Mais um jogo da série baseada nos personagens literários de Tove Jansson acaba de ser lançado: Moomintroll: Calor do Inverno continua com a proposta cozy que mistura ação, exploração e puzzles, mas desta vez, usando um cenário coberto de neve. A aventura do bondoso e carismático Moomintroll se desenrola durante o inverno, quando deveria estar hibernando junto com seus pais, mas acaba acordando bem antes do esperado e, muitas vezes ao longo do jogo, se mete em situações que fazem pensar: só ele mesmo para ter paciência para passar por isso.
Desenvolvido pela Hyper Games, Moomintroll: Calor do Inverno apresenta uma perspectiva de cima, em estilo isométrico, e coloca o jogador para explorar diferentes regiões enquanto realiza missões, conversa com personagens e resolve pequenos puzzles. A progressão acontece principalmente por meio das ferramentas de Moomintroll, que recebem novos recursos e melhorias ao longo da aventura e passam a permitir o acesso a lugares que antes estavam bloqueados.
Essa estrutura faz com que o jogador precise retornar a áreas já visitadas para encontrar novos caminhos, itens e objetivos. Por isso, a aventura lembra, de maneira simplificada, a estrutura de um metroidvania, mas sem deixar de lado a proposta mais tranquila do jogo.
Leve um casaquinho
Depois de perceber que não conseguirá voltar a dormir, Moomintroll começa a explorar os arredores e acaba encontrando personagens bem conhecidos, como Snufkin, Filomena, Tristabel e Pequena Mi. A partir desses encontros, novas situações vão surgindo e colocando o personagem diante de diferentes tarefas e desafios ao longo da aventura.
Inclusive, gostaria de levantar dois pontos altos sobre os personagens secundários. O primeiro é o fato de eles serem cheios de personalidade. Enquanto Moomintroll é calmo, amigo e compreensivo, personagens como Filomena e Pequena Mi conseguem ser o extremo oposto dele. Destaco principalmente o quão irritante Pequena Mi consegue ser na maior parte do tempo. Apesar disso, ela consegue transformar essa característica em algo positivo para o jogo, e talvez você até consiga descontar um pouco da irritação nas guerras de bola de neve.
O segundo ponto alto, sem sombra de dúvidas, é a localização dos nomes de alguns personagens. Alguns são adaptados para que soem melhor em nossa língua, como Filomena, que se chama Filifjonkan nos livros originais em sueco, e Mrs. Fillyjonk em inglês. Outros também ganham mudanças interessantes. É o caso de Tristabel, nome em português de Misabel, que reflete a personalidade triste e pessimista da personagem.
É bom colocar uma luva também
O jogo, por seguir o estilo cozy, tem uma jogabilidade bastante simples, exigindo apenas o direcional e alguns dos botões de ação. Durante a aventura, o jogador explora diferentes áreas, conversa com personagens, realiza missões e resolve pequenos puzzles para avançar na história.
Um exemplo disso são as luvas usadas para criar bolas de neve. Conforme elas são aprimoradas, Moomintroll consegue produzir bolas maiores, o que permite alcançar determinados itens e atravessar alguns caminhos. A mecânica é simples, mas funciona porque transforma obstáculos encontrados antes em pequenos objetivos futuros: quando você retorna ao local e finalmente consegue passar, existe uma sensação de recompensa pela exploração anterior.
Essa estrutura cria um caráter de descoberta constante, mas também pode contribuir para alguns momentos de frustração. O jogo apresenta determinados caminhos e itens que ficam visíveis muito antes de Moomintroll conseguir acessá-los, fazendo com que o jogador saiba que precisará retornar posteriormente. Talvez, se algumas dessas possibilidades de exploração fossem apresentadas apenas quando estivessem disponíveis, o ritmo fosse um pouco melhor. Não chega a prejudicar a experiência, mas pode ser frustrante encontrar algo que desperta curiosidade e descobrir que ainda não é possível interagir com aquilo.
A dinâmica do jogo também é bastante acessível. A princípio, você vai explorar a casa, tendo que acender luzes e fechar janelas, e nesse ponto, também há algo que me chamou atenção. Enquanto a casa do personagem está escura, é possível ver algumas figuras estranhas aparecendo. Porém, a partir do momento em que as velas são acesas, descobrimos que eram apenas ilusões, como se fossem invenções da cabeça de Moomintroll.
