Parece ser um mal necessário. Toda franquia que se preze precisa, em dado momento, criar novas experiências dentro de seu universo como forma de expandir sua mitologia, angariar novos públicos ou simplesmente experimentar coisas novas. Final Fantasy já recebeu jogos musicais, Metroid Prime ganhou um jogo de pinball, e até Castlevania virou máquina de pachinko.
Com Dragon Quest não é diferente. Com 40 anos de história, o legado de um dos RPGs mais clássicos e queridos pelo público japonês — e também por uma boa parcela de fãs no Ocidente — teve e continua tendo seus momentos de experimentação com formatos e gêneros variados.
Na análise de hoje, vamos falar sobre Dragon Quest Heroes: Torneko's Mystery Dungeon -Classic HD-, remasterização de um título antes exclusivo do Super Famicom, o Super Nintendo japonês, que agora chega oficialmente pela primeira vez ao restante do mundo. Vamos acompanhar um pouco a jornada de Torneko nesta aventura imprevisível enquanto analisamos a obra.
Um homem e sua loja
Torneko no Daibōken: Fushigi no Dungeon, traduzido livremente como A Grande Aventura de Torneko: Mystery Dungeon, foi lançado originalmente em 1993 para o Super Famicom, exclusivamente no Japão. A aventura é protagonizada por Torneko, um comerciante que integra o elenco principal de Dragon Quest IV. Aqui acompanhamos o personagem após os eventos do RPG, em busca de tesouros para montar sua própria loja de armas.
O título foi o primeiro jogo da série Mystery Dungeon, criada pela Chunsoft. A ideia fundamental veio dos roguelikes, mas foi adaptada para uma estrutura mais acessível e combinada com personagens de franquias conhecidas. Outra franquia popular que também possui jogos desse gênero é Pokémon, com títulos lançados desde o Game Boy Advance até o Switch.
Aqui assumimos o papel de Torneko, que quer reunir recursos para montar e expandir sua loja em um novo reino. Para isso, o comerciante precisa se aventurar por masmorras infestadas de monstros em busca de itens valiosos e tesouros — sendo que essa é a única forma de conseguir dinheiro para melhorar o negócio.
Contudo, há uma diferença fundamental em relação a um RPG tradicional: a masmorra é gerada de forma procedural a cada nova tentativa. Toda vez que Torneko entra na Mystery Dungeon, a estrutura do ambiente muda — salas, corredores, inimigos e itens são reorganizados. O mapa serve apenas para ajudar o jogador a se orientar pelos locais que já foram visitados naquela tentativa.
Outra regra do jogo é que Torneko sempre começa no nível 1 a cada expedição. O objetivo é avançar até os andares mais profundos da masmorra em busca de mais tesouros. Se for derrotado, o jogador perde todos os itens coletados, e metade do ouro obtido é confiscada enquanto a outra é usada nas melhorias da loja.
Resumindo: Torneko pode se tornar extremamente poderoso em uma determinada incursão, com ótimas espadas, escudos, itens de cura e outros equipamentos para ajudar na luta contra os monstros. Se ele morrer, porém, começa novamente do primeiro andar, no nível 1, sem os itens coletados na tentativa anterior.
A evolução da loja é uma forma de mostrar o progresso do jogador. Ela não permite nenhum tipo de metaprogressão, como melhorias permanentes ou a possibilidade de escolher itens iniciais. Com uma, dez ou cem horas de jogo, Torneko sempre começa uma incursão no nível 1, sem itens e contando apenas com a sorte para conseguir bons equipamentos na hora certa e conseguir sair.
Há ainda outro detalhe importante: dependendo da masmorra — são três no total —, ao chegar ao fim dela a missão de Torneko se torna a de voltar até a entrada. A primeira funciona como uma espécie de tutorial com 10 andares, enquanto a segunda (e principal) tem 30. O objetivo é recuperar um item valioso ao final e sair, seja pela entrada principal, ou, caso tenha sorte, com a ajuda de um pergaminho que permite a saída imediata — uma verdadeira saída de emergência.
Mais fácil falar do que fazer
O jogo abandona boa parte da estrutura convencional de Dragon Quest para apostar na fórmula fundamental de um roguelike. As masmorras são geradas de forma procedural, e os inimigos se movimentam de acordo com as ações do jogador. Cada passo de Torneko representa um turno: se ele anda, os inimigos também agem; se ataca, eles reagem, geralmente contra-atacando ou, em raras ocasiões, fugindo. O uso de itens também consome um turno no relógio do jogo.
Isso transforma uma ação aparentemente banal, como caminhar por um corredor, em uma decisão estratégica. Não há necessidade de reflexos rápidos: o desafio está em pensar alguns passos à frente. Ao entrar em uma sala com itens e inimigos, vale a pena parar e avaliar qual é o melhor rumo — recuar, se posicionar para evitar ser encurralado em um canto, usar um item, entre outras alternativas possíveis.
Decidir o quanto explorar de um andar para derrotar monstros e fortalecer Torneko pode ser uma boa estratégia, principalmente nos andares mais baixos, nos quais aparecem monstros mais fortes. Mas a sorte também pode ajudar e fazer com que o jogador encontre rapidamente as escadas para o andar seguinte.
