Análise: Halloween: The Game transforma Haddonfield em um divertido playground de terror

Controlar Michael Myers nunca foi tão divertido, mesmo com limitações de variedade e profundidade.

em 17/09/2026

Os jogos de terror multiplayer assimétricos chegaram para oferecer uma nova oportunidade para franquias do cinema receberem adaptações certeiras nos games. Depois da popularização do gênero com Dead by Daylight, a desenvolvedora IllFonic lançou jogos no universo de Sexta-Feira 13 e de clássicos cult, como Killer Klowns from Outer Space. Agora, com Halloween: The Game, baseado em uma das obras mais influentes do gênero no cinema, o estúdio tenta levar a fantasia sanguinária de Michael Myers para uma experiência multiplayer. 

O Formato do Mal

Antes de entrarmos no cerne do jogo, que é sua porção multiplayer, vamos explorar um de seus principais atrativos: a campanha single-player. 

No modo campanha, assumimos o papel de Michael Myers e revivemos os acontecimentos do filme original de 1978 sob sua perspectiva. Começando pela fuga do manicômio e sua ida até a cidade natal de Haddonfield, de cara notamos que a campanha funciona como um tutorial da jogatina do vilão, mas nem por isso deixa de divertir, principalmente para os fãs do longa-metragem.

Jogamos e aprendemos a deixar um rastro de sangue cada vez maior, porém sua duração depende de como o jogador decide encará-la. Se partir diretamente para os alvos principais, a experiência não deve durar muito mais do que uma hora. No entanto, ao explorar o mapa e cumprir objetivos secundários, conseguimos estender nossa releitura do filme e torná-la ainda mais macabra, principalmente por conta da inteligência artificial dos civis: eles se comportam com a mesma lentidão e falta de instinto de sobrevivência das vítimas mais desatentas dos filmes slasher.

A violência extrema que o jogo proporciona funciona para cada jogador dependendo da sua tolerância ao conteúdo. No meu caso, as diversas execuções utilizando o cenário, cada uma mais violenta que a outra, proporcionam um divertimento sádico que poucos jogos recentes conseguiram entregar. 

Como tutorial, a campanha cumpre seu papel e, como representação do filme, é competente em boa parte do tempo. Controlar o mal absoluto sem rosto, até encontrar seu traje e sua máscara icônica, enquanto ouvimos os monólogos sobre as facetas do mal do Dr. Loomis, tem uma graça que não se perde durante a experiência. Tudo isso é embalado pela inconfundível e atemporal trilha sonora do longa de John Carpenter.

Doces…

Com a finalização da curta campanha, adentramos de fato no multiplayer. Podemos selecionar nossa preferência de jogabilidade entre os civis, Michael ou ambos e, então, partir para Haddonfield ao lado de outros quatro jogadores.

O formato dos jogos multiplayer assimétricos de terror não é segredo para ninguém. É uma fórmula que funciona e pode ser reintroduzida em diferentes propriedades intelectuais pela própria natureza da experiência: cooperar com outros sobreviventes enquanto tentamos escapar das garras do vilão, neste caso, Michael Myers. No entanto, a IllFonic apresenta algumas ideias para mexer nessa estrutura.

A mais importante é que não estamos sozinhos em um simples 4 contra 1. Grande parte do objetivo da partida envolve lidar com os civis controlados pela inteligência artificial espalhados pelo mapa, que se tornam condições primárias de vitória ou derrota.

Cada mapa conta com três NPCs “especiais” e mais cinco comuns. O objetivo dos jogadores é protegê-los, principalmente os NPCs especiais, mas, antes disso, precisamos convencê-los do perigo. Ao nos aproximarmos dos NPCs, conversamos com eles e, ao realizarmos com sucesso o minigame de convencimento, eles percebem a ameaça e passam a seguir nossas ordens.

Podemos mandá-los ligar para a polícia, se esconder, nos seguir ou, quando uma rota de fuga estiver aberta, direcioná-los até a saída. Apesar das possíveis frustrações ao lidar com inteligência artificial em um ambiente online, a adição dos NPCs é uma grande parte do divertimento do game. Não estamos lutando somente para escapar. Precisamos prestar atenção ao que acontece ao nosso redor e utilizar diferentes estratégias para ajudar os civis. Isso cria situações de risco e recompensa durante a partida, já que, muitas vezes, ao abrir uma saída, não podemos simplesmente abandoná-los se quisermos vencer.

