Serious Sam é uma daquelas franquias clássicas que conquistaram o público mais velho, os fãs de boomer shooters. Criados pela Croteam, são jogos de ação pura que focam em horas de inimigos querendo matar um brucutu casca-grossa — quase um musou altamente ocidental.
Como a propriedade atualmente também pertence à Devolver Digital, a publicadora colocou Sam e suas variantes nas mãos da Behaviour (de Dead by Daylight), resultando em Serious Sam: Shatterverse. A proposta é unir a ação do boomer shooter a uma estrutura de roguelite, algo que chamou minha atenção logo de cara, mas o resultado foi muito mais fraco do que deveria.
Através do Samverso
Em Serious Sam: Shatterverse, Uber Mental, o principal vilão da franquia, retorna. Com a alcunha de Uber Mental, ele conseguiu realizar a façanha de quebrar as barreiras do multiverso. Sams de várias dimensões, então, formam uma equipe para restaurar a ordem do Shatterverse e salvar o espaço-tempo.
Essa estrutura de multiverso se encaixa na proposta de um roguelite: sempre iniciamos uma run do zero, podendo escolher uma arma simples no começo e melhorias selecionáveis ao subir de nível. O primeiro mapa é aleatório, então, pelo menos, os reinícios da jogatina não ficam tão imediatamente repetitivos caso estejamos tendo um mau desempenho ou uma maré de azar.
O objetivo é passar por cada área, derrotando hordas de inimigos no estilo mais tradicional de Serious Sam, enquanto alguns objetivos devem ser solucionados. Nada muito elaborado — apenas interagir com alguns pontos, seguir em frente e eliminar um determinado número de ameaças em campo.
Cada término de área dá ao jogador um upgrade selecionável entre três opções, além do mencionado sistema de níveis. Ao final da terceira área, uma loja estará acessível antes de enfrentarmos um chefe relacionado àquela área. Os buffs não vão além de ganhos mínimos de porcentagem, diminuição de recuo e outras melhorias genéricas, então sentimos muito pouco da progressão.
O ponto em que Shatterverse se escora na premissa de multiverso são os personagens, sendo Sam de diversas dimensões. Temos, ao todo, cinco Sams diferentes para jogar, como o Retro Sam e a Orphan Sam, e cada um possui uma habilidade suprema que é carregada ao matar monstros, além de recursos passivos, como mais agilidade no recarregamento das armas.
Uma viagem dimensional presa num looping temporal da mesmice
O maior problema desse loop de gameplay é a repetitividade dos elementos. No começo, haverá sempre a mesma rotação de armas, a mesma de upgrades e os mesmos objetivos, mesmo com os inícios diferentes. Ter vários personagens selecionáveis não é o suficiente para diversificar a experiência e, em uma hora, você já saca toda a estrutura.
E, como cada tentativa repete os mesmos buffs de novo, não há liberdade para a criação de builds, e isso é um crime para qualquer roguelike moderno que usa esse sistema de “escolha entre três buffs”. Como morrer é algo frequente, não há incentivos para novas tentativas, porque dependemos unicamente de persistência e do abuso dos ataques físicos que, assim como em Doom (2016), servem como uma forma de recuperar vida por meio de finalizadores.
Serious Sam: Shatterverse também é um jogo terrivelmente desbalanceado, especialmente jogando sozinho. Por exemplo, as três primeiras armas são uma pistola, uma shotgun e uma metralhadora, e simplesmente não há motivos para você não pegar a metralhadora em uma jogatina solo. Mesmo com ela, passar do último ato é um teste de paciência por si só.
As armas contam com um sistema de raridade que altera atributos como dano, velocidade de recarga e recuo, mas mesmo uma pistola melhor não substitui uma metralhadora mais simples contra hordas. E, para destravar uma arma diferenciada, é preciso adquiri-la gastando uma recompensa ao concluir uma run. Ou seja, se você estiver indo mal, terá que se acostumar com o pouco que lhe dão, ou não haverá progressão.
