Análise: Fatal Claw aproveita ideias familiares para fazer um metroidvania bom, bonito e robusto em conteúdo

Um jogo que tenta ser excelente, mas fica no ótimo — o que, convenhamos, é o bastante para se firmar acima da média no gênero.

em 01/09/2026

Desenvolvido pela sul-coreana NDEV Games, Fatal Claw esteve em acesso antecipado no Steam desde novembro de 2025. Nos meses seguintes, recebeu expansões, até que, menos de um ano depois, chegou à versão 1.0 e teve seu lançamento completo na plataforma.

Esta é uma daquelas análises em que, após escrevê-la, eu percebo que gastei mais palavras com as pequenas falhas do que com os grandes acertos. Quando isso acontece, volto ao começo do texto para acrescentar um preâmbulo como este e tentar comunicar melhor o equilíbrio delicado que existe na execução de um jogo que é bom apesar de seus problemas.



A questão é que Fatal Claw tem ambições acima da média dos metroidvanias e, de fato, consegue se manter nesse patamar um pouco superior, sendo um ótimo jogo. No entanto, esse objetivo pode se tornar uma faca de dois gumes quando se dá um passo maior que a perna, com alguns defeitos ficando no caminho de uma boa experiência em geral.

Assim, mesmo conseguindo montar uma obra que se destaca entre seus pares mais humildes, o resultado final não alcança aqueles jogos de excelência no gênero, com os quais realmente gostaria de ombrear.



Gatinho bonito, divertido e arisco

O primeiro atrativo do game é seu visual, com uma pintura em cores vivas e cenários detalhados com camadas de profundidade. É uma estética muito bonita e bem executada, embora parte do traço e da arquitetura seja muito próxima aos de Hollow Knight (guarde esta comparação, voltaremos a ela adiante). Não é um clone, no final das contas, pois os temas e cores de Fatal Claw o tornam distinto da melancolia escura que predomina na obra da Team Cherry.

O mesmo pode ser dito do combate, que tem uma dinâmica semelhante à de jogos do mesmo tipo: combos corpo a corpo, pogo, ler os ataques inimigos e se posicionar de acordo. São os detalhes que dão ares revigorantes, especialmente o Blink, uma investida que manda o gatinho protagonista Kisha direto para as costas do inimigo, onde podemos descarregar mais golpes.



Além de causar bom dano e ganhar nuance mais tarde, esse movimento também se torna a principal esquiva, uma vez que o clássico dash não dá frames de invencibilidade até muito tarde na aventura. Há outras técnicas a serem aprendidas e até uma mecânica de tentar misturar golpes para descobrir novas fórmulas. As lutas, porém, sempre parecem estar um degrau atrás na precisão, o que tem impacto devido ao dano por contato: no meio do rebuliço, foi muito comum receber dano por simplesmente triscar no oponente.

A mesma crítica vale para a ação de plataforma, pois me vi levando dano ao tocar levemente beiradas com espinhos ou gosmas tóxicas enquanto eu apenas tentava chegar perto para preparar o próximo movimento. O próprio pogo (atacar para baixo para quicar em inimigos ou espinhos) não parece ter sido feito para ser usado em sequência, provendo muito menos manobrabilidade do que outros jogos que o incentivam.

Essa leve imprecisão está longe de ser um problema generalizado que prejudique o aproveitamento, mas é presente o bastante para incomodar quem aprecia os pares do gênero que têm fundamentos semelhantes, porém melhor executados.


O reino perdido da vez

Passada a bela camada da superfície, o principal de Fatal Claw está na dinâmica de exploração do mundo. A aventura passa por diversas áreas interconectadas, cheias de pequenos retornos para desbloquear atalhos aos pontos de salvamento.

A progressão tem bom grau de abertura e, após conseguir algumas habilidades de travessia, sempre há mais de um caminho para explorar em diferentes pontos do mapa, levando à descoberta de novos chefes, recompensas de melhoria ou elementos de história, que, pouco a pouco, passam uma sensação de domínio crescente sobre aquele mundo, fomentando o prazer de não deixar um canto que não tenha sido revirado.



O desbravamento é incentivado pelo mapeamento, que é muito detalhado e indica graficamente dados do terreno, como paredes de gelo escorregadias e obstáculos que só podem ser destruídos pelo lado oposto. O minimapa garante a fluidez das viagens, diminuindo muito a quantidade de vezes que precisamos interromper o jogo e acessar o menu para ver o mapa geral (quem prefere explorar sem esse recurso pode desativá-lo).

A viagem rápida não é entregue logo de cara, mas seu sistema se expande até atingir um ponto de conforto e de incentivo a revisitar as áreas na busca pelo que ficou para trás.



Havia uma infecção no meio do caminho

A campanha acompanha Kisha em um lugar onde antes havia um reino antigo, do qual brotou uma infecção que mudou os seres vivos, deixando-os insanos e perigosos. Essa é uma premissa familiar demais, especialmente por ter sido usada por dois grandes exemplares no meio metroidvania: Hollow Knight e Ender Lilies: Quietus of the Knights, dando um ar derivativo à história de Fatal Claw.

Felizmente, os detalhes conferem identidade própria: um elemento central são as Pedras de Registro, que permitem gravar pessoas para trazê-las de volta mais tarde. Isso não é apenas uma desculpa para o ponto de salvamento, mas parte essencial para todo o enredo.



