Hell Let Loose: Vietnam leva a proposta hardcore da franquia para um dos conflitos mais marcantes do século XX. Em vez de apostar apenas no combate, o jogo constrói sua experiência em torno de grandes batalhas, comunicação e trabalho em equipe, colocando até 100 jogadores em mapas extensos onde cada decisão pode determinar o rumo da partida. O resultado é um FPS que pode ser brutal e pouco acessível nas primeiras horas, mas que recompensa quem aceita seu ritmo particular.
Embarcando na guerra
O primeiro Hell Let Loose, lançado em 2019, se passava durante a Segunda Guerra Mundial e entrou no mercado de FPS com uma proposta hardcore que se distanciava dos concorrentes ao apostar em sistemas de simulação e levar esse tipo de experiência aos consoles. Hell Let Loose: Vietnam segue a cartilha do antecessor, transportando a guerra para um novo cenário e mantendo o foco na imersão e no trabalho em equipe.
O foco do título é o multiplayer, com partidas de até 50 contra 50 que funcionam de maneira diferente dos jogos mais tradicionais. Aqui, a principal fonte de entretenimento são os sistemas de simulação implementados para criar uma experiência de guerra mais próxima do real.
Por conta disso, as primeiras sessões com o jogo são brutais, especialmente para quem vem de outros FPS populares. Em Hell Let Loose, o time to kill é extremamente baixo, bastando um ou dois tiros para que o jogador seja eliminado. No começo, é comum entrar no campo de batalha e morrer antes mesmo de descobrir de onde veio o disparo. Com o tempo, porém, percebemos que a mesma regra vale para os inimigos: basta uma oportunidade para eliminá-los. Quando o jogador se adapta, o ritmo passa a funcionar de maneira completamente diferente.
Para preparar o jogador para o inferno que o aguarda, o título conta com diversos tutoriais. Eles são praticamente indispensáveis para quem deseja ter uma jornada satisfatória, ensinando o funcionamento das classes, os comandos dos veículos e os principais sistemas. Ao mesmo tempo, o jogo respeita o tempo do jogador e confia que ele terá curiosidade para descobrir e experimentar o restante por conta própria, pois não é somente o time to kill que diverge aqui quando comparado aos FPS mais tradicionais.
Matar inimigos é o que define a diversão na maioria dos FPS, mas, em Hell Let Loose, isso é apenas uma parte da engrenagem. Os modos, todos encabeçados por 50 jogadores de cada lado e mapas gigantescos, fazem com que cada integrante precise entender seu papel e os objetivos da equipe para alcançar a vitória.
E isso é importante porque cada partida pode durar cerca de uma hora quando é disputada até o fim.
Para organizar os 50 integrantes de cada equipe, o jogo se divide em funções e esquadrões. Na infantaria, cada equipe conta com seis integrantes. Há também grupos voltados para tanques, com três jogadores, e grupos voltados para helicópteros, entre outras funções. Para evitar que os jogadores criem esquadrões apenas para obter livremente a classe desejada, quem cria primeiro uma equipe de helicóptero, por exemplo, fica com a função de copiloto em vez de piloto. É uma maneira inteligente de incentivar a rotação de classes e o trabalho em equipe.
Escolhemos nosso lado da batalha, americanos ou vietnamitas, e entramos em um dos quatro modos disponíveis: Warfare, Offensive, Conquest e Domination. Todos foram desenvolvidos para tirar proveito dos sistemas e dos mapas, proporcionando batalhas intensas e prolongadas.
O mais famoso da franquia, Warfare, coloca os dois times em uma disputa pelo controle de cinco setores espalhados pelo mapa. A vitória acontece ao conquistar o setor do quartel-general inimigo ou ao terminar a partida controlando a maioria dos setores dentro do limite de tempo de 90 minutos.
Já Offensive se aproxima do modo Ruptura de Battlefield 6. Aqui, os times se dividem entre ataque e defesa, enquanto os atacantes têm 30 minutos para conquistar um objetivo antes de avançar para o próximo. Esse formato afunila o campo de batalha e faz com que os jogadores se encontrem com mais frequência.
Isso é importante porque a cadência também é um dos elementos que mais diferenciam Hell Let Loose de outros jogos do gênero. Por causa dos mapas gigantescos, é comum passar bastante tempo sem encontrar inimigos. Como a morte acontece rapidamente e ainda existe um período de espera para retornar, boa parte da partida pode ser gasta caminhando do ponto de respawn até a linha de frente.
É aí que o trabalho em equipe volta a ser fundamental. Os líderes dos esquadrões precisam posicionar manualmente pontos de respawn pelo mapa, criando novas possibilidades de avanço e evitando que o time passe boa parte da partida simplesmente percorrendo o caminho entre a base e o combate.
No fim, tudo pede comprometimento. Iniciar uma partida significa saber que você provavelmente passará pelo menos meia hora dentro daquele conflito e sair no meio dela significa abandonar boa parte do progresso construído pela equipe.
