Balatro: um caso de estudo sobre classificação e jogos de aposta

Da nota 18+ da PEGI à cláusula no testamento contra cassinos: a trajetória do roguelike de LocalThunk, que parece pôquer, mas não tem microtransações.

 

Balatro é um roguelike de construção de baralho lançado em 2024. Desenvolvido por um único programador, LocalThunk, a produção une a linguagem visual e as regras de pôquer a mecânicas fantasiosas e designs psicodélicos para criar uma experiência de gameplay viciante sem, contudo, contar com qualquer tipo de aposta real ou microtransação: parece um jogo de aposta, mas não é. Apesar disso, esses elementos temáticos e o sucesso estrondoso do título o tornaram um caso de estudo essencial no âmbito de como sistemas de classificação modernos lidam, ou falham em lidar, com jogos de aposta.

Sistemas de classificação indicativos

Antes de nos debruçarmos sobre Balatro, é importante entender o que são, e para que servem, os sistemas de classificação governamentais de jogos. A palavra classificação se refere a "classificação indicativa" e, ao contrário de sistemas de classificação presentes em lojas como o Steam, Playstation Store ou Switch Store, esses sistemas não servem para descrever a jogabilidade, temática ou estilo visual dos games.

No Brasil, a classificação indicativa (ClassInd) é conceituada pelo governo federal como "informação aos pais acerca do conteúdo que pode não ser recomendado a determinadas faixas etárias e atinge a programas de TV (aberta e por assinatura), cinema, vídeo doméstico (DVD), jogos eletrônicos e aplicativos, jogos de RPG, programas de rádio, espetáculos públicos e vídeo por demanda (VOD)".



Em tese, sistemas como o ClassInd, a PEGI europeia e a americana ESRB servem para informar pais ou demais responsáveis legais de crianças e adolescentes sobre a natureza do conteúdo presente em games e auxiliar a tomada de decisão dos responsáveis de permitir ou não acesso aos conteúdos conforme a maturidade ou idade daqueles sob seus cuidados. Não restringem o conteúdo que pode estar presente nos games, não se confundindo com censura, porém podem ensejar a restrição de acesso a menores desacompanhados ao conteúdo em questão.

A maior parte dos títulos lançados digitalmente (na PSN, Xbox Live, Steam, Nintendo eShop ou Mobile Stores) passa por um sistema internacional chamado IARC (International Age Rating Coalition). A desenvolvedora preenche um formulário do IARC, que gera uma classificação automática baseada nas regras de cada país. O Ministério da Justiça monitora e pode alterar essa classificação se discordar do que a empresa declarou, mas isso é raro. Ou seja, a classificação inicial é autodeclaratória, mas é passível de alteração pelos órgãos competentes caso eles discordem da nota final do game.

A classificação de Balatro

Balatro inicialmente estreou com nota 3+, equivalente à nota "Livre" no Brasil, em fevereiro de 2024. Em março, a PEGI, Pan European Game Information, elevou brutalmente o game à nota 18+, sob a justificativa de que ensinaria, através de seu gameplay, conhecimentos e habilidades usados no pôquer real, facilitando a transferência dessas skills para apostas de verdade fora das telas.

A reação de LocalThunk foi imediata e pública, carregada de ironia. Em posts no Twitter/X, no dia 15 e 16 de dezembro de 2024, o criador sugeriu que talvez devesse adicionar microtransações, lootboxes e apostas reais ao jogo como o EA Sports FC, já que isso aparentemente teria o efeito de baixar a classificação indicativa. Foi adiante, frisando que sua maior fonte de incômodo era a classificação de jogos com mecânicas de apostas de verdade direcionadas a crianças, como o EA Sports, como livres (3+) enquanto sua produ~çao, sem qualquer mecânica do tipo, como 18+ devido a suas "cartas malvadas", prometendo que aceitaria tranquilamente a classificação de Balatro se esses jogos fossem classificados corretamente.



O modo Ultimate Team do EA Sports FC, citado por ele, permitia comprar pacotes de cartas de atletas aleatórios com dinheiro real, uma nítida mecânica de lootbox sem, contudo, “roupagem” de jogo de azar. A mensagem parecia ser que o que importava não eram as mecânicas ou o potencial lesivo dos games, mas sim a aparência e relação temática destes com jogos de aposta.

Tamanho foi o incômodo do desenvolvedor que ele afirma ter contatado diretamente a PEGI para questionar a decisão, recebendo uma resposta pouco satisfatória: a entidade não via problema na nota 18+ de Balatro ou 3+ de EA Sports FC, justificando as decisões em inconsistências de leis europeias e políticas de lojas digitais. Enquanto a PEGI insistia na manutenção da classificação, a ESRB americana chegou a uma conclusão mais branda, avaliando o game como Everyone 10+.

O jogo virou

O tempo foi positivo para Balatro e duro com o EA Sports. Em 2025 LocalThunk comemorou após um recurso apresentado pelo seu publisher ser aceito pela PEGI e Balatro ser reclassificado de 18+ para 12+, um passo que o desenvolvedor reconheceu como sendo positivo, trazendo um pouco de nuance ao critério de classificação.



A régua que penalizou Balatro por parecer um jogo de azar começou a se voltar contra quem de fato se aproveitava de mecânicas de aposta: em 2026, a PEGI reformulou seus critérios para julgar um game menos pela estética e mais por como ele monetiza e retém o jogador, e a nova edição do EA Sports FC recebeu, pela primeira vez na história da franquia, nota 16. No Brasil, o próprio ClassInd foi mais direto ainda, classificando o mesmo jogo como 18 e listando "compras em jogo que envolvem azar" como descritor oficial, a única das três classificações a usar a palavra azar sem rodeios.

A postura de LocalThunk

Balatro também se destaca pela postura pública de seu criador diante de jogos de aposta e mecânicas de azar, bem diferente da postura historicamente mais evasiva de empresas como a EA quanto a mecanismos de monetização em seus próprios jogos.


Tamanha é a ojeriza de LocalThunk quanto a jogos de aposta que ele chegou a afirmar nas redes que incluiu uma cláusula em seu testamento proibindo que a propriedade intelectual do game seja vendida ou licenciada para qualquer empresa de apostas ou cassino.

A declaração surgiu meses após o lançamento do título, em agosto de 2024, como resposta a uma brincadeira nas redes sugerindo que Balatro seria uma espécie de porta de entrada para o cassino, e múltiplas reportagens apontaram que o criador teria sido abordado por interessados em uma nova iteração do game como um jogo de apostas de verdade.

A declaração não foi algo isolado: o desenvolvedor já se posicionou inúmeras vezes de forma contrária a jogos de aposta. Em uma entrevista à PC Gamer em janeiro de 2024, antes do lançamento do game, afirmou explicitamente que não apoiava apostas nem acreditava que Balatro possuía apostas. Revelou também que sequer jogava ou gostava particularmente de pôquer, reforçando que a escolha da temática foi meramente estrutural, e não uma homenagem pessoal ao universo das apostas. LocalThunk permanece firme na postura adotada nessa época: Balatro persiste sem qualquer tipo de microtransação ou mecânica de aposta real em todas as plataformas.

O futuro das classificações

Talvez a grande conclusão seja que a terminologia de "jogos de azar" ou até "mecânicas de aposta" se tornaram obsoletas para servir como a base de classificação indicativa de games. Com o tempo, as empresas empregam mais e mais artimanhas para construir obras direcionados a públicos infanto-juvenis que aparentam ser inocentes, talvez até gratuitos em um primeiro momento, mas que são arquitetados com uma série de armadilhas para provocar gastos impulsivos e recorrentes, exatamente como jogos de azar.

Ao mesmo tempo, questiono se produções como Balatro, que permitam um contato com jogos famosos como pôquer sem, todavia, incluir o contato com o universo de apostas, não são até uma alternativa interessante para disponibilizar jogos de azar icônicos despidos de seus vícios característicos ao grande público.



O foco dos sistemas de classificação deveria ser coibir mecânicas predatórias, em todas as suas formas, direcionadas a levar crianças e adolescentes a compras impulsivas ou repetitivas. Elementos temáticos e visuais deveriam ser apenas um critério complementar de análise, enquanto a quantidade, o porte e a natureza das transações existentes na indústria de games deveriam assumir o protagonismo. Afinal, o mesmo instinto que classificou Balatro como perigoso por parecer aposta é o que, historicamente, deixou passar quem de fato buscava lucrar no digital utilizando as ferramentas clássicas de jogos de azar.

Revisão: Thomaz Farias
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Gabriel Cavalcante de Lima
Advogado especializado em Propriedade Intelectual. Fã de JRPGs de carteirinha e estudioso da indústria de games. Siga-me no Instagram
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