O problema é que as rotas alternativas de fuga, como consertar veículos ou destrancar porões, dependem mais de sorte para encontrar itens pelo cenário do que de planejamento. Essa simplicidade prejudica o aspecto cooperativo, já que na maior parte do tempo você estará vasculhando gavetas sozinho e baseando sua estratégia naquilo que tropeçar primeiro, sem que os mapas ofereçam variações estruturais para mudar essa dinâmica.

Durante minhas dezenas de partidas como civil, nunca senti que uma morte tivesse acontecido simplesmente por acaso. A frustração quase sempre veio de mim mesmo, seja por arriscar demais ou por não perceber as pistas visuais e, principalmente, sonoras de que Michael estava por perto.

Caso o jogador morra primeiro, existe a chance de voltar como o Dr. Loomis, equipado com uma arma para tentar deter o assassino. Conforme outros jogadores são eliminados ou conseguem escapar, eles também podem retornar como policiais. É uma decisão inteligente, que mantém as partidas engajadas até o final, mesmo aquelas em que algo dá errado logo no início. 

Ou travessuras?

Ao jogar com Michael, o jogo faz jus à fantasia proposta. Não podemos correr, apenas andar em sua velocidade ameaçadoramente lenta, e isso faz parte do desafio. Em compensação, temos habilidades para facilitar nossa vida, sendo a principal delas a possibilidade de nos transformar em uma forma de sombra e flutuar pelo mapa.

Entretanto, não podemos atacar enquanto estamos nessa forma e também não podemos voltar ao normal diante de luzes ou muito perto dos civis. O grande atrativo está em flutuar pelo cenário e encontrar o ponto estratégico para surpreender os outros jogadores, transformando a movimentação em parte importante da experiência de controlar o assassino.

O jogo também traz a mecânica de Stalk, na qual observamos passivamente os adversários para causar medo. Embora seja uma adição obrigatória para honrar o papel voyeurista de Michael nos cinemas, sua utilidade prática no multiplayer é quase nula. A velocidade com que os sobreviventes percorrem o mapa raramente permite que o assassino alcance o nível máximo dessa habilidade.

A adição dos NPCs também é fundamental para melhorar a experiência como vilão. Agora não estamos atrás somente dos jogadores; precisamos perseguir os civis espalhados pelo mapa, o que faz com que estejamos constantemente tomando decisões e realizando execuções.

Com todas essas ferramentas à disposição, a desvantagem inerente de estar sozinho contra outros jogadores continua existindo, mas as oportunidades criadas pelos bots e os próprios embates com os sobreviventes ajudam a equilibrar a partida.

Haddonfield e suas ruas

Os mapas de lançamento são limitados a quatro, com tamanhos diferentes, sendo todos bem construídos e apresentando uma boa distribuição de NPCs e jogadores pelo cenário. Como mencionado, porém, falta uma diferenciação mais marcante entre eles.

Aqui encontramos um paradoxo: isoladamente, são mapas de altíssima qualidade, com boa construção e espaços que funcionam para a proposta do jogo. Em conjunto, no entanto, o contraste entre eles não é tão perceptível . Em uma sessão mais longa de jogatina, acabam se mesclando na mente do jogador, já que nenhum proporciona uma experiência realmente diferente dos demais, além de não existir uma ruptura visual significativa.

É claro que a ambientação noturna é necessária para a proposta de Halloween, mas poderíamos ter recebido um mapa no fim da madrugada, com a partida terminando ao nascer do sol, ou até mesmo um cenário fora das ruas de Haddonfield. O manicômio, por exemplo, seria um candidato perfeito para isso.

No mais, vale destacar a alta qualidade da produção visual e sonora do game, que ajuda a colocá-lo entre os melhores do gênero até o momento. Algumas animações podem parecer estranhas aos olhos de certos jogadores, mas ver os personagens correndo de maneira desajeitada enquanto carregam suas armas, em cenas involuntariamente engraçadas, acaba aumentando o charme do jogo.