Esse ritmo mais lento pode afastar quem procura a ação imediata de Call of Duty ou Battlefield, mas também é justamente o que permite que Hell Let Loose: Vietnam alcance seus melhores momentos. Quando todos os sistemas se encaixam, uma partida deixa de parecer apenas uma sequência de confrontos e passa a funcionar como uma batalha propriamente dita.
Visuais de terror
A proposta de levar a franquia para o Vietnã veio acompanhada da responsabilidade de representar o conflito e sua iconografia, e o resultado é dividido em dois aspectos distintos: o artístico e o técnico.
Artisticamente, o jogo carrega méritos imensos pelo design dos mapas, que são seis no lançamento. Eles capturam o espírito que se espera de um conflito no Vietnã, com selvas densas e amplas que transformam a vegetação em parte essencial da batalha. Os cenários são de qualidade exemplar e fazem excelente uso dos sistemas de combate e movimentação.
O tamanho dos mapas também favorece o trabalho em equipe. A locomoção pode acontecer por caminhões, helicópteros, que transportam companheiros até o centro da batalha, ou barcos, que atravessam os rios e também funcionam como pontos de respawn. Tudo isso contribui para a sensação de estarmos juntos em um campo de batalha vivo e dinâmico, enquanto os modos colocam a disputa territorial no centro da experiência.
Definitivamente, era uma das coisas que eu mais queria ver no projeto: mapas que demonstrassem o conflito visualmente. E a abordagem hardcore amplifica essa sensação. Andar pela selva agachado, observar a vegetação em busca de qualquer movimento e avançar sem saber exatamente o que te espera fazem com que o ambiente seja tão importante quanto os próprios inimigos.
Não são apenas os visuais que cumprem esse papel. O som também é essencial, principalmente porque as informações disponíveis são limitadas e a visibilidade é frequentemente baixa. Um disparo distante, passos na vegetação ou o som de um veículo podem ser suficientes para mudar completamente a maneira como encaramos determinado trecho.
Pode parecer pouco contar com apenas seis mapas, mas cada um se comporta de maneira diferente. E, ao contrário de jogos como Call of Duty, em que os cenários mudam a cada dez minutos, aqui passamos cerca de uma hora em um mesmo mapa antes de partir para a próxima partida. Cada ambiente apresenta suas próprias particularidades, com selvas densas, campos abertos, áreas arenosas e regiões que favorecem diferentes estratégias.
Tecnicamente baleado
É justamente no aspecto técnico que o projeto causa estranhamento logo de cara. Jogando no PlayStation 5, encontrei uma taxa de quadros estável em 60 fps e não tive problemas relevantes de desempenho nesse sentido. A ambição artística, porém, cobra um preço, principalmente na apresentação visual.
As florestas densas, que deveriam causar uma primeira impressão positiva por serem uma das principais diferenças em relação ao capítulo ambientado na Segunda Guerra Mundial, sofrem com glitches visuais intensos. O efeito é difícil de explicar: parece que a luz está constantemente produzindo pequenos fragmentos na tela. Ao olhar para a selva à frente, o problema se intensifica, criando uma interferência que o jogador precisa aprender a ignorar.
O mesmo acontece em objetos mais simples. Ao observar a madeira de uma ponte, por exemplo, o efeito aparece novamente, quase como se gotas de chuva estivessem caindo sobre a superfície.
Felizmente, isso não acontece o tempo inteiro. Quando os problemas desaparecem e o visual consegue se alinhar, a grandeza dos cenários se sobressai. Embora não esteja no mesmo patamar técnico dos grandes lançamentos AAA atuais, Hell Let Loose: Vietnam encontra momentos de beleza incomum, unindo direção artística e design de mapas de maneira convincente.
Em outros pontos mais diretos, a movimentação entre objetos, principalmente ao tentar pular ou escalar, também pode ser prejudicada. Não pelo design, já que a movimentação deliberada faz parte da proposta, mas por atrasos e engasgos nas animações. Em um jogo no qual alguns segundos podem podem decidir entre a vida e a morte, esses problemas acabam tendo um impacto maior do que deveriam.
Outros pontos antes da guerra
Nos consoles, o jogo também não oferece uma personalização profunda dos controles, apenas alguns presets. Entre eles, nenhum apresenta o padrão tático presente em muitos FPS, no qual é possível trocar o agachamento com o botão de ataque corpo a corpo. Foi um dos poucos jogos de tiro em que me vi obrigado a jogar com o comando de agachar no O do DualSense.
Outros elementos também não foram devidamente adaptados para os consoles, como os filtros dos servidores. O sistema obriga o jogador a percorrer as opções uma por uma até chegar ao filtro desejado. O de ping, por exemplo, aparece por último e só permite avançar. Caso passe da opção procurada, é necessário dar a volta completa.