Além disso, o mundo é habitado por clãs de animais antropomórficos de diferentes espécies, e mistura laboratórios avançados, palácios grandiosos e até uma vila de arquitetura oriental, sempre com o belíssimo visual que mencionei acima. Em resumo, Fatal Claw é, ao mesmo tempo, familiar e distinto, e tem o mérito de ser um dos metroidvanias mais bonitos entre as centenas que conheço.

No todo, a história tem uma construção de mundo elaborada e é razoavelmente compreensível, especialmente quando encontramos textos e cenas expositivas que contam o que aconteceu no passado, formando um entendimento do quadro geral.

No entanto, a narrativa, com seus muitos nomes de personagens, é apresentada de forma muito fragmentada, atrapalhando tanto o ritmo com o qual vamos desvendando os acontecimentos, quanto a noção de quem é quem. O resultado, para mim, foi um baixo envolvimento com a proposta, fomentando pouco mais do que a motivação básica de jogos simples em que só sabemos que precisamos salvar o mundo e pronto.



Para complicar um pouco mais, os textos em português brasileiro apresentam certa inconsistência ortográfica e de glossário aqui e ali. Não é tão frequente, mas demonstra falhas de revisão e pode confundir o jogador nos detalhes. Um exemplo simples: em uma mesma sequência de textos, a Tribo dos Gatos Dourados é chamada de Tribo dos Felinos Dourados.

Outro exemplo está nas palavras Kannic e Kannir, em que, até agora, não sei se há alguma diferença real entre elas ou se é apenas fruto de inconsistência ortográfica. Há ainda o erro de gênero — infelizmente comum em traduções de jogos desse porte — que pode afetar até personagens importantes para a história, como uma fêmea chamada de senhor durante toda uma cena da história.

Há outros pequenos detalhes que maculam a ambição do trabalho da NDEV Games, como certos efeitos sonoros que soam crus demais, sem o mesmo requinte do visual, e ainda um  excesso de sistemas e mecânicas que nem sempre encaixam no todo como uma contribuição clara, relevante ou equilibrada que justifique sua existência.



Mesmo assim, essas coisas são sempre pequenas e nunca geram uma perda completa. Juntas, as falhas podem até impedir Fatal Claw de ser um jogo de excelência, mas não de exibir suas maiores qualidades e ficar acima da média do gênero mesmo assim.

Há uma exceção, ao mesmo tempo criativa e desengonçada.

Há vida após o fim

Talvez o maior exemplo de complicação desnecessária esteja na segunda jornada. Ao terminarmos a campanha (levei 15 horas), podemos recomeçar uma espécie de Novo Jogo+, no qual a história volta ao início, mas mantemos todos os poderes, itens, mapa e pontos de viagem rápida de antes.

A dificuldade permanece a mesma de antes, então os chefes ficam muito fáceis. O objetivo é cumprir as ações em ordens diferentes para poder completar certas missões que não podiam ser realizadas antes, e, com isso, abrir novos locais, enfrentar chefes extras e obter novos finais. Uma pedra registra as possibilidades restantes, mas essas informações devem ser “compradas” com um recurso que só surge nesse modo. É uma ideia interessante? Sim, é. É também dispensável? Idem.

Várias dessas missões encaixariam muito bem na primeira jornada, sem depender do recurso narrativo de voltar no tempo. Assim, o que era para ser um conteúdo extra acaba parecendo como se parte do jogo fosse fatiada e deixada para depois em uma tentativa de oferecer um Novo Jogo+ que soe criativo e importante. É uma extensão legal para quem quiser correr atrás das tarefas, mas, na prática, é trabalhoso e prejudica a coesão e o ritmo da completude ao recortá-la para o futuro.



A ambição indica que poderia ser melhor, mas ser bom já é o bastante

Fatal Claw se destaca em várias áreas, especialmente no visual pintado à mão, nas opções de exploração não-linear e no mapeamento detalhado, construindo um mundo de metroidvania muito bem executado. Mesmo que não consiga o mesmo polimento em outros aspectos, os deslizes são pequenos, apenas o bastante para permitir que a obra como um todo seja ótima e chegue perto de um patamar de excelência, mas não para alcançá-lo.

Prós

  • Belíssimo visual pintado em cores vivas, sendo um dos melhores entre os metroidvanias;
  • A exploração tem bom grau de abertura, proporcionando uma experiência não-linear que sempre tem opções de caminhos para desbravar;
  • O mapeamento marca detalhes do terreno e conta com um minimapa opcional, para reduzir as interrupções de verificar o mapa geral no menu;
  • O combate progride de forma dinâmica, com novas técnicas e ataques;
  • Textos em português brasileiro.

Contras

  • Mesmo sendo bem elaborada, a história perde força por ser apresentada de forma fragmentada, pela inconsistência de alguns termos do universo e gêneros de personagens na tradução, e pela premissa parcialmente derivativa de Hollow Knight;
  • A gameplay é levemente imprecisa, o bastante para induzir a erros nos segmentos de plataforma e a dano indevido por contato superficial com os inimigos;
  • Apesar de ter uma ideia diferente e interessante, na prática, o Novo Jogo+ oferece conteúdo que, em parte, parece ter sido desnecessariamente recortado da campanha inicial, deixando pontas soltas para quem não quiser encarar a nova jornada.
Fatal Claw — PC — Nota: 8.0
Revisão: Júlia Loffreda Costa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Com2us Holdings
OpenCritic
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Victor Vitório
Admiro videogame como uma mídia de vasto potencial criativo, artístico e humano. Jogo com os filhos pequenos e a esposa; também adoro metroidvanias, souls e jogos que me surpreendam e cativem, uma satisfação que costumo encontrar nos indies. Veja minhas análises no OpenCritic.
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