Uma fogueira ajudaria a esquentar
As missões não costumam exigir grandes esforços de raciocínio ou habilidade. Em diferentes momentos, os objetivos envolvem tarefas como acender as luzes da casa, fechar janelas, procurar determinados personagens ou limpar obstáculos do caminho. O desafio está menos em descobrir uma solução complexa e mais em explorar os cenários e cumprir todas as etapas necessárias para concluir cada tarefa.
Por isso, a paciência acaba sendo mais importante do que a habilidade do jogador. Algumas tarefas exigem percorrer novamente áreas já conhecidas, esperar pelo momento certo da história ou conseguir uma nova ferramenta antes de concluir determinado objetivo. A proposta funciona para o ritmo tranquilo do jogo, mas pode deixar algumas missões menos empolgantes para quem espera desafios mais elaborados.
Em alguns momentos, o jogo também consegue tocar em assuntos mais profundos, como a falta de segurança que Moomintroll demonstra em si mesmo, além de questões relacionadas a uma possível morte. Também há momentos em que ele precisa impor uma opinião mais firme diante de um personagem que está desagradando a todos, mas acaba não fazendo isso. Com o passar da aventura, porém, esse personagem acaba descobrindo a verdade de uma forma nada agradável.
O cenário do jogo, por outro lado, permite pouca interação além daquilo que é mais óbvio quando estamos explorando. Isso não chega a ser um problema, já que a proposta não parece estar em transformar cada elemento do ambiente em algo interativo, mas sim em utilizar o cenário como parte da exploração e da progressão.
Inclusive, devido à necessidade de se movimentar muito entre os cenários, às vezes pode ser cansativo ficar indo e voltando para determinados pontos, principalmente quando você já explorou tudo o que podia nos lugares por onde passou. Apesar de ser um ponto negativo, a história instigante ainda consegue sustentar o interesse para que você continue.
Mesmo com mecânicas simples, o jogo não transforma a jogabilidade em algo excessivamente repetitivo. Mais uma vez, vale ressaltar o quanto a história bem contada consegue fazer com que a experiência continue interessante até o fim.
Casaco, luvas, botas, cachecol…
Os cenários de Moomintroll: Calor do Inverno são extremamente ricos e detalhados. Em um certo momento, fiquei admirado com o brilho de algumas montanhas que pareciam ser feitas daquele tipo de gelo bem raspado, quase como se tivessem purpurina ou algo do tipo.
O jogo quer fazer com que você avance pela aventura e, ao mesmo tempo, aprecie os cenários sem precisar se preocupar demais com a exploração. Apesar de ser possível se perder em alguns momentos, você consegue encontrar rapidamente o seu objetivo, já que os caminhos são fáceis de seguir. Além disso, o mapa é muito útil para localizar os objetivos principais e saber onde estão as missões secundárias.
Apesar de a neve cobrir boa parte do cenário, é possível identificar claramente cada parte do mapa e os caminhos que levam até elas. Alguns detalhes, como a fogueira ou as grandes montanhas, ajudam a dar personalidade ao mundo e servem como referências durante a exploração.
Para complementar os cenários, temos as músicas de fundo, que ditam exatamente o tom de cada momento da campanha. A trilha sonora complementa a narrativa que o jogo traz, com faixas relaxantes e sons que não são exagerados. Por exemplo, você vai perceber a música mudar quando a Pequena Mi te desafiar ou simplesmente enquanto estiver caminhando para seguir com a aventura.
A trilha e os cenários mostram a todo momento que você está sozinho, mas, ao mesmo tempo, transformam essa sensação em algo aconchegante, de modo que a solidão não seja necessariamente algo ruim.
Não se esqueça de levar uma mochila também
O design dos personagens é simples, mas, ao mesmo tempo, demonstra a identidade do jogo. Você realmente se sente jogando um livro. Além disso, as histórias secundárias também são bem construídas. Por exemplo, quando você tem acesso a algumas informações sobre Tristabel durante a aventura, consegue entender melhor o motivo pelo qual a personagem age daquela maneira. Outros momentos que também trazem reflexões aparecem em algumas interações com os Seres do Frio.
