Finalmente aconteceu: depois de três ótimas adaptações de um dos super-heróis mais populares do mundo, a Insomniac deixa de lado as aventuras do Amigo da Vizinhança para trazer uma aventura inédita com o mais notório membro de um dos grupos de heróis mais cultuados dos quadrinhos. Marvel's Wolverine, assim como a "trilogia aranha", apresenta uma história original estrelada por outro herói popular da cultura pop, cujo anúncio foi recebido com entusiasmo e expectativa por crítica e público à época.
Mesmo após um desenvolvimento conturbado, a aventura do "carcaju" chegou e trouxe consigo algo que não esperávamos ver tão cedo, e justamente neste momento delicado: um visível cansaço na "fórmula mágica" dos jogos single player exclusivos do PlayStation. A seguir, vamos entender o que aconteceu.
Um novo começo para o "X-Man"
Marvel's Wolverine se passa em um universo em que os fabulosos X-Men nunca existiram. Ainda assim, o conceito dos mutantes, e o crescente medo e preconceito em relação aos indivíduos que manifestaram o gene X, continua sendo o alicerce desta história. Aqui, em vez de uma escola para jovens superdotados, conhecemos o Instituto Essex, liderado por Nathaniel Essex, líder de um grupo de mercenários conhecido como Equipe X.
O grupo é formado, na ocasião, por Logan (Wolverine), que dispensa apresentações; Raven Darkhölme (Mystique), uma mutante metamorfa especialista em espionagem e operações táticas; e Victor Creed (Sabretooth), a força bruta do grupo. A história tem início quando o grupo precisa invadir as instalações de Bolivar Trask para resgatar Essex, mantido prisioneiro por ser o principal opositor de Trask em relação aos mutantes.
Enquanto Essex tem como meta rastrear os mutantes para ajudá-los, Trask busca rastreá-los para dizimar sua existência da Terra, alegando que a evolução cometeu um erro que precisa ser corrigido. A missão é bem-sucedida, e então somos apresentados à real intenção de Essex, que envolve um misterioso artefato capaz de ativar o gene X naqueles que ainda não o manifestaram, mesmo após a puberdade, época em que o fenômeno costuma ocorrer.
Essex acredita que, identificando precocemente os portadores do gene ainda não manifestado, pode criar uma sociedade em que humanos e mutantes coexistam em harmonia, independentemente de suas diferenças genéticas.
No entanto, conforme a história se desenrola, o conflito entre os membros da Equipe X e as forças paramilitares de Trask leva os interesses de Essex para um rumo sombrio. O artefato, chamado Agente Helix, realmente possui o poder de manifestar o gene em indivíduos inativos, mas com consequências imprevistas, que resultam na criação de criaturas ainda mais perigosas que os próprios mutantes.
Cabe, então, a Wolverine e aos poucos aliados que ainda lutam ao seu lado impedir que o Agente seja usado para fins catastróficos, ao mesmo tempo em que ele enfrenta traumas do passado que o impedem de ter um futuro minimamente digno.
Aventura hollywoodiana
Assim como em outros títulos do PS5, em especial os jogos de Homem-Aranha da Insomniac, o estúdio não economizou na apresentação do título. Desde o primeiro momento, temos a sensação de estar diante de uma superprodução de nível hollywoodiano. Roteiro, atuação e a grandiosidade da produção deixam isso evidente o tempo todo.
Nesse aspecto não há do que reclamar. Os modelos de personagens e a atuação, em especial a dublagem em português brasileiro, mantêm o altíssimo nível de qualidade esperado não só de um exclusivo do PlayStation 5, mas de um título AAA da Sony de modo geral.
Os cenários, sobretudo os que remetem a momentos bem familiares para quem já conhece Logan de outras mídias — os filmes, as séries animadas e, especialmente, os quadrinhos —, foram reproduzidos com um nível de detalhe muito satisfatório. É gratificante ver locais como Madripoor e Tóquio bem representados a partir do que já conhecíamos deles no universo Marvel.
