Análise: The Sinking City 2 — o horror cósmico que ressurgiu de uma guerra

A Frogwares trocou a investigação pelo survival horror puro, uma troca de gênero arriscada, mas que deu muito certo.


A Frogwares construiu seu nome como sinônimo de jogos de investigação, da série Sherlock Holmes ao primeiro The Sinking City, um mundo aberto que colocava a dedução no centro de tudo. Vale destacar de cara: The Sinking City 2 não é uma continuação direta daquela história. É uma sequência standalone, com cidade e protagonista novos. 

Trocamos Oakmont por Arkham, o detetive veterano de guerra Charles W. Reed pelo ocultista Calvin Rafferty, e, junto com essa mudança de cenário, ganhamos uma troca completa de identidade jogável: aqui, Calvin não é mais um detetive investigando pistas soltas por uma cidade inteira, é um sobrevivente tentando não morrer numa Arkham tomada pela água e pelos Rastejantes, criaturas parasitárias que subiram junto com a enchente. É uma virada de gênero completa, e a Frogwares assume isso sem rodeios. O resultado funciona muito melhor do que a aposta arriscada sugeria.

A sinopse

Calvin e Faye são um casal ocultista, que vive da caça a itens amaldiçoados e segredos proibidos, e que carrega um amor tão intenso quanto a vida perigosa que escolheram. Durante um ritual que deveria abrir caminho até Dreamlands (Terra dos Sonhos), algo dá terrivelmente errado: Calvin acorda sem memória do que aconteceu e Faye fica presa num sono sobrenatural do qual não desperta. Acreditando que ainda pode trazê-la de volta, Calvin atravessa sozinho uma Arkham afogada e hostil atrás de uma resposta.

A cidade em si é uma personagem. Antigo polo intelectual às margens do rio Miskatonic, Arkham foi tomada em 1929 por uma enchente sobrenatural cuja origem nunca é explicada de cara, com água que claramente não é do mar e que ninguém consegue explicar. A população resistiu por meses com barricadas e comportas, até abandonar de vez a cidade. O que sobrou é um território deserto, apodrecido, dominado pelos Rastejantes e habitado só por quem não conseguiu ou não quis partir.


Arkham como Raccoon City

Não é sutil a inspiração em Resident Evil 2 Remake, e a Frogwares parece saber e até brincar com isso: há uma conquista no jogo que referencia indiretamente a franquia da Capcom. A movimentação de Calvin, a câmera sobre o ombro, o ritmo do combate corpo a corpo intercalado com tiros calculados, tudo soa como uma leitura direta da fórmula que a Capcom reacendeu em 2019. Não é demérito. É uma fórmula que funciona, e a Frogwares a aplica com competência, ainda que sem trazer nada radicalmente novo para ela.

O que diferencia a experiência é o cenário em si. Arkham afogada; corredores decadentes; o Mercado de Peixes tomado por criaturas desconhecidas, que vieram do fundo do mar; o Akeley Memorial Hospital abandonado e, ainda assim, longe de estar vazio. Visualmente, o jogo impressiona: os gráficos são bonitos e a ambientação de terror é extremamente imersiva, com o Mythos de Cthulhu encaixando perfeitamente na estrutura de um survival horror. A ambientação lovecraftiana empresta ao jogo um clima mais pesado e isolado do que a maioria dos survival horrors recentes, e isso pesa a favor.

Vale um adendo pra quem espera o horror cósmico mais puro, na forma daquela sensação de insignificância diante do incompreensível: aqui, ela é um pouco diluída. Não chega a comprometer a experiência, mas quem busca especificamente aquele dread mais contemplativo e cerebral do gênero vai sentir que o jogo aposta mais no susto imediato do que na atmosfera puramente cósmica. Ainda assim, quem gosta do universo e da temática vai se identificar com o que o jogo entrega.


A Sombra Noturna e as Essências Oníricas

O sistema que realmente distingue The Sinking City 2 de seus contemporâneos é o das runas. Calvin carrega consigo a máscara Sombra Noturna, e é nela que se encaixam runas compradas com Essências Oníricas, a moeda que o jogo espalha pelo mundo. Os bônus vão do prático ao situacional: dano extra ao trocar de arma, trocas mais rápidas entre armamentos, e outras combinações que incentivam o jogador a montar sua própria abordagem de combate. É um sistema simples na superfície, mas que dá camadas reais de personalização para quem gosta de otimizar builds no meio de um survival horror.


