A segunda Visual Novel da trilogia criada por Kotaro Uchikoshi, Zero Escape: Virtue's Last Reward, foi lançada originalmente em 2012 para Nintendo 3DS, PlayStation Vita e agora está disponível na Steam também. O título foi desenvolvido pela Chunsoft e dá continuidade aos acontecimentos de Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors.
Desta vez, a história acompanha Sigma, um estudante universitário que acorda preso em um “elevador” sem entender como chegou ali. Nesse mesmo lugar, ao seu lado está Phi, uma garota que parece saber muito mais sobre aquela situação do que deixa transparecer. Logo eles descobrem que não estão sozinhos, pois outras sete pessoas também foram colocadas naquele complexo e, antes que possam entender o que está acontecendo, o grupo é apresentado às regras de um jogo chamado Ambidex Game.
Tudo começa com um coelho falante
O jogo começa com um puzzle e logo em seguida uma explicação vinda de um coelho falante que aparece em uma tela como uma IA do lugar. Ele explica sobre o novo jogo que vocês estarão participando, o Nonary Game: Ambidex Edition. Cada participante acorda com um bracelete com um número 4 e, ao longo desse jogo é necessário formar duplas ou trios para avançar pelas diferentes áreas do complexo e finalmente conseguir sair dali.
O objetivo parece simples: cada concorrente precisa acumular nove pontos no próprio bracelete para conseguir abrir a porta de saída. Porém é aqui que entra a grande questão do game. Em determinados momentos, os participantes precisam escolher entre Ally e Betray, decidindo se vão cooperar ou trair o parceiro ou os parceiros daquela rodada.
A pontuação funciona da seguinte forma:
- Se os dois escolherem Ally: ambos recebem +2 pontos.
- Se um escolher Ally e o outro Betray: quem escolheu Betray recebe +3, enquanto quem escolheu Ally perde -2 pontos.
- Se os dois escolherem Betray: ninguém ganha ou perde pontos.
Na teoria, é um sistema bastante simples, porém é aí que a obra começa a brincar com a cabeça do jogador e dos personagens. Se alguém acabou de prometer que vai escolher Ally, será que de fato vai cumprir? E se a pessoa trair, vale a pena confiar nela mais uma vez na próxima rodada? Afinal, +3 pontos podem ser muito mais tentadores do que simplesmente cooperar e ganhar +2.
No fim das contas, todos ficam apreensivos, principalmente porque existe uma pergunta que paira sobre o grupo: o que acontece quando o bracelete chega a zero? Você pode escolher Ally esperando que o outro faça o mesmo e acabar perdendo dois pontos, ou decidir trair primeiro para garantir três e, de quebra, destruir a confiança daquela pessoa.
E como não é preciso que todos cheguem aos nove pontos para escapar, cada participante tem um incentivo para pensar primeiro em si mesmo, tornando cada rodada uma mistura de estratégia, desconfiança e aquela dúvida constante sobre quem vai trair quem.
E agora descubra como sair dessa sala
Como já esperado, seguindo a lógica do seu antecessor, o game te coloca para resolver diferentes escape rooms, ou seja, momentos em que Sigma e os outros personagens ficam presos em uma sala e precisam encontrar uma maneira de escapar através dos diversos puzzles. Sendo assim, para resolver os enigmas, em geral, é necessário observar o ambiente, coletar objetos, combinar pistas e, principalmente, prestar atenção em pequenos detalhes que podem passar despercebidos.
Levando em conta o tamanho da Flowchart desse jogo, ele não economiza nessas salas. São cerca de 16 Escape Rooms ao longo da aventura, distribuídas pelas diferentes rotas da história. A variedade dos puzzles também é um dos pontos mais interessantes.
Alguns são muito bem pensados e conseguem fazer com que a solução tenha relação direta com o ambiente ou até com acontecimentos da própria história. Quando isso acontece, a sensação de finalmente entender o que aquela sala estava tentando contar é muito boa.
O puzzle deixa de ser apenas um obstáculo entre duas cenas e passa a fazer parte da experiência de descobrir mais sobre o que está acontecendo. Contudo, é preciso admitir que nem todos conseguem esse mesmo resultado. Existem puzzles em que parecem ter sido colocados ali simplesmente porque “bom, precisamos de mais um puzzle nessa sala”.
Alguns são pouco intuitivos, outros exigem combinações que parecem arbitrárias e há momentos em que a dificuldade não vem exatamente de descobrir a solução, mas de entender o que o jogo queria que você tentasse fazer. Nessas horas, a experiência pode ficar mais cansativa do que divertida e aquela vontade de apenas abrir um guia começa a aparecer.
