Você acorda em um navio, em alto-mar. Desnorteado, com uma seringa próxima do seu braço, a primeira coisa que você vê é um papel com perguntas como “você está certo da existência de Deus?” e “está confiante que receberá a salvação através de SENARA?”. Você sai de uma sala de máquinas e ouve um telefone tocando. É a voz do capitão do navio, que diz: “Graças a Deus! Você está bem? Não é seguro onde você está. Venha para a cabine do capitão agora.”
Inspirado no conto “Dagon”, de H.P. Lovecraft, esse é SENARA: The Sacrament. Desenvolvido pela Influsion Inc., com uma equipe de apenas três pessoas, o jogo é um indie coreano de survival horror ambientado em um navio-igreja que promete explorar temas como fé e fanatismo, alinhados a horrores abissais do fundo do mar.
Condução da narrativa
Os detalhes da história eu vou deixar com vocês. Mas o principal recurso que o game utiliza para dar prosseguimento à narrativa é o uso de bilhetes espalhados pelos 6 andares do navio. O jogo dosa bem o seu modo de contar histórias. Os bilhetes que vamos encontrando permitem que interpretemos o que está acontecendo do nosso modo.
Assim, interagimos de forma indireta com vários personagens que compõem toda aquela estrutura, o que inclui desde os líderes religiosos à tripulação do navio. Dessa forma, a lore do jogo acaba ficando bastante rica, usando a imaginação do jogador como um recurso muito importante para a imersão.
As interações diretas com os personagens, como o capitão do navio, têm um bom roteiro e são dubladas no idioma original, o coreano. É nessa interações, inclusive, que ouvimos a voz do nosso protagonista. Não temos árvores de diálogos, mas as conversas fazem com que tomemos escolhas que, inclusive, vão influenciar o final que recebemos.
Com três finais diferentes, o jogo acaba dando uma certa liberdade para o jogador decidir como quer conduzir a história. Ainda que as nossas interpretações naturalmente nos conduzam a um desfecho, há um momento específico, de maior peso, em que precisamos decidir entre uma escolha e outra, e o jogo deixa claro que isso vai influenciar no final.
Se, por um lado, esse recurso mais direto que diz “decida” ao jogador pode ser abrupto demais, por outro, ele ajuda aqueles que pretendem obter outros finais, pois basta salvar o jogo antes de uma decisão como essa para poder fazer as outras trilhas.
Objetivo: fugir, mas não correr
O objetivo central de SENARA é fugir do navio; conseguir escapar do terror que habita a embarcação, de qualquer jeito. Para isso, vamos concluindo tarefas para acessar algumas salas e andares. A primeira delas é voltada para conseguirmos uma arma, e assim por diante. A exploração, que ocorre em ambientes aterrorizantes, é o principal recurso que o jogador pode utilizar para atingir seu objetivo.
Sobre isso, posso dizer que o jogo é bem generoso. Os mapas de cada andar são fáceis de serem encontrados e eles nos revelam, de forma instantânea, todas as salas, portas abertas, fechadas, salas exploradas e até mesmo algum item que deixamos passar; isso na dificuldade “Original”. Há outro modo, chamado “Director’s Cut”, que promete ser mais desafiador, mas no padrão, costuma ser bem tranquilo encontrar itens, se você não tiver tanto medo…
Por sua vez, a ambientação é muito bem feita. Quando vi os gráficos, imaginei que seriam pesados, mas são muito bem otimizados. Eles são um show à parte e usam muito bem os recursos do motor Unity sem pesar a mão nos requisitos de sistema. Além disso, o navio em que se passa o jogo é o scan de um navio real de seis mil toneladas. Isso, aliado à trilha sonora muito bem feita e à atmosfera com luzes piscando e sangue nas paredes, faz com que dificilmente seja tranquilo andar pelos corredores.
Além disso, criaturas e entidades podem perseguir o jogador, então confiança demais pode acabar prejudicando a vida do protagonista. O jogo se respeita muito bem neste sentido. É um jogo de terror e sobrevivência, então andar despretensiosamente e correr pelo navio vai atrair as criaturas e cabe a você lidar com elas.
Nossos maiores fãs: os monstros
Se você tem familiaridade com survival horrors, sabe que sempre há alguma coisa te perseguindo. Em SENARA, isso não é diferente: aos poucos, vamos enfrentando inimigos que não são muitos, mas marcam passagem em cada etapa do game. Enfrentamos desde humanos possuídos a monstros abissais do fundo do mar.
Confesso que a animação dos inimigos deixa a desejar em primeiro momento. São meio robóticos demais e carecem de expressividade. Entretanto, digo que isso não me impediu de ter diversos calafrios. O design dos humanoides, para mim, acabou entrando no vale da estranheza, o que deixou as coisas mais bizarras ainda.
