Mega Drive: algumas das melhores músicas do 16 bits da SEGA

Vamos ouvir dez dos temas mais interessantes que o hardware de som do console tem a nos oferecer

Quem me acompanha aqui no GameBlast sabe do meu fascínio pelo Mega Drive, a plataforma lançada em 1988 que conseguiu colocar de vez a SEGA no mapa do mercado de consoles ocidental. Vindo com a premissa ambiciosa de trazer a experiência dos fliperamas para o lar dos jogadores, a casa de Sonic veio com um hardware potente para a época, mas perdeu um pouco do fator novidade com o sofisticado Super Nintendo.


Mesmo assim, o Mega Drive conseguiu seu lugar no mercado por conta de diversos fatores técnicos, que acabaram virando a personalidade da plataforma. Entre eles estava seu chip de som, o Yamaha YM2612, um sintetizador sonoro de modulação de frequência que produzia diversas notas em timbres diferentes, trazendo uma versatilidade que o PSG do Master System, NES e outros consoles anteriores não conseguiam facilmente.

Contudo, programar som em FM não é uma tarefa fácil, e a imagem do próprio 16-bits ficou levemente manchada pela inabilidade de alguns desenvolvedores. Ao mesmo tempo, grandes cancioneiros foram criados para aproveitar a sonoridade metalizada e impactante do YM2612, especialmente nas mãos de compositores japoneses.

Nessa matéria, vamos falar de alguns exemplos do que o Mega Drive tinha de melhor em seu repertório musical. Para isso, iremos evitar alguns velhos conhecidos, como Green Hill, de Sonic 1, e Go Straight, de Streets of Rage 2; vamos focar em outras obras que merecem destaque entre os mais de 600 títulos lançados para o console. Coloque um fone de ouvido e vamos começar!

Stage 1 (Asteroid Field) — Advanced Busterhawk Gley Lancer (1992)


Jogo de navinha precisa de música boa para ser marcante, e eu diria que o acervo do gênero no Mega Drive é muito bem servido. Entre alguns dos menos conhecidos está Gley Lancer, lançado originalmente pela extinta NCS, que trouxe consigo um feijão com arroz saboroso na jogabilidade, belos visuais e uma trilha sonora marcante. E, claro, tinha que começar no alto.

O tema da primeira fase do game começa agitado, transmitindo uma sensação de perigo iminente, mas deixando claro que era apenas o começo de uma aventura esperançosa para salvar a galáxia. A melodia é um mix de rock, com uma simulação de guitarra guiando a música, enquanto o baixo passa um ar mais eletrônico, remetendo a uma temática mais sci-fi. O refrão é a cereja do bolo de um tema envolvente, sendo impossível não cantarolar quando ele chega.

Para mim, essa música rivaliza com Fighting Back, a música da primeira fase de Thunder Force IV, entre as melhores canções de primeira fase dos 16 bits no geral.

Vapor Trail — Vapor Trail (1991)


Indo de um shmup para outro, a Data East portou Vapor Trail dos fliperamas para o console dois anos depois do lançamento original. Embora seja um título mediano, fizeram questão de adaptar o tema da primeira fase para o console da SEGA de uma maneira que soa muito melhor que no hardware original.

A vibe sonora da música parece se inspirar nas melodias do filme Top Gun, com um rock sintetizado mais aventureiro e toques mais militares. É como se tivesse um vocal cantando sobre alcançar grandes altitudes para vencer um grande desafio, tudo isso com uma guitarra satisfatória e, principalmente, a percussão.

A sacada técnica é utilizar tão bem o único canal DAC do YM2612 — o canal que permite samples —, botando toda a percussão da bateria e mixando tudo de uma forma que uma nota não engula a outra. É uma harmonia tão genial que realmente parece haver mais canais de som executando a instrumentação.

