Impressões: Silver Palace aposta em elementos surreais para se destacar dos concorrentes

Metrópole vitoriana, baleias voadoras e lobisomens: o jogo traz ideias fascinantes, mas peca nos problemas técnicos.

em 13/08/2026
Com muitos anos consumindo videogames (cerca de vinte, dos quais me recordo bem) e tendo acompanhado o início da febre dos jogos gacha, é fácil reconhecer quando um novo jogo chega apenas para ser mais um ou quando traz algo genuinamente interessante para o público. É exatamente essa dualidade que define Silver Palace, título que tive a oportunidade de testar por muitas horas em sua primeira beta, batizada de Dicotomia.

Mesmo mais maduro, mantém um pé na fantasia

À primeira vista, o jogo segue fielmente a cartilha já estabelecida pelos grandes do estilo. No entanto, se a primeira onda desses jogos era inspirada diretamente no modelo de exploração popularizado por títulos como The Legend of Zelda BOTW (uma influência clara em Genshin Impact), Silver Palace escolheu um caminho diferente. Ele abandona os campos abertos em favor de uma estética mais urbana, aqui com visual inspirado em cenários vitorianos e pitadas de steampunk — lembrando, guardadas as devidas proporções, a atmosfera e a dinâmica de um GTA, mas vestida com o visual de anime. A escolha recente dos jogos gacha de passar a seguir esse modelo parece um movimento óbvio de tentar navegar no hype do vindouro GTA VI, o que não é nenhum demérito.

Apesar de compartilhar bases técnicas e de estrutura com outros jogos recentes do gênero (Zenless Zone Zero e Neverness to Everness, o “GTA de anime”), o jogo consegue o mérito de apresentar uma identidade própria logo de cara. Ao misturar uma atmosfera mais madura, mecânicas de locomoção voltadas para verticalidade além do tradicional e uma premissa narrativa focada em investigação — em que assumimos o papel de um detetive de verdade, e não de um jovem novato —, a experiência logo se mostra muito mais encorpada do que o esperado.

Com a mudança de cenário, Silver Palace aposta na própria forma como interagimos com a cidade, sendo possível entrar em lojas, visitar cafés e interagir organicamente com os NPCs que povoam as ruas. As mecânicas de travessia são um dos grandes trunfos do jogo e fogem um pouco do básico ao contextualizar as mecânicas tradicionais.

Sendo um localidade de temática mais antiga, o meio de transporte é o cavalo (um pégaso, na verdade) que, além de trotar por aí, pode saltar e planar pela cidade, contando ainda com correntes de ar e pontos estratégicos espalhados pelo mapa que impulsionam o equino para cima, facilitando o acesso a telhados e áreas distantes. Há também o uso de ganchos (semelhante ao visto em Assassin’s Creed: Syndicate e Batman: Arkham), que permite escalar mais rapidamente algumas fachadas e alcançar pontos mais elevados.

Narrativa devidamente amarrada com a estética do mundo

Diferente de grande parte dos protagonistas do gênero — que costumam ser jovens ingênuos ou aprendizes descobrindo o mundo —, aqui assumimos o papel de um detetive com carreira já estabelecida. Logo no prólogo, o jogador escolhe entre um irmão ou uma irmã, dando início à jornada a partir de um evento trágico: o assassinato de um deles. Anos após esse acontecimento, retornamos à cidade para dar início à investigação principal, que guiará o enredo desta primeira beta.

A partir dessa premissa de investigações, toda a estrutura do mundo aberto também é desenvolvida. Praticamente todas as missões iniciais giram em torno de interrogar suspeitos, vasculhar pistas, encontrar objetos e expor segredos escondidos.

Um exemplo disso acontece logo cedo, quando utilizamos um artefato que reage ao ambiente. Ele funciona como uma ferramenta de exploração, indicando sutilmente a direção onde perigos se escondem — o que nos leva, por exemplo, a caçar e expor um lobisomem (personagem quase obrigatório quando se fala de ambientes com a ambientação de Silver Palace) disfarçado no meio da cidade. A partir daí, o que começa como uma investigação sutil transforma-se em uma boss fight, mostrando que as ameaças locais, embora geralmente humanoides, vêm acompanhadas de características únicas e desafiadoras.

Falando de combate, como dito anteriormente, o jogo segue a cartilha do gênero, apostando em habilidades, elementos e sinergia de equipe. No entanto, o estilo de luta ganha um toque de personalidade devido ao uso de pistolas pelo protagonista, trazendo uma dinâmica mais ágil e estilizada para as trocas de golpes (ainda que nada nova). Os personagens e chefes mantêm um visual belíssimo e, embora carreguem o apelo visual típico de títulos gacha (principalmente as femininas), a direção de arte consegue mantê-los elegantes e totalmente alinhadas à atmosfera da obra.

No aspecto técnico, Silver Palace é desenvolvido na Unreal Engine 5, o que traz consigo os já conhecidos (e, por vezes, inexplicáveis) comportamentos da engine. Mesmo com os gráficos ajustados no máximo, o jogo roda de forma bastante fluida na maior parte do tempo, mas sofre com quedas pontuais de desempenho e travadinhas repentinas que não têm qualquer relação com oscilações de rede, considerando que falamos de um jogo online.

Mais uma boa opção no vasto cardápio do gênero

O beta de Silver Palace entregou uma quantidade surpreendente de conteúdo: foram cerca de 40 horas de duração, superando a longevidade de muitos títulos AAA atuais, sem quase nunca cair na monotonia. Apesar de todas as qualidades, o jogo carrega um ponto negativo considerável para o público nacional: a ausência de localização ou legendas em português do Brasil. 

Em um título com tanto foco em narrativa, diálogos densos e investigações complexas, ter que parar constantemente para ler com calma a enorme quantidade de textos em inglês acaba exigindo um esforço que quebra parte da imersão. É um obstáculo que afasta um pouco, mas que não anula o charme da obra. Ainda que tenha identidade própria, só o tempo dirá se ele consegue morder uma fatia do mercado com tantas opções, mas certamente merece uma oportunidade.

Revisão: Mariana Marçal
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Windsor Santos
Jogadorino desde os áureos anos 90, geralmente surpreende amigos com a quantidade de títulos que já finalizou. Divide o amor por games com seus mangás, Hq's e filhotes. Agora seu objetivo é registar seus conhecimentos para as novas gerações de jogadores.
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