Há alguém nesses mundos?
É nesse cenário que vale a jogatina multiplayer para até quatro jogadores, com cada tipo de arma servindo para um tipo de situação — evidenciando que é um game pensado para a jogatina cooperativa. Isso se você conseguir encontrar gente aleatória para jogar — na minha experiência, foi impossível testar essa parte, pois simplesmente não consegui encontrar partidas.
![]() |
| Juro que tentei bastante. |
Tentei em diversos horários e dias diferentes e, mesmo com o crossplay ligado, não encontrei uma alma sequer. Vendo pelo SteamDB, dá para perceber que a quantidade de jogadores no próprio Steam é bem baixa e parece estar caindo cada vez mais.
Daria para aturar essa questão do matchmaking apenas como um detalhe decorrente da falta de gente jogando, mas há outro ponto que certamente não ajuda: o limite de tempo para encontrar partidas. Se ficar mais de cerca de um minuto procurando parceiros online, aparece uma janela que interrompe a busca para perguntar se queremos tentar de novo, jogar solo ou voltar ao menu. Eu poderia esperar minutos tranquilamente, mas o próprio jogo impede isso.
Serious Sam: Shatterverse é o primeiro jogo da série feito fora da Serious Engine, motor gráfico da Croteam. O estilo visual não é exatamente feio, mas é genérico e pouco marcante, chamando atenção apenas por retratar cenários de outros Serious Sam em uma roupagem mais moderna. Não dá para negar que há um quê de Fortnite, tanto na iluminação dos cenários quanto no design dos personagens.
Por algum motivo estranho, há constantes carregamentos de shaders antes de toda área nova. Eles são rápidos, mas uma opção para compilar tudo de uma vez deveria ser oferecida no menu ou mesmo antes de começar, pois os loadings em si, num SSD, são até que rápidos.
Outro ponto negativo que Shatterverse apresenta em relação a outros Serious Sam está no feedback sonoro. As armas são pouco impactantes, socar os inimigos não proporciona a mesma sensação de satisfação que Doom, e a trilha sonora também não é nada demais. A dublagem dos personagens é boa, apesar de o humor definitivamente não me pegar.
E até nos diálogos o fator repetitividade é um problema, pois, depois de um tempo, os Sams começam a dizer as mesmas coisas em toda run. As piadas perdem o impacto muito rapidamente, e não há opção alguma para desligá-las.
Quando é difícil até ser mediocre
Aprecio a ideia de Serious Sam: Shatterverse de trazer uma série totalmente focada na ação para um roguelite multiplayer. Poderia funcionar, mas não da forma que a Behaviour entregou aqui, com upgrades insignificantes para a jogabilidade, desbalanceamento no modo solo, péssimo sistema de aquisição de armas e um matchmaking que simplesmente não funciona.
Sem o envolvimento da Croteam, e com um produto de baixa qualidade, a obra soa como uma tentativa de ganhar dinheiro rápido com um nicho muito apaixonado. Caso procure um FPS roguelite para se divertir com a galera, Gunfire Reborn e Roboquest estão dimensões à frente deste aqui.
Prós
- É interessante ver cenários de Serious Sam anteriores em uma revisão moderna;
- Jogatina multiplayer para até quatro jogadores, com crossplay.
Contras
- Upgrades que não mudam nada na sensação da jogabilidade, como ganhos mínimos de porcentagem de velocidade e recarga de arma;
- Progressão muito lenta para aquisição de novas armas;
- Desbalanceamento nas jogatinas solo, sendo quase impossível ir muito longe estando sozinho;
- Matchmaking defeituoso, ainda mais prejudicado pela falta de jogadores e pela limitação de tempo na fila de busca.
Serious Sam: Shatterverse — PC/PS5/XSX — Nota: 4.5Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Mariana Marçal
Análise produzida com cópia digital cedida pela Devolver Digital











