Análise: Deep Dish Dungeon é simples na proposta, forte na exploração mas frágil no combate

Aventura de sobrevivência de estúdio de origem brasileira te coloca no jogo e você que se vire.


Sou suspeito para falar de jogo nacional. Torço por eles, aposto neles e quero ver muito mais títulos brasileiros por aí, porque a criatividade que sai desses estúdios costuma ser enorme. Por isso, Deep Dish Dungeon já tinha a minha atenção antes mesmo de eu ligar o PC. A Behold Studios nasceu em Brasília, em 2009, e hoje trabalha de Toronto, no Canadá. É o time de Knights of Pen & Paper e Chroma Squad, e dessa vez, mergulha em algo bem diferente: uma exploração de masmorras (dungeon crawler) em primeira pessoa, com sobrevivência e elementos de Metroidvania. O jogo chegou em 13 de outubro para Steam e Xbox Shop, publicado pela Raw Fury, e já está disponível no Game Pass.


Se vira, aventureiro

Deep Dish Dungeon não investe muito tempo com apresentações. Você é largado em uma caverna com uma tocha na mão e, a partir daí, tem que descobrir como progredir na Dungeon e sobreviver a ela. Não existe mapa. Descobrir para onde ir e como sobreviver no caminho é um problema seu. Isso pode ser frustrante, e vou ser sincero: em alguns momentos foi. Ainda assim, é justamente a sensação de estar perdido que me convenceu de que eu estava dentro de uma masmorra de verdade, e não só passeando por um cenário.

Tudo ali é escuro, e a tocha é a sua companheira constante. Só que ela tem durabilidade, então a exploração vira um exercício de planejamento: quanta luz ainda me resta, e até onde posso avançar com o que tenho agora?

Dá para sair correndo atrás do objetivo, mas você não vai encontrá-lo, porque o caminho só aparece a quem para e olha cada canto. Pequenas áreas escondem passagens para lugares maiores, e o retorno a áreas já visitadas (backtracking) é parte do pacote, já que sempre fica algo para trás. Há obstáculos que só cedem a uma ferramenta específica, e quando alguma coisa não quebra, quase sempre é porque você ainda não tem a certa.

Barriga cheia, tocha acesa

A sobrevivência se apoia em comer, beber e descansar. Comida aumenta a vida máxima e cura, e estar hidratado e descansado mantém vida e estamina em dia. Essas barras exigem uma logística que me deixou sempre calculando: se eu me afastar da fogueira sem ter encontrado nada para comer, será que o lugar para onde quero ir tem alguma coisa? Arrisco e volto com a mochila cheia, ou recuo agora? Essa dúvida cria uma tensão que sustenta o jogo sem precisar de muito mais.

Cozinhar é o outro lado dessa moeda. Maçãs e cogumelos podem ser comidos crus, mas também viram receitas, como sopas, e vale ir atrás dos ingredientes porque o nome do jogo não está ali à toa. A fabricação de itens (crafting) segue o mesmo ritmo: tudo o que está pelo chão pode virar fogueira, lugar para cozinhar, cama, mochila, arma melhor. A mesa de trabalho libera ferramentas mais complexas, como forno, outras tochas, roupas, ganchos, escudo improvisado e machados, e cada novidade amplia o que a masmorra permite. Manter essas ferramentas em dia é o que leva você mais fundo.

Eureka no escuro

Se eu tivesse que escolher o melhor ponto do jogo, seriam os puzzles. Todos me deram aquele momento de eureka: você fica ali tentando entender, sem dica nenhuma, até que cai a ficha e vem o “ah, então era assim!”. Eles parecem parte do cenário, e não quebra-cabeças enfiados ali para encher tempo, e muitos aceitam mais de uma solução. Cada segredo descoberto e cada cantinho novo explorado me pagaram de volta com uma satisfação bem concreta, daquelas que fazem você querer abrir mais uma porta.


Escolha as suas batalhas

O combate é simples: ataque, defesa e desvio, e há momentos de tensão, principalmente porque o jogo cobra que você escolha bem quando lutar. Os esqueletos foram fáceis para mim, mas algumas criaturas exigem mais habilidade e podem fazer uma parte dos jogadores sofrer. Os morcegos, por exemplo, me travaram até eu descobrir como fabricar um arco e flecha.

É aqui que moram os meus incômodos. Certos inimigos pedem a ferramenta certa, e se você ainda não encontrou os materiais para fabricá-la, a luta vira um muro (juro, os morcegos estavam acabando comigo). O jogo não avisa, e o que deveria ser uma descoberta natural vira frustração. A área de colisão (hitbox) dos ataques também é estranha: às vezes, eu jurava ter acertado o inimigo e não acertava, ou jurava ter desviado e levava o golpe. Em um combate simples, que depende de desviar na hora certa, essa imprecisão incomoda mais do que deveria.


Polígonos e breu

A estética 3D de poucos polígonos (low poly) me agradou muito, e sou fã de jogos assim. Ela combina com o clima sombrio e claustrofóbico, que passa a energia de um lugar que não quer você ali. Joguei sozinho do começo ao fim, então a minha leitura é a de quem encarou o escuro sem companhia. O jogo aceita até três jogadores no modo cooperativo (co-op) e imagino que, com amigos por perto, essa energia pesada diminua e o clima fique mais leve e divertido. Já no acampamento, o fogo e a comida quente trazem um aconchego curioso, um respiro no meio do breu.


Prato cheio para quem gosta de se perder

Deep Dish Dungeon é um jogo simples, e considero isso uma qualidade, pois ele faz muito bem feito aquilo que propõe ser, um dungeon crawler. Pede tempo e paciência, não segura a sua mão em momento nenhum e devolve cada canto explorado com uma recompensa que compensa o esforço. Os combates e a imprecisão dos golpes impedem o jogo de ser mais redondo, mas não consigo listar muitos outros pontos negativos. Para quem gosta de se perder em uma masmorra e de ser premiado por prestar atenção, é um prato cheio.

Prós

  • Exploração sem mapa, que passa a sensação real de estar dentro de uma masmorra;
  • Sobrevivência baseada em comida, hidratação e descanso, que cria logística e tensão sem exagero;
  • Fabricação de itens que amplia as possibilidades a cada ferramenta nova;
  • Puzzles naturais, sem dicas, com mais de uma solução;
  • Visual de poucos polígonos e clima sombrio e claustrofóbico bem construídos.

Contras

  • Alguns combates frustram quando a ferramenta ou o material certo contra o oponente ainda não foi encontrado;
  • Área de colisão dos ataques pouco precisa, com golpes que parecem acertar ou errar sem lógica.
Deep Dish Dungeon — PC/Xbox Series X|S — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Júlia Loffreda Costa
Texto de análise produzido com chave cedida pela Behold Studios
OpenCritic
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Vincenzo Augusto Zandoná
Apaixonado por games desde que nasci, gosto de passar horas tagarelando sobre, principalmente Metal Gear! Ah e também faço café...
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