Análise: Marsupilami 2: Salsa Palombia segue a fórmula à risca para fazer um jogo de plataforma 2D bom, bonito e muito familiar

É genérico, mas compensa por ser também bonito, agradável, variado e divertido.

em 08/09/2026

Antes de entrarmos diretamente na análise de Marsupilami 2: Salsa Palombia, é necessário um preâmbulo, pois a trajetória da franquia pode ser um pouco confusa.

Da Bélgica para o mundo

O personagem Marsupilami foi criado em 1952 como coadjuvante nas histórias em quadrinhos Spirou, muito populares em seu país de origem, a Bélgica, e também na França. Na década de 1970, ele ganhou uma revista própria, mas se trata de um personagem diferente do anterior, uma vez que “marsupilami” não é o nome de um indivíduo, mas de uma espécie animal fictícia.



É possível que o público brasileiro o conheça melhor pela série homônima da Disney, de 1993, que ignorou tudo o que já havia sido feito antes com a franquia, criando novos personagens para uma carreira que durou pouco e terminou em um processo da dona da marca contra a gigante americana, uma vez que esta não investiu na ampliação da marca como estava previsto no contrato. Outras produções surgiram ao longo dos anos, voltando às origens europeias, trazendo até dois filmes live-action franceses.

Nos videogames, um título chegou a ser lançado para Mega Drive em 1995, sem relação com outros materiais da franquia. Essa peculiaridade de isolamento temático também parece vigorar nos dois títulos recentes, desenvolvidos pela Ocellus Studio sob publicação da Microids, ambas empresas francesas. São eles Marsupilami: Hoobadventure, de 2021, e, agora, Marsupilami 2: Salsa Palombia.



Receita de bolo

Mesmo que no novo jogo a estrela seja o animal de rabo extravagantemente longo, na prática, não faria muita diferença se fossem outros personagens quaisquer. Isto é, estamos diante da definição de “produto genérico”, o que, honestamente, também pode ser aplicado a tantos outros platformers de mascote.

O principal a ser entendido aqui é que isso não afeta a qualidade de Salsa Palombia como jogo de plataforma. Na verdade, a execução é muito bem feita em praticamente todos os aspectos centrais da experiência: os controles são muito bons, o design de níveis é divertido, o visual é bem-feito e as músicas são muito agradáveis. Para completar, ainda tem modo cooperativo para dois jogadores.



Essa descrição acima poderia encaixar com outro título do estilo, que, provavelmente, é a principal inspiração para o jogo da Ocellus: Donkey Kong Country: Tropical Freeze (além desse, outra comparação válida seria com Nikoderiko: The Magical World, que também é um clone digno do gorilão da Nintendo).

A coleta de frutas, os estágios bônus, os barris de lançamento (tucanos, neste caso), a finalização de estágio, o clima animado e positivo, o trio de personagens com habilidades de movimento distintas, entre outros aspectos (como as músicas com uma vibe de David Wise), contribuem para o reconhecimento imediato do parentesco.



Até a premissa é idêntica à de Donkey Kong Country Returns: entidades surgem na floresta e enfeitiçam os animais com suas músicas, cabendo aos protagonistas, imunes à hipnose dos vilões, salvar a todos. É só isso e ponto final.

Não sei se a ausência de mais elementos do legado dos marsupilamis foi uma questão de decisão criativa ou se reflete alguma limitação de uso da propriedade intelectual em torno do personagem. Em todo caso, o resultado é uma perda de potencial de envolvimento, algo importante para jogos de plataforma com mascotes. Eles não precisam ser profundos, mas devem fazer o máximo para encantar a pessoa que joga com o carisma de seus personagens e mundos, atraindo-a para outras mídias e produtos relacionados.



Ao menos um ponto parece familiar: os três marsupilamis que protagonizam as aventuras da Ocellus lembram os filhos do casal da HQ própria, que mencionei ali no começo. São um macho e uma fêmea amarelos e alaranjados, como onças, e um macho de pelagem escura, como uma pantera. 

Todavia, em vez de se chamarem Bibi, Bibu e Bobo, aqui eles são Twister, Hope e Punch, que possuem habilidades derivadas das extensas caudas. Respectivamente, eles podem realizar: investida no ar e planagem, pulo duplo e, por fim, o truque de se enrolar em uma bola saltitante imune a espinhos. Esses poderes são a parte mais imprecisa da gameplay, que, de resto, tem controles muito bons e atende às exigências do design.



