Marvel Tōkon: conhecendo as origens da aposta tripla da Sony, Marvel e Arc System Works

Depois de décadas com a Capcom, a Marvel aposta em novos parceiros para reinventar seus heróis e inaugurar uma nova era dos jogos de luta.

Um novo jogo de luta com o selo Marvel sempre desperta expectativas, ainda mais quando o parceiro de desenvolvimento é uma cara nova, mas consagrada, que promete mudanças. Marvel Tōkon: Fighting Souls rompe com décadas de tradição entre a Marvel e Capcom e levanta a dúvida: será o início de uma nova era?

A era Capcom

Desenvolvido pela Arc System Works e publicado pela Sony, Marvel Tōkon: Fighting Souls representa um novo capítulo para a Marvel nos jogos de luta, afastando-se da parceria histórica com a Capcom.

A Marvel não é estranha ao universo de jogos de luta. Uniu forças com a Capcom pela primeira vez em X-Men: Children of the Atom, jogo desenvolvido para os arcades, lançado em 1994 no Japão e em 1995 no resto do mundo.

A parceria prosperou: nos anos seguintes vieram Marvel Super Heroes (1995), X-Men vs. Street Fighter (1996), Marvel Super Heroes vs. Street Fighter (1997) e Marvel vs. Capcom: Clash of Super Heroes (1998). O game de 1997 foi particularmente influente, introduzindo a emblemática mecânica de "character assist moves" que viria a se tornar uma das marcas da franquia e, com o tempo, um elemento recorrente no gênero de jogos de luta. Ao longo desse período, a Capcom foi a parceira de desenvolvimento exclusiva da Marvel no gênero, galgando mais e mais liberdade criativa à medida que os jogos eram bem-recebidos.

Nos anos 2000, contudo, a parceria sofreu seus primeiros tropeços. A Capcom perdeu a licença dos personagens logo após o lançamento de Marvel vs. Capcom 2 (2000) e assim permaneceu pelos próximos 10 anos.

A parceria foi brevemente retomada com o lançamento de Marvel vs. Capcom 3 (2011), mas teve vida curta: em 2013, tanto Marvel vs. Capcom 3 quanto o próprio Marvel vs. Capcom 2 foram retirados das lojas digitais pela expiração da licença. Até hoje, nenhuma das partes chegou a confirmar publicamente o motivo da não renovação.

Em 2017, houve a derradeira tentativa com Marvel vs. Capcom: Infinite. Mas parece que a magia dos primeiros lançamentos havia se esvaído: o game foi um fracasso comercial e marcou o fim definitivo da parceria.

A Sony entra no jogo

Em uma inversão do fluxo usual, a proposta do jogo partiu da Sony, não da Marvel. Normalmente, o titular da propriedade intelectual (neste caso, a Marvel) é quem possui tanto o interesse quanto a iniciativa de buscar licenciados capazes de monetizar personagens e mundos ociosos ou, ainda, adentrar gêneros de jogos nos quais não possui expertise.

Nesse caso, ambos os impulsos partiram da Sony. A gigante japonesa já havia demonstrado interesse em fortalecer o ecossistema de jogos de luta da PlayStation, coorganizando eventos como o EVO (Evolution Championship Series) entre 2021 e 2025 e chegando a promover Street Fighter 6 e Tekken 8 como destaques em edições recentes. O desenvolvimento de um jogo próprio, portanto, era um passo natural e desejado.

Com este objetivo em mente, a Sony aproveitou o estreitamento da relação com a gigante dos heróis após o sucesso estrondoso de Marvel's Spider-Man para propor à Marvel um projeto um pouco diferente. A proposta foi recebida com entusiasmo pela Marvel, que vislumbrou na Arc System Works um parceiro aclamado no gênero de jogos de luta à altura de desenvolver um jogo original.

De Dragon Ball a Marvel: Arc System Works

Ao contrário da Marvel, a Arc System Works demandou um pouco mais de convencimento. Atualmente, o estúdio possui uma presença expressiva no universo de jogos de luta, sendo a empresa com mais jogos presentes na última edição do Evolution Championship Series, em 2025 (5). Da mesma forma, não é um estúdio novato em parcerias com propriedades intelectuais de peso, possuindo histórico de trabalho com IPs como Fist of the North Star, Sengoku Basara, Dragon Ball e Granblue Fantasy.

A despeito dessa experiência, o produtor Takeshi Yamanaka tinha dúvidas quanto à capacidade do estúdio de lidar bem com a propriedade intelectual da Marvel, altamente distinta de outras com as quais o estúdio já havia trabalhado, como BlazBlue, Guilty Gear e Dragon Ball. O CEO Minoru Kidooka foi a voz decisiva para o projeto sair do papel, convencendo o produtor de que o estúdio tinha capacidade de tocar um projeto desses e que a oportunidade de trabalhar com uma franquia com mais apelo ocidental, como a Marvel, poderia ser decisiva tanto para o crescimento do estúdio quanto para o da comunidade de jogos de luta.

No final das tratativas, todos estavam animados para desenvolver um projeto conjunto com um estilo diferenciado. Segundo Reed Baird, produtor sênior da PlayStation Studios XDEV, "Do Japão para o Mundo" se tornou um dos mantras do time, que busca levar não só a propriedade intelectual, mas também o talento e as mecânicas de jogo criadas no Japão para uma plataforma global. O traço de mangá marcante da arte e o visual original de alguns personagens, como o Homem de Ferro, refletem a aplicação prática do mantra no game final.

Tōkon emerge, portanto, como uma aposta tripla entre os três colossos: a Sony busca captar uma fatia maior do mercado de jogos de luta, a Marvel busca superar o fracasso de Marvel vs. Capcom: Infinite e inaugurar um novo capítulo de jogos de luta para seus heróis, e a Arc System Works busca ampliar seu espaço no mercado ocidental de jogos e fortalecer a comunidade internacional de jogos de luta.

Até o momento, o lançamento no PC vem sendo alvo de fortes críticas. Apesar de elogios efusivos quanto à direção artística, à qualidade da história e à intuitividade dos controles, problemas sérios de desempenho e a exigência de conexão com uma conta PlayStation Network (PSN) resultaram em avaliações majoritariamente negativas em plataformas como a Steam. A Arc System Works já reconheceu publicamente a gravidade da situação e vem lançando atualizações para corrigir os problemas de estabilidade na versão para PC.

O tempo e a resposta da desenvolvedora dirão se o game será capaz de superar o lançamento turbulento e atender às expectativas dos três gigantes ou se essa nova parceria está com os dias contados.

Revisão: Camila Sales 
Referências: Marvel, EventHubs, Sony, Push Square, Delisted Games, Giantbomb, Techradar, Den of Geek, Eurogamer

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Gabriel Cavalcante de Lima
Advogado especializado em Propriedade Intelectual. Fã de JRPGs de carteirinha e estudioso da indústria de games.Siga-me no Instagram
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