Você está no auge da sua juventude. Sente que tem muito tempo pela frente e inclusive acabou de comprar um carro. Além disso, há um longo verão se aproximando e um festival do outro lado do país no último dia do mês. De repente, você decide ir até lá. Mas, qual rota você vai pegar, quem vai conhecer e o que enfrentará no caminho, é o seu destino que dirá. Essa é a premissa de Keep Driving, título do estúdio sueco YCJY Games que chegou aos consoles no último dia 28 de setembro.
A proposta do game parece ser simples, mas ao passo em que vamos adentrando nele percebemos que as mecânicas não são tão básicas. A priori, imaginei que ele fosse um roguelite: temos itens e habilidades, enfrentamos desafios, evoluímos e progredimos. Mas Keep Driving trás tudo isso e muito mais: histórias, autoconhecimento, decisões e uma pitada de relaxamento, algo característico dos cozy games.
Contemplação
Sempre gosto de começar minhas análises pelo visual dos games, pois é geralmente a primeira coisa que percebemos quando temos contato com eles. O caso de Keep Driving é bastante especial: eu poderia falar sobre como o pixel art é bonito, mas prefiro destacar os cenários da estrada que trazem realmente uma sensação de viagem, fazendo com que cada paisagem se torne única, embora sejam parecidas uma com as outras.
É um sentimento difícil de explicar, mas, como motorista, eu senti que o game soube captar essa essência de viajar, que não é simplesmente sobre mudar o bioma e as cores dos objetos. Há alma no visual de Keep Driving e, assim, os gráficos pixelados acabam por transmitir a sensação de que ali há algo desconhecido, o imprevisível da vida.
As cores do game são mais sóbrias, escuras, e têm baixa saturação. Assim, apesar de ser bem detalhado, o visual se torna mais homogêneo, o que acaba dando um realismo difícil de reproduzir quando se está trabalhando com gráficos pixelados.
Pé na estrada
O ato mais importante do jogo é viajar. O processo de ir de um ponto ao outro do mapa faz com que as coisas vão acontecendo e você deve usar as paradas para se preparar para elas, assim como numa viagem na vida real. Toda vez que estamos na estrada, acontecem os “eventos”, como são chamados no jogo.
São coisas que podem acontecer na vida real, como um pneu furado, engarrafamento, um caminhão bloqueando a passagem, acidentes e muitos mais. Mas a grande sacada de Keep Driving é que ele transforma essas coisas em uma espécie de quebra-cabeça: temos ícones que representam os eventos e que são chamados de “ameaças”. Eles podem ser de quatro tipos: energia, dinheiro, gasolina e carro. Um evento como o “pneu furado” vai exigir que você elimine ameaças que podem causar dano para a saúde do seu carro, e assim com as outras “vidas”, que você tem.
Para evitar tomar dano, usamos itens e habilidades para eliminar as ameaças. Além disso, cada ameaça pode ter uma ação diferente, como uma dar o dobro de dano, se multiplicar, etc. Como essa espécie de combate acontece por turnos, é importante sempre fazer os movimentos mais otimizados.
Para além dos eventos com ameaças, existem outros que são igualmente importantes, como as reflexões e os caroneiros. As reflexões oferecem a possibilidade de moldar como nosso personagem pensa enquanto divaga pela estrada e podem ajudar a desenvolver traços ou dar buffs e debuffs. Já os caroneiros são pessoas que podemos levar conosco e que são essenciais para as histórias e para nos ajudar a derrotar as ameaças no nosso caminho.
Paradas, pra que te quero?
Entre um trajeto e outro temos as paradas, que podem ser cidades ou pequenos pontos com postos de gasolina, lojas de conveniências e, às vezes, oficinas. As paradas funcionam como verdadeiras bases para que possamos recarregar nossas “vidas”, que, como expliquei anteriormente, podem ser a energia, saúde do carro, gasolina e dinheiro. As ameaças as prejudicam, mas esses recursos também podem ser gastos de outras formas.
O dinheiro pode ser, obviamente, usado para comprar coisas, que vão desde itens de uso contra as ameaças à upgrades no carro. A energia pode ser usada para trabalhar e conseguir mais dinheiro. A gasolina é um recurso que sempre é consumido durante um trajeto e outro. Já a saúde de carro pode sofrer desgaste quando se dorme no carro para recarregar as energias. Assim, a interação entre esses recursos acaba sendo cíclica, e administrá-los vira uma tarefa importante na jornada.
Dessa forma, cada ponto no mapa serve para que possamos continuar avançando rumo ao destino final. Por exemplo: houve um momento durante o qual acabei ficando sem dinheiro, então tracei uma rota para que eu pudesse chegar à uma cidade que tinha trabalhos disponíveis e fiquei uns dias fazendo bicos lá.
Gerenciamento de personagem
Keep Driving é um RPG, então o modo como gerenciamos nosso personagem é o que vai fazer com que possamos continuar a viagem sem muitos problemas. No jogo, o seu personagem é só uma parte de um todo: além das características que você possui, os caroneiros e o próprio carro são partes fundamentais que precisam ser geridas igualmente.
É quase como se o personagem principal do jogo fosse o que de fato faz a viagem acontecer: você, seus amigos e o veículo. O nosso personagem tem habilidades que vão sendo desbloqueadas a partir de pontos que conseguimos quando fazemos um trajeto. Temos uma boa variedade delas e podemos criar combos. Os caroneiros também possuem habilidades, tanto ativas quanto passivas, que vão sendo desbloqueadas quanto mais tempo eles passam conosco.