Um trio de dois

Mesmo que os heróis sejam em três, a gameplay cooperativa é para até dois jogadores, determinando também dois dos personagens para cada fase. Quem joga sozinho não tem que escolher apenas um, pois pode alternar entre a dupla designada a qualquer momento.

A campanha segue a conhecida estrutura de passar de cada fase em sequência e acumular colecionáveis, para abrir as fases opcionais e a arena de luta contra o chefão de cada ilha (mais um elemento que faz lembrar muito de Tropical Freeze).



A familiaridade é ambivalente: parece derivativa e sem novidade aos olhos dos mais exigentes e, ao mesmo tempo, tem a benesses do reconhecimento de um caminho já trilhado. Quando o tal caminho é bom, a coisa toda também vale a pena.

Portanto, quem espera inovação ou uma identidade mais elaborada que se relacione com a franquia, não vai encontrar em Salsa Palombia. O jogo é para o restante do público, aquele que quer uma aventura de plataforma colorida e bem-feita para jogar sozinho ou em dupla.



Com 29 fases distribuídas em quatro mundos; um modo versus em fases de tela única e vários níveis de desafios curtos, que são uma boa adição; e também com a inclusão do modo Salsa, ainda dá para dizer que Salsa Palombia não é exatamente um jogo longo, e tampouco é curto demais, ficando em um meio termo razoável em termos de conteúdo de boa variedade.

O modo Salsa apenas requer rejogar as mesmíssimas fases coletando frutas o mais rápido possível a fim de manter um multiplicador de combo cheio e atingir as metas no final, que, admito, são muito exigentes. O desafio é alto e requer treino para aprender as fases. Eu ficaria mais animado se elas fossem modificadas de alguma forma, mas não é o que acontece, servindo mais como uma desculpa para revisitar as fases e como um obstáculo considerável para quem quiser completar 100%.



Infelizmente, desbloquear os níveis opcionais é muito custoso em frutinhas e exige rejogar  os anteriores, forçando uma sobrevida artificial e desnecessária.

Há três níveis de dificuldade para escolher e eu preferi jogar no modo Fácil, que fornece vidas infinitas para facilitar passar de cada fase mesmo quando se morre muito, um recurso que combina com a sensibilidade do design moderno e atende bem ao público infantil.

Falta originalidade, mas diversão tem bastante

Ao executar com competência a fórmula de gameplay de nomes mais famosos e ao deixar de lado o longo legado de seu material de origem, Marsupilami 2: Salsa Palombia não cria uma identidade própria, mas faz praticamente todo o resto muito bem. É um bom jogo de plataforma 2D com níveis variados, bonitos e divertidos, músicas envolventes e, como toque especial, jogatina cooperativa para dois jogadores.



Prós

  • Os visuais bonitos e as músicas atmosféricas mostram que houve capricho na produção;
  • É possível jogar sozinho, alternando personagens, ou em modo cooperativo, em até dois jogadores;
  • A gameplay inspirada em Donkey Kong Country é bem executada e divertida;
  • Boa variedade de design de níveis, evitando se repetir demais.

Contras

  • A gameplay derivativa da série de jogos Donkey Kong Country, mesmo sendo bem executada, não contribui para formar uma identidade distinta, mantendo um ar genérico de jogo de plataforma 2D de mascote;
  • Reforçando o ponto acima, o jogo não aproveita o longo legado da franquia em outras mídias;
  • Desbloquear os níveis opcionais é muito custoso em itens colecionáveis, obrigando a rejogar os demais para obter o necessário e prolongando a gameplay, o que serve apenas para esticar a sobrevida artificial da campanha.
Marsupilami 2: Salsa Palombia — PC/PS5/XSX/Switch — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PS5

Revisão: Júlia Loffreda Costa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Microids
OpenCritic
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Victor Vitório
Admiro videogame como uma mídia de vasto potencial criativo, artístico e humano. Jogo com os filhos pequenos e a esposa; também adoro metroidvanias, souls e jogos que me surpreendam e cativem, uma satisfação que costumo encontrar nos indies. Veja minhas análises no OpenCritic.
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