O Espaço de Investigação não ficou pra trás

Vale reforçar: a investigação não desapareceu, apenas mudou de papel. O que era a espinha dorsal do primeiro jogo agora é uma camada secundária e recompensadora. No menu dedicado, o Espaço de Investigação, o jogador conecta evidências numa mesa de pistas até fechar o quadro. Completar essas conexões rende Essências Oníricas e revela informações práticas, como o código de uma porta trancada ou a combinação de um cofre escondendo uma expansão de inventário ou uma arma nova. É elegante porque não força a mão: quem quiser focar só em sobreviver poderá ignorar boa parte disso, mas quem quiser se aprofundar no jogo será recompensado tanto em progressão quanto em lore.

O restante da estrutura segue o manual clássico do gênero. Backtracking é constante, munição e curas são craftadas com os itens encontrados pelo caminho, armas recebem melhorias e cada área tem sua Safe Room, o ponto de upgrade e salvamento que ancora o ritmo de exploração.


Quando o combate aperta demais

A história é boa, ainda que simples, apoiada confortavelmente nos pilares clássicos do universo Lovecraftiano: cultistas, entidades antigas, um mundo maior e mais indiferente do que qualquer personagem consegue entender. Funciona bem como pano de fundo para a jornada de Calvin.

O combate é onde o jogo mais me testou a paciência. Contra um inimigo só, o ritmo funciona bem. Contra grupos mistos, especialmente quando os inimigos menores e mais rápidos entram em cena, esquivar de tudo se torna quase impossível, e sofrer ao menos um golpe nessas situações parece inevitável. A mira também é mais rígida do que deveria, tornando alguns confrontos mais frustrantes do que tensos. É um tipo de atrito que a dificuldade ajustável ameniza, já que o jogo permite regular combate e investigação de forma independente, mas que continua sendo o ponto mais irregular da experiência.

Feito sob sirenes de verdade

Não dá pra escrever sobre The Sinking City 2 sem falar de como ele foi feito. Passou por 43 meses de produção, contando com uma equipe de mais de 80 pessoas trabalhando remotamente sob guerra, sem nunca poder se reunir presencialmente, nem mesmo uma vez, em todo o desenvolvimento. Cortes de luz e de aquecimento, deslocamentos forçados e convocações no meio do trabalho: 17 integrantes da equipe tiveram suas casas destruídas ou danificadas, e 14 serviram ou seguem servindo nas forças armadas. A sirene que abre o jogo para evacuação de Arkham não é um efeito sonoro qualquer, é uma gravação da sirene que a equipe ouve rotineiramente antes de ataques aéreos.

Diante disso, faz sentido que o jogo carregue ecos da própria guerra em sua narrativa, mesmo que de forma indireta; e é difícil não julgar o lançamento final também por meio dessa lente. Uma equipe migrando de gênero pela primeira vez, sob condições dessa severidade, entregou um survival horror funcional, atmosférico e coerente. Isso merece reconhecimento.


Veredito

Em relação aos títulos anteriores da Frogwares, The Sinking City 2 representa uma mudança de gênero ousada que, na maior parte do tempo, valida a aposta do estúdio. A base de combate bebe abertamente de Resident Evil 2 Remake, mas o sistema de runas na Nightshade e um Espaço de Investigação bem integrado dão personalidade própria ao pacote, enquanto Arkham afogada segue sendo um cenário lovecraftiano genuinamente opressivo. O combate contra grupos e uma mira mais dura do que o ideal impedem o jogo de ser redondo, mas não o suficiente para ofuscar o que a equipe conquistou aqui, em condições que poucos estúdios jamais vão precisar enfrentar.

Prós

  • Ambientação lovecraftiana opressiva e bem construída, de Arkham ao Mercado de Peixes;
  • O sistema de runas na Nightshade traz personalização real ao combate;
  • O espaço de investigação integra essa dimensão à progressão sem forçar o ritmo do jogo;
  • Loop clássico de survival horror bem executado, com craft, backtracking e Safe Rooms.

Contras

  • O combate contra múltiplos inimigos, especialmente os mais rápidos, é frustrante de administrar;
  • A mira é mais dura do que o esperado e atrapalha a fluidez de alguns confrontos.
The Sinking City 2 — PC/PS5/Xbox Series X|S — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Julia Loffreda Costa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Frogwares
OpenCritic
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Vincenzo Augusto Zandoná
Apaixonado por games desde que nasci, gosto de passar horas tagarelando sobre, principalmente Metal Gear! Ah e também faço café...
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