A única coisa que incomoda um pouco — aqui já é opinião pessoal — é o visual de galã dado a Wolverine. Isso, porém, é compreensível como herança do legado de Hugh Jackman, o principal rosto do personagem para o grande público. De todo modo, a versão interpretada por Liam McIntyre é convincente e faz jus ao personagem.
O desempenho técnico do jogo no PS5 base também merece elogios. Mesmo no modo desempenho, que conta com suporte dedicado a 120 Hz em telas compatíveis, o jogo entrega uma performance impecável. A única ressalva vai para o DualSense: pela primeira vez, senti que a vibração dinâmica exagerou. Em segmentos sem ação, por exemplo, o controle vibra a cada passo de Logan ou a cada vez que ele toca em algum objeto.
O Wolverine que queríamos…
No controle de Logan, as expectativas em relação ao personagem foram atendidas. O combate é rápido, violento, visceral e animalesco — o mínimo esperado de um homem com instintos de fera e garras inquebráveis feitas de um metal versátil.
O jogador é recompensado por ser brutal e ágil durante as lutas. A principal mecânica de Wolverine é uma barra de fúria, situada ao lado da barra de vida. Quanto mais rápido e violento o jogador se comportar, mais a barra se enche, tornando os ataques mais poderosos.
A partir do nível 2, se Logan for abatido, é possível ativar o fator de cura para recuperar parte da vida e voltar à luta. No nível 3, golpes críticos são habilitados para finalizar inimigos rapidamente e, com a barra totalmente cheia, o modo Fúria Máxima transforma Wolverine em uma força imparável, capaz de trucidar os inimigos ao redor de forma extremamente violenta e rápida.
O nível de satisfação ao esquartejar e mutilar inimigos chega a ser quase sádico, de tão bom. Essa jogabilidade se mantém durante todo o jogo nos momentos de ação e ganha leves camadas de evolução conforme o jogador sobe de nível e desbloqueia novas habilidades.
…no jogo que não esperávamos
Apesar de o combate ser o ápice da experiência em termos de jogabilidade, é no restante que o jogo deixa a desejar — o que torna a recomendação um pouco complicada, sobretudo considerando o escopo proposto e, principalmente, o preço cobrado no lançamento.
Se Marvel's Wolverine, ao menos na apresentação, é digno do famoso meme do "Absolute Cinema", o mesmo não pode ser dito de seu lado videogame. Fora as devidas ressalvas sobre a jogabilidade, o restante traz justamente a sensação de que a experiência não está à altura de um jogo desta categoria. O ritmo consegue entregar uma certa consistência, alternando na hora certa entre momentos de ação e passagens mais contemplativas, em que o jogo se aproxima de um filme.
O problema é que a jogabilidade não demonstra uma evolução realmente perceptível. Se, na primeira hora, a estratégia é pular de um lado para o outro esmagando o botão de ataque, na quinta hora ainda estamos fazendo exatamente a mesma coisa, com leves variações no repertório de golpes, graças às técnicas desbloqueadas.
Na décima hora, isso também não muda muito, inclusive contra os chefes, cujos padrões são facilmente assimilados. A única coisa que o jogador realmente precisa dominar — o que também não é tão difícil — são as esquivas e os bloqueios, para não morrer com facilidade.
Apesar de ser um jogo bastante linear, há um aspecto de exploração que, sinceramente, poderia ter sido melhor adaptado, com um nível de desafio mais interessante. Graças aos sentidos aguçados de Wolverine, ele é capaz de seguir cheiros e ouvir sons que um humano normal não conseguiria captar. A Insomniac poderia ter usado essa característica do personagem como uma mecânica que tornasse a busca por itens mais dinâmica e menos óbvia.
Na prática, quando Logan está em um ambiente, seja por motivos de roteiro ou não, ele consegue seguir o rastro de alguém ou de um objeto por meio do olfato apurado. Isso vale também para colecionáveis e recursos usados na confecção de trajes. É frustrante quando o jogo já indica, de cara, para onde ir, eliminando o aspecto da exploração.