Mas talvez o ponto mais importante da narrativa seja a construção do herói. Moomintroll é um personagem extremamente carismático e cauteloso, mas que muitas vezes não consegue acreditar em si mesmo. A narrativa do jogo exige, aos poucos, que ele não apenas se torne alguém mais forte fisicamente, mas também encontre força para ser quem é, principalmente ao se impor diante das situações. Afinal, seu pai e sua mãe estão dormindo e, em vários momentos, ele sente falta deles, mas reconhece que precisa agir.
Além disso, a amizade é um ponto crucial na história. É por meio da ligação com outros personagens que Moomintroll consegue reconhecer seu próprio valor, mesmo que isso aconteça aos poucos. Até mesmo alguns amigos que o tiram do sério são necessários para sua evolução durante o jogo.
O fato de os personagens não falarem, mas utilizarem onomatopeias, também ajuda a deixar o jogo ainda mais aconchegante. O título utiliza o silêncio em poucos momentos, mas eles também são cruciais para determinadas situações.
Os puzzles não são complicados, mas podem exigir um pouco de paciência, pois alguns só poderão ser resolvidos após determinados upgrades das ferramentas. Ainda assim, eles são relaxantes, como quando você precisa cortar alguns troncos de madeira ou simplesmente limpar a neve de determinados lugares.
Será que não tá faltando mais nada?
O jogo rodou sem nenhum bug ou problema durante a experiência, e se manteve assim. Não percebi quedas de desempenho, até porque o jogo é bastante leve. As animações também são simples e as telas de carregamento possuem artes de acordo com o local do mapa que você está prestes a visitar.
A interface segue o mesmo caminho da proposta do jogo: ela é rápida, prática e permite que você avance sem precisar aprender muito sobre aquilo que está sendo apresentado. Os controles seguem a mesma lógica, sem nada muito elaborado, para que a experiência seja a mais fácil e leve possível. Ainda assim, o jogo não subestima a inteligência do jogador em momento algum, deixando que ele descubra algumas soluções por conta própria.
Moomintroll: Calor do Inverno apresenta uma campanha relativamente curta, com duração de aproximadamente sete horas para a história principal. Para a proposta que o jogo traz, esse tempo é suficiente. A experiência não parece se estender além do necessário para contar sua história e apresentar suas mecânicas.
As missões secundárias ajudam a aumentar esse tempo de jogo, principalmente porque algumas só podem ser concluídas mais adiante na história, depois que novas ferramentas ou upgrades são desbloqueados.
Hora de enfrentar o frio
Moomintroll: Calor do Inverno é um jogo que me conquistou por toda a sua simplicidade e pelo carisma de seu personagem principal, bem como dos secundários. Por mais que, às vezes, o jogo pareça começar a se arrastar, a própria narrativa faz com que você siga em frente.
Como disse antes, Moomintroll: Calor do Inverno faz parecer que você está jogando um livro, não só pelos seus cenários incríveis, que remetem a grandes narrativas impressas, mas também pelo fato de que a história principal te cativa e faz com que você queira chegar até o final.
Prós:
- A narrativa te prende e, por mais que em alguns momentos você sinta que a empolgação vai cair, a história te instiga a continuar;
- Personagens carismáticos e com personalidades bem definidas;
- Cenários aconchegantes e detalhados, que ajudam a reforçar a sensação de estar dentro de um livro.
Contras:
- O jogo mostra muito cedo lugares que poderão ser explorados, mas demora a disponibilizar as ferramentas necessárias para avançar nessas áreas;
- O excesso de missões secundárias faz com que elas se acumulem, e você não consegue resolvê-las durante boa parte do jogo porque algumas exigem ferramentas especiais;
- O deslocamento para lugares distantes e já explorados se torna um pouco maçante, principalmente quando não há mais nada para descobrir neles.
Moomintroll: Calor do Inverno - PS5/PC/Switch/Switch 2 - Nota: 8.5Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Revisão: Julia Loffreda Costa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Hyper Games

















