Perda, amor e o peso do tempo
Nessa demo, assumimos o controle de Alfred, um senhor que perdeu a esposa — o amor da sua vida desde a juventude —, com quem compartilhou praticamente toda a vida. Agora, ele parte em uma viagem em sua casa sobre rodas para revisitar locais onde foram felizes juntos e recriar fotos antigas do casal, levando consigo apenas uma câmera fotográfica instantânea.
O trecho começa em um clássico motel de beira de estrada e logo nos leva a um restaurante que Alfred costumava frequentar com a esposa há muitos anos. E é fácil entender por que esse trecho foi escolhido para a prévia: nele, somos apresentados a uma sequência de eventos que mostra como o mundo evolui, enquanto algumas pessoas acabam ficando para trás.
Por fora e no nome, o restaurante ainda parecia o mesmo para Alfred, mas por dentro estava modernizado. O local especial do casal agora havia virado uma área exclusiva para membros de um "clube de fidelidade" — uma burocracia moderna que Alfred acha um completo absurdo e não consegue compreender.
O choque de gerações fica ainda mais evidente na conversa com a garçonete, uma jovem que só quer cumprir seu turno e garantir o sustento, mas que demora para atendê-lo por estar imersa em seu celular e não demonstra paciência nem parece entender o saudosismo dele. Para matar o tempo, Alfred tenta colocar uma música que ele e a esposa amavam, mas esbarra em outro obstáculo da modernidade: a clássica jukebox agora é decorativa, sendo o sistema de som totalmente digital. Sem saber como mexer naquilo, o protagonista reforça a sensação dolorosa de não pertencer mais ao próprio tempo.
E é justamente nesse momento que a viagem de Alfred parece ganhar um significado maior. Ele está tentando reencontrar lugares que, apesar de continuarem existindo, já não são os mesmos que guardava na memória. A paisagem permaneceu, mas as pessoas, os costumes e as experiências que davam significado a ela mudaram.
Então a jovem propõe um acordo. Alfred a ajuda a lidar com um guaxinim que está revirando o lixo do restaurante e, em troca, ela o deixará sentar no local exclusivo. No fim das contas, o animal era somente um cachorro desesperado em busca de comida e que tinha certamente mais medo da garçonete do que ela tinha dele.
A promessa de um dos jogos narrativos mais bonitos do ano
Mesmo sendo um recorte bem rápido, deu para sentir que Forever Ago aposta em um ritmo tranquilo e contemplativo. A jogabilidade casa perfeitamente com esse tom, focando em explorar cenários, interagir com objetos e registrar pequenos fragmentos da viagem com a câmera de Alfred.
Essa câmera, inclusive, combina perfeitamente com a proposta. Fotografar novamente os lugares por onde Alfred passa é uma busca pela preservação das memórias, que são tudo o que resta de algumas pessoas e momentos. Registrar o presente talvez seja, para o idoso, uma forma de impedir que esse momento desapareça.
Juntando essa sensibilidade com a trilha sonora original de Clark Aboud (Slay the Spire, Kind Words), o jogo tem bons ingredientes para entregar uma narrativa profunda sobre perda, envelhecimento e a dificuldade de seguir em frente quando parte da nossa vida ficou para trás.
Se a prévia servir como indicativo do que está por vir, Forever Ago parece ser uma jornada para entender o que fazer quando o lugar para onde gostaríamos de voltar já não existe mais. É o tipo de jogo que deve entregar uma experiência capaz de entrar facilmente na lista de títulos mais interessantes e bonitos do ano.
Revisão: Camila Sales
Texto de impressões produzido com cópia digital cedida pela Annapurna Interactive

