Por vezes é fácil se distrair com o nível de detalhes que aparecem na tela, esquecendo de cuidar dos sons e de manter o ritmo no aperto dos botões. As animações de cada Cobun são muito engraçadinhas, sobretudo quando eles enfrentam os chefes enormes do game. Sem sombra de dúvidas, esses grandes vilões são os maiores desafios de Ratatan e deixam pouca margem para erros nos comandos.

Um caminho acidentado

A escolha que considero mais polêmica do game é quanto à estrutura da sua campanha. Embora o enredo seja meio tosquinho — o grupo quer sair de uma ilha e encontrar uma deusa no além —, o que pega mesmo é a estrutura roguelike. Ratatan precisa ser completado do início ao fim sem derrotas, pois ser vencido envia o jogador de volta ao hub principal do game para recomeçar a aventura.
Particularmente, não gostei dessa proposta, que, somada à dificuldade alta do game, pode tornar a experiência punitiva. Penso que uma estrutura por fases seria mais adequada, permitindo continuar mais rápido de onde o jogador parou ou repetir os desafios favoritos em busca de recompensas específicas. Dito isso, entendo que a proposta não seja quebrada e que essa seja (principalmente) uma questão de preferência própria.
A campanha é dividida em mundos — com temáticas como praia, floresta, deserto, etc. —, que por sua vez são divididas em pequenos segmentos separados por portões, que permitem escolher entre duas opções antes de serem cruzados. Ao final de cada portão, uma recompensa é obtida e uma nova escolha é proporcionada. A última parte de cada mundo reserva uma luta contra um chefe, que exige bastante habilidade para ser derrotado.
As recompensas obtidas ao longo da campanha podem ser mais temporárias, durando somente aquela tentativa — como um Cobun extra para o grupo, cartas chamadas Ratavolt com habilidades especiais e dinheiro para as lojas —, ou permanentes, podendo ser acessadas no HUB principal — itens de melhor nível, materiais para construir equipamentos inéditos e recursos para obter melhorias permanentes, que incluem vida extra e resistências elementais.

Lá e de volta outra vez

Essa estrutura de perder a maioria dos poderes entre partidas, mas garantir melhorias permanentes ao longo do tempo, é característica dos roguelike. Mesmo que o jogador não avance muito, ele se fortalece com o tempo para conseguir ir mais longe a cada tentativa. Sem contar, logicamente, a melhora nos reflexos e conhecimento sobre os comportamentos dos inimigos.
Conforme o jogador fica mais forte, o jogo compensa a necessidade de começar do zero “eliminando” algumas seções de cada região das partes iniciais da campanha. Isso ajuda a reduzir o impacto da já comentada estrutura “repetitiva” de Ratatan. Falando um pouco mais sobre o HUB principal, o jogador pode coletar, criar e melhorar itens em diferentes níveis de raridade, bem como equipamentos para aumentar os atributos dos Cobun.
Cada Ratatan conta com uma habilidade única, bem como uma combinação dos tipos de Cobun. É importante administrar adequadamente os itens obtidos — que contam com uma quantidade significativa de opções — a cada tentativa, de forma a obter o máximo de melhorias possível para a próxima vez. Cumprir missões paralelas ajuda a conseguir recursos extras para fortalecer o jogador.
O sistema de gerenciamento dos itens é um pouco básico demais, não facilitando o uso de filtros e ordenações específicas. Fora isso, ficar mais poderoso a cada iteração é bem legal, permitindo chegar cada vez mais perto do final do jogo. Final, aliás, que habilita o jogador a rejogar a campanha com modificadores especiais, como inimigos mais durões ou alterações nos preços nas lojas, e buscar o "verdadeiro" chefão final. 

Faltou mais repertório

Confesso que eu gostaria de algo mais vistoso no endgame, mas esse sistema de modificadores é meio padrão de roguelikes. Apenas fiquei com o gostinho de quero mais, pois não há como jogar Ratatan sem ficar com um sorriso no rosto. Os Cobun são carinhas bem animados e expressivos, apesar da relativa simplicidade nos designs. De certa forma, o mesmo vale para todo o jogo.
 
Por outro lado, há uma forte emoção em ficar de olho na barra de vida e magia, mantendo o ritmo nos comandos para executá-los na hora certa. Tudo isso desviando seu Ratatan dos ataques inimigos e posicionando adequadamente o grupo de Cobun. Manter uma longa sequência de acertos pode acionar o modo Fever, garantindo mais dano e até mesmo acesso a golpes especiais.
A estratégia anda ao lado da habilidade, pois, se recuperar uma cadência perdida pode ser difícil, pior ainda é ficar mal posicionado ou não antecipar os golpes inimigos, sobretudo dos chefes. Para aqueles que curtem jogar com os amigos, o título tem um modo online em que até quatro jogadores participam da campanha. Os inimigos têm seus poderes aumentados na proporção do time, então é preciso manter os cuidados

Pronto para pedir bis?

Fazendo uso de uma proposta um pouco esquecida, Ratatan entrega uma aventura rítmica da mais alta qualidade. Com uma produção audiovisual de primeira linha, sobretudo em termos de som, o roguelike proporciona embates de alto nível, tanto de dificuldade quanto de diversão. A dualidade entre a grande quantidade de itens e habilidades, a exigência das fases contrasta de forma competente com a temática colorida e alegre. Uma escolha quase obrigatória para a biblioteca de qualquer jogador que curta originalidade, simpatia e uma boa dose de desafio.

Prós

  • Jogo rítmico combina estilo e competência técnica de forma ainda melhor que sua inspiração;
  • Excelente trabalho de som, que oferece canções viciantes e efeitos sonoros engraçados;
  • Jogabilidade segue o bom e velho chavão “fácil de aprender, (bem) difícil de dominar”;
  • Produção visual repleta de charme e originalidade, digna do trabalho de som;
  • Variedade nos itens, equipamentos e desafios encontrados ao longo da campanha.

Contras

  • Curva de aprendizado é alta e o nível de dificuldade, considerável, mesmo no nível mais fácil;
  • Estrutura roguelike não é plenamente compatível com a proposta do game;
  • Eventuais quedas na taxa de quadros prejudicam os combates.
Ratatan — PC/PS4/PS5/XBO/XSX — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Vitor Tibério
Análise produzida com cópia digital cedida pela Game Source Entertainment
OpenCritic
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Matheus Senna de Oliveira
é produtor de conteúdo sobre games desde 2016 e um grande fã da décima arte, embora não tenha muito tempo disponível para ela. Seus games favoritos (que formam uma longa lista) incluem: KH, Borderlands, Guitar Hero, Zelda, Crash, FIFA, CoD, Pokémon, MvC, Yu-Gi-Oh, Resident Evil, Bayonetta, Persona, Burnout e Ratchet & Clank.
Também encontra-se no Twitter @MatheusSO02 e no OpenCritic.
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