Varrer um andar inteiro pode ser vantajoso para subir de nível derrotando monstros, mas não serve para acumular itens, já que o inventário é limitado. Além disso, um indicador de fome funciona como um relógio adicional, que também avança a cada ação de Torneko.
Focar apenas em encontrar a escada para o andar seguinte também não é a melhor estratégia. Nos andares inferiores, os monstros são mais fortes, e é praticamente inevitável enfrentar alguns deles para abrir caminho ou escapar de uma enrascada — isso sem contar a possibilidade de o jogo lançar o jogador no meio de uma toca infestada de monstros, e também de itens, caso ele sobreviva.
As derrotas (que não são poucas) fazem parte do processo. Identificar os erros cometidos para tentar evitá-los na próxima tentativa é a melhor forma de conseguir os valiosos espólios necessários para montar a loja dos sonhos.
Tá, mas e essa nova versão?
Dragon Quest Heroes: Torneko's Mystery Dungeon -Classic HD-, como é chamado, é uma remasterização do original de Super Famicom. Na prática, o relançamento traz gráficos aprimorados e recursos de conveniência, além de tradução oficial para o inglês — algo que, no jogo original, só era possível por meio de modificações não oficiais.
Em termos de jogabilidade, a versão -Classic HD- é uma reprodução fiel de sua contraparte de 1993. Para quem já teve a oportunidade de jogar o título original, a única novidade é a possibilidade de andar na diagonal, que é um recurso que, salvo engano, não lembro se estava presente na versão de Super Famicom.
A verdadeira novidade da versão -Classic HD- é mais inusitada, voltado para quem pretende jogá-lo fazendo transmissões ao vivo. Junto com o lançamento-surpresa em 9 de setembro, foi disponibilizado um DLC gratuito chamado Streaming Up a Storm: My Dungeon, Your Rules (β).
O recurso é descrito como: "De tempos em tempos, um evento misterioso acontecerá. O resultado será decidido por um voto de todos os espectadores ou por um único espectador escolhido por você. Será que eles vão ajudá-lo a sobreviver... ou vão conduzi-lo ao caos?" Na prática, essa trata-se de uma funcionalidade que permite aos espectadores votar para decidir o que ocorre com quem está jogando.
É uma forma interessante de dar ao título uma "carinha de jogo moderno", além de criar uma camada extra de interatividade. Contudo, por ser algo direcionado a um tipo bem específico de jogador, de modo geral ele não agrega muito valor à experiência.
Para quem prefere jogar no modo solo sem qualquer interferência externa, a nova versão de Mystery Dungeon traz uma função de personalização bastante útil — principalmente para novos jogadores ou para quem quer ajustar o nível de desafio, que já é elevado por natureza.
Nas opções do jogo, é possível ajustar parâmetros de jogabilidade, como a taxa de aparecimento de monstros, ouro, itens e pontos de experiência obtidos, além de desativar as traiçoeiras armadilhas e as tocas de monstros. Esses ajustes permitem acelerar a progressão ou simplesmente deixar o jogo mais "palatável" para novos jogadores.
Contudo, alterar alguns desses parâmetros pode afetar a obtenção de conquistas ou troféus. Por isso, quem costuma caçar platinas deve manter essas opções nos valores padrão.
Uma novidade que não faz tanta diferença assim
Dragon Quest Heroes: Torneko's Mystery Dungeon -Classic HD- resgata um capítulo pouco conhecido da franquia fora do Japão, mas se contenta em ser uma reprodução fiel do original de 1993, embora sem grandes ousadias. A fórmula de roguelike com progressão zerada a cada incursão continua funcionando: cada decisão pesa, cada passo importa, e a tensão de perder tudo ao ser derrotado ainda se sustenta como principal desafio do jogo.
O problema é que a remasterização não vai muito além disso. Gráficos aprimorados, tradução oficial para o inglês e os ajustes de parâmetros são bem-vindos, mas não transformam a experiência. O DLC gratuito voltado para transmissões ao vivo é um adicional curioso, porém irrelevante para quem pretende jogar sozinho — e as opções de personalização de dificuldade, essas sim, agregam mais valor prático ao permitir que o jogo se adapte a diferentes perfis de jogador.
No fim, é um resgate histórico bem-vindo, mas que vai agradar principalmente quem já gosta do gênero mystery dungeon ou tem curiosidade genuína em relação à obra original. Para o público em geral, fica a sensação de um relançamento correto, porém morno e com pouco impacto, até mesmo para os fãs mais fiéis de Dragon Quest.
Prós
- A estrutura de roguelike é consistente, com decisões que realmente pesam a cada turno;
- A progressão zerada a cada incursão mantém a tensão típica do gênero;
- As opções de personalização de dificuldade bem-vindas para novos jogadores;
- Ainda é um resgate histórico relevante de um título até então restrito ao Japão.
Contras
- Poucas mudanças reais além de gráficos aprimorados e tradução para o inglês;
- DLC gratuito tem apelo limitado a um nicho específico de jogadores;
- Ajustar parâmetros de dificuldade pode comprometer a obtenção de conquistas/troféus;
- Poucos incentivos realmente convincentes para quem já jogou o título original.
Dragon Quest Heroes: Torneko's Mystery Dungeon -Classic HD- — PC/PS5/XSX/Switch/Switch 2 — Nota: 6.5Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Juliana Piombo dos Santos
Análise produzida com cópia digital cedida pela Square Enix