Adventures of Iron — Gauntlet IV (1992)


Saindo dos ares e indo para o solo de terras medievais, a Tengen convocou a até então novata M2 para adaptar o clássico Gauntlet para o Mega Drive. Para a nossa sorte, um dos mestres do FM da época, Hitoshi Sakimoto, teve a ideia de criar novas composições para o game, utilizando apenas o puro poder da modulação de frequência para criar uma trilha de proporções épicas.

É muito difícil criar sons orquestrados utilizando sintetizadores no geral, e é sempre mágico quando alguém consegue fazer isso. Adventures of Iron é um dos maiores representantes desse feito, trazendo uma melodia grandiosa, como se fosse a preparação para uma guerra.

Simulando trompetes, tambores e sons que parecem madeira batendo, como o andar de uma carruagem, temos uma melodia complexa que até contrasta com a natureza simples de Gauntlet, um dungeon crawler de fliperama lançado em 1985. É a melhor versão do clássico da Atari, e a música tem um grande papel nisso.

Volcano Valley Zone Act 2 — Sonic 3D Blast (1996)


Sonic 3D Blast não foi a melhor forma de encerrar a carreira do ouriço mais veloz que há em seu console de origem, mas a equipe de som estava inspirada em fazer uma trilha à altura da série. Composto pela maioria da galera de Sonic & Knuckles, o título isométrico veio com um repertório recheado de clássicos, e a música que tematiza o segundo ato da fase de lava trouxe um som mais experimental.

Nada de tom aventureiro aqui; a música é mais melancólica, contemplando a natureza destrutiva do fogo (ou lava) como se fosse um ambiente apocalíptico. Não é exatamente um tom de perigo, e sim algo mais lento, como se o pior já tivesse passado e a mãe-natureza tivesse deixado seus rastros finais.

É algo muito diferente para Sonic como um todo, e é triste que a SEGA nunca tenha se lembrado de trazer a música de volta em algum remix, como fez com Green Groove e Diamond Dust.

Ice Scream — Ristar (1995)


Indo da melancolia do fogo para o gelo, Ristar é um dos grandes exemplos de uso do canal DAC que o Mega Drive teve. E, numa vibe hip hop bastante lenta, Ice Scream contrasta com a música do primeiro ato do planeta Freon com uma melodia triste e, ao mesmo tempo, esperançosa, provavelmente para destacar o cenário tomado pela neve com a beleza da aurora boreal no céu.

O lado hip hop está na percussão, que quebra o ritmo mais lento das outras notas, especialmente das tocadas pelo chip SN76489 — o PSG do Master System presente no Mega —, que domina aqui com notas mais frias. É uma composição perfeita que precede a última fase do jogo e o último ato para salvar o universo de Greedy.

The Prayer of a Tragic Queen — Castlevania: Bloodlines (1994)


O primeiro trabalho de Michiru Yamane na série dos Belmonts foi num console que definitivamente não conseguiria reproduzir a finesse do console de CD que catapultaria seu nome, mas sua assinatura é inconfundível. Entre músicas com mais batidas, Castlevania: Bloodlines trouxe consigo música clássica e erudita no chip FM, sem qualquer auxílio de samples.

The Prayer of a Tragic Queen parece que tocaria num banquete das trevas. É fina e com um ar de realeza, ao mesmo tempo em que há um tempero um tanto sombrio, como se estivesse contando uma história de final conturbado. Com certeza seria tema de uma área de Symphony of the Night três anos antes de aquele game ser lançado.

Idaten — Shinobi III: Return of the Ninja Master (1993)


Sou apaixonado por Shinobi III e ele é um dos meus jogos favoritos da vida. Além da jogabilidade satisfatória e dos belíssimos visuais, a trilha sonora tem uma grande responsabilidade nessa posição pessoal. Chega a ser difícil escolher qual cancioneiro destacar, mas creio que Idaten seja aquela que melhor representa o ritmo de ação frenética da aventura de Joe Musashi.

É a melodia que abre a segunda fase, em que começamos galopando em um cavalo por campos abertos, com montanhas ao fundo e um lago. O ninja deve lidar com inimigos que saltam de pipas enquanto galopa em alta velocidade; então, uma bateria enérgica, um som que imita uma instrumentação mais nipônica e um baixo estalando são a pedida perfeita para a cena.