A crítica aqui é válida porque outros jogos com dinâmicas semelhantes — um "Uncharted da vida", por exemplo — também usam recursos parecidos, mas sem literalmente guiar o jogador até o local. Mesmo os segredos mais óbvios perdem a graça quando o nariz do Wolverine já revela onde os objetos estão. Essa habilidade natural de Logan poderia ter sido mais bem equilibrada pela Insomniac, para não deixar tudo tão evidente, como se o jogador fosse incapaz de explorar um ambiente relativamente pequeno por conta própria.
Outra falha está nos segmentos de furtividade, que não são muitos, mas também estão presentes. Mais uma vez, os sentidos aguçados de Wolverine ajudam o jogador a identificar inimigos distraídos, restando a ele apenas se aproximar e apertar um botão para realizar o abate.
Até esses segmentos acabam sendo, de certa forma, sabotados pelo level design, que parece incentivar ainda mais que o jogador abrace o estilo de combate direto de Wolverine, em vez de investir na furtividade, como faria, sei lá, o próprio Homem-Aranha do mesmo estúdio. Afinal, eliminar os inimigos silenciosamente rende bem menos satisfação do que derrubar um Reaver na porrada e fatiá-lo em dezenas de pedaços.
Some-se a isso os bugs que, na minha experiência com exclusivos, bateram um novo recorde. Foram vários, principalmente erros de animação e de execução — facilmente resolvidos com a retomada de um checkpoint, mas inadmissíveis em um jogo single player, exclusivo do console e com um preço de venda típico para um AAA.
De todo modo, apesar de ter gostado da história — um dos pontos mais fortes de Marvel's Wolverine — e de ter me divertido bastante com a jogabilidade geral do "carcaju", a experiência como um todo ficou muito aquém do que se espera de um jogo lançado pela Sony exclusivamente para seu console principal nesta geração.
Isso deixa claro que a "fórmula mágica" da Sony para entregar experiências sólidas e satisfatórias em jogos single player, um de seus principais diferenciais, começa a mostrar sinais de desgaste. Marvel's Wolverine é, sem dúvida, o exclusivo mais fraco da geração e, se os próximos títulos apresentarem os mesmos sintomas, a Sony pode estar diante de mais um episódio de uma crise interna que só cresce com o passar do tempo.
A Arma X ficou devendo
Marvel's Wolverine acerta onde a Insomniac já é conhecida por acertar: apresentação de altíssimo nível, atuação forte e um combate brutal que traduz bem a fúria do personagem. É, sem dúvida, um "Absolute Cinema" quando o assunto é produção.
O problema é que, como jogo, a experiência simplesmente não evolui. O combate que impressiona na primeira hora se repete quase sem mudanças até os créditos finais; a exploração é esvaziada pelos próprios sentidos aguçados do protagonista; e os segmentos de furtividade soam como um apêndice mal aproveitado. Some-se a isso uma quantidade de bugs incomum para um exclusivo da Sony, e o resultado é um título que entrega menos videogame do que o preço e o nome Wolverine prometem.
Ainda assim, quem busca uma boa história ambientada no universo mutante, com um protagonista fiel ao espírito violento dos quadrinhos, vai se divertir — desde que entre sem esperar a sofisticação e qualidade quase impecável que os exclusivos do PS5 costumam entregar.
Prós
- Apresentação de nível cinematográfico, história original bem construída e ambientação fiel ao universo Marvel;
- Dublagem em português brasileiro de altíssima qualidade;
- Combate visceral e satisfatório, com boa sensação de impacto e violência;
- Boa performance técnica no PS5 base, inclusive com modo 120 Hz.
Contras
- Jogabilidade que não evolui de forma perceptível ao longo da campanha;
- Sistema de exploração esvaziado pelos sentidos de Wolverine, que quebram muito essa dinâmica;
- Segmentos de furtividade mal aproveitados e sabotados pelo próprio level design;
- Grande quantidade de bugs de animação e execução.
Marvel’s Wolverine — PS5 — Nota: 7.0
Revisão: Mariana Marçal
Análise produzida com cópia digital cedida pela Sony Interactive Entertainment