Por mais que o cenário realista destoe um pouco dos movimentos deles, que são mais travados, isso não impediu que eu sentisse medo e talvez tenha até contribuído para isso. É bem dosado. O som ajuda a criar uma atmosfera imersiva, além de servir como localizador de inimigos.
Ainda assim, a simplicidade do design deles também pode ser vista na inteligência artificial por trás de seu comportamento. Sério: o monstro pode nos ver entrando em um armário, e o máximo que ele faz é ficar um pouco parado e depois se afastar.
Nesses momentos, a imersão some, e você lembra que está só jogando um game e aquele monstro é programado para fazer aqueles movimentos. Em mais de um momento, o script que eles precisam seguir ficou evidente, como quando a criatura “homem-peixe” ficou esperando eu entrar numa sala para me perseguir. Pareceu muito brincadeira de criança, sinceramente.
Entretanto, até o momento de você entender como funcionam os inimigos, geralmente eles dão lugar a outros, então, a incerteza e o medo acabam tomando conta da estratégia. Insistir num erro ao tentar matar um inimigo certamente vai custar recursos, e prosseguir se torna a única alternativa.
O principal ponto negativo dos monstros, para mim, foi que a maioria deles não parece ter muita relação com o contexto. Felizmente, o principal deles, que também é o que mais nos persegue, acaba se tornando icônico e representando bem o jogo.
Lutando pela vida
Desde o primeiro momento ao final, o combate não é opcional. Precisamos lutar pela nossa vida com todas as forças. E não basta apenas cuidar dos nossos pontos de vida, é preciso também se atentar à sanidade, que funciona como uma segunda barra de vida que precisa ser administrada e, caso você não consiga fazer isso, a morte não é instantânea, mas ela é quase certa.
Para isso, os itens do jogo, que variam entre itens chave e consumíveis, são o ponto central para evitar a morte. Temos aqueles que curam (mas não a vida toda), inibidores que ajudam a manter a sanidade e, claro, o armamento. Utilizamos três armas, sendo elas, em ordem de aparição: a faca, a pistola e a escopeta. A faca tem uso infinito, mas é de curto alcance e a chance de tomar dano com ela é grande. Já a pistola é a arma coringa, que podemos utilizar contra quase todos os monstros. E a escopeta é o poder bruto, mas com menos disponibilidade de munição.
Além de encontrarmos recursos pelo mapa, também temos à disposição uma máquina em que podemos comprar itens, com o dinheiro que vamos encontrando pelo caminho. Somando os itens que encontramos e os que podemos comprar, achei a oferta bem generosa. Por mais que isso facilite o game, há escolhas de design que podem forçar o jogador a cometer erros e uma quantidade abundante de itens é interessante.
As armas de fogo possuem upgrades que podem ser encontrados durante a exploração. Nada que vá mudar muito a gameplay, mas é um adicional muito bem vindo. O principal, indispensável e mais básico deles é a lanterna, para que possamos ter visão no escuro enquanto miramos.
Rejogabilidade
O tempo de duração de SENARA: The Sacrament segue o padrão para jogos de survival horror: é possível zerar com cinco horas ou menos de jogo. Entretanto, como dito anteriormente, o game possui múltiplos finais e você pode até escolher tentar fazer outros após finalizar pela primeira vez, o que pode esticar mais ainda o tempo que você quer ficar em alto-mar.
Assim, eu diria que, principalmente se você não tem tanta familiaridade com jogos de terror, o game vai entregar uma quantidade bem dosada de conteúdo. E, por mais que seja rápido para finalizar, ele segue uma linha de tensão de forma que em nenhum momento fica entediante e chato. O ritmo é intenso do começo ao fim.
Inclusive, quem ainda estiver em dúvidas se gostaria de jogá-lo ou não, pode baixar gratuitamente o prólogo chamado Before The Dawn, que conta a história de um dos personagens centrais da trama.
Prós
- Atmosfera aterrorizante, com o uso de iluminação e efeitos sonoros bem feitos, garantem uma tensão constante do início ao fim;
- Roteiro e lore envolventes, abordando temas profundos como a fé e a ganância, aliados a referências ao universo de H.P. Lovecraft;
- Exploração e combate são bem dosados, satisfazendo desde veteranos de survival horrors a iniciantes;
- Sistemas de escolhas que garantem três finais diferentes;
- Visual bonito, excelente otimização através do motor Unity e o escaneamento de um navio real entregam um cenário realista sem pesar no desempenho do sistema;
- Boa localização para o português brasileiro.
Contras
- Erros de localização nos objetivos indicam cômodos e andares incorretos ou inexistentes (como citar uma cozinha no andar 3F), gerando momentos de confusão;
- As criaturas possuem movimentações travadas e scripts simples demais, fazendo coisas como ignorar o jogador escondido em um armário mesmo após vê-lo entrar;
- Inimigos um pouco fora do contexto da obra.
SENARA: The Sacrament — PC — Nota: 8.0Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Julia Loffreda Costa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Influsion Inc.