A instrumentação de Shinobi III é uma das melhores do console tecnicamente, muito por conta do bom uso do canal de samples para a percussão. Não é à toa que Idaten foi trazida de volta lá em Sonic & All-Stars Racing Transformed, num remix eletrônico também de alto nível.

Beatnik on the Ship — Streets of Rage (1991)


Streets of Rage e a genialidade de Yuzo Koshiro são tópicos que dispensam apresentações. O compositor trouxe uma magia raríssima dentro do estilo de chiptunes na época, aproveitando um hardware de sons eletrônicos dentro de um gênero que certamente dominaria: a música eletrônica.

Aqui dou destaque a uma das faixas menos comentadas quando falamos do primeiro jogo, que tematiza a quinta fase. Estamos num navio surpreendentemente rápido e grande, deitando vários capangas de Mr. X. Ao contrário dos temas anteriores, a sensação aqui é de urgência e perigo iminente.

Aqui há um som de ruído recorrente que dá ritmo às batidas, seguidas de outros sons mais metálicos, além de sintetizadores que marcaram o techno oitentista. Novamente, a entrega técnica é tão absurda que não seria fora do lugar tocar algo assim numa rave da vida. O primeiro Streets of Rage possui minha trilha favorita da franquia, e esse é só mais um exemplo do porquê.

Burn Daisy — Crusader of Centy (1994)


É um tanto raro ver jazz sendo representado no Mega Drive, e mais raro ainda ver jazz ambientando uma área dentro de um vulcão. O quente tema é tecnicamente simples, tendo apenas um baixo, um saxofone e um piano sintetizado, mas é algo tão groovy e pegajoso que é difícil não ser conquistado.

Considerando que é uma das áreas mais complicadas de navegar por conta da lava correndo pela caverna vulcânica, Burn Daisy chega até a ser um tema cômico para Crusader of Centy. Uma pena que o compositor de todo o jogo, Motokazu Shinoda, tenha feito apenas esse trabalho dentro do mundo dos videogames. Esse Zelda-like apresenta uma trilha sonora bastante rica.

The End of the Battle -To Out World- — Gunstar Heroes (1993)


Você passou por sete fases distintas e cheias de ação para salvar o universo de um império do mal no controle de dois heróis. Após derrotar o esquisito deus Golden Silver, o vilão tenta se safar, mas acaba sendo parado pelo irmão dos guerreiros, controlado mentalmente pelo líder do exército inimigo. A cutscene inteira é acompanhada de uma melodia que passa a sensação de término de aventura de uma forma positiva, mas com um gosto agridoce pelo que se sucede para parar a entidade.

A composição é bem simples e vai se construindo devagar, sem mudar muito sua estrutura, até todos os instrumentos se juntarem para o refrão. Soa como um respiro após a catarse de ação que Gunstar Heroes proporciona do começo ao fim e ajuda a encerrar uma das experiências mais singulares dos 16 bits.

E ainda teria mais

Esses são apenas alguns dos temas mais interessantes de ouvir da biblioteca do Mega Drive. Sempre gosto de destacar ótimos trabalhos que compositores e programadores talentosos trouxeram durante os oito anos (ou mais, dependendo da região) de atividade do console.

E até hoje tiram leite de pedra do hardware em lançamentos novos e ROM Hacks. Isso pode ser tópico para uma segunda parte dessa postagem, o que só prova que limitações sempre abrirão asas para a criatividade em plataformas antigas.

Revisão: Thomaz Farias
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Alecsander "Alec" Oliveira
Um ser que está nesse mundo dos joguinhos desde criança. Fã de games com vibe mais arcade e arqueólogo de velharias, mas não abandona experiências mais atuais. Acompanha a mídia de podcasts, dublagem e ouvinte assíduo de VGM. Pode ser encontrado como @AlecFull e semelhantes por aí.
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