Análise: Another Eden Begins é um JRPG competente, mas preso demais ao passado mobile

A adaptação para consoles da aventura preserva sua essência, mas também carrega limitações que denunciam sua origem.

em 14/09/2026

Another Eden Begins transforma em um JRPG completo uma aventura que nasceu como título mobile gratuito. A nova versão reconstrói a primeira parte de Another Eden: The Cat Beyond Time and Space, com combates por turno, exploração tradicional e uma aventura baseada em viagens no tempo. Além disso, a presença de nomes ligados a Chrono Trigger, como Masato Kato e Yasunori Mitsuda, reforça a inspiração nos clássicos do gênero. Apesar das mudanças feitas para os consoles, porém, a origem mobile continua bastante evidente, prejudicando a tentativa de transformar a aventura em algo realmente notável.

Uma viagem pelo tempo e espaço

A aventura começa de maneira bastante tradicional. Aldo vive em uma pequena vila ao lado de sua irmã, Feinne, até que ela é sequestrada pelo Beast King. Ao tentar salvá-la, o protagonista acaba em uma distorção temporal e é enviado cerca de 800 anos para o futuro. A partir daí, a busca pela irmã se transforma em algo muito maior, levando Aldo a diferentes períodos históricos enquanto tenta salvar o tempo e o espaço. O que começa como uma missão pessoal rapidamente ganha proporções maiores, mas sem abandonar a simplicidade típica dos JRPGs clássicos.


A viagem no tempo é usada como uma maneira bastante conveniente de apresentar novos cenários, personagens e conflitos, e logo fica aparente que tudo está relacionado. As reviravoltas aparecem com frequência e tentam manter a sensação de que existe algo maior acontecendo por trás dos problemas apresentados inicialmente. É uma fórmula conhecida, mas funciona justamente porque o jogo não tenta complicá-la demais — a intenção é ser uma grande fantasia sobre tempo, destino e amizade, com aquele gosto de RPG dos anos 1990.

Em vez de simplesmente transportar o conteúdo do mobile para os consoles, a equipe retrabalhou a narrativa e o roteiro para criar uma experiência independente. A mudança faz sentido dentro da proposta, já que o original foi concebido como um RPG gratuito que continuou recebendo conteúdo ao longo dos anos, enquanto Begins precisa funcionar como uma aventura completa. O resultado é uma história mais concentrada, que não exige conhecimento prévio do mobile e ainda ganha recursos como New Game+ e múltiplos finais.


No entanto, a trama nem sempre acompanha essa ambição. A história é competente e possui momentos interessantes, mas raramente surpreende de verdade. O grupo de personagens é bastante diverso, embora muitos integrantes dependam demais de características simples para estabelecer sua personalidade: Aldo é o herói bondoso e prático que sempre tenta resolver os problemas; Riica é a androide capaz de encontrar uma solução quase para qualquer situação; já Cyrus é o espadachim transformado em sapo, que carrega um passado misterioso. 

São 19 heróis para recrutar, e alguns parecem ter vindo de uma lógica típica de gacha, surgindo com histórias e personalidades que pouco acrescentam à trama principal. Existem missões paralelas dedicadas a aprofundar esses personagens, mas elas nem sempre conseguem ir muito além da primeira impressão. Ainda assim, há mérito em assumir uma narrativa simples e descomplicada: é clara a intenção de ser um JRPG clássico, e nisso o jogo consegue acertar, embora um pouco mais de cuidado na construção dos personagens ajudasse a tornar essa jornada mais marcante.



Desbravando um universo tradicional

Mecanicamente, Another Eden é bem tradicional, com cidades, campos, calabouços e combates por turnos espalhados pelo caminho. Na maior parte do tempo, sabemos exatamente para onde devemos ir para fazer a história avançar, com marcadores para os objetivos e a viagem rápida sempre disponível, tornando o deslocamento bastante ágil. Não há muita preocupação em fazer com que nos percamos ou em criar grandes desvios, o que combina com a proposta de uma aventura focada na narrativa.

O problema é que essa simplicidade rapidamente se transforma em falta de variedade. As regiões são compostas por caminhos horizontais paralelos e estruturas extremamente lineares, com pouca coisa para descobrir entre um combate e outro. Os calabouços seguem a mesma filosofia e raramente apresentam algum desafio mais interessante — os puzzles se resumem a ativar alguns botões para liberar uma passagem. As missões secundárias também tentam preencher esses espaços, mas costumam repetir a fórmula de ir até determinado lugar, conversar com alguém ou derrotar algum inimigo.


Eu consigo entender a intenção de recuperar uma estrutura típica dos RPGs antigos, mas isso não significa que todas as limitações do passado precisem ser reproduzidas. As regiões mudam bastante visualmente conforme viajamos entre as eras; porém, suas estruturas não mudam, até mesmo os mapas são similares. Faltou um pouco mais de criatividade para transformar cada período em um lugar realmente interessante de explorar, em vez de apenas um cenário diferente para cumprir as mesmas tarefas.

Ao menos o New Game+ e os múltiplos finais dão um motivo para revisitar a campanha depois dos créditos. Também estão previstos pacotes de DLC com novos personagens, o que é uma opção para os fãs mais ferrenhos.