Já o carro possui espaços para aprimoramentos que podem aumentar sua saúde e quantidade de gasolina. Também podemos ampliar o espaço para os itens e trocar peças para nos dar vantagens, como optar por um pneu maior para termos vantagens em terrenos irregulares ou rurais. Além disso, podemos personalizar o carro, mudando a cor, colocando adesivos, aerofólios, body kits, e outras coisas.
Os itens são organizados em um inventário no estilo grade, no qual o tamanho do item importa. É uma sacada muito bacana, porque consegue emular bem a dinâmica do espaço real de um carro: podemos usar o porta-malas, mas também podemos fechar um banco para ter mais espaço ou colocar itens menores no espaço entre os bancos de trás e os da frente. Genial.
Detalhes que fazem toda a diferença
Certas coisas em Keep Driving acabam dando profundidade ao jogo de forma com que você precise se tornar íntimo dele para se habituar, e isso faz com que o game se destaque em sua atenção aos detalhes. Por exemplo, quando você compra um café que te dá energia, mas simplesmente resolve guardá-lo para usar depois, é bem provável que ele fique frio e já não sirva mais. E não tem um hud e nem um contador que indique isso. É aquela coisa que parece óbvia, mas ver isso num jogo não é tão comum.
Há certos traços no nosso personagem que vão sendo desenvolvidos com as experiências que acumulamos na viagem, sejam elas boas ou ruins. O seu personagem aprende com os erros e acaba virando um reflexo de como você conduz a sua jornada. Por exemplo: houve um momento em que tomei um dano de dinheiro, mas eu já estava falido. Assim, recebi um traço de “falido”, o que fez com que eu eliminasse uma ameaça de dinheiro sempre que se iniciava um turno. Se usarmos muito o item do cigarro acabamos virando fumantes e portanto vamos consumindo-o cada vez mais rápido, como num vício mesmo.
E como numa viagem real, a trilha sonora do game quem escolhe somos nós mesmos, através do uso de CDs que vamos adquirindo ao longo da jornada. Apesar da dinâmica ser bem legal e trazer nomes da cena do indie pop/rock, acho que poderíamos ter uma variedade maior de estilos musicais. É bem legal criar suas próprias playlists para ter que apertar o play manualmente quando elas acabam.
As lombadas e buracos pelo caminho
Nem tudo em Keep Driving é perfeito. Há certas coisas que me fizeram pensar “nossa, se fosse diferente, o jogo seria muito melhor”. A começar pelo ato de dirigir o carro nos pontos de parada. Foi a primeira coisa que estranhei. O jogo tem um estilo visual sóbrio e maduro, com muitas coisas que dão até um certo realismo às suas mecânicas, mas a movimentação nas paradas é muito brusca e rápida. Isso com certeza é uma decisão de design que visa deixar as coisas mais dinâmicas, mas seria interessante poder transitar entre as lojas com mais calma.
A HUD e informações sobre o jogo são bem completas e trazem a simulação de um painel de carro, o que é uma ideia genial. Mas os muitos textos e informações podem causar confusão em quem está jogando pela primeira vez. Felizmente, esse é um jogo que motiva a rejogabilidade como parte fundamental. Aproveitando o assunto, o jogo tem cerca de dez finais diferentes, mas senti que o primeiro que fiz ocorreu de uma forma meio abrupta, sem que eu soubesse que ali seria um final ao invés de uma das muitas missões disponíveis.
A estrutura procedural do mapa e das cidades traz uma riqueza muito grande e faz com que nada seja tão previsível. Entretanto, quanto mais se avança no game, é perceptível que essa dinâmica acaba ficando um pouco repetitiva, principalmente na variação dos itens disponíveis para a compra. Felizmente, temos algumas lojas secretas e eventos que são mais raros.
Os caroneiros são personagens que nos ajudam na jornada e até mesmo influenciam no caminho que percorremos. Suas histórias são marcantes e as suas interações tanto com o personagem principal quanto uns com os outros são fundamentais. Entretanto, alguns deles permanecem conosco sem rumo algum e isso faz com que tenhamos que expulsá-los, caso queiramos conhecer novos.
O que também pode confundir é o contexto do jogo: não tenho certeza se o início dos anos 2000 foi muito bem representado aqui. A ambientação é muito mais parecida, em minha percepção, com os anos 90 ou 80 do que a virada do milênio. Até mesmo pela motivação inicial que é a de ir à um festival de música, algo muito popular nessas décadas. A trilha sonora também tem poucos gêneros. Nada de hip-hop, numetal ou música eletrônica. Até mesmo o design do personagem principal parece mais condizer com o estilo dos anos 90/80.
Felizmente, alguns desses problemas podem ser alterados, já que, pelo menos na versão para o PC, o jogo dá suporte a mods. Sendo assim, podemos adicionar novas músicas, carros e outras coisas que expandem o jogo ao infinito.
Prós
- Direção de arte excelente, que traduz o ato de contemplação;
- Sistema de combate e quebra-cabeça de eventos inovador;
- Gestão de inventário e detalhes dinâmicos dos itens;
- Caroneiros marcantes e sistema de aprendizado com traços que dão alma à jornada;
- Trilha sonora indie excelente;
- Suporte a mods no PC;
- Excelente rejogabilidade com múltiplos finais;
- Localização em português.
Contras
- Tutorial com abundância de textos pode confundir;
- Caroneiros são complexos mas não possuem desfecho;
- Alguns finais prematuros;
- Estrutura de cidades parecida;
- Estética de época imprecisa.
Keep Driving — PC/PS5/XSX/Switch/Switch 2 — Nota: 9.5Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Juliana Piombo dos Santos
Análise produzida com cópia digital cedida pela Y/CJ/Y

