No meu primeiro dia com o game, ocorreram dois crashes do PlayStation 5. É uma situação extremamente frustrante, principalmente quando você passa 40 minutos em uma partida e simplesmente é desconectado dela. Como o jogo é baseado em servidores e precisamos entrar manualmente nas partidas que queremos, não há como retornar ao confronto após uma queda, muito menos receber o relatório da batalha.
Felizmente, esses crashes aconteceram apenas naquela primeira sessão e, desde então, não tive novos problemas do tipo. Ainda assim, são falhas que precisam ser consideradas, especialmente porque o jogo pede um investimento de tempo muito maior do que a maioria dos concorrentes.
Bom Dia, Vietnã!
No mais, acredito que seja pertinente tentar exemplificar as experiências que o jogo proporciona. Quando tudo se alinha, Hell Let Loose: Vietnam, apesar de todas as questões, alcança picos de satisfação que poucos títulos do gênero conseguem entregar. Depois das primeiras horas, que podem ser frustrantes pelo alto índice de mortes, e após aprender os modos, mapas e a cadência das partidas, aos poucos o jogador começa a se tornar parte daquela floresta.
Pela natureza sandbox, precisamos encontrar nossas próprias maneiras de nos divertir dentro desse universo. Em uma das partidas, estava com enorme dificuldade para eliminar inimigos e morrendo constantemente, talvez por ter caído contra um time de veteranos da franquia. Minha alternativa foi tentar vencer de outra maneira: passei boa parte do confronto me esgueirando pela floresta e tentando destruir os pontos de respawn inimigos, dificultando seus retornos ao campo de batalha.
Contribuí para a vitória de maneira invisível e cada ponto destruído se tornou uma pequena celebração. Isso acontece bastante porque existem diversas maneiras de participar de uma batalha. Nem sempre você será responsável pelo maior número de eliminações, mas pode ser justamente a pessoa que abriu caminho para o restante do esquadrão avançar.
Outro momento memorável surgiu logo no começo de uma partida. Lotamos um helicóptero e nos preparamos para a guerra. Quando partimos, um dos jogadores no chat de voz por proximidade colocou “Fortunate Son”, em uma referência direta a Forrest Gump (1994). O momento me fez abrir um sorriso e ficar imediatamente empolgado para a partida.
Esses momentos de camaradagem acontecem a todo momento. São situações que não podem ser roteirizadas e que ajudam a criar a sensação de que estamos participando de uma história de guerra própria.
Em outra partida, entrei no esquadrão de tanque, que comporta três jogadores. Ficamos nele durante praticamente todo o confronto e levamos nosso time à vitória por meio de uma comunicação constante. Cada integrante possui limitações diferentes de informação e campo de visão, fazendo com que o trabalho em equipe seja essencial. Por alguns momentos, a sensação era de estar dentro do filme Corações de Ferro (2014).
Na maior parte do tempo, porém, a experiência é muito mais próxima do terror retratado em Platoon (1986): estamos no meio da selva, sem saber de onde virá o próximo disparo, avançando com cautela e tentando sobreviver a uma guerra que parece maior do que qualquer jogador. A morte é rápida, inesperada e brutal, e é justamente essa alternância entre a fantasia cinematográfica e o horror do combate que faz estes momentos funcionarem tão bem.
Claro, não existe garantia de que todos terão a mesma experiência. No pior dos casos, uma partida travada pode se transformar em uma eterna corrida entre o ponto de respawn e a morte. Mas, quando o confronto está equilibrado e o comandante consegue lançar um ataque de napalm no momento perfeito para conquistar um objetivo ou quando seu esquadrão consegue segurar uma frente de batalha inteira, surgem momentos memoráveis que justificam todo o caminho percorrido até ali.
Eu adoro o cheiro de napalm pela manhã...
Hell Let Loose: Vietnam encontra sua maior força quando todos os seus sistemas se encaixam, transformando o trabalho em equipe massivo em uma experiência de guerra imprevisível e intensamente imersiva. Impulsionado por um design de mapas excelente e por uma representação aterrorizante e atmosférica do combate na selva, o jogo supera falhas técnicas, menus truncados nos consoles e uma curva de aprendizado íngreme para entregar um FPS multiplayer profundamente recompensador.
Prós
- Mapas extensos e visualmente marcantes, que valorizam a escala do conflito;
- Combate brutal e satisfatório, com alto impacto em cada confronto;
- Sistemas incentivam comunicação e trabalho em equipe;
- Grande variedade de funções e maneiras de contribuir para a vitória;
- Partidas capazes de criar momentos espontâneos e memoráveis.
Contras
- Problemas visuais prejudicam a apresentação de alguns cenários;
- Bugs ao pular/escalar causam atrasos em animações críticas que podem comprometer momentos decisivos;
- Interface e filtros de servidores pouco adaptados aos consoles;
- Curva de aprendizado bastante agressiva para iniciantes.
Hell Let Loose: Vietnam - PS5/XSX/PC - Nota: 8.0Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Revisão: Camila Sales
Análise feita com cópia digital cedida pela Team17

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