Em combates por turnos rápidos e estratégicos na medida certa

O combate é o destaque de Another Eden Begins. As batalhas seguem o modelo tradicional por turnos, mas acontecem em ritmo acelerado e contam com sistemas que adicionam algumas camadas de estratégia, sem tornar tudo excessivamente complicado.

As Chain Skills, por exemplo, permitem ativar ataques adicionais sob determinadas condições, como explorar fraquezas elementais ou aplicar efeitos negativos aos adversários. Também podemos montar grupos reserva e alternar entre eles durante os confrontos, com direito a vantagens ao ativar o recurso. Por fim, o Another Force permite entrar em um estado especial no qual as habilidades são utilizadas em sequência para provocar uma grande quantidade de dano.


A evolução dos personagens também oferece alguma liberdade: cada integrante possui dois conjuntos distintos de habilidades a serem desbloqueadas, e itens liberam técnicas diversas. Há limitações: cada personagem só pode equipar quatro golpes, e não podemos utilizar itens durante as batalhas. Isso nos instiga a pensar um pouco antes de montar a equipe, principalmente quando começamos a enfrentar inimigos que exigem respostas específicas. A nova versão também acrescenta criação de equipamentos e receitas, oferecendo opções adicionais de preparação fora dos confrontos.

O resultado de tantos detalhes é um sistema simples e elegante, baseado principalmente na formação de grupos e na combinação de habilidades. As situações mais interessantes surgem contra monstros mais poderosos e chefes, quando simplesmente atacar deixa de ser suficiente e precisamos pensar melhor na composição da equipe, nas fraquezas e no momento certo de utilizar cada recurso. É nesses encontros que as diferentes mecânicas conseguem trabalhar juntas e mostram que existe mais profundidade aqui do que os primeiros combates fazem parecer.


Por outro lado, nem sempre esses sistemas conseguem exercer tanta influência sobre a aventura. Muitos inimigos, inclusive alguns adversários mais resistentes, podem ser derrotados repetindo as mesmas técnicas até que a batalha termine. As Chain Skills também parecem menos relevantes do que poderiam, já que raramente compensa montar toda uma estratégia pensando em ativá-las o maior número possível de vezes. 

Existe um bom sistema por trás dos combates, mas ele acaba sendo exigido apenas em momentos específicos. No restante da campanha, podemos avançar de maneira bastante confortável, sem explorar tudo o que ele oferece.


Uma viagem com aparência de outro tempo

Visualmente, Another Eden Begins aposta em uma apresentação 2D bastante agradável, principalmente nos belos cenários. Cada era possui identidade própria e ajuda a transmitir a sensação de que estamos atravessando períodos muito diferentes da história daquele mundo. As paisagens naturais, as construções medievais e as áreas futuristas conseguem criar contrastes interessantes, mesmo quando a estrutura dos mapas não acompanha essa variedade.


Os personagens adotam um estilo chibi que pode causar certa estranheza nos primeiros minutos, especialmente por causa de movimentos pouco naturais. Depois de algum tempo, porém, comecei a me acostumar com a escolha estética e passei a enxergá-la como parte da identidade do jogo. O problema maior está na sensação geral da apresentação: mesmo com as melhorias, há momentos em que o título ainda parece um jogo mobile adaptado para uma tela maior. A interface, a estrutura das atividades e até algumas soluções visuais reforçam essa impressão, dificultando que a nova versão pareça completamente independente de sua origem.

A trilha sonora, por outro lado, é um dos grandes destaques da aventura. As músicas ajudam bastante a diferenciar cada período, usando sonoridades eletrônicas e guitarras nas regiões futuristas, enquanto cordas e pianos aparecem com mais frequência em ambientes ligados ao presente. A participação de Yasunori Mitsuda, conhecido por seu trabalho em Chrono Trigger, reforça a ligação com os grandes RPGs japoneses do passado. 



Uma jornada razoável, mas ainda limitada 

Another Eden Begins acerta ao recuperar a fórmula de JRPGs clássicos. O combate por turnos é agradável, a viagem pelo tempo cria situações variadas para a narrativa, e a trilha sonora consegue elevar bastante a atmosfera da aventura. O problema é que a aventura nunca consegue se livrar completamente da identidade mobile, com exploração limitada, personagens subdesenvolvidos e visuais nem sempre fluidos. No fim, é uma experiência simpática, mas pouco memorável, prejudicada pela sensação de estarmos diante de uma adaptação que não conseguiu se desprender completamente de suas origens.

Prós

  • Combate por turnos estratégico e dinâmico;
  • Estrutura de aventura clássica e ágil;
  • Ambientação agradável, em especial a trilha sonora;
  • Boa quantidade de conteúdo para explorar, incluindo New Game+.

Contras

  • Mapas e situações desinteressantes;
  • Narrativa fragmentada e personagens pouco aprofundados;
  • Alguns dos sistemas são subutilizados;
  • A simplicidade de certos aspectos ainda remetem a títulos mobile.
Another Eden Begins — PC/Switch/Switch 2 — Nota: 7.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Mariana Marçal
Análise produzida com cópia digital cedida pela WRIGHT FLYER STUDIOS
OpenCritic
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Farley Santos
é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.
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