Estratégia e sorte
Apesar do nome remeter ao xadrez tradicional, na prática, o game é uma experiência bastante diferente do clássico jogo de tabuleiro — diria até que em nada lembra o xadrez, a não ser pela existência de um tabuleiro. Em vez de se apoiar na movimentação de peças e no controle de posições, a proposta gira em torno da combinação de elementos em confrontos entre dois jogadores.
Essa escolha encaixa o título em uma brecha interessante entre os jogos casuais e os títulos de estratégia. A simplicidade das regras facilita o primeiro contato, enquanto a interação entre os elementos cria decisões cada vez mais elaboradas. O principal desafio do jogo está justamente em equilibrar esses dois lados: oferecer uma experiência fácil de compreender, mas que continue sendo estimulante para quem quer pensar nas próprias ações e nas possíveis respostas do adversário.
O gênero match-3, que serve como base para a gameplay, é conhecido pela formação de combinações de três ou mais peças em um tabuleiro. A partir dessa estrutura, Xadrez dos Cinco Elementos cria uma disputa em que cada movimento possui consequências diretas para o confronto. A escolha de uma combinação pode envolver não apenas o benefício imediato, mas também a preparação para as jogadas seguintes.
Elementar meu caro Watson
É justamente nesse ponto que o jogo começa a mostrar suas principais ideias. A utilização dos Cinco Elementos é o principal diferencial da obra. Tendo como base a tradição chinesa de madeira (no jogo representada por uma folha), fogo, terra, metal e água, além das relações de força e fraqueza entre eles, o sistema funciona quase como uma espécie de Pokémon, no qual conhecer as vantagens e desvantagens de cada elemento é fundamental para os confrontos.
O sistema de combinações e a interação entre os elementos tornam a escolha das peças tão importante quanto a própria formação das combinações. O tabuleiro é dividido em duas linhas: a superior é destinada às combinações ofensivas, responsáveis por gerar dano ao adversário, enquanto a inferior concentra as combinações defensivas, capazes de fornecer armadura e cura ao próprio personagem.
É aí que o game de fato se desenvolve. Por exemplo, ao combinar pedras do elemento planta na linha defensiva, nosso personagem é envolvido por cipós que desenvolvem flores e proporcionam cura. Ao utilizar o mesmo elemento na linha ofensiva, o adversário é envolvido por vinhas com espinhos que causam dano constante. O mesmo acontece com o fogo: na defesa, ele proporciona uma armadura de fogo; no ataque, aplica queimadura ao oponente.
Esses efeitos já seriam suficientes para criar uma camada interessante de estratégia, porém existe uma segunda parte do sistema que torna os confrontos consideravelmente mais complexos.
O grande diferencial está na possibilidade de explorar as fraquezas dos efeitos aplicados. Se o personagem estiver envolto em cipós para receber cura e for atingido por fogo, por exemplo, o dano será crítico. O mesmo princípio se aplica a outras combinações, como uma armadura de terra recebendo dano de água ou uma armadura de metal sendo atingida por fogo.
Isso faz com que o jogador precise pensar não apenas no que deseja fazer, como também no estado atual do personagem. Um efeito que parece vantajoso em determinado momento pode deixar o personagem vulnerável na jogada seguinte.
A consequência é uma dinâmica em que ataque e defesa estão constantemente conectados. Não basta simplesmente procurar a maior combinação disponível ou causar o máximo de dano possível. É necessário observar os efeitos ativos, identificar as fraquezas do adversário e, ao mesmo tempo, evitar criar uma abertura para que ele faça o mesmo.
É uma mecânica bem simples de compreender, mas que ganha novas camadas conforme o jogador aprende a combinar seus efeitos.
8 ou 80 nunca fez tanto sentido
O modo solo proporciona ajuda no entendimento gradual das mecânicas. Os sistemas não são apresentados todos de uma vez, permitindo que o jogador se acostume aos poucos
com as possibilidades de ataque, defesa, cura, armaduras e relações entre os elementos. Essa escolha funciona especialmente bem porque, conforme as mecânicas são assimiladas, os confrontos se tornam consideravelmente mais complexos.
O público começa entendendo as combinações de maneira bastante direta e, pouco a pouco, precisa considerar uma quantidade maior de variáveis antes de realizar cada movimento. E isso está longe de ser algo ruim. O resultado é uma curva de aprendizado que não apenas ensina as regras, mas também permite perceber gradualmente as possibilidades estratégicas escondidas por trás delas.
Um dos aspectos mais interessantes e o grande desafio da obra é o de equilibrar estratégia e sorte. Como acontece em outros títulos de combinação, a aleatoriedade influencia as oportunidades disponíveis ao jogador, tornando necessário adaptar o planejamento às circunstâncias de cada turno. Em um duelo, essa dinâmica ganha uma importância ainda maior. É preciso aproveitar as combinações disponíveis, mas também antecipar o que o adversário poderá fazer com as peças que aparecerem para ele.
A sorte, portanto, é imprescindível para a conta fechar. Ela faz parte da própria estrutura da experiência. A diferença está no que o jogador consegue fazer com aquilo que recebe. Se as possibilidades de combinação fossem completamente previsíveis, boa parte da dinâmica se perderia.
Por outro lado, quando o jogador possui diferentes maneiras de reagir a uma situação desfavorável, a aleatoriedade pode contribuir para partidas mais variadas e exigir uma tomada de decisão constante. É nesse equilíbrio entre planejamento e improviso que Xadrez dos Cinco Elementos encontra boa parte de sua identidade. As peças são apenas o ponto de partida para uma estrutura que envolve ataque, defesa, cura, armaduras, efeitos contínuos e relações de vantagem entre os elementos.
A divisão do tabuleiro em duas linhas é particularmente importante nesse sentido. Ela faz com que o jogador esteja constantemente decidindo entre se fortalecer ou pressionar o adversário. Em determinadas situações, uma combinação ofensiva pode parecer a melhor escolha, enquanto em outras é mais importante criar uma defesa capaz de resistir ao próximo ataque.
Isso também evita que o game seja resumido a uma busca automática pela maior combinação possível. Cada movimento exige total atenção ao que se quer fazer e ao tabuleiro como um todo. E é justamente aí que passamos a entender o motivo de ‘Xadrez’ estar no nome do jogo: também é preciso observar o adversário. Enquanto em um match-3 tradicional importa principalmente o que você consegue fazer com as peças disponíveis, aqui a leitura do movimento do oponente é tão importante quanto a sua própria jogada.
Uma combinação pode causar dano, outra pode recuperar vida, uma terceira pode criar uma armadura e outra pode preparar uma situação favorável para um ataque crítico. A partir daí, o jogador começa a pensar não apenas em movimentos isolados, mas em sequências de ações.
Narrativa visual e o som do silêncio
Em relação à história, Xadrez dos Cinco Elementos não coloca a narrativa como seu principal foco. A experiência está muito mais concentrada nas partidas e na construção de seu sistema de combate do que em apresentar uma campanha narrativa elaborada.
Isso não chega a ser um problema, considerando a própria natureza do jogo. A temática dos Cinco Elementos e os efeitos mágicos aplicados aos personagens são suficientes para estabelecer uma identidade para os confrontos, enquanto a maior parte da atenção fica direcionada ao tabuleiro.
A inspiração na filosofia dos Cinco Elementos também combina com essa proposta. Madeira, fogo, terra, metal e água não funcionam apenas como nomes ou elementos visuais: suas relações de força e fraqueza interferem diretamente na estratégia. Dessa forma, mesmo sem depender de uma narrativa complexa, o título consegue utilizar sua temática para justificar e dar identidade às próprias mecânicas. Essa identidade não está apenas nas regras, mas também na maneira como o jogo apresenta seus elementos ao jogador. O que é reforçado visualmente pela valorização do tabuleiro e dos diferentes efeitos provocados pelas combinações.
Essa característica é importante porque é preciso identificar rapidamente quais elementos estão disponíveis, quais efeitos estão ativos e quais possibilidades de ataque ou defesa podem ser exploradas. Em uma disputa na qual uma decisão errada pode abrir espaço para um ataque crítico, clareza visual deixa de ser apenas uma questão estética e passa a ser parte da própria jogabilidade.
Os efeitos associados aos elementos também ajudam a transmitir suas funções. Cipós, flores, fogo, armaduras, escudos, espadas e outros efeitos tornam mais fácil compreender visualmente o que está acontecendo durante o confronto.
A parte sonora possui uma função complementar, mas importante dentro da experiência. Como o foco está no raciocínio e na observação do tabuleiro, a trilha musical mais contida combina com o ritmo contemplativo das partidas. Os efeitos sonoros, por sua vez, possuem uma função mais diretamente relacionada à jogabilidade. Cada combinação, ataque, defesa ou efeito aplicado transmite ao jogador que sua ação foi realizada.
Nesse tipo de produção, o áudio funciona melhor quando reforça a leitura visual sem se tornar uma distração. Ainda assim, é na combinação entre áudio e efeitos visuais que a apresentação consegue cumprir melhor seu papel. Isso tudo ainda é embalado com personalização do avatar do jogador e planos de fundo para os combates.
Que seja eterno enquanto dure
Enquanto o modo solo é importante para ensinar as mecânicas, é nos confrontos contra outros jogadores que a estrutura de Xadrez dos Cinco Elementos encontra sua maior possibilidade de longevidade.
Usando Pokémon como referência, isso acontece porque um adversário humano pode utilizar as mesmas ferramentas de maneiras muito diferentes. Conhecer as relações entre os elementos é apenas o primeiro passo; é preciso também entender como o oponente está utilizando suas combinações e quais ações ele pode realizar a partir do estado atual do tabuleiro, já que, enquanto uma IA tende a seguir padrões mais previsíveis, o ser humano pode surpreender e tomar decisões que fogem do esperado.
Xadrez dos Cinco Elementos parte de uma ideia que, inicialmente, parece bastante simples: combinar peças de diferentes elementos para atacar e se defender. Porém, quanto mais suas mecânicas são apresentadas, mais evidente fica que existe uma estrutura estratégica consideravelmente mais complexa por trás dessa premissa.
A divisão entre ataque e defesa, os diferentes efeitos provocados pelos elementos, a possibilidade de cura e criação de armaduras e, principalmente, as relações de fraqueza entre eles fazem com que cada movimento tenha um peso diferente dependendo da situação.
No fim, o título é uma grande surpresa e consegue encontrar uma identidade própria ao misturar a acessibilidade do match-3 com uma estrutura de combate baseada em estratégia, defesa e exploração das fraquezas elementais. O resultado é uma experiência que pode parecer simples em um primeiro contato, mas revela uma profundidade muito maior conforme suas mecânicas são compreendidas.
Prós:
- A produção apresenta uma mistura de gêneros (xadrez e match 3) que dá muito certo;
- Toda a apresentação visual e sonora compõem uma experiência que é dá a tranquilidade necessária para a atenção que o título exige do jogador;
- O modo como os elementos são exibidos nos personagens para ilustrar o que está acontecendo é simples porém muito bem elaborado.
Contras:
- Sem um tutorial dedicado, o jogo se tornar complexo rápido demais.
Xadrez dos Cinco Elementos — PC/PS4/PS5/XSX/Switch/Switch 2/iOS/Android — Nota: 9.0Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Thomaz Farias
Análise redigida com cópia digital obtida pela Candleman Games