Estatísticas do crime

O que nos mantém jogando, além da diversão, são os desbloqueáveis. Aqui, existem inúmeras opções de personalização para Michael e os civis, incluindo acessórios, estilos de cabelo, armas iniciais e outros itens. Eles funcionam bem para moldar sua própria versão dos personagens e dão um objetivo adicional para quem pretende continuar jogando.

No entanto, o tracking de todas as atividades está completamente bugado desde o lançamento. O mais frustrante é que a desenvolvedora chegou a lançar um patch informando que havia corrigido o problema, que afeta diretamente o desbloqueio de troféus e conquistas, mas eles continuam sem funcionar corretamente.

O problema é que diversos bugs na contagem dos objetivos, principalmente no desafio de eliminar 250 civis como Michael, acabam causando dor de cabeça para quem pretende platinar o game. É uma pena, porque esse tipo de desafio combina muito bem com a proposta de continuar jogando e experimentar diferentes situações durante as partidas.

O fator diversão

Após a campanha e algumas partidas, fica claro o que Halloween: The Game tem a oferecer. A experiência não é das mais complexas e pode se tornar repetitiva para quem jogar de forma mais intensa, mas existe um fator difícil de medir que funciona muito bem aqui: a capacidade de cada partida criar situações inesperadas.

Entrar no mapa, convencer os civis, mandar que eles nos sigam e acabar vendo todos serem emboscados por Michael, se sacrificar para garantir a fuga de um personagem especial ou retornar como Dr. Loomis para enfrentar a forma do mal são situações que surgem naturalmente durante as partidas. É esse tipo de momento que mantém a experiência interessante mesmo quando suas mecânicas, individualmente, não são tão profundas.

Tendo jogado todos os dias desde que recebi o game, considero isso um elogio importante para qualquer multiplayer. Existe aquela sensação de entrar para jogar algumas rodadas antes de dormir, algo que me remete aos multiplayers mais simples e diretos da época do PlayStation 3.

O pacote, porém, não é perfeito. A dependência do RNG para encontrar determinados itens limita a construção estratégica das partidas, enquanto algumas decisões tomadas durante o desenvolvimento, como a remoção de uma mecânica do acesso antecipado, demonstram uma falta de cuidado que poderia ter sido evitada. São problemas que não comprometem o núcleo da experiência, mas ajudam a mostrar por que o jogo funciona melhor como uma experiência simples e divertida do que como um multiplayer extremamente profundo.

The Game: Ends

Halloween: The Game entende muito bem a fantasia que pretende entregar, seja controlando Michael Myers ou tentando sobreviver a ele. A campanha é curta, mas funciona como uma boa introdução e recria momentos marcantes do filme de 1978, enquanto o multiplayer encontra nos NPCs seu principal diferencial, criando situações que vão além do tradicional 4 contra 1. Mesmo tropeçando em bugs de progressão e em uma rasa variedade estrutural, o resultado é um slasher violento, divertido e que faz jus ao clássico de John Carpenter.

Prós

  • Fantasia de jogar como Michael Myers muito bem representada;
  • NPCs dão identidade ao multiplayer;
  • Campanha curta, mas eficiente em recriar o clássico de 1978;
  • Partidas capazes de criar situações espontâneas e divertidas;
  • Sistema de retorno como Dr. Loomis e policiais mantém os jogadores envolvidos.

Contras

  • Pouca variedade visual e estrutural nos mapas;
  • Dependência do RNG na criação de estratégias;
  • O rastreamento de conquistas/troféus e desafios segue falho mesmo após patches;
  • A rotina de objetivos se resume sempre às mesmas ações partida após partida.
Halloween: The Game — PS5/XSX/XBO/PC — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Revisão: Camila Sales
Análise feita com cópia digital cedida pela IllFonic Publishing
OpenCritic
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Matheus Oliveira
Entusiasta de games e cinema, sempre explorando novos gêneros e estilos enquanto acumula um backlog infinito. X e Instagram
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