Alguns puzzles podem ser difíceis e nem sempre de uma maneira divertida. Isso não significa que sejam todos ruins, longe disso, porém existe uma diferença bastante perceptível entre aqueles que realmente fazem você se sentir inteligente ao encontrar a resposta e aqueles que fazem você pensar apenas “quem teve essa ideia?”. Mas no final definitivamente o saldo é positivo.
Ninguém parece muito confiável
À primeira vista, são apenas nove pessoas completamente diferentes colocadas juntas em uma situação absurda, mas não demora muito para perceber que cada uma delas parece esconder alguma coisa.
Phi é provavelmente quem mais chama atenção logo de cara. Ela acorda junto de Sigma e rapidamente demonstra que está muito mais confortável naquela situação do que deveria. Inteligente, sarcástica e frequentemente alguns passos à frente dos outros, ela se torna uma espécie de parceira de Sigma durante boa parte da aventura. Ao mesmo tempo, é difícil não ficar com aquela sensação de que ela sabe alguma coisa que o jogador ainda não sabe.
O restante do grupo também é bastante variado. Luna passa uma impressão muito mais gentil e confiável, enquanto Alice é séria e extremamente determinada. Clover retorna do primeiro jogo, agora carregando consigo toda a bagagem dos acontecimentos anteriores, e Tenmyouji parece ser apenas um senhor mal-humorado até que algumas de suas atitudes começam a levantar outras perguntas.
Quark, por ser o mais jovem do grupo, acaba trazendo uma dinâmica diferente para as relações entre os participantes, onde alguns querem protege-lo. Já K, por sua vez, é talvez um dos personagens mais intrigantes do grupo. Preso dentro de uma armadura que esconde completamente sua identidade. E então temos o Dio.
Dio é aquele personagem que praticamente parece ter sido colocado no jogo para fazer o jogador pensar “eu não confio nesse cara nem por um segundo”. Ele é provocador, egoísta e não faz muita questão de esconder que está disposto a jogar o Nonary Game de acordo com os próprios interesses.
O mais interessante, contudo, é que VLR não deixa tão fácil decidir quem é confiável e quem não é. Uma pessoa que parece suspeita pode acabar surpreendendo, enquanto alguém que transmite segurança pode esconder muito mais do que aparenta.
É justamente essa dinâmica que faz o elenco funcionar. Cada decisão no Ambidex Game muda a relação entre eles, e conhecer melhor um deles pode fazer com que uma escolha que parecia óbvia alguns minutos antes se torne uma decisão bem mais complicada. E, conforme as diferentes rotas começam a revelar novos pedaços da história, algumas dessas primeiras impressões também começam a mudar.
Além disso, existe uma quantidade enorme de diálogos, em que alguns são fundamentais para a narrativa e ajudam a preencher as lacunas do mistério, enquanto outros são mais leves e servem justamente para mostrar um pouco mais da personalidade de cada personagem e fazer você soltar algumas risadas. Os comentários que seus parceiros fazem dentro da sala dos puzzles com certeza vão fazer você soltar uma risada em algum momento.
E depois de passar horas fazendo outras rotas, testando escolhas diferentes e voltando a momentos que você já viu, é difícil não acabar criando algum apego por aquele grupo de pessoas. Cada personagem tem sua própria personalidade e reage de maneira diferente às situações. E acredito que esse seja um dos pontos fortes da jornada.
E vale fazer um adendo para o próprio Sigma, nosso protagonista, que está longe de ser apenas um ponto de vista para o jogador. Ele também participa de forma ativa daquela situação, entrega bons diálogos e protagoniza alguns momentos bastante divertidos ao longo das rotas.
Confesso, porém, que apesar de ter vários diálogos bons, o título também pode exagerar um pouco nas explicações. Algumas mecânicas, conceitos ou situações recebem diálogos tão longos e detalhados que, quando você já entendeu aonde aquilo quer chegar, fica aquela sensação de “sim, eu entendi, podemos continuar?”.
Felizmente, não chega a ser algo que prejudique a experiência como um todo. Isso se da principolmente, porque boa parte dessas conversas ainda contribui para conhecer melhor os personagens e o jogo conta com a maioria desses diálogos conta com dublagem em inglês ou japonês.
A cada descoberta surge uma nova pergunta
A história não segue uma linha reta e muito menos espera que você descubra tudo na primeira tentativa. Cada escolha durante o Ambidex Game pode mandar Sigma para uma rota completamente diferente, revelando novos diálogos, acontecimentos e informações que simplesmente não existem nos outros caminhos.
E é aqui que entra uma das melhores coisas que VLR fez para lidar com toda essa maluquice: a Flowchart. O jogo literalmente transforma a história em uma enorme árvore de possibilidades, mostrando os caminhos que você já percorreu e permitindo voltar para determinados pontos sem precisar refazer tudo desde o começo.
Eu preciso admitir: a primeira vez que vi aquela Flowchart, minha reação foi basicamente “eu vou ter que fazer tudo isso?” Porém no fim, você vai querer fazer isso. Muitas vezes, depois de chegar ao final de uma rota, a primeira coisa que passa pela cabeça é “tá, mas e se eu tivesse escolhido a outra opção?”.
Isso é especialmente importante porque o jogo conta com 28 finais no total, sendo nove ligados aos personagens e outros divididos entre finais ruins e caminhos que servem para liberar novas partes da história. E nem sempre a rota que parece mais importante é aquela que vai entregar a resposta que você procura.
Às vezes, você termina uma sequência inteira e recebe mais perguntas do que respostas. Em outra, o que você descobriu antes nem se quer é mencionado ou você descobre uma informação pequena que faz você olhar para acontecimentos anteriores de uma maneira completamente diferente.
É uma estrutura que pode ser bastante confusa, contudo, é justamente aí que está boa parte da diversão. Você começa a perceber que algumas coisas que pareciam estranhas não estavam ali por acaso. Uma conversa que não fazia muito sentido ganha outro significado depois de algumas horas.
E então começam as perguntas de verdade. Quem está por trás desse game? Por que aquelas nove pessoas foram escolhidas? O que aconteceu antes de Sigma acordar? Por que algumas pessoas parecem saber mais do que deveriam? E, talvez a mais importante de todas, o que realmente está acontecendo nesse lugar? A obra também não tem muita pressa para responder.
Virtue's Last Reward gosta de jogar novas perguntas na sua cara enquanto você ainda está tentando resolver as anteriores. Em alguns momentos isso funciona maravilhosamente bem e cria aquela vontade quase irritante de continuar jogando só para descobrir a próxima informação. Em outros, especialmente quando começam aqueles enormes blocos de explicações científicas, dá vontade de pedir para os personagens irem direto ao ponto.
Ainda assim, é difícil negar o quanto essa estrutura combina com a proposta. Cada rota acrescenta uma peça no quebra-cabeça, cada final acrescenta alguma coisa e a Flowchart vira praticamente o seu mapa para entender uma narrativa que foi, de maneira proposital, espalhada por vários caminhos.
E talvez essa seja a melhor descrição da experiência: você passa boa parte do jogo sem saber absolutamente nada, começa a achar que finalmente entendeu alguma coisa, descobre uma nova rota e percebe que não sabia era coisa nenhuma. Mas uma coisa é certa, espere para se surpreender com ótimos plot twists.
Afinal, vale a pena participar do Nonary Game?
Mesmo sendo o segundo capítulo de uma trilogia e não encerrando sozinho toda a história, Zero Escape: Virtue's Last Reward continua sendo uma experiência que vale muito a pena para quem gosta de um bom mistério e, claro, de puzzles. O jogo sabe criar aquela sensação deliciosa de te deixar na ponta da cadeira e ficar criando diversas teorias para o que pode estar acontecendo.
Apesar de alguns puzzles serem mais trabalhosos do que divertidos e de o visual já denunciar a idade do jogo, sua estrutura narrativa continua sendo o grande trunfo. A combinação entre escolhas, uma Flowchart gigantesca, personagens divertidos, múltiplos finais e informações espalhadas pelas diferentes rotas faz com que a experiência seja muito mais ambiciosa do que uma simples sequência. Mesmo fazendo parte de uma história maior, VLR consegue construir seu próprio mistério e se sustentar com sua história, porém é bom pelo menos ter jogado ou ter uma ideia da história do seu antecessor Nine Hours, Nine Persons, Nine Doors.
No fim, é uma experiência que exige paciência e dedicação. É bastante texto, são muitas rotas e, em alguns momentos, sua cabeça vai estar pegando fogo de tanta informação. Entretanto, quando as peças começam a se encaixar e aqueles mistérios que pareciam completamente desconexos vão começando a fazer sentido, fica difícil não querer continuar.
Zero Escape: Virtue's Last Reward pode não contar toda a história de Zero Escape, mas certamente é uma das partes mais interessantes dela e, quando os créditos finalmente aparecerem, existe uma boa chance de a primeira pergunta ser justamente: “Ok, eu preciso saber onde isso vai dar.”
Revisão: Thomaz Farias

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