Análise: Disney/Pixar Toy Story: Retro Roundup! entrega um museu da franquia mas esquece melhorias importantes

A coletânea se destaca na apresentação dos jogos e conteúdos documentais, mas acaba se tornando um apanhado de jogos datados pela gameplay.

em 14/10/2026

Há algo curioso em revisitar os jogos de Toy Story: a série nasceu de uma animação sobre brinquedos que ganham vida quando ninguém está olhando, mas seus videogames também são retratos de uma época em que adaptar filmes para os consoles exigia encontrar soluções próprias para cada plataforma. Em 1995, Woody e companhia chegaram aos videogames em aventuras de plataforma; nos anos seguintes, a franquia passou por jogos tridimensionais, corridas e outras variações. Disney/Pixar Toy Story: Retro Roundup! reúne parte desse percurso em uma coletânea que busca preservar não apenas os jogos, mas também a história de como esses personagens conquistaram espaço nos videogames.

“Alto! Quem vem lá?”

Desenvolvida pela Digital Eclipse e publicada pela Atari, a coleção reúne cinco jogos clássicos — quatro de Toy Story e um de A Bug’s Life — em um total de 11 versões para consoles e portáteis. O catálogo inclui Toy Story (1995); Toy Story 2: Buzz Lightyear to the Rescue! e a versão portátil de Toy Story 2 (ambas de 1999); A Bug’s Life (1998); Buzz Lightyear of Star Command (2000) e Toy Story Racer (2001). A proposta também oferece recursos como rebobinar a jogatina, salvar o progresso, ativar códigos de trapaça, um modo dedicado a praticar e um tutorial aprimorado. Há ainda um reprodutor de música com as trilhas sonoras dos jogos e um museu virtual recheado de materiais de bastidores.

Essa variedade fica mais clara quando olhamos para as versões incluídas. O Toy Story de 1995 aparece em três plataformas — Mega Drive, Super Nintendo e Game Boy —, enquanto Toy Story 2 se divide entre a aventura 3d do PlayStation, com quinze fases, e a versão de Game Boy Color, um jogo de plataforma lateral em que Buzz corre, pula e dispara seu laser ao longo de 11 níveis. 

A diferença são as abordagens diferentes para adaptar a mesma história às capacidades de cada aparelho. Já Buzz Lightyear of Star Command e A Bug’s Life aparecem no PlayStation e no Game Boy Color, oferecendo versões de suas aventuras de plataforma para públicos e dispositivos diferentes. Para completar, Toy Story Racer troca os saltos e a exploração por corridas de kart com personagens da franquia em cenários conhecidos. No conjunto, a coletânea permite observar como uma mesma franquia podia assumir formas bastante diferentes conforme o gênero e a plataforma.

A ideia é interessante porque nem todos esses jogos envelheceram da mesma maneira. Alguns ajudam a entender os desafios enfrentados pelos estúdios ao traduzir a linguagem de uma animação para controles e objetivos interativos; outros parecem mais valiosos como registros de uma época do que como aventuras que resistem intactas ao presente. A coletânea tem a oportunidade de preservar essas diferenças e contextualizá-las. Afinal, tornar um jogo antigo mais acessível não significa, automaticamente, torná-lo melhor de jogar hoje.

O cowboy, o patrulheiro espacial e a…Formiga?

O primeiro Toy Story, lançado em 1995, pertence a uma época em que os jogos baseados em filmes frequentemente procuravam reproduzir cenas, personagens e cenários conhecidos por meio de fases de plataforma. Woody atravessa ambientes inspirados no longa, recorrendo a movimentos e objetos associados ao personagem. A familiaridade visual ajuda a estabelecer a conexão com a animação, mas não garante que os desafios tenham sido construídos com a mesma criatividade.

As versões de Toy Story 2 mostram a evolução natural. Buzz Lightyear to the Rescue! é uma aventura tridimensional em que Buzz percorre cenários conhecidos, procura itens e cumpre objetivos para resgatar Woody. A exploração, a coleta de objetos e o retorno a áreas já visitadas aproximam o jogo dos títulos de plataforma 3D da época, em vez de simplesmente reproduzir o filme de maneira linear.

O título original teve uma recepção mais positiva entre todos da coletânea justamente por transformar o universo da animação em espaços que convidam à exploração, embora a câmera travada e o combate impreciso fossem obstáculos para aproveitar ainda mais o título. Diferente do que veremos na análise de Disney/Pixar Toy Story 3 Complete Edition, esta coletânea não aprimora as mecânicas de gameplay, apenas os torna jogáveis em plataformas modernas.

O catálogo se afasta ainda mais da fórmula com Buzz Lightyear of Star Command e Toy Story Racer. O primeiro desloca o foco para a identidade espacial de Buzz e para a ação, enquanto o segundo é um Mario Kart like com personagens em cenários da franquia. A mudança de gênero ajuda a mostrar que a marca não ficou restrita a uma única fórmula. Também cria um desafio para a coletânea: cada jogo precisa ser julgado pelas próprias intenções, e não por uma expectativa única do que deveria ser um game de Toy Story.

A presença de A Bug’s Life é especialmente curiosa. O jogo entra na coletânea como um bônus e amplia o recorte para outra produção da Pixar, com Flik em uma aventura de plataforma 3D. O título tecnicamente se assemelha ao Buzz Lightyear to the Rescue!, inclusive nos problemas. A câmera também é um obstáculo, especialmente durante os saltos, além de possuir fases repetitivas. 

Tendo saído antes de Toy Story 2: Buzz Lightyear to the Rescue!, a semelhança dos problemas é natural, por outro lado, a exploração de ambientes como o quarto de Andy e a loja de brinquedos são mais convincentes em colocar o jogador dentro do universo do filme que busca representar. Já o primeiro jogo de Toy Story é excessivamente repetitivo e sofre com problemas de precisão em algumas ações, algo que merecia um ajuste neste relançamento.

Esse contexto é fundamental para avaliar o papel dos recursos modernos, pois acredito que, sem um remake do jogo, seja algo muito difícil de se fazer. A solução de permitir rebobinar alguns segundos e corrigir um erro sem precisar reiniciar uma fase é uma saída bastante inteligente, além de agora podermos salvar a qualquer momento. Há também a integração dos códigos de Rex, que permitem ativar vantagens como vida infinita ou invencibilidade (pessoalmente o melhor recurso para quem tem crianças em processo de introdução aos games), além de desbloquear conteúdos especiais.

O museu de Woody

O que de fato é entregue na coletânea são as melhorias de resolução (com possibilidade de jogar na original) e a apresentação do jogo como um museu de certa forma, podendo ser jogado dentro de uma moldura de TV de tubo e inclusive com um filtro que simula a tela de uma. Em jogos antigos, aumentar a resolução é indispensável para tornar as imagens mais legíveis em telas atuais, mas não equivale a refazer modelos, animações, texturas ou cenários. É importante pontuar esse detalhe para evitar que Retro Roundup! seja entendido como remasterização total.

O que diferencia Roundup! de um simples compilado é justamente seu conteúdo histórico. A coleção compila uma série de vídeos documentais (entrevistas com profissionais ligados à produção da área de jogos da Disney e Pixar e Jim Hanks, ator que deu voz a Woody no original), imagens de bastidores, storyboards, uma área dedicada à reprodução das músicas e melodias dos jogos, visualização de pôsteres e capas em 3d. 

No meu caso, esse material tem um apelo especial. Tenho dois filhos, de quatro e dois anos, e assisto quase em looping às cinco produções cinematográficas da franquia. Conhecer os bastidores dos jogos e das animações foi uma experiência muito satisfatória, já que é um universo que já faz parte da nossa rotina. Os jogos oferecem uma oportunidade de apresentar o mais velho ao mundo dos videogames por meio de personagens que ele já conhece. A coletânea, portanto, tem potencial para cumprir duas funções diferentes: despertar a curiosidade de quem está começando a jogar e oferecer a um adulto um olhar aprofundado sobre a história dessas adaptações.

"Estou tentando transmitir uma sensação de imponência, mas simplesmente não a sinto!"


Disney/Pixar Toy Story: Retro Roundup! tem méritos em reunir jogos antigos em um só lugar e ainda mais pela forma e cuidado com os quais são apresentados, sendo uma celebração a história da franquia nos jogos. A variedade de versões permite acompanhar como Woody, Buzz e companhia chegaram a plataformas diferentes, enquanto o museu virtual ajuda a contextualizar uma época em que adaptar animações para os videogames exigia soluções bastante diferentes. 

No meu caso, há ainda um valor afetivo em poder apresentar esses jogos ao meu filho mais velho e, ao mesmo tempo, conhecer melhor os bastidores de uma franquia tão presente na nossa rotina. O problema é que os tropeços também foram preservados, mas é importante reconhecer que os recursos de retrocesso, salvamento e códigos de trapaça tornam os originais mais acessíveis, mesmo que não eliminem as limitações de câmera, precisão e falta de criatividade no level design das fases.

No fim, a coletânea parece mais convincente como parte de um documentário do que como uma forma definitiva de revisitar todos esses jogos. Seu valor está em conservar experiências que poderiam ficar cada vez mais difíceis de acessar e oferecer ferramentas para que públicos diferentes encontrem suas próprias maneiras de aproveitá-las. 

Prós

  • Um compilado variado de jogos e versões de diferentes plataformas;
  • Recursos como retrocesso, salvamento, prática e códigos opcionais ajudam a maquiar problemas antigos;
  • Um rico museu virtual com entrevistas e materiais históricos;
  • Espaço dedicado a reproduzir as trilhas sonoras dos jogos.

Contras

  • O envelhecimento dos jogos originais é apenas maquiado e pode limitar a diversão;
  • Os recursos modernos não corrigem problemas de design.
Disney/Pixar Toy Story: Retro Roundup! 
PC, PlayStation 5, PlayStation 4, Xbox Series, Nintendo Switch e Nintendo Switch 2 Nota: 7.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Beatriz Castro
Análise produzida com cópia digital cedida pela Atari
OpenCritic
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Windsor Santos
Jogadorino desde os áureos anos 90, geralmente surpreende amigos com a quantidade de títulos que já finalizou. Divide o amor por games com seus mangás, Hq's e filhotes. Agora seu objetivo é registar seus conhecimentos para as novas gerações